Estadão e engorda de praia: apologia da especulação imobiliária

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Estadão e engorda de praia: apologia da especulação imobiliária

No dia 25 de maio de 2026, o Estadão publicou a matéria “Itapema vai alargar a orla da praia para ter o metro quadrado mais caro do Brasil”. O texto soa como jabá do setor da construção civil de Santa Catarina. Pior: o portal do Estadão a avaliou como a segunda matéria mais importante. Durante todo o dia, o interesse da construção civil ficou em segundo lugar na página principal. Portanto, não houve descuido mas escolha deliberada. Este é o ponto central do caso Estadão e engorda de praia: O jornal louvou um tipo de obra condenada por seu histórico recente, e por pesquisadores da UFSC em duas Notas Técnicas (NT 2023, NT 2025). E ainda tratou a especulação imobiliária como assunto legítimo de “Economia e Negócios”.

Imagem de Itapema publicada pelo Estadão na matéria Itapema vai alargar a orla da praia para ter o metro quadrado mais caro do Brasil
Imagem de Itapema publicada pelo Estadão na estapafúrdia matéria “Itapema vai alargar a orla da praia para ter o metro quadrado mais caro do Brasil”. Imagem, Marcio Figueiredo/Estadão.

‘Todas as praias engordadas tiveram aumento da erosão’

Segundo os pesquisadores da UFSC, todas as praias engordadas em Santa Catarina tiveram aumento da erosão e piora na balneabilidade. Todas. A Nota Técnica de 2025 vai além. Ela afirma que as obras que se tornaram moda entre os inconsequentes prefeitos de Santa Catarina “não cumprem com os seus objetivos e os próprios projetos licenciados”. Também aponta evidências de ‘piora na balneabilidade’ e ‘aumento do risco de afogamentos‘.

Só isso já seria motivo para a imprensa séria calar ou condenar os maus tratos impostos ao ecossistema, sim, praias são ecossistemas essenciais. Mas o Estadão promove a engorda de Itapema. Com isso, impõe-se a pergunta: a quem isso interessa? Resposta óbvia: ao mercado imobiliário. Assim, o jornal ajuda a legitimar não só a especulação, o maior flagelo do litoral brasileiro, bem como a leviandade de prefeitos.

Mais estranho ainda, quatro dias antes, entre 21 e 22 de maio, a maior ressaca do ano atingiu o litoral da região Sul. Contudo, o Estadão, interessado no litoral catarinense, não publicou uma linha sobre o episódio. Em Balneário Gaivota, Balneário Rincão e Capão da Canoa, a ressaca destruiu quiosques, guaritas e trechos de calçadão.

Estadão e engorda de praia: qual o sentido desta publicação?

A matéria começa informando que a obra custará R$ 60 milhões, divididos entre o governo de Santa Catarina e a prefeitura de Itapema. Portanto, dinheiro público. E para quê? Para valorizar imóveis privados à beira-mar, como a reportagem deixa claro. Isso significa subsídio público à especulação imobiliária.

Portal Estadão em de 25 de maio sobre engorda de praia em Itapema
Portal do Estadão desta quinta-feira, 25 de maio. Em primeiro lugar, destaque aos gastos do governo Lula nas redes antissociais. Em segundo…

Para quem serão esses imóveis? Para a população carente é que não será. Serão torres de alto padrão para compradores ricos e investidores. Ou seja, o Estado e a prefeitura dividem a conta enquanto o mercado imobiliário embolsa os lucros.

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Isso acontece quando o litoral brasileiro vive a maior ameaça de sua história. O aquecimento global acelera a elevação do nível do mar. Os eventos extremos se tornam mais frequentes e potentes, como mostrou  a ressaca de maio. E a erosão já atinge cerca de 60% da zona costeira.

Portal Estadão em de 25 de maio sobre engorda de praia em Itapema
…Em segundo lugar a engorda em Itapema.

Conforme mostramos em outro post, pesquisa da Confederação Nacional dos Municípios revelou que só 22% dos gestores brasileiros consideram suas cidades preparadas para lidar com as mudanças do clima. Em Santa Catarina, o quadro se agrava: 61,2% dos municípios admitem despreparo diante de eventos extremos.

Portanto, neste momento, tratar a engorda de Itapema como oportunidade de valorização imobiliária é irresponsabilidade.

O que a mídia de Santa Catarina destacou em 25 de maio?

No dia 25 de maio, incomodado com o destaque, fui verificar quais eram os principais temas da mídia catarinense. O que encontrei ajuda a entender o desvio editorial. Os destaques eram a volta da chuva, alertas da Defesa Civil, temperaturas baixas, riscos climáticos e uma auditoria do TCE-SC sobre 99 cidades com Planos Diretores irregulares.

Como o Estadão tem tratado o litoral?

Essa não foi a primeira vez que, em tempos recentes, o Estadão tratou engordas de praia em Santa Catarina. Em abril foi pior. O jornal publicou matéria sobre Balneário Piçarras na editoria “Sustentabilidade”! E, igualando-se aos negligentes prefeitos, justificou a quarta engorda como resposta natural à erosão, sem explicar que o processo já consumira dezenas de milhões de reais em seguidos fracassos. Também omitiu os colapsos de Balneário Camboriú e Ingleses, travestindo a engorda como “solução inspirada na natureza” e sugerindo aparência técnica a uma intervenção cara e inútil, feita pra valorização imobiliária.

Importante saber que, em princípio de junho de 2026, a quarta e engorda que o jornal noticiou fracassou como todas as outras, a praia Central também naufragou jogando ao mar R$ 53 milhões de verbas públicas!

Lagamar como “BR do Mar”

No Paraná, o Estadão já havia escorregado ao tratar o Lagamar como “BR do Mar”. A ironia é amarga. Nos anos 1980, foi o Jornal da Tarde, do próprio Grupo Estado, que ajudou a salvar o Lagamar ao denunciar a ameaça de especulação sobre aquele hotspot da costa brasileira. A matéria sobre o Lagamar também não lembrou quem estava por trás da ideia, o governo Ratinho Júnior, o mesmo que, em Matinhos, ignorou 17 especialistas da UFPR que não recomendaram a engorda da Praia Brava. Ainda assim, Ratinho foi adiante. O resultado veio em seguida: a praia não resistiu à primeira ressaca do ano, em janeiro, e os remendos feitos às pressas poluíram o mar a ponto do Estado ser multado pelo Ibama. Mesmo assim, o jornal tratou o novo projeto do governador como oportunidade turística.

Por fim, vale lembrar Santos, em São Paulo. A cidade é uma das poucas do litoral brasileiro que levam a sério os efeitos do aquecimento global sobre a zona costeira. Além disso, aparece há anos como referência nacional em saneamento básico, segundo o Instituto Trata Brasil, uma das principais fontes do País sobre o tema.

Mesmo assim Santos, que fica a menos de 80 quilômetros da sede do jornal, não recebe do Estadão o destaque dado às engordas de praias em Santa Catarina. Ou seja, uma cidade que investe em adaptação climática, drenagem, proteção costeira e recuperação de restinga fica em segundo plano. Já uma obra feita para estimular a especulação imobiliária ganha espaço nobre no portal.

Plano para o litoral brasileiro chega tarde diante do oceano mais quente

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