Agrotóxicos: a população precisa saber

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Brasil é líder mundial no uso de agrotóxicos

Em recente artigo escrito para o Estadão, o jornalista Washington Novaes toca o dedo na ferida: apesar dos avanços no campo, o Brasil ‘esconde’ uma  liderança incômoda:  somos campeões mundiais no uso de agrotóxicos. De acordo com o jornalista, dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, ANVISA, informam que “28% das substâncias usadas por aqui não são autorizadas”.

Agrotóxicos: a população precisa saber
Ilustração: diarioliberdade.org.br

70% dos alimentos estão contaminados

Segundo Novaes,

a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) afirma que 70% dos alimentos in natura consumidos no País estão “contaminados” por agrotóxicos

Agrotóxicos, tabu na mídia brasileira

Apesar do assunto interessar cem por cento dos brasileiros, é quase um tabu. Poucas vezes a mídia lhe dá o devido destaque. Pressão dos ruralistas? Enquanto isso, o mundo discute abertamente a questão.

Segundo a Organização para a Alimentação e a Agricultura (FAO-ONU) e a OMS, é urgente diminuir o uso de praguicidas e substituí-lo pelo plantio direto nas lavouras, que reduz as pragas.

Portanto, se a restrição, ou medidas de segurança/mitigação sobre o uso de agrotóxicos não partirem dos produtores brasileiros, pior pra eles. Elas virão de qualquer modo, simplesmente porque, para a comunidade mundial, este é um problema que pode, e vai afetar nossas exportações.

O uso excessivo de agrotóxicos também seria um tema relevante a ser debatido por ambientalistas e ruralistas, como prega o artigo Agenda Ambiental para o Desenvolvimento. Fica aqui registrado, apenas para que não saia da pauta.

O Mundo sabe e tira proveito

O sucesso do agronegócio brasileiro chama a atenção da mídia. Em abril de 2015, o El País publicou matéria de Marina Rossi, enfatizando que

mais da metade das substâncias usadas aqui (agrotóxicos) é proibida em países da UE e nos USA

O título da matéria já demonstra o impacto que ela pode ter nos mercados consumidores de nossos produtos:

O Alarmante Uso de Agrotóxicos no Brasil atinge 70% dos alimentos

No corpo do texto, a explicação para o alarme soar no caso brasileiro.

Desde 2008, o Brasil ocupa o primeiro lugar no ranking mundial de consumo de agrotóxicos. Enquanto nos últimos dez anos o mercado mundial desse setor cresceu 93%, no Brasil, esse crescimento foi de 190%, de acordo com dados divulgados pela Anvisa

Agente laranja, há mais de 10 anos em análise, é autorizado no Brasil

O El País informa que

O 24D, por exemplo, é um dos ingredientes do chamado ‘agente laranja’, que foi pulverizado pelos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã, e que deixou sequelas em uma geração de crianças que, ainda hoje, nascem deformadas, sem braços e pernas. Essa substância tem seu uso permitido no Brasil e está sendo reavaliada pela Anvisa desde 2006. Ou seja, faz quase dez anos que ela está em análise inconclusa.

Embrapa: consumo de agrotóxicos cresceu 700% nos últimos 40 anos

A conceituada Embrapa, através do site Ageitec, também aborda a questão. Os dados são devastadores:

anualmente são usados no mundo aproximadamente 2,5 milhões de toneladas de agrotóxicos. O consumo anual de agrotóxicos no Brasil tem sido superior a 300 mil toneladas de produtos comerciais. Expresso em ingrediente-ativo (i.a.), são consumidos anualmente cerca de 130 mil toneladas no país; representando um aumento no consumo de agrotóxicos de 700% nos últimos 40 anos, enquanto a área agrícola aumentou 78% nesse período.

O mar, e nossa saúde, pagam a conta

Os agrotóxicos, a falta de saneamento (no Brasil só 40% das residências tem saneamento), a poluição industrial, e até produtos que usamos no corpo como cremes, remédios, e outros, têm quase sempre o mesmo destino: os mares. O que varia é a forma de chegada. No caso dos agrotóxicos, a via expressa são os rios que deságuam no mar; no caso dos remédios e cremes que usamos, somos nós mesmos os agentes, quando frequentamos o litoral.

