Clarion Clipperton, Pacífico, e mineração no fundo do mar

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Clarion Clipperton, Pacífico, e os perigos da mineração no fundo do mar

Clarion Clipperton, Pacífico, área em estudos para mineração marinha. Mais uma vez, é a bbc.com quem traz a notícia: “ali, a 4 mil metros abaixo da superfície encontram-se vastos depósitos de nódulos de manganês, pedras ricas em níquel, cobre, cobalto. E outros minerais essenciais para a fabricação de equipamentos – de celulares a baterias para carros elétricos e painéis solares”.

Atualizado

Clarion Clipperton, Pacífico: tesouro para o mundo inteiro?

A BBC adjetiva a descoberta: “é um tesouro para as companhias mineradoras. Mas também para o mundo inteiro, que cada vez mais depende de equipamentos eletrônicos”.

O Mar Sem Fim considera que minerar o fundo do mar, há 4 mil metros da superfície, também pode ser um desastre ambiental. E não estamos sozinhos. Matéria recente da National Geographic diz que “a mineração em águas profundas pode acabar tendo a maior pegada de qualquer atividade humana no planeta em termos de área de impacto”, diz o oceanógrafo da Universidade do Havaí, Craig Smith.

E a descoberta de Clarion Clipperton, nem é tão nova.  Com a palavra, Sylvia Earle:

É sabido que os nódulos de manganês são abundantes em águas profundas desde a viagem do H.M.S Challenger, 1872 – 76. Eles só atraíram pouca atenção pela dificuldade, e altos custos, da exploração (The World is Blue, pg 140)

Mineração começou nos anos 70

Sylvia prossegue: “a mineração começou seriamente, por companhias especializadas, nos anos 70. Centenas de milhões de dólares foram investidos em tecnologia para a realização do sonho de minerar os nódulos de manganês. Aconteceu nos anos 70 e início dos 80”.

É prematuro explorar áreas submarinas

E a cientista dá a sua opinião sobre a mineração:

…Para mim parece mais que prematuro explorar economicamente vastas áreas do planeta que sequer foram mapeadas ou vistas…

Escavadeiras submarinas detonando a biodiversidade marinha

É ela quem conta:

…um engenheiro contratado por uma destas mineradoras confidenciou para mim que nada será prejudicado  depois que as enormes escavadeiras – que ele ajudava a construir- passarem suas pás, “porque não há nada vivo naquelas profundidades. Exceto pepinos e estrelas do mar brilhantes, que não chamam a atenção de ninguém…

E Sylvia conclui (pg. 141):

…Hoje sabemos que as pequenas criaturas que vivem na areia ou na lama dos mares profundos podem exceder as mais ricas regiões dos continentes em termos de biodiversidade…

Precisamos de mais metais

Segundo a BBC o diretor da Nautilus Minerals, uma das empresas com licença para explorar a região Clarion Clipperton, Michael Johnston declarou:

Precisamos de mais metais. De alguma maneira temos que usá-los

Clarion Clipperton: um dos lugares de maior interesse para ambientalistas e cientistas

Diz a BBC: “Primeiro porque se sabe muito pouco sobre ela. Segundo, porque, com o pouco que se conseguiu explorar até agora, se mostrou uma região particularmente diversa. Com um número maior de espécies em relação a outros habitats submarinos”.

Astrid Leitner, uma das biólogas  que trabalha no Projeto Abyssline, que busca montar um panorama do ecossistema da CCZ antes do início da extração mineradora, repetiu Sylvia Earle:

Corremos o risco de destruir algo que ainda não entendemos completamente. Poderíamos perder uma rica diversidade de animais antes de saber que eles existem

Região Clarion Clipperton, oceano Pacífico

“A área da CCZ equivale a aproximadamente duas vezes o tamanho do México. Se estende entre a costa desse país e o Havaí. O nome se deve à fronteira ao norte com a ilha Clarion, que pertence ao México, ao sul com a ilha Clipperton, que pertence à França”.

ilustração da região Clarion Clipperton, no oceano Pacífico
Clarion-Clipperton, oceano Pacífico. Ilustração: ISA

“Seu fundo marinho é uma região escura, com temperaturas abaixo dos dois graus centígrados. E uma pressão 400 vezes maior que a da superfície”.

