APA Costa dos Corais

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APA Costa dos Corais

APA Costa dos Corais

APA Costa dos Corais: APA significa “Área de Proteção Ambiental”. Em termos das Unidades de Conservação é a mais permissiva entre os 12 tipos existentes no Brasil. Área em geral extensa, com certo grau de ocupação humana, com atributos bióticos, abióticos, estéticos ou culturais importantes para a qualidade de vida e o bem-estar das populações humanas.

CARACTERÍSTICAS:

BIOMA: Marinho Costeiro

Municípios: Maceió, Paripueira, Barra de Santo Antônio, São Luís do Quitunde, São Miguel dos Milagres, Porto de Pedras, Japaratinga, e Maragogi, em Alagoas; e São José da Coroa Grande, Barreiros, Tamandaré e Rio Formoso, em Pernambuco.

Área: 404.279,93 hectares

Diploma de criação: Dec nº de 23 de outubro de 1997

Tipo: Uso sustentável

Plano de Manejo: desde 21012 a UC tem plano de manejo

APA Costa dos Corais

A APA Costa dos Corais tem algumas especificidades: é a maior Unidade de Conservação federal marinha do Brasil. São pouco mais de 400 mil hectares. Ela ficou parada no tempo durante 15 anos após sua criação, de 1997 até 2012. Este foi o tempo que demorou para a UC ter o seu Plano de Manejo. Sem este documento a unidade não evolui. O plano normatiza suas ações, múltiplos usos, determina sua zona de amortecimento, etc.

Plano de Manejo

Depois  que a unidade foi criada uma parceria entre a UFPE, CEPENE, Projeto Peixe- Boi e Fundação Mamíferos Marinhos aprovou, em 1988, junto ao Banco Interamericano de Desenvolvimento, um projeto de 1.75 milhões de dólares a fundo perdido (Projetos Recifes Costeiros). O objetivo era dar início à implantação da APA através de pesquisas, e experimentos de manejo marinho. Eles seriam a base do Plano de Manejo. Ao fim do projeto um plano foi apresentando ao IBAMA (antes da divisão IBAMA- ICMBio). Com a divisão do órgão, e constantes mudanças de chefias, o documento ficou engavetado até 2011 quando o MPF exigiu que fosse publicado. O plano original foi revisado pelo ICMBio e, finalmente, depois de revisado, publicado em 2013.

Nesta viagem conversamos  com o chefe da UC, Paulo Roberto e, em alguns passeios, fomos acompanhados pelo analista ambiental Eduardo Machado de Almeida.

apa costa dos corais, imagem da Foz do rio Una
APA Costa dos Corais. Foz do rio Una, um dos locais mais bonitos da APA, já sofrendo forte assédio da especulação.

A maiora da UCs federais não tem plano de manejo

Grande parte das UCs federais marinhas ainda não têm plano de manejo. Isso  constitui prova que elas simplesmente não funcionam. Duas décadas é tempo mais que suficiente para se fazer qualquer coisa. Desde que haja interesse. Até agora as desculpas são as mais variadas mas nenhuma me convenceu do principal: o descaso e a falta de interesse do poder público. Elas vão do tradicional “falta dinheiro”, até não “houve tempo”. “Não conseguimos contratar uma empresa especializada”, etc. Ora, se algumas conseguiram, seja em cinco ou mais anos, porque outras não?

O ICMBio impõe metas aos chefes de UCs?

APA Costa dos Corais, imagem da praia Japaratinga
Japaratinga também faz parte da APA dos Corais

Isto aponta para algumas questões: uma hipótese é que o ICMBio, ao designar um chefe para determinada UC, não impõe essa condição mínima para um gestor. O que de mais importante existe numa UC que seu plano diretor? Foi o que me levou a dizer, em post recente, que não há metas para os gestores das unidades. Isso beira o absurdo e, mais uma vez, o descaso e má gestão. Nunca, em minhas entrevistas, um gestor falou sobre uma possível obrigação pelo ICMBio, de que o plano deveria ser prioritário, e com data marcada para ser publicado.

 A omissão do órgão (ICMBio)

Outra possibilidade é que alguns gestores têm mais experiência, mais habilidade em tirar dos meandros da burocracia (ICMBio) as condições necessárias para desenvolver seu plano. Se for este o caso, continua a omissão do órgão (ICMBio) que deveria proporcionar as mesmas condições para todos.

