Cientistas que monitoram o oceano escapam do apagão de Trump
Cientistas que monitoram o oceano escaparam, por ora, do apagão planejado por Trump. Não bastasse retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris pela segunda vez, enfraquecendo o combate ao aquecimento global, o negacionista também tentou desmontar a Ocean Observatories Initiative, rede com cerca de 900 sensores instalados em boias ancoradas nos oceanos Pacífico e Atlântico.

Mas, desta vez, até Trump teve que voltar atrás. Diante da imensa repercussão negativa entre cientistas e parlamentares, a National Science Foundation suspendeu o desmonte da rede. A tentativa, no entanto, expôs a gravidade do ataque. Esses sensores foram projetados para coletar dados físicos, químicos, geológicos e biológicos do oceano por até 30 anos. Eles ajudam a entender a acidificação dos mares, os ecossistemas profundos e mudanças essenciais em um planeta cada vez mais quente.

Antes da tentativa contra a Ocean Observatories Initiative, vieram as demissões em massa na NOAA, a agência que monitora oceanos, pesca, atmosfera, furacões, clima e tempo severo. Depois, o alvo passou a ser a OOI, rede com mais de 900 sensores marinhos, que custou US$ 386 milhões e acompanha correntes, clima, ecossistemas e eventos extremos.
Mas, afinal, o que é a Ocean Observatories Initiative?
A Ocean Observatories Initiative, ou OOI, é uma das mais ambiciosas redes de observação oceânica já montadas. Financiada pela National Science Foundation, a agência federal norte-americana de apoio à ciência, ela reúne mais de 900 sensores instalados em boias e equipamentos marinhos, espalhados por áreas estratégicas do Atlântico, Pacífico e Ártico.
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A rede começou a operar há cerca de uma década, depois de anos de planejamento e construção. Seu objetivo é simples de entender e difícil de executar: manter sensores no mar, dia e noite, para enviar dados em tempo real sobre temperatura, correntes, ventos, química da água, atividade sísmica, ecossistemas marinhos e eventos extremos.
Esses dados são públicos. Servem a pesquisadores, universidades, estudantes, governos, gestores costeiros e centros de previsão. Em outras palavras, ajudam cientistas que monitoram o oceano a enxergar mudanças que satélites não captam sozinhos, sobretudo abaixo da superfície.
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A OOI não é obra de um único laboratório. Ela funciona como uma rede nacional de ciência. A Woods Hole Oceanographic Institution lidera a gestão. A Universidade de Washington cuida dos sistemas cabeados no fundo do mar. A Oregon State University opera parte da infraestrutura costeira e de dados. Rutgers também integra o esforço, especialmente na parte de tecnologia e acesso às informações.
Os Estados Unidos, portanto, não são apenas usuários desta rede. São seus financiadores, operadores e principais responsáveis. Foi o próprio país que investiu centenas de milhões de dólares para criar uma espécie de sentinela oceânica permanente. Agora Trump quer retirar do mar boa parte dos instrumentos que permitem aos cientistas monitorarem o oceano acompanhando os sinais da crise climática.
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A OOI mede processos que interessam ao planeta, não apenas aos Estados Unidos. No Mar de Irminger, perto da Groenlândia, seus sensores acompanham a formação de águas profundas, uma das engrenagens da AMOC, a grande circulação do Atlântico um componente-chave na regulação climática global.
E aqui entra a dimensão do problema. Como mostramos no post sobre a barragem no Estreito de Bering, a AMOC dá sinais de enfraquecimento. Seu colapso afetaria o clima em várias partes do planeta, especialmente a Europa, além de alterar regimes de chuva, temperatura e circulação oceânica. A hipótese de construir uma barragem no Estreito de Bering para tentar evitar esse colapso mostra até onde a crise já empurrou a ciência.
Sem esse fluxo constante de circulação atual, as temperaturas regionais se tornariam mais extremas – calor intenso perto do equador e congelando nos polos – tornando a Terra menos habitável.
Portanto, desmontar sensores no Mar de Irminger não significa apenas economizar dinheiro nos Estados Unidos. Significa perder dados de uma das áreas-chave para entender se a AMOC continua enfraquecendo, em que ritmo, e com quais consequências. Para os cientistas que monitoram o oceano, é como retirar o estetoscópio de um paciente em estado crítico.
A reação que fez Trump voltar atrás
Desta vez, Trump teve que recuar. A tentativa de desmontar a Ocean Observatories Initiative provocou reação imediata de cientistas, parlamentares e da imprensa. A pressão foi suficiente para a National Science Foundation suspender a retirada dos equipamentos, reinstalar instrumentos já removidos e anunciar a criação de um painel de especialistas para avaliar o futuro da rede.
Enquanto isso, o senador democrata Jeff Merkley, do Oregon, classificou a tentativa de desmontar a rede como “suprema estupidez”. A reação no Congresso ganhou apoio bipartidário. A senadora republicana Lisa Murkowski, do Alasca, também se juntou ao esforço para impedir o desmonte da OOI. Segundo a Associated Press, a pressão de cientistas e parlamentares levou a National Science Foundation a suspender a retirada dos equipamentos e prometer reinstalar instrumentos já removidos.
Cortes orçamentários de 55% para o orçamento 2026
A Earth org revelou que a tentativa de sufocar a NSF começou com cortes orçamentários de 55% para o orçamento 2026, ‘de US$ 9 bilhões para US $ 4 bilhões, bem como o cancelamento de US $ 1,5 bilhão em bolsas de pesquisa ativa’.