Agrotóxicos: a população precisa saber
Rios deságuam no mar

90% da cadeia de vida marinha começa no litoral

O problema é duplamente grave porque 90% da cadeia de vida marinha começa neste espaço de transição entre a terra, e a água, exatamente os mesmos locais onde vão parar os restos desta sopa mortal. Conseguimos a façanha do conceito do moto-perpétuo ao contrário. Quando mais poluímos este espaço, mais agredimos nossas entranhas porque  a poluição causada volta pra dentro da gente.

A sociedade precisa deixar o papel de figurante e assumir o de protagonista

Além dos alimentos que vêm do campo, contaminados, há os que saem do mar, com o mesmo problema. Ambos encontram seu destino final em nossos estômagos. Continuar este ciclo é, no mínimo, estúpido. Mas, para sair dele, parece tarefa de gigante. Exige que sociedade acorde, e  reaja. Não pode ficar omissa. Ela precisa deixar o eterno papel  de figurante, para assumir o de protagonista. Exigir seus direitos, participar dos debates, praticar cidadania, são algumas das ferramentas.

Nossa ação com agrotóxicos, e outras formas de poluição, atinge a Antártica!

A bióloga Fernanda Imperatrice Colabuono, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP), estudou os petréis-gigantes das ilhas Elefante, e Livingston, no arquipélago das Shetland do Sul, na Península Antártica, e confirmou, a partir de amostras de sangue,  a presença de diversas substâncias nocivas, entre as quais o DDT, pesticida banido nos Estados Unidos em 1972, quando se constatou que seu uso ameaçava a sobrevivência de diversas espécies de aves de rapina.

Nos verões antárticos de 2011/2012 e 2012/2013, Colabuono coletou amostras de sangue de 113 indivíduos e constatou a presença de contaminantes orgânicos como bifenilos policlorados (PCBs), hexaclorobenzeno (HCB), pentaclorobenzeno (PeCB), diclorodifeniltricloroetano (DDTs) e derivados, o pesticida clordano (banido nos Estados Unidos em 1988) e o formicida Mirex (banido nos Estados Unidos em 1978 e recentemente no Brasil)

Os poluentes são cancerígenos

Segundo Colabuono, todos esses poluentes orgânicos são persistentes no meio ambiente, têm ação cancerígena, causam disfunção hormonal e problemas reprodutivos. Os resultados foram publicados num artigo em Environmental Pollution.

DDT só foi proibido no Brasil em 2009

O Brasil é atualmente o maior consumidor mundial de agrotóxicos. O uso do DDT só foi proibido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa),  em 2009 – mas, como ele persiste no meio ambiente, sua presença ainda é detectada nos tecidos de animais como o petrel. A preocupação de Colabuono em acompanhar a vida de seus petréis-gigantes tem fundamento

O rei da contaminação costeira, são os pomposos “poluentes orgânicos persistentes”

Para se ter uma ideia de nossa ação, saiba que o rei da contaminação costeira, no mundo, sã0 os pomposos “poluentes orgânicos persistentes”, como dizem os cientistas, ou, como explica o Professor Frederico Brandini, Diretor do IOUSP:

cataflan, prozac, anticoncepcional, cafeínas, substâncias que a sociedade consume há décadas, que eliminam pela urina, que vão para os lençóis frenéticos, e acabam parando no mar. Pior..não há bactérias capazes de degradarem estas substâncias que são oriundas de  loterias bioquímicas produzidas pelo homem…

Moral da história

 Somos todos responsáveis, temos a obrigação de deixar a menor pegada possível. Estamos aqui de passagem. E temos que pressionar o poder público, cobrar que  o Estado assuma sua parte. A ocupação da zona costeira não pode ficar refém dos caprichos da especulação imobiliária. Seria apequenar, abandonar, o bioma marinho.

Você acha grave o problema dos agrotóxicos jogados no oceanos? Então conheça os efeitos do plástico,  material que todos nós usamos.

Imagem de abertura: diarioliberdade.org.br

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