É preciso mudar esta postura que remete ao engodo, à mentira. Como a opinião pública não conhece detalhes, ao saber da criação de uma UC tende a acreditar que as Unidades estão funcionado. Mas, na verdade, a maioria está no papel. Sem condições de iniciar suas operações.

Outros motivos pelos quais da UCs não funcionam

Mas tem coisa pior. Muitas unidades com Plano de Manejo publicado enfrentam outras dificuldades: algumas não têm sequer um barco. Como fiscalizar a costa, ou ilhas, sem barcos? Outras sortudas, aquinhoadas com o equipamento, não têm verba para manutenção ou combustível.

APA dos Corais, imagem da praia Japaratinga
Japaratinga. Ainda Japaratinga

Algumas, gigantescas, têm apenas um funcionário, o que é ridículo.

Chefes das UCs não conseguem superar problemas

Até agora, visitadas mais da metade das UCs federais marinhas, vi em poucas delas chefes que conseguem superar os problemas com criatividade, empenho, perseverança. E avançam publicando seus planos, criando os conselhos, fazendo-os funcionar (outra obrigação da Lei do SNUC).

Apenas sete UCs  merecem ser citadas

Elas, as que funcionam, são a grande minoria. Apenas sete  merecem ser citadas: a ESEC do TAIM, no Rio Grande do Sul; RPPN Salto Morato (mantida pela iniciativa privada), no Paraná; Arie ilhas Queimada Grande e Pequena, em São Paulo; ESEC de Tamoios, APA de Guapimiram/ESEC da Guanabara, Mona Ilhas Cagarras, e Parna da Restinga do Jurubatiba, todas no Rio de Janeiro; destaque para a Mona das Ilhas Cagarras que, mesmo com apenas cinco anos de existência, já tem plano publicado e muitas boas ações em andamento.

Plano de Manejo da APA dos Corais

Não foi por inciativa própria que o plano foi criado. Mas por uma imposição do MPF. Só assim o processo seguiu e o plano, publicado em 2013. De 1997 até esta data apenas estudos  foram feitos. Enquanto isso o entorno da APA foi duramente castigada pela especulação imobiliária.

A APA Costa dos Corais foi a primeira unidade de conservação a ser criada para proteger parte dos recifes costeiros espalhados por uma faixa de 3.000 quilômetros da costa nordestina.

APA Costa dos Corais foi criada propositadamente sobre areas do patrimonio da união

Diferentemente de todas as outras APAS marinhas, a Costa dos Corais foi criada propositadamente sobre areas do patrimonio da união (manguezais, praias, recifes e plataforma continental). Justamente para evitar conflitos de propriedade e dar autoridade para a união  fazer a gestão sem interferências negativas relacionadas a propriedade

APA dos Costa dos Corais
Recifes fechados em Tamandaré

Visitei a região entre 2006/2007. Ela já estava ocupada mas não com a violência e quantidade de estragos de hoje. Como sempre acontece com este tipo de unidade, as APAs, a beleza cênica na maioria do espaço à elas reservado foi pro saco.

Na APA  Costa dos Corais vê-se um amontoado de casas em cima dos morros

Não foi o que vi. Em boa parte das praias da Costa dos Corais vê-se um amontoado de casas em cima dos morros, prédios erguidos nas praias, despreocupação total com a paisagem, ação direta da especulação, e falta de ordenamento público. Junte aí, a ausência de serviços básicos, como saneamento, e o caldo fica mortal.

A batalha contra a especulação é duríssima

A batalha contra a especulação é duríssima, é desigual porque o estado falido luta contra o grande capital, os grandes interesses. Na maioria dos casos que investiguei, mesmo de longe, os prefeitos dos pequenos e médios municípios são os aríetes da especulação. É comum abrirem loteamentos em nomes de laranjas e eles mesmos detonarem a área. Se quisermos doma-la será preciso muito mais que fiscais em Unidades de Conservação. Para brecar a especulação imobiliária é preciso força bruta.