“Antes, pensava-se que era apenas uma planície. Análises recentes mostraram que é um terreno heterogêneo, com morros e vales, montanhas, crateras e caldeiras com paredes esculpidas por erupções vulcânicas.

“O fundo marinho, que à primeira vista parece ter pouca vida, está cheio de ouriços-do-mar, pepinos-do-mar, estrelas, esponjas, anêmonas, vermes, crustáceos e corais. Também há peixes de até um metro de comprimento que circulam em busca de alimento”.

Clarion Clipperton, oceano Pacífico: abastecendo o mundo por 30 anos

BBC: “Michael Johnston, da Nautilus Minerals, calcula que, no ritmo do consumo de hoje, a CCZ terá cobre o suficiente para abastecer o mundo durante os próximos 30 anos”.

 imagen de nódulos de manganês retirados da área Clarion Clipperton, no oceano Pacífico
Clarion Clipperton, oceano Pacífico

Mas há um ponto extremamente negativo…

“Biólogos e ambientalistas descobriram que, de alguma maneira, todo o ecossistema da CCZ está conectado aos nódulos”.

“Algumas espécies de esponjas e anêmonas precisam da superfície dura dos nódulos para viver. Vídeos gravados  também mostram que nos lugares onde há mais nódulos há uma quantidade maior de peixes, com tamanho e diversidade maiores que espécies em áreas com menos nódulos”.

Os nódulos

BBC: “A comunidade científica e as companhias mineradoras concordam que se sabe muito pouco dessa região. Ambos trabalham  para coletar o maior número de informações  antes que a extração seja permitida”.

 imagem de nódulos de manganês retirado da área Clarion-Clipperton
Clarion Clipperton, oceano Pacífico

“E ainda que por motivos diferentes, eles se concentram no mesmo alvo: os nódulos de manganês. Esse é o tesouro que as mineradoras querem extrair, e os ambientalistas, preservar”.

O que são estes nódulos?

BBC: ” esses nódulos, do tamanho de uma bola de beisebol, são acumulações de minerais especialmente ricos em cobre, níquel e cobalto, usados na produção de grande parte dos equipamentos tecnológicos que usamos todos os dias”. Já, para a National Geographic “os nódulos variam em tamanho de uma ervilha a uma bola de futebol e são ricos em manganês, ferro, cobre, níquel, e cobalto, embora possam levar milhões de anos para crescer alguns milímetros.”

A BBC finaliza: “Ainda que não existam cálculos exatos, estima-se que a CCZ poderia abrigar 27 milhões de toneladas de nódulos“.

Revista Nature: perda de biodiversidade pela mineração no fundo do mar dura pra sempre

A Nature entrou na discussão: “Na semana passada, um grupo de cientistas – alguns deles financiados pela Nautilus  – publicaram uma carta na revista científica Nature. Eles afirmam que “é provável que a maior parte da perda da biodiversidade causada pela mineração no fundo do mar dure para sempre”.

Quem manda nesta região?

“A CCZ é Patrimônio da Humanidade, ou seja, nenhum país pode declarar soberania sobre ela”.

“A entidade encarregada de mediar os interesses mineradores e a proteção do meio ambiente na CCZ é a Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA, na sigla em inglês), um órgão ligado à ONU“.

E mais: “No total, o ISA reconhece 29 reivindicações, embora a mineração ainda não tenha começado. Atualmente, toda a atividade na CCZ está na fase experimental ou exploratória.

“Entre os contratantes, governos de países membros da ISA e companhias privadas patrocinadas por esses países”.

