Mudança climática no litoral: Santos dá exemplo raro

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Mudança climática no litoral: Santos dá exemplo raro

O avanço do mar e o aumento do risco de alagamentos colocaram Santos no centro da discussão sobre mudança climática no litoral, tema que boa parte da costa brasileira ainda prefere adiar. Em 11 de abril de 2026, o BNDES aprovou R$ 200 milhões para um projeto de resiliência climática no município. O dinheiro será usado em proteção costeira, modernização da drenagem urbana, melhoria de canais e comportas, além de outras intervenções para mitigar eventos extremos. Segundo o banco, as obras devem beneficiar mais de 200 mil pessoas, sobretudo na Zona Leste.

ressaca em santos em 2011
A imagem, publicada no Plano Municipal de Mudança do Clima, mostra os efeitos de uma ressaca em Santos em 2011. Imagem, Alex Almeida.

O dado mais importante, porém, não é só o valor do investimento. É o que ele revela. Enquanto boa parte das cidades costeiras brasileiras ainda trata a crise climática como abstração, Santos volta a aparecer como exceção. É uma das raras que entenderam que ressacas, elevação do nível do mar, drenagem deficiente e ocupação urbana vulnerável já não são ameaça futura. São problema de agora. Oxalá o exemplo de Santos frutifique e ajude a tirar da letargia outras grandes cidades costeiras.

Uma exceção num litoral que prefere negar o óbvio

Santos merece destaque porque não começou ontem. Enquanto muitas cidades costeiras ainda negam o problema, reagem tarde ou insistem em soluções precárias, demagógicas e caras, o município vem construindo, há anos, uma política de adaptação à mudança do clima. Criou instâncias de discussão, elaborou planos, mapeou riscos e passou a tratar a elevação do nível do mar, as ressacas e os alagamentos como problemas reais. Num litoral marcado pela omissão, isso já faz de Santos uma exceção.

Ressaca na Ponta da Praia, destruindo parcialmente as muretas, agosto de 2016.
Mais uma imagem chocante da crise climática no litoral publicada no Plano Municipal de Mudança do Clima mostrando o resultado de outra ressaca, desta vez em 2016. Foto, Redes Antissociais.

Basta comparar a cidade  com Florianópolis, por exemplo, para entender por que criticamos tanto o litoral catarinense. Só em outubro de 2024, praticamente anteontem, a capital de Santa Catarina apresentou sua estratégia de descarbonização. Santos começou em 2015, criou comissão, fez plano municipal e lançou seu Plano de Ação Climática em 2022. Em Florianópolis, a agenda climática ainda parece tardia; em Santos, virou política pública. Talvez porque, em boa parte de Santa Catarina, pese mais a especulação imobiliária do que a obrigação de proteger a cidade e o litoral.

Uma década de preparação: fato raro no litoral brasileiro

A cronologia de Santos merece destaque porque mostra algo raro na costa brasileira: continuidade. Em 2015, a prefeitura criou a Comissão Municipal de Adaptação à Mudança do Clima. No ano seguinte, 2016, lançou o Plano Municipal de Mudança do Clima. Em 2022, apresentou o Plano de Ação Climática de Santos, atualizando metas e estratégias. Em 2024, o plano ganhou desdobramentos operacionais. E agora, em 2026, essa trajetória começa a se materializar em obras com os R$ 200 milhões aprovados pelo BNDES. Num litoral em que tantas cidades só reagem depois do estrago, Santos ao menos vem tentando se antecipar.

Santos em 1940
Aspectos da Orla da Ponta da Praia, em 1940, do mesmo trabalho da prefeitura de Santos. Nota-se que Santos também avançou suas construções onde não deveria, muito próximas ao mar, provavelmente em local de restinga. A conta pode demorar mas ela sempre chega.

Não por acaso, este site já havia destacado esse esforço em 2022, quando mostrou por que Santos era uma rara exceção entre as cidades costeiras brasileiras.

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Planejamento, e não remendo

O que diferencia Santos de tantas outras cidades costeiras é simples: ali houve planejamento. Em vez de esperar o estrago para então improvisar, o município criou instrumentos, acumulou estudos, mapeou riscos e passou a tratar a mudança do clima como tema permanente de gestão pública.

Em boa parte do litoral, prefeitos com a estatura moral de um rodapé de parede ainda preferem obras de efeito imediato, soluções tolas e intervenções de curto fôlego, como se o avanço do mar pudesse ser contido à base de propaganda.

Santos seguiu outro caminho. Entendeu que adaptação exige continuidade, monitoramento, metas e visão de longo prazo. É isso que a separa de tantas cidades que ainda correm atrás do prejuízo, quando não ajudam a agravá-lo.

A exceção que expõe a regra

O mérito de Santos tem outro efeito: constrange o restante da costa brasileira. Quando uma cidade ameaçada pela elevação do nível do mar consegue planejar, estudar e captar recursos, fica ainda mais gritante a irresponsabilidade das que seguem destruindo restingas, ocupando áreas frágeis e fingindo que o mar não vai cobrar a conta. Santos não resolve o atraso do litoral nacional, mas ao menos mostra que continuar alegando surpresa já não é desculpa.

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