APA dos Costa dos Corais
O que mais se vê nas estradas são plantões de venda…

Grande quantidade de condomínios na APA Costa dos Corais

Percebi grande quantidade de condomínios, e muitas favelas que se espalham como pragas por todos os cantos. Nenhuma das APAs visitadas, foram oito até agora, conseguiu chegar próximo desta “disciplina’. Até quando vamos fechar os olhos? Ou mudam-se os objetivos, ou eles deveriam ser perseguidos pelos gestores em conjunto com reforços. Mas nenhuma das duas coisas acontece, a não ser em raríssimas exceções, e ninguém parece se importar…

Existem condomínios de todos os tipos

Desde os mais humildes, com casas modestas em áreas já degradadas, como nos raros locais ainda virgens, ou habitados até agora apenas por nativos que souberam, de algum modo, não impor os mesmos estragos à paisagem. Mantém suas áreas com poucas  alterações e, por isso mesmo, atiçam a sanha dos especuladores que compram posses a preço de banana. E seguida riscam o terreno, separam os lotes, derrubam o que houver da vegetação, e vendem com enorme lucro.

disciplinar o processo de ocupação
As vilas ao longo do rio Una passam por forte pressão da especulação imobiliária, maior inimiga da beleza cênica do litoral.

Ameaça a foz do belo rio UNA

É o que ameaça a foz do belo rio UNA, que fica dentro da UC. Ali já começaram as conversas, nos disse minha fonte, e placas enganosas foram colocadas chamando o empreendimento pelo nome “Reserva do UNA”, querendo emprestar o significado de ‘reserva’ enquanto unidade de conservação, mas não passa de título enganoso.

APA Costa dos Corais
“Reserva” do Una, mais uma tapeação da especulação. Os nativos da vila abaixo já sofrem assédio para vender suas posses
APA dos Costa dos Corais
Seja para ricos, ou remediados, há opções aos montes

Estou profundamente desanimado com o que vejo. Há uma total falta de vontade, de metas de gestão, de objetivos  passíveis de serem implantados. Os problemas estão à vista de todos. Não querem enxerga-los de frente, com vontade, com empenho. Mas, ao falar sobre isso, sobra blá-blá-blá.

Estrutura da APA dos Corais

Incrivelmente ela tem equipe grande, se comparada às outras, ainda que insuficiente. São três analistas ambientais, dois fiscais, um bote de borracha (insuficiente para mar aberto), 3 Jets Skys (para fiscalização de águas interiores), e algumas viaturas. O Conselho Consultivo foi criado em 2011.

Equipe tem a obrigação de fiscalizar

Esta equipe tem a obrigação de fiscalizar parte da costa de dois estados do Nordeste, Alagoas e Pernambuco, onde os ventos são fortes e constantes, o mar batido, o que exige barcos de certo porte para saírem para fora. E a mais expressiva faixa de recifes (de coral e arenito- antiga linha da costa) com cerca de 200 quilômetros de extensão, extremamente próximos da praia o que prejudica sua saúde em razão da poluição, turismo desordenado, etc. Em 2003 as galés (piscinas naturais formadas por corais) de Maragogi (Alagoas) foram visitadas por 60 mil pessoas. Naquele período não havia educação ambiental, ou fiscalização às ações de turistas. As pessoas pisoteavam os corais, levavam alimentos para os peixes. Faziam tudo que não se deve numa área sensível protegida.

Renan Calheiros, hoje Presidente do Senado, e Fernando Collor, pressionaram o presidente do ICMBio

Uma das coisas que aconteceu depois do plano publicado, foi a pressão do Legislativo sobre o chefe do ICMBio.O plano disciplinava, e limitava a ida de turistas aos recifes. Isso desagradou o pessoal das áreas mais afetadas, como Maragogi, que temia perder receita. Os cabos eleitorais de políticos do Estado ameaçavam os funcionários da unidade com insinuações de que “não ficariam muito tempo naquela função”.  Simultaneamente, Renan Calheiros, hoje Presidente do Senado, e Fernando Collor, pressionaram o presidente do ICMBio, Roberto Vizentin. Ele não teve forças para manter o plano original. Abriram mais o turismo e decidiram colocar os recifes de Maragogi no “sacrifício” controlando, e fechando, outras áreas.

Antecedentes da APA Costa dos Corais

De acordo com o professor Mauro Maida, oceanógrafo, e Doutor em Ecologia Marinha, pela UFPE, nos anos 60 Jacques Laborel, colaborador de Cousteau, veio ao Brasil estuda-los. Até hoje sua tese, publicada em 1967, é considerada uma “referencia” para o conhecimento dos corais da costa brasileira e acabou subsidiando a criação da APA em 1997.

