Endurance de Ernest Shackleton foi encontrado na Antártica
O navio sucumbiu à pressão do gelo e afundou no Mar de Weddell em 1915. O desastre obrigou Shackleton e seus homens a iniciar uma saga inigualável. Eles marcharam sobre o gelo e navegaram em pequenos barcos até alcançar a ilha Elephant, nas Shetland do Sul. Mesmo a 3 km de profundidade, após mais de um século, o casco preserva a forma original. A BBC anunciou a descoberta do naufrágio mais icônico do mundo. “Sem nenhum exagero, este é o melhor naufrágio de madeira que já vi, de longe”, afirmou o arqueólogo marinho Mensun Bound, integrante da expedição. Ele realizou um sonho acalentado ao longo de quase 50 anos de carreira. A equipe localizou o Endurance de Ernest Shackleton na Antártica.

A procura pelo Endurance
No início de fevereiro publicamos o post A procura pelo Endurance, um olhar para o passado. Nele, repercutimos a expedição Endurance22. A equipe planejava atravessar o notório gelo do Mar de Weddell até a área do naufrágio. Depois, lançaria drones submarinos, também chamados submersíveis autônomos, para localizar o Endurance.


Menos de um mês depois, a imprensa mundial celebra o achado do Endurance e destaca as excelentes condições do navio. Ao deixar a África do Sul a bordo do quebra-gelo Agulhas II, Mensun Bound, arqueólogo marinho e diretor de exploração da expedição Endurance22, declarou: “É o naufrágio mais inacessível de todos os tempos. Isso faz desta a maior caça aos naufrágios da história.”
O feito de Mensun Bound: tão fantástico como a própria saga de Shackleton
O feito de Mensun Bound impressiona tanto quanto a própria saga de Shackleton. Ele revela o salto tecnológico da arqueologia submarina. Também evidencia a qualidade construtiva do Endurance. O gelo o esmagou com força brutal. Ainda assim, cem anos depois, o navio mantém uma estrutura surpreendente, como mostram as fotos.
Mais lidos
Limpeza oceânica já retirou 50 milhões de toneladas de plásticoDonzela-real, mais um peixe invasor no litoral de São PauloNova estação científica no arquipélago de São Pedro e São PauloO fato de o navio não ter sido “devorado” pelo tempo não surpreende. A própria equipe já previa isso. A água gelada e a ausência de organismos que se alimentam de madeira nos mares da Antártida preservariam o casco. A previsão se confirmou.
Naufrágio de 2.400 anos em perfeitas condições
Em 2018, pesquisadores localizaram no Mar Negro um navio grego de 23 metros. Ele conservava mastro, lemes e bancos de remo. O casco repousava a mais de 2.000 metros de profundidade e permaneceu intacto por 2.400 anos. A grande profundidade e a falta de oxigênio preservaram a madeira. O achado ajuda a explicar por que o Endurance também se manteve em ótimo estado
PUBLICIDADE

O líder da missão, o veterano geógrafo polar Dr. John Shears, descreveu à BBC o momento em que as câmeras focaram o nome do navio como “de cair o queixo”. Ele resumiu o desafio: “Concluímos a busca pelo naufrágio mais difícil do mundo. Enfrentamos gelo marinho em constante movimento, nevascas e temperaturas de -18°C. Fizemos o que muitos diziam ser impossível.”
Por mais de duas semanas os submarinos vasculharam uma área de busca
A BBC relata que, por mais de duas semanas, os submersíveis autônomos vasculharam uma área predefinida de 150 milhas quadradas. A equipe investigou vários alvos próximos ao ponto do naufrágio. No sábado, 5 de fevereiro, localizou o Endurance. A data coincidiu com o centenário do funeral de Shackleton. Após a descoberta, os pesquisadores realizaram um registro fotográfico detalhado do casco e do campo de destroços ao redor.
Leia também
Povos paleolíticos remaram em canoas no Mar da China OrientalA verdade sobre a Escola de Sagres: mito ou realidade?Passagens marítimas: entenda sua importância geopolítica
Assista ao vídeo do Agulhas II
Segundo a rede inglesa, O navio tem a mesma aparência de quando fotografado pela última vez pelo cineasta de Shackleton, Frank Hurley, em 1915. Os mastros estão abaixados, o cordame está emaranhado, mas o casco está em boas condições. Alguns danos são evidentes na proa, presumivelmente onde o navio em queda atingiu o fundo do mar. Até as âncoras estão no lá. Os submarinos conseguiram captar imagens de algumas botas e louças de bordo.