A mesma fonte revelou ainda que democratas das Comissões de Ciência, Espaço e Tecnologia enviaram ‘uma carta de tom contundente endereçada ao diretor interino da NSF, Brian Stone, criticando a agência por ceder à administração Trump e por “[se destruir] ao bel-prazer dele”.
“Exigimos que você cesse imediatamente essa ação cara, destrutiva e – o que é fundamental – ilegal”, escreveram os democratas da Comissão.
O New York Times revelou que a reação do Senado começou em maio quando a fundação anunciou que enviaria navios para fazerem a retirada de instrumentos ancorados no fundo do mar ao largo das costas do Oregon, do Estado de Washington, do Alasca, da Carolina do Norte e de uma área entre a Groenlândia e a Islândia conhecida como Mar de Irminger.
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Trump já demonstrou sua incapacidade de compreender o que acontece com o planeta em relação ao clima, sua visão não é a de um estadista, mas de um CEO preocupado apenas com a margem de lucro.
Trump escolhe guerras e coleciona desastres
Os Estados Unidos de Trump já mostraram no Irã como é fácil começar uma guerra com premissas frágeis e depois descobrir que não há saída simples. O que prometia durar pouco se arrastou, pressionou o petróleo, alimentou a inflação e espalhou prejuízos pelo mundo e fortaleceu o Irã.
Agora, ao declarar guerra à ciência, Trump abre outro flanco. Talvez mais perigoso. A guerra convencional destrói cidades e economias. A guerra contra a ciência destrói a capacidade de prever, preparar e reagir.
Uma importante vitória da ciência
Trump trata a ciência como inimiga porque ela desmente sua fantasia de poder. Onde há dados, ele vê ameaça, alertas de pesquisadores, tornam-se bravatas, e assim por diante.
O mais espantoso é a combinação de ignorância, belicosidade gratuita e espírito revanchista. Depois de colecionar vexames públicos, comprar guerras que não sabe terminar e enfraquecer o combate ao aquecimento global, Trump ainda tem a cara de pau de sugerir para si mesmo um Nobel da Paz.
Por estes motivos, esta foi uma importante derrota política para o presidente norte-americano. Ao tentar desmontar uma rede científica essencial, Trump abriu mais um flanco contra os próprios Estados Unidos. Enquanto enfraquece a ciência, a cooperação internacional e a capacidade de prever extremos climáticos, deixa espaço para que a China avance na disputa por liderança global.
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