Em 2002 Laborel esteve novamente no Brasil para as comemorações dos 50 anos da fundação do Departamento de Oceanografia da UFPE. Na ocasião mergulhou nos mesmos lugares,  e constatou uma redução de quase 80% da cobertura de coral nas últimas quatro décadas (vida pgs. 14 e 15). Eis aí mais um enorme problema gerado pela demora de ação da Unidade de Conservação. Quando ela finalmente estava “apta” a agir, 80% da preciosidade que deveria proteger já estava esgotada.

Histórico de maus tratos aos corais do Nordeste

APA Costa dos Corais, imagem da praia de Maragogi
Praia de Maragogi, Alagoas. Cadê a “disciplina no processo de ocupação?”

Até a década de 70 os corais do Nordeste sofreram abusos inacreditáveis. Eram arrancados do mar, com tratores ou ferramentas pesadas, e levados para a praia onde eram picados. Depois, colocados na praia em fogueiras com madeira das matas adjacentes. O resultado  era a transformação do carbonato de cálcio, dos corais, em  cal. Só na praia de Tamandaré antigos pescadores contam que a produção atingia 200 sacas semanais. O produto era vendido para a construção civil. Ou aplicado como corretor de solo nas plantações de cana-de-açúcar. Sem falar na poluição, problemas com redes, fundeio de barcos, turbidez da água, etc.

Turbidez da água – ameaça aos corais do Nordeste

Entre as muitas ameaças aos corais do Nordeste duas sobressaem. Uma é a turbidez da água. Os corais estão muito próximos da praia, sofrendo com problemas de poluição. Mas o pior talvez seja a turbidez da água do mar. A Mata Atlântica, que no passado cobria o litoral dos estados da região, simplesmente cedeu lugar à cana-de-açúcar. Sobraram alguns tufos em topos de morros. E mesmo assim muito poucos. A cana chega a encostar no que sobrou do mangue que cerca os rios. Para este bioma não há mais a proteção da Mata Atlântica, ou mesmo da restinga, que também foi quase toda substituída pela cana. Na época das chuvas a enxurrada lava o chão da lavoura levando para o mar lama, e todos os agrotóxicos usados na monocultura. Sem sol, e com os efluentes, os corais ficam sem sua proteção natural.

Corais no mundo

Os corais existem em 100 países e territórios através dos trópicos. Estima-se que 500 milhões de pessoas vivam em locais em desenvolvimento com algum tipo de dependência em relação aos recifes de corais.

Em nível mundial os recifes contribuem com quase 375 bilhões em bens e serviços por meio de atividades como pesca, turismo e proteção costeira.

Em razão da poluição e, especialmente o aquecimento global, 50% dos corais de águas rasas do mundo já foram detonados (dados de Sylvia Earle).

No Brasil eles se estendem desde o Parcel Manoel Luis, no Maranhão, até Nova Viçosa, no sul da Bahia, sem falar nas ilhas oceânicas como Atol das Rocas, Fernando de Noronha, e Abrolhos. Os corais são considerados os ecossistemas com a maior densidade de biodiversidade de todos os ecossistemas.

Estima-se que apenas uma pequena fração é conhecida, mesmo assim, testes indicam que os eles têm enorme potencial para a detenção de compostos ativos o que indica grande valor farmacológico.

Trabalhos na APA Costa dos Corais

O que mais me impressionou acontece na praia de Tamandaré e é comandado pelo professor Mauro Maida, da Universidade Federal de Pernamubuco, através do Projeto Recifes Costeiros. Em razão dos maus tratos aos recifes da região o projeto propôs em 1999 através de uma portaria federal, fechar totalmente uma área coralínea, de 400 hectares, que fica defronte a esta praia,, um experimento para o estudo da capacidade de recuperacão ecológica dos recifes da Costa dos Corais. Desde 1999 ali, naquele trecho, conhecido originalmente como Área Fechada de Tamadaré, e hoje como Zona de Preservação da Vida Marinha, somente atividades licenciadas de pesquisa são permitidas.