Michelle Taylor, da Universidade de Essex, declarou à BBC: “O Endurance, parecendo um navio fantasma, está salpicado com uma impressionante diversidade de vida marinha do fundo do mar – ascídias, anêmonas, esponjas de várias formas, estrelas quebradiças e crinóides (relacionados a ouriços e estrelas do mar), todos animais filtradores das águas frias e profundas do Mar de Weddell.”
Endurance de Ernest Shackleton: ‘A busca de naufrágios mais desafiadora do mundo’
O New York Times explicou porque o navio é tão famoso: Endurance, um navio de madeira de 144 pés e três mastros, ocupa um lugar reverenciado na história polar porque gerou uma das maiores histórias de sobrevivência nos anais da exploração. A descoberta do naufrágio foi anunciada na quarta-feira em um comunicado da expedição de busca, Endurance22.“Fizemos história polar com a descoberta do Endurance e concluímos com sucesso a busca de naufrágios mais desafiadora do mundo”, disse John Shears, líder da expedição.
Polaris, ou Endurance?
O New York Times explica detalhes como a estrela que aparece embaixo do nome do navio, na popa. Uma imagem da popa mostrava o nome “ENDURANCE” acima de uma estrela de cinco pontas, um resquício de antes de Shackleton comprar o navio, quando se chamava Polaris.

Mensun Bound, diretor de exploração da expedição e arqueólogo marinho que descobriu muitos naufrágios, disse que o Endurance foi o melhor que ele já viu. É vertical, livre do fundo do mar e “em um estado de preservação brilhante”, disse ele.
PUBLICIDADE
O NYT explica a área de busca: o navio foi encontrado a cerca de seis quilômetros ao sul da última localização registrada pelo capitão e navegador de Shackleton, Frank Worsley. A busca foi conduzida em uma ampla área para explicar erros no equipamento de navegação de Worsley.
US$ 10 milhões de dólares, o custo da descoberta
Segundo o NYT, A busca pelo naufrágio, que custou mais de US$ 10 milhões, fornecida por um doador que quis permanecer anônimo, foi realizada a partir de um quebra-gelo sul-africano que deixou a Cidade do Cabo no início de fevereiro.
Além de algumas falhas técnicas envolvendo os dois submersíveis e parte de um dia passado no gelo quando as operações foram suspensas, a busca prosseguiu de forma relativamente tranquila.
Os submersíveis movidos a bateria vasculharam o fundo do mar duas vezes por dia, por cerca de seis horas de cada vez. Eles usaram o sonar para escanear uma faixa do fundo do mar liso, procurando por qualquer coisa que se elevasse acima dele.

Uma vez que o naufrágio foi localizado há vários dias, o equipamento foi trocado por câmeras de alta resolução e outros instrumentos para fazer imagens e varreduras detalhadas.
Endurance de Ernest Shackleton: naufrágio passa a ser Monumento Histórico
O Tratado da Antártica cultiva o passado do continente. Há vários monumentos históricos bem preservados e ainda íntegros apesar dos anos. Um deles, por exemplo, são os restos das estações baleeiras erguidas na ilha Deception. Outro, ainda mais famoso, é a base inglesa de Port Lockroy, do tempo da Segunda Guerra Mundial e aberta até hoje, com os mesmo móveis, objetos, e até latas de comida da dispensa, um dos locais mais visitados da Antártica.

Não são os únicos. A cabana usada por Shackleton na expedição do Nimrod (vc pode ver o interior em 360º), em 1908, a primeira chefiada por nosso herói ainda está de pé, em perfeitas condições.
PUBLICIDADE
Agora, o local do naufrágio do Endurance passa a ser outro deles. O NYT explica: Nos termos do Tratado da Antártida, o pacto de seis décadas destinado a proteger a região, o naufrágio é considerado um monumento histórico. Os submersíveis não o tocaram; as imagens e digitalizações serão usadas como base para materiais educativos e exposições em museus. Um documentário também está nos planos.
Ernest Shackleton e a Expedição Transantártica
Shackleton deixou a Inglaterra a bordo do Endurance com uma tripulação de 27 pessoas em 1914, com destino a uma baía no Mar de Weddell que deveria ser o ponto de partida para uma tentativa dele, e de um pequeno grupo, de ser o primeiro a cruzar a Antártida a pé e passando pelo polo Sul.

A expedição fracassou, como se sabe, mas colocou o nome de Shackleton e seus companheiros no píncaro das expedições da fase heroica da Antártica que destacou entre outros, Roald Amundsen o primeiro a chegar ao polo Sul em 1911, numa disputa entre ingleses e noruegueses que determinou a morte de outro expoente das expedições, Robert Scott; e também Adrien de Gerlache, o belga que foi o primeiro a invernar na Antártica em 1897.
A derradeira expedição de Shackleton
Depois da fama alcançada por ter salvado toda a sua tripulação numa jornada épica, houve a derradeira expedição na qual nosso herói morre a bordo de seu navio. Foi a Expedição Shackleton-Rowett (1920-1922), com o navio Quest. Com a saída de Shackleton do cenário descia, pela última vez, a cortina da conquista da fase heroica na Antártica.
Assim é a Antártica, o continente superlativo, o único a ter três ‘descobridores’ simultaneamente.
Assista ao vídeo da descoberta do Endurance de Ernest Shackleton
style=”display: inline-block; width: 0px; overflow: hidden; line-height: 0;” class=”mce_SELRES_start”>
Imagem de abertura: You Tube.
Fontes: https://www.nytimes.com/2022/03/09/climate/endurance-wreck-found-shackleton.html#:~:text=the%20main%20story-,At%20the%20Bottom%20of%20an%20Icy%20Sea%2C%20One%20of%20History’s,in%20the%20Antarctic%20in%201915; https://www.bbc.com/news/science-environment-60662541.










