Piçarras: R$ 53 milhões jogados ao mar na engorda da praia

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Piçarras: R$ 53 milhões jogados ao mar na engorda da praia

Piçarras, em Santa Catarina, acaba de oferecer uma resposta didática ao litoral brasileiro. A quarta engorda da Praia Central começou em janeiro de 2026 e terminou em 16 de abril, a um custo público de R$ 53 milhões. Menos de dois meses depois, no início de junho, o mar voltou a avançar e abriu escarpas na areia recém-depositada. Não foi surpresa. Foi aviso: não se deve mais brincar com um litoral cada vez mais exposto à erosão, ressacas e extremos agravados pelo aquecimento global.

Balneário Piçarras naufraga depois de engordamento
Balneário Piçarras naufraga pela quarta vez depois de engordamento. Imagem, José Santos/Prefeitura de Balneário Piçarras.

Praia Central fez quatro engordas em 27 anos

Praia Central, Piçarras, foi uma das primeiras praias de Santa Catarina a receber engorda artificial. A intervenção inicial ocorreu em 1998. Depois vieram novas obras em 2008 e 2012. A quarta, concluída em abril de 2026, apenas repetiu a aposta antiga. Se uma praia precisa receber areia artificial quatro vezes em 27 anos, é porque o problema não foi resolvido. Apenas se empurrou a conta para a frente.

Engordamento da Praia Central em Balneário Piçarras em 2026
O engordamento da Praia Central em Balneário Piçarras em 2026. Imagem, José Santos/Prefeitura de Balneário Piçarras.

Nas três primeiras intervenções, a Praia Central, em Balneário Piçarras, já havia recebido cerca de 2,1 milhões de metros cúbicos de sedimentos. Em 2026, vieram mais 493 mil metros cúbicos. Mesmo assim, no início de junho, o mar voltou a avançar sobre a faixa recém-aterrada, jogando ao mar mais R$ 53 milhões em verbas públicas.

Santa Catarina ignora a ciência e aposta na especulação

Desde 2023, a UFSC alerta para os riscos dos aterros de praia. A Nota Técnica nº 06/PES/2023 já apontava que dragagens e aterros em praias arenosas não resolvem a erosão costeira. Ao contrário, nas praias analisadas, a erosão aumentou, conforme atestam os especialistas.

Em 2025, a Nota Técnica nº 05/PES/2025 foi mais direta. Para os pesquisadores, ‘os aterros não cumprem seus objetivos nem os projetos licenciados’. Também ‘pioram a balneabilidade e aumentam o risco de afogamentos’.

Mesmo assim, o Estado insiste no modelo. Em vez de preparar o litoral para ressacas, erosão que já provoca estragos e a elevação do nível do mar, Santa Catarina estimula uma disputa entre municípios pelo metro quadrado mais caro do país. O dinheiro público financia as obras. A valorização fica com os imóveis privados à beira-mar.

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Santa Catarina coleciona fracassos nas praias aterradas

Santa Catarina já coleciona fracassos nas praias aterradas. Balneário Camboriú, Canasvieiras, Ingleses, Jurerê e agora Piçarras mostram o mesmo padrão: obras caras, vendidas como solução, seguidas por erosão, perda de areia, piora na balneabilidade ou aumento de riscos aos banhistas. Mesmo assim, o modelo avança.

Em vez de rever a ocupação da linha costeira, restaurar dunas e restingas e preparar o litoral para eventos extremos, o Estado insiste em maquiar praias. Surpreende que parte da imprensa continue tratando as engordas como obras normais, quase corriqueiras. Não são. Aterrar praias com dinheiro público, em plena crise climática, para sustentar a valorização imobiliária à beira-mar deveria ser tratado como aberração, não como solução urbana.

O Estadão ajudou a vender a ilusão

A primeira matéria do Estadão sobre o tema causou estupor. Com o título Erosão amplia engorda de faixa de areia em praia do litoral de SC, o jornal tratou Piçarras, na seção Sustentabilidade, como se a obra fosse uma solução normal para o litoral.

Depois de ler os erros evidentes, e como acionista do Grupo Estado, enviei um correio ao Conselho da Holding chamando a atenção. O jornal afirmava que “o alargamento da faixa de areia é uma das formas de combater a erosão costeira”. Também dizia que, quando a erosão já começou, “a maneira mais eficaz” seria usar técnicas “inspiradas na natureza, como o próprio alargamento da faixa de areia”.

Agora, Piçarras prova que os alertas estavam corretos desde o início. A engorda que o Estadão apresentou como ‘forma de combater a erosão costeira’, e até ‘como técnica inspirada na natureza’, começou a ceder poucas semanas depois de concluída. O mar voltou, abriu escarpas na areia recém-depositada e expôs o que a UFSC já dizia: aterrar praias não resolve a erosão. Apenas adia, encarece e agrava o problema.

Mesmo depois daquele alerta ao Conselho, o Estadão voltou ao tema ao publicar uma matéria sobre a engorda de Itapema. Desta vez, mudou a seção: saiu de Sustentabilidade e foi para Economia e Negócios. Foi esse segundo texto que nos levou a publicar o post Estadão e engorda de praia: apologia da especulação imobiliária. Afinal, além de ativistas pelo litoral, somos também acionistas do jornal.

A erosão costeira não é um drama catarinense

O problema é que a erosão costeira é um drama nacional. Mesmo assim, o Brasil continua tratando o litoral em pedaços, como se cada Estado ou município pudesse fazer o que lhe dá na veneta. Santa Catarina insiste nas engordas. O Paraná já viu Matinhos naufragar depois da obra. Natal também teve fracasso na Praia Brava. Enquanto isso, boa parte da imprensa trata tudo como obra corriqueira, apesar dos alertas mundiais sobre a elevação do nível do mar. É irresponsabilidade que passa pelo Ministério do Meio Ambiente, pelos governos estaduais e pelas prefeituras. Quantas outras praias terão de ser destruídas antes de mudarmos este procedimento?

Assista ao vídeo para saber mais

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