Parceiras público privada, as PPPs, ajudam

Ao longo dos 16 anos, o experiemento vem sendo mantido por parceiras público privada, as PPPs que venho defendendo em razão do pouco investimento por parte do poder público. Atualmente ela envolve a Universidade Federal de Pernambuco, a prefeitura da Tamandaré, o ICMBio, a Fundação S.O.S Mata Atlântica, a Fundação Toyota do Brasil e principalmente pescadores das comunidades locais, que atuam como agentes de campo de monitoramento e multiplicadores de boas práticas.

APA Costa dos Corais, imagem de recifes de corais
Tatuamunha. Área de recifes interditada em Tamandaré

APA Costa dos Corais: no início  muitos pescadores reclamaram

No início deste trabalho muitos pescadores reclamaram, afinal seria mais uma restrição à atividade. Hoje são favoráveis. Perceberam que, com a moratória, os peixes e crustáceos aos poucos voltaram a colonizar a área. E eles não ficam restritos aos 400 hectares hoje interditados. A área onde passam seu ciclo de vida inclui os mangues, onde muitas espécies colocam as larvas e juvenis de muitas espécies marinhas. Mais tarde os juvenis, depois de certo tamanho, passam a frequentar também as áreas recifais onde se desenvolvem para a próxima fase de seu ciclo de vida. Dali seguem até o talude (borda da plataforma continental) para sua fase adulta reprodutiva que aqui começa a partir de 17 milhas mar adentro. Portanto, toda uma região onde antes os organismos marinhos escasseavam, passou a ser colonizada gerando novas possibilidades aos pescadores. O problema é o tempo que demora para a regeneração. Mas, mesmo longo, ainda não há outra opção a não ser esta. No mar é assim: é preciso tempo e perseverança.

APA Costa dos Corais
O talude, e a a área em que vivem os peixes (fonte:nilson01wordpress.com)

APA Costa dos Corais. Ex-pescadores foram contratados para monitorar a área fechada

Para minimizar os problemas ex-pescadores foram contratados para monitorar a área fechada. A ideia do professor é repicar a experiência em outras porções da APA.

O experimento da área fehada de Tamandaré demonstrou que os recifes da região têm ainda uma grande resiliência (capacidade de recuperacão) e que, com vontade política, seriedade no controle e envolvimento da comunidade local no processo, seria possível promover a recuperação dos recifes da região em uma maior escala com base na experiência de Tamandaré. Para o Projeto Recifes Costeiros, a replicação dessas áreas fechadas (Zonas de Preservação da Vida Marinha) ao longo de todos os municïpios da APA deveria ser prioridade nas açōes de geståo da unidade de conservação.

Mauro Maida, preservacionista

O professor Mauro Maida, preservacionista, chama a atenção para o fato de que apenas 0,05% de toda a zona exclusiva econômica brasileira, com aproximadamente 3,6 milhões de quilômetros quadrados, ou 40% do tamanho do Brasil, está protegida de forma integral. Os outros 99,95% estão abertos a todos os tipos de usos. Convenhamos, é muito pouco, quase uma migalha. Seria muito bom se os pescadores esportivos, e outros usuários da costa brasileira, conhecessem esses dados. Eles são os que mais reclamam, e criam caso, ao se criarem Unidades de Conservação na zoa costeira. Não há outra solução que possa assegurar a biodiversidade marinha para as gerações futuras, a não ser a urgente criação de UCs, se possível, de proteção integral.

APA Costa dos Corais
Zona Exclusiva Econômica: menos duma migalha dela está protegida (fonte: geopoliticadopetroleo.wordpress.com)

Projeto Peixe- Boi, longo, demorado, mas com sucesso

Outra boa notícia para quem se preocupa com a vida marinha é o sucesso que esse projeto, ao lado do Tamar, alcançou. Ambos foram fruto da mesma e épica viagem feita por Guy Marcovaldi e José Catuetê de Albuquerque, estudantes da FURG que nos anos 80 empreenderam um périplo pela costa brasileira. A expedição redundou na criação destes dois sucessos: o Projeto Tamar, que repovoou a costa brasileira com tartarugas marinhas, e o Projeto Peixe- Boi, que salvou da extinção este simpático e dócil mamífero marinho.

No passado o Projeto Peixe- Boi ficava aos cuidados do CMA, vinculado ao Ibama e, a partir de 2007, ao ICMBio. Em março deste ano passou ao CEPENE que assume a missão com o objetivo de coordenar as atividades com as UCs onde há a ocorrência da espécie.

