Oceanos: lixões invisíveis, saiba por quê

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Oceanos: lixões invisíveis, é o que nossa ação está fazendo com o mais importante ecossistema da Terra

Os cientistas ficaram horrorizados ao entrar no chuveiro e encontrar pequenas bolinhas coloridas, de 2 a 3 mm de diâmetro, misturadas ao sabonete líquido oferecido pelo hotel. Era o prenúncio de uma crise no início da conferência sobre poluição nos oceanos promovida pelas Nações Unidas em Montego Bay, na Jamaica, no fim de 2013. Oceanos: lixões invisíveis.

Oceanos: lixões invisíveis, imagem de golfinho carregando a sacola plástica na barbatana é símbolo da poluição marinha: de acordo com algumas estimativas, há uma média de 13 mil pedaços de lixo plástico flutuando em cada quilômetro quadrado de superfície oceânica
O golfinho carregando a sacola plástica na barbatana é símbolo da poluição marinha: de acordo com algumas estimativas, há uma média de 13 mil pedaços de lixo plástico flutuando em cada quilômetro quadrado de superfície oceânica

Microesferas plásticas encontradas em ostras, mariscos e até baleias.

A suspeita dos pesquisadores era de que o sabonete fosse um daqueles produtos de higiene pessoal que vêm com microesferas de plástico. Elas vêm sendo usadas nos últimos 10 anos pelos fabricantes de cremes de barbear,  esfoliantes e outros cosméticos. As estações de tratamento de água não foram projetadas para reter partículas tão pequenas. As bolinhas acabam indo da pia direto para os mares. Microesferas plásticas são encontradas em ostras, mariscos e até baleias.

Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente

A conferência promovida pelo governo da Jamaica e pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) debatia justamente os elos entre as atividades terrestres e seu impacto no mar. O cenário não é animador: esgotos, produtos químicos e plásticos estão transformando litorais em lixões, reduzindo a biodiversidade marinha e aumentando as zonas mortas em todos os oceanos.

É difícil quantificar volume de lixo que chega aos mares: em 1997 a estimativa era de 6,4 milhões de toneladas anuais

É difícil quantificar o volume de lixo que chega aos mares do mundo, só é possível fazer estimativas. Em 1997, a Academia de Ciências dos Estados Unidos estimou o volume em 6,4 milhões de toneladas anuais. Outros cálculos projetam que 8 milhões de itens de lixo vão para os oceanos todos os dias.

Oceanos: lixões invisíveis, navios seriam responsáveis por 5 milhões

Os navios seriam responsáveis por 5 milhões disso, segundo o Pnuma. Outras análises falam em 13 mil pedaços de lixo plástico flutuando em cada quilômetro quadrado de superfície oceânica.

90% dos esgotos dos países em desenvolvimento chegam aos rios, lagos e mares

Estima-se que 90% dos esgotos dos países em desenvolvimento cheguem aos rios, lagos e mares sem tratamento, sem falar no excedente dos produtos químicos usados na agricultura – um fenômeno conhecido como ciclo do fósforo e do nitrogênio.

ONG holandesa North Sea Foundation começou campanha

Em 2011, a pequena ONG holandesa North Sea Foundation começou uma campanha pedindo às empresas que parassem de usar microesferas plásticas assim que possível. Outra organização, a Plastic Soup Foundation, juntou-se ao esforço.

Mais plástico que plâncton

“Há lugares em que a concentração de plásticos no mar é 20 vezes superior à de plâncton”, diz a ambientalista Maria Westerbos, diretora da Plastic Soup. E o futuro é negro. Em 2050 haverá mais plástico que peixes nos oceanos.

Unilever e microesferas plásticas

As ONGs pediram às pessoas que participassem de um “tuitaço” solicitando à Unilever que deixasse de usar microesferas em seus artigos. O esforço deu resultado imediato, diz Westerbos. A Unilever anunciou que todos os seus produtos ao redor do mundo não teriam mais microesferas plásticas até 2015.

No Brasil, nenhum executivo da Unilever quis falar sobre o assunto

No Brasil, nenhum executivo da Unilever quis falar sobre o assunto com a reportagem do Valor. A assessoria de imprensa enviou um comunicado da empresa no exterior. Ali se lê que a Unilever utiliza hoje microesferas apenas em produtos esfoliantes, pela sua característica de eliminar células mortas da pele, e confirma a decisão de abandonar o material, em resposta à preocupação de stakeholders.

Plásticos respondem por 90% da poluição marinha. Oceanos: lixões invisíveis

Algumas estatísticas calculam que plásticos respondem por 90% da poluição marinha. “Nosso foco é a poluição por plásticos. As pessoas jogam fora, porque é um material feito para jogar fora”, diz Daniella Russo, diretora-executiva da Plastic Pollution Coalition, uma rede de indivíduos, organizações e empresas.

Ecossistemas costeiros contribuem com 38% do PIB mundial

Os ecossistemas costeiros contribuem com 38% do PIB mundial, diz Elizabeth Mrema, e as áreas de mar aberto, por outros 25%. Nas estimativas da Global Partnership for Oceans, as perdas globais pela má exploração dos estoques pesqueiros foram de US$ 2,2 trilhões nas últimas três décadas.

O desafio de proteger os oceanos

O desafio de proteger os oceanos não é simples. Se a meta for preservar a biodiversidade marinha, os procedimentos são diferentes daqueles dos ecossistemas terrestres. “A proteção da biodiversidade marinha é complexa”, diz o professor Richard Kenchington, do Australian National Centre for Ocean Resources & Security (Ancors). “Em terra, quando um sistema está ameaçado, é comum criar um parque para protegê-lo. No mar, criar áreas protegidas é útil, mas complicado. É preciso ter um conceito mais global.”

Conferência na Jamaica

A conferência na Jamaica terminou com os participantes reforçando a necessidade de se criar parcerias para lidar com a poluição marinha. E com um alívio: as bolinhas do sabonete líquido do chuveiro eram de material gelatinoso totalmente degradável.

Por Daniela Chiaretti/Montego Bay, Jamaica.

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2 COMENTÁRIOS

  1. Acho que faltou dizer, que grande parte destes mesmos plásticos, viajam por rios até desembocarem no mar por milhares de quilometros, porque não são retidos por matas ciliares que a cada dia que passa, são destruidas, embora e lei florestal penalize impondo limites para sua conservacão, com essa finalidade.

    • Olá, Amadeu, obrigado pela mensagem. Pois é, há problemas de desmatamento de matas ciliares, mas o maior pepino de todos é que somos sete bilhões de pessoas no planeta, e a maioria utiliza material plástico, ele faz parte de nossa vida, de nosso consumo no dia a dia. Pra mudar acho que só mesmo se AS PESSOAS mudarem. Se cada um fizer um pouquinho o resultado pode ser muuuuito grande. Procurar evitar o plástico já seria um bom começo.Volte sempre, obrigado pela visita. abraços

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