Importância dos corais, saiba por que

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Importância dos corais e suas ameaças mundo afora

Importância dos corais: por sua biodiversidade, os corais são considerados tão importantes para a vida marinha, como as florestas tropicais para a fauna e flora mundial. Não há nada que se compare a eles. Cerca de 1/4 de todas as espécies de peixes dependem dos corais para sobreviver.

Maiores estruturas já construídas por animais

A importância dos corais, imagem de ilha-e-coral austrália
Uma das 900 ilhas, cercadas de corais por todos os lados (foto:reiselustigunterwegs blogspot com br)

A Grande Barreira de Coral, da Austrália, é a maior formação recifal do planeta, com uma área contínua de 350.000 Km2. Ela tem 2.600 quilômetros de extensão, com a largura variando entre 30, até 740 quilômetros! Este colosso da Terra pode ser visto do espaço. A Grande Barreira é formada por 900 ilhas; ao seu redor vivem 15 espécies mamíferos entre baleias e golfinhos; 215 espécies de aves nidificam nas ilhas; no mar já foram recenseadas 1.500 espécies de peixes; dezessete tipos de serpentes marinhas; e, finalmente, 330 espécies de ascídias. Ufa!

Mas atenção: este ecossistema, considerado como Patrimônio Mundial, quase perdeu a chancela devido à poluição.

A importância dos corais, grande barreira de coral foto da nasa
A Grande Barreira vista do espaço (foto: nasa)

Importância dos corais: algumas ameaças

A importância dos corais
Fotossíntese das algas (ilustração:brighthub)

Uma delas ameaça não só os corais da Grande Barreira, mas todos os corais dos oceanos: é acidificação das águas marinhas, em razão do aquecimento global provocado pelos gases do efeito estufa. Estes gases são absorvidos pelas algas do fitoplâncton, a forma mais abundante de vida vegetal do planeta. Durante o processo de fotossíntese, as algas ‘sequestram’ o dióxido de carbono, mais conhecido como CO2, ao mesmo tempo em que o depositam no fundo do mar. No processo, produzem mais de 50% do oxigênio que respiramos. Mas, com o excesso (de gases do efeito estufa) que está provocando  o aquecimento global, a água dos oceanos, antes alcalinas, está ficando mais ácida. E isso mata os corais. Esta é a grande charada de nossa geração. Os sete bilhões de habitantes da Terra consomem 25% além da capacidade de reposição da biosfera. Simultaneamente, seus automóveis, aviões, barcos, navios, usinas térmicas, e outros, queimam combustíveis fósseis como petróleo, gás e carvão. A consequência é mais CO2 na atmosfera, mais acidificação dos oceanos.

A importância dos corais
Ilustração: smartkids

 O moto perpetuo ao contrário: estamos nos matando

A equação acima é tão dramática que desta vez conseguiu o impossível: um acordo na Conferência do Clima de Paris, onde os países membros da ONU aceitaram trabalhar para não deixar que a temperatura do planeta aumente mais que 1,5º Celsus. Porque, se não conseguirem, haverá um cataclisma de proporções épicas. Leia a visão dos especialistas, publicada neste site: COP 21. É muito fácil compreender os porquês, e todo cidadão desta geração, não tem o direito de NÃO saber, o que nossas ações provocam.

O assunto é muito sério. Carlos Afonso Nobre, cientista brasileiro, membro do IPCC, Painel Intergovernamental Sobre Mudança Climática, assim se referiu à nossa espantosa capacidade destrutiva

Nunca, em toda a história da vida na Terra, uma espécie alterou tanto o planeta, e em uma escala tão rápida, quanto a humanidade. Mudamos os cursos de rios, alteramos a composição química da atmosfera e dos oceanos, domesticamos plantas e animais a ponto de sermos considerados uma “força tectônica” no planeta

Ele obviamente não está só. Já faz um tempo considerável que este site publicou uma matéria, de uma cientista norte- americana, prevendo a sexta extinção desta vez não por causas naturais, mas por aquilo que Carlos Nobre falou acima: a nossa ação.

A importância dos corais
Localização, e tamanho da Grande Barreira, uma das maravilhas do planeta (ilustração:australia-divezonenet)

Estudo dramático sobre a consequência do aquecimento para os oceanos

 Um relatório patrocinado pela National Science Foundation (NSF na sigla em inglês), em conjunto com a National Oceanic and Atmosphere Administration (NOAA), e publicado em 2006, Impacts of Ocean Acidification on Coral Reefs and other Marine Calcifiers traz revelações preocupantes. Com ajuda da tecnologia, mostram os cientistas, é possível verificar e mensurar o crescente aumento do gás carbônico, o dióxido de carbono, causador do efeito estufa, liberado na atmosfera pela atividade humana.

Rápida explicação sobre a acidificação dos oceanos

A proporção desta concentração de gases, desde os primórdios da civilização, até o início da Revolução Industrial, era de 180 por 300 “parts per million by volume (ppmv)”.