APA Costa dos Corais. No rio Tatuamunha, há uma espécie de curral

Conversei com o coordenador do projeto na APA, Iran Normande, sediado em Porto de Pedras. Ali, no rio Tatuamunha, há uma espécie de curral onde os animais que encalham na costa são colocados, depois de passarem por um período de reabilitação na base de Itamaracá. Uma vez acostumados, são soltos ao longo do rio. Perguntei porque o Tatuamunha foi o escolhido. Iran contou que até 1998 os animais eram soltos na costa do estado. Mas perceberam que eles escolheram os estuário do Tatuamunha para viver. A partir daí as solturas passaram a ser feitas no próprio rio. Os Peixes- Boi precisam da água doce. Seu habitat são águas rasas e calmas. Vivem em estuários e ao longo da foz dos rios. Não têm predadores naturais, a não ser nós, o ser humano. Antes do Projeto estavam na lista dos “criticamente ameaçados”. Durante séculos, desde a chegada dos portugueses, foram implacavelmente caçados. Tudo neles era aproveitado: o couro, os ossos e, especialmente, a carne.

APA Costa dos Corais, imagem de peixes- boi
Tatuamunha, dois Peixes- boi, rio Tatuamunha

Ameaça: perda de habitat

Hoje a ameaça não é mais a caça, mas a perda de habitat, especialmente os manguezais que estão sendo depredados pela criação de camarões em cativeiro, e também por salinas.

Como todo mamífero marinho, a gestação do peixe-boi é demorada: 13 meses, e eles são tem um filhote por vez. Ao nascerem, passam dois anos ao lado da mãe, amamentando. Finalmente, a partir deste ponto, iniciam seu ciclo de vida madura.

Os animais atingem até 700 quilos, tem o tamanho de 3 metros e meio, e vivem até 60 anos.

Peixes- boi e conflitos com pescadores

Da mesma forma que a área fechada do professor Maida causou conflitos com os nativos, ao começarem as solturas no Tatuamunha os pescadores reclamavam. Perdiam parte de suas redes enroscadas nos animais, entre outros problemas. A partir de 2006 o pessoal do Projeto Peixe- Boi mudou a forma de atuarem.

APA Costa dos Corais, imagem do rio Tatuamunha
Praia dos Carneiros. Área cercada no Tatuamunha onde os Peixes- Boi ficam de quarentena

APA Costa dos Corais. Nativos capacitados

Começaram a capacitar os nativos para trabalhar no projeto, seja alimentando e cuidando  dos animais, seja trabalhando com os turistas que visitam o centro. E a polêmica acabou. Hoje cerca de 70 famílias de Porto de Pedras vive em razão do Peixe- Boi. O centro de Porto de Pedras recebe algo como 70 visitantes todos os dias, que fazem passeios em jangadas ao longo do rio para verem os animais soltos. Por ano são 15 mil visitantes o que, para a costa brasileira, é um número bastante razoável. Mas o melhor é que hoje, depois de mais de 30 animais soltos só neste rio, o cálculo  é que existam 1.000 animais entre Alagoas e Amapá (antes eles eram encontrados até o Espírito Santo). E o Peixe- boi deixou de ser considerado “criticamente ameaçado” passando para a categoria de “animais em perigo”. É pouco, mas o suficiente para comemorarmos. Ao lado do Projeto Tamar, das baleias que voltaram a frequentar nossa costa depois da proibição de sua caça, e do Projeto Albatroz, o Projeto Peie- Boi é mais um caso de sucesso.

APA Costa dos Corais, imagem de peixe boi
Praia dos Carneiros. Peixe- boi livre se aproxima do barco

Outros pontos positivos da APA Costa dos Corais 

Os acima são os que merecem maior destaque. Mas há outro que faço questão de destacar. Em geral os hotéis, pousadas, resorts e condomínios que vimos ao longo da APA não têm grande preocupação com o tipo de construção que propõe. São agressivos, a maioria construída em concreto armado, sem a preocupação de disfarçarem seu presença preservando a beleza cênica. Além de estragarem a paisagem, grande parte são de qualidade duvidosa. Atendem a parcela menos exigente da população, mas deixam a desejar para os mais abastados, que exigem padrões internacionais, mais conforto, mais opções de programas, etc.