“Hoje, a CCZ tem 32% do seu território sob contratos de exploração, 35% definido como área protegida e 33% reservado para exploração por parte de países em desenvolvimento”.

‘Região enigmática que pertence a todo o mundo’

BBC finaliza: ” A ISA está desenvolvendo um regulamento para a exploração que deve ficar pronto até 2020″.

“Uma das regras já definidas é que, quando a exploração começar, os benefícios provenientes  serão divididos de forma igualitária entre os países membros da ISA”.

“Calcula-se que a exploração mineira na CCZ comece  entre 5 a 10 anos, mas, até agora, nenhuma das 16 companhias  manifestaram interesse explícito em dar início à extração.

“Mineradoras e cientistas continuam sua corrida contra o tempo – e dos seus esforços dependerá o futuro dessa região enigmática que pertence a toda a humanidade”.

Os riscos da mineração

National Geographic: “Craig Smith, da Universidade do Havaí, explica que até metade dos animais que vivem em cima dos nódulos estão relacionados à mineralogia. Os nódulos são esses e você remove o habitat das espécies antes que elas sejam descritas. Essas criaturas oferecem recursos potenciais para produtos farmacêuticos e podem fornecer novos insights sobre como a vida começa. Smith os chama de “a matéria-prima para a evolução”. Mas eles evoluíram em águas de até 18.000 pés,  livres das correntes oceânicas ou da luz, vibração e ruído que resultariam da mineração.”

E ele vai além: “Além disso, a mineração produzirá plumas de sedimentos que podem inibir a vida no fundo do mar e outros habitats em profundidades variadas. ‘É reconhecido que essa mineração terá impacto inevitável em áreas muito grandes do fundo do mar, diz Smith, observando que modificá-la também pode ter impactos de longo prazo sobre como o oceano regula o clima.”

Fontes: http://www.bbc.com/portuguese/geral-40520069; https://www.nationalgeographic.com/environment/2018/08/news-race-to-mine-deep-sea-drones-seafloor-environmental-impact/.

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2 COMENTÁRIOS

  1. A America do Sul com o Brasil incluído, após 500 anos de exploração mineral, ainda não se consegue chegar ao índice de 5% do potencial das reservas minerais, pelo alto ônus da burocracia e da corrupção, pois somente no Brasil existem milhares de licenças paradas nas gavetas que poderiam traduzir em empregos e rendas com projetos sérios de exploração, prevendo a parte de sustentação ambiental.
    Ainda estamos na idade da pedra para exploração mineral, enquanto conseguimos cavocar as linhas de metro com impacto de superfície baixo ou nulo, e a maioria das minerações se fazem a céu aberto.
    Esta mais que na hora de mudanças de comportamento, para que o setor tão necessário para a demanda mundial deixe ]de ser inimigo e passe a se harmonizar com a sobrevivencia.

  2. É certo que a página é MAR SEM FIM, mas como falar em mineração e esquecer por exemplo o desastre de Mariana, MG? Seguramente já tivemos outras e teremos muito mais seja no Brasil ou no restante do planeta e como as populações só fazem crescer, as demandas por matérias primas igualmente acompanham para atenderem as “sanhas” pelos gadgets. Estou beirando aos 70 anos e olhando para o quê as tecnologias ainda nos oferecerá começo a sentir tristeza porque clique do “time is over” se aproxima celeremente, mas olhando para o lado humano vejo aspectos positivos, pois ainda respirei ar e bebi água menos nauseabundos e até em boa parte de minha vida comi sem agrotóxicos agora legalmente aprovados por decisão do STF. Apreciei frutos do mar ainda fracamente contaminados por seres alienígenas de nossa fauna e acreditem que em plana São Paulo comi e apreciei carnes de baleias. Triste e lamentável os que nascem hoje, pois talvez experimentarão os fatos de uma frase popular antiga: o dia em que fezes forem alimentos, pobres nascerão sem ânus.

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