Hoje é de alarmantes 380 ppmv. A dependência do petróleo, a frenética industrialização, o incremento das atividades agrícolas, foram alguns dos fatores que levaram ao aumento, segundo o estudo. Os cientistas calculam que a taxa continuará a crescer, na melhor das hipóteses, numa proporção de 1% ao ano.

O estudo calcula que desde a Revolução Industrial, até hoje, passados 250 anos, os mares absorveram 118 bilhões de toneladas de carbono, metade do que foi produzido no período. Consequência? Acidificação.

A importância dos corais, imagem de corais no atol das rocas
Importância dos corais. Atol das Rocas e seus corais

Aquecimento provoca diminuição das algas do fitoplâncton

A revista Nature  publicou os resultados de uma  pesquisa arrasadora para nosso estilo de vida. Ela aponta evidências que o aquecimento global está atacando a base da cadeia alimentar de vida marinha, diminuindo a quantidade de algas do fitoplâncton.

Estes vegetais microscópicos são a alimentação do zooplancton, que depois se tornam comida de organismos maiores, que por sua vez são devorados por peixes e crustáceos, e assim por diante, até chegarmos aos tubarões e orcas do topo da cadeia de vida marinha.

Conclusão da pesquisa da Nature:

 nos últimos 60 anos houve queda de 40% das algas do fitoplâncton. De acordo com os cientistas, a diminuição estaria ligada ao aquecimento do planeta, e ao aumento da temperatura dos oceanos.

Não é difícil entender. As algas precisam da luz do sol para viver e produzir a fotossíntese, por isto ficam próximas da superfície onde incide a luz solar. Com o aquecimento dos mares as águas frias, ricas em nutrientes não conseguem aflorar. Sem que as águas frias subam, não há nutrientes para as algas, que diminuem. Com a diminuição das algas, base da cadeia alimentar, todo o sistema de vida marinha fica comprometido. É mole?

A importância dos corais, imagem de recifes de arenito de maceio
Importância dos corais. A faixa contínua é formada por recifes de arenito. Maceió.

Importância dos corais na costa brasileira

No Brasil eles se estendem desde o Parcel Manoel Luis, no Maranhão, até Nova Viçosa, no sul da Bahia, uma faixa de 3.000 quilômetros da costa nordestina, sem falar nas ilhas oceânicas como Atol das Rocas, Fernando de Noronha, e Abrolhos. Mas nossa variedade é pequena. De acordo com a ONG Projeto Coral Vivo

Há registros de ocorrência de 16 espécies de corais-pétreos ou verdadeiros e corais-de-fogo (escleractínios recifais, ou seja, formadores de recifes), distribuídas em 10 gêneros e oito famílias. Considerando todos os corais (corais-pétreos, corais-de-fogo, corais negros e octocorais [gorgônias e seus parentes], praticamente metade das espécies registradas no Brasil só ocorrem em nossas águas: de 46 espécies, 21 (46%) são exclusivas do Brasil.

Nada que se compare ao colossal conjunto australiano. Ainda assim, são corais, merecem proteção e cuidados especiais. Outra ONG que se dedica a preservação do que restou de nossos corais é o Projeto Recifes Costeiros cujos objetivos principais são

1. Garantir a conservação dos recifes de corais coraligenos e de arenito, com sua fauna e flora
2. Manter a integridade do habitat e preservar a população do peixe-boi marinho
3. Proteger os manguezais em toda a sua extensão, situados ao longo das desembocaduras dos rios, com sua flora e fauna

O aquecimento global, e a conseqüente acidificação dos oceanos está provocando o branqueamento dos corais. Os corais de Abrolhos, o maior banco de corais do Atlântico Sul, já apresentam sintomas da praga.

A importância dos corais, imagem de corais
importância dos corais. Recifes de arenito de perto

APA Costa dos Corais

importância dos corais, imagem de corais de Alagoas
importância dos corais. Recifes interditados, experiência do Prof. Mauro Maida, Pernambuco.

Este ano visitei esta unidade de conservação, a maior UC marinha do país, criada justamente para proteger os corais. Pude conversar, e aprender,  com o professor Mauro Maida, oceanógrafo, e Doutor em Ecologia Marinha, pela UFPE. Entre outras informações, o professor falou que, nos anos 60, Jacques Laborel, colaborador de Cousteau, veio ao Brasil estudar os corais. Até hoje sua tese, publicada em 1967, é considerada uma “referencia” para o conhecimento dos corais da costa brasileira e acabou subsidiando a criação da APA em 1997.

Mauro Maida desenvolve um interessante projeto, há 16 anos, que consiste em fechar totalmente uma área coralínea, de 400 hectares, defronte a praia  Tamandaré, um experimento para o estudo da capacidade de recuperacão ecológica dos recifes da Costa dos Corais.