APA Costa dos Corais: o que mais se desenvolve no momento, é o turismo de massa

O que mais se desenvolve no momento, é o turismo de massa que não traz grande benefício às populações nativas. Normalmente eles chegam para passar o dia, trazem consigo tudo o que pretendem consumir, não contribuindo para a melhora da economia local, e ainda sujam as praias deixando lixo por toda a parte. Ouvi reclamações neste sentido até dos mais humildes pescadores. É evidente que falta investimento em turismo, e infra-estrutura, em toda a costa brasileira mas, sobretudo nas regiões Nordeste e Norte.

APA Costa dos Corais, imagem de barco em rio
Passeios para avistarem do Peixe – Boi geram renda aos nativos

Bom hotel na praia dos Carneiros

Aqui, entretanto, na extremo norte da APA dos Corais, na praia dos Carneiros, há um hotel que, pela preocupação na construção, merece ser citado. Trata-se do Pontal dos Carneiros, erguido em meio a um coqueiral, com pequenos chalés que usam madeira, palha de coqueiros, e nunca ultrapassam a altura da copa das arvores.  Sejam casas de segunda residência, sejam hotéis ou resorts, a preocupação com a paisagem tem sido mínima. Construções monumentais são erguidas sem preocupação com um bem que pertence a todos: a espetacular  paisagem do litoral.

APA Costa dos Corais: Pontal dos Carneiros, exemplo a ser seguido

Ao menos no caso do Pontal dos Carneiros, e outros poucos hotéis (as pousadas em geral estragam menos e mostram mais preocupação com a estética), isso foi preservado. Você passeia em frente e quase não percebe que ali há um hotel. Enquanto o turista, instalado nos chalés, tem a tão desejada vista pro mar. Apesar disso, o hotel é visitado diariamente pelo turismo de massa. Enormes ônibus param todos os dias em suas adjacências despejando centenas de turistas, daqueles ‘de- um-dia-só’, na praia…

APA Costa dos Corais, imagem da Praia dos Carneiros
APA Costa dos Corais, Praia dos Carneiros, no interior do coqueiral fica o hotel Bora- Bora

Pelo enorme tamanho da APA, mais de 400 mil hectares, e o pequeno espaço da Resex Acaú Goiana, UC pernambucana visitada na mesma viagem, fizemos um programa e meio sobre a APA, e meio programa sobre a Resex.

SERVIÇOS 

Não há restrições para a visitação de qualquer APA. Basta escolher uma pousada ou hotel, são dezenas ao longo de toda a UC, e aproveitar enquanto é tempo. Mais informações sobre a unidade:

COORDENAÇÃO REGIONAL / VINCULAÇÃO: CR6 -Cabedelo

ENDEREÇO / CIDADE / UF / CEP: Rua Samuel Hardman, s/n – centro, Tamandaré/PE – CEP: 55.578-000

TELEFONE: (81) 3676-2357

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4 COMENTÁRIOS

  1. Estou visitanto maragogi e tão longo cheguei fui tomada de uma tristeza tamanha ao percebero total descaso do poder público com uma região tão bela e frágil.Percebi varios problemas mas senti de verdade o quão cruel pode ser a especulação imobiliária( todos querem um pedaço do paraiso).
    Até quando vamos manter nossos olhos fechados para este tão grave problema.
    Ao ritmo da degradação podemos nos considerar privilegiados em podermos ver alguma beleza natural.
    Que pena para populaçâo local, vida marinha, gerações futuras….
    O Brasil precisa dar a importância devida a grande riqueza natural que tem.

    • Concordo, Silvia, e peço que vc nos ajude. Coloque suas impressões nas redes sociais, convoque amigos e parentes para comentar não só este, mas outros casos parecidos. A especulação está acabando com o litoral brasileiro. Su puder, repique minhas matérias no Face Book, twetter, enfim, as redes sócias tem ajudado. Quem sabe? abraços e volte sempre!

    • Olá, Silvia, infelizmente vc tem razão. Todo o nosso litoral está sendo depredado, sem, ou com alguma Unidade de Conservação. Também não gostei do que vi na região de Maragogi. É de fato uma pena para as gerações futuras. Não creio que vai sobrar alguma coisa interessante para eles verem. Sinto muito. Obrigado pela mensagem e volte sempre!

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