Maus tratos aos corais brasileiros

A importância dos corais, imagem do  atol das rocas
Formação de corais, Atol das Rocas

 Os corais do Nordeste sofreram abusos inacreditáveis. Até da década de 70 eram arrancados do mar, com tratores ou ferramentas pesadas, e levados para a praia onde eram picados, e colocados na praia em fogueiras com madeira das matas adjacentes. O resultado do processo era a transformação do carbonato de cálcio dos corais em  cal. Só na praia de Tamandaré, Pernambuco, antigos pescadores contam que a produção atingia 200 sacas semanais. O produto era vendido para a construção civil, ou aplicado como corretor de solo nas plantações de cana-de-açúcar. Sem falar na poluição, problemas com redes, fundeio de barcos, turbidez da água, etc.

Importância dos corais: saiba como são formados

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Importância dos corais. Abrolhos: maior concentração de corais do Atlântico Sul

De acordo com o Projeto Coral Vivo

Um recife de coral, sob o ponto de vista da formação do relevo terrestre, é uma estrutura rochosa, rígida, resistente à ação mecânica das ondas e correntes marítimas, formada por corais e outros organismos marinhos (animais e vegetais) portadores de esqueleto calcário.

Sob o ponto de vista biológico, recifes coralíneos são formações criadas pela ação de corais, que incluem os corais-pétreos ou verdadeiros e os corais-de-fogo. Juntam-se a eles algas calcárias e outros organismos que também contam com esqueleto (carbonato de cálcio). Os recifes de coral são os únicos entre as comunidades marinhas que são construídos inteiramente pela atividade biológica, ou seja, pelo agrupamento de inúmeros esqueletos que juntos formam essa grande estrutura.

Se imaginarmos o recife como uma construção, os corais atuariam como os tijolos, cimentados pelas algas calcárias. No entanto, apesar dos recifes de coral serem formados pelo acúmulo dos esqueletos desses organismos, para sua formação é necessária a atuação conjunta de uma infinidade de outros seres, que se relacionam intensamente entre si.
importância dos corais, imagem de abrolhos
Abrolhos lado Norte: água cristalina, rasa, boa insolação, ideal para os corais

Situação apreensiva para os corais do planeta

Pelos problemas apontados acima, 50% dos corais de águas rasas do Caribe já foram para o saco. A informação é da cientista Sylvia Earle, minha autora de cabeceira, em seu magnifico livro, The World Is Blue, que não me canso de citar. A situação dos oceanos é muito grave, não por outro motivo países mais, digamos, sérios que o Brasil e sua corja de políticos sem-vergonha, estão criando reservas marinhas ao redor do globo, numa tentativa de garantir a biodiversidade dos oceanos para as futuras gerações. Entre eles estão os Estados Unidos, Inglaterra, França, Nova Zelândia, Austrália, Chile, Seychelles, e outros. De fora, para nossa vergonha, só ficou “este gigante pela própria natureza”.

A importância dos corais, imagem de corais em alagoas
importância dos coraisMar de Alagoas, as manchas escuras são formações de corais

Importância dos corais: resistem os desafios

A importância dos corais, imagem de  Fernando de Noronha
importância dos corais. Fernando de Noronha

Apesar de todas estas novas reservas marinhas, pesquisadores consideram que estamos longe do ideal. É o que informa um artigo da imprensa australiana publicado em 15 de janeiro.

Outro problema recente diz respeito aos corais do Caribe. De acordo com um estudo publicado pela Journals. Plos.org

A rede de áreas protegidas do Caribe deixa de fora 77%  dos recifes de coral de alto valor

A falta de atenção com a saúde dos oceanos pode ser considerada uma ‘bobeira mundial’, alimentada pelo mito da infinitude. Hoje, o mundo civilizado corre atrás do prejuízo, enquanto países irresponsáveis como o nosso, continuam ‘dormindo em berço esplêndido’. Apesar de todas as novas reservas marinhas, criadas em 2015, especialistas alertam que

apenas 2% da área total dos oceanos estão protegidos. Isso representa muito pouco. Há um longo caminho até chegarmos nos 30%, que é a área necessária a ser protegida se quisermos garantir a sustentabilidade dos organismos marinhos para as futuras gerações

Outras ameaças à Grande Barreira de Corais

Para finalizar, The Gladstone Ports Corporation, organização dos portos australiana, tem permissão para dragar 46 milhões de metros cúbicos dentro da área considerada Patrimônio Mundial, ao longo dos próximos 20 anos. A reação da mídia foi imediata. Circulam, pela internet, vários abaixo assinados para impedir a expansão do porto para favorecer “os gigantes do carvão de do gás (navios)”.

Ao mesmo tempo, a companhia dos portos de Queensland promete mundos e fundos para seguir com a autorização. O site da empresa destaca diversas ações em prol da comunidade, cuja principal intenção é aplacar as críticas, e mitigar os problemas. Qualquer semelhança com as Vales, e Samarcos, é mera ficção. Quem vai ganhar este round?

A importância dos manguezais

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