A expedição Quest de Shackleton, e o final da fase heroica

1
4932
views

A expedição Quest de Shackleton, e o final da fase heroica na Antártica

A chamada “era heroica da exploração antártica” começou no final do século 19 e terminou no início do século 20, ao final da Primeira Guerra Mundial, com a expedição Quest de Shackleton. No período foram organizadas 17 expedições, por 10 países diferentes com níveis variados de sucesso. A Antártica tem a glória de ser o último continente a ser ‘descoberto’, e único a ter ao menos três ‘descobridores’. Até hoje há controvérsia sobre quem o viu  pela primeira vez.

Os três ‘descobridores’

O líder da expedição russa Fabian Gottlieb Thaddeus von Bellingshausen, o capitão inglês Edward Bransfield, e o caçador de focas americano Nathaniel Palmer reivindicam os primeiros avistamentos da Antártica em 1820, todos representantes da “fase da exploração”. Mas, sobre o final da fase heroica, assim chamada em razão das inacreditáveis expedições do período, ninguém duvida. Foi a Expedição Shackleton-Rowett (1920-1922), de Ernest Shackleton, que morreu a bordo de seu navio, o Quest, ancorado na ilha Geórgia do Sul. Com a saída de Shackleton do cenário descia, pela última vez, a cortina da conquista da fase heroica na Antártica.

Pintura do navio Quest em Londres
O Quest deixa Londres. Imagem, sgmuseum.gs.

As viagens de Shackleton

Sir Ernest Shackleton liderou três expedições à Antártica. E ainda participou como terceiro-oficial, da expedição Discovery, de Robert Scott (1901-1904), da qual foi forçado a abortar, voltando mais cedo pra casa em razão do escorbuto.

Pouco depois, liderava sua primeira expedição; a expedição Nimrod (1907-1909), quando estabeleceu a pé uma nova marca em direção ao Polo Sul. Por esta conquista, no retorno  o rei Eduardo VII lhe concedeu o título de cavaleiro, Sir. Até hoje a cabana que Shackleton usou nesta expedição está em pé, em perfeito estado, e é considerada um monumento histórico.

Expedição Transantártica Imperial

PUBLICIDADE

A segunda viagem, entretanto, a Expedição Transantártica Imperial (1914-19178), foi a mais espetacular. Entrou para a história como a Expedição do Endurance, quando o navio foi aprisionado no gelo, e posteriormente esmagado. Como se sabe, o Endurance foi encontrado no fundo do mar de Weddell em fevereiro de 2022.

Seguiu-se uma saga de bravura e sofrimento incomuns, que entrou para a história e projetou Shackleton mundialmente. Um paradóxo, já que o objetivo da expedição, a travessia do continente a pé passando pelo Polo Sul, jamais foi alcançado.

Por suas qualidades, Shackleton transformou um fracasso em sucesso ao liderar seus homens de volta pra casa sem perdas depois de dois anos de muito sofrimento e privações.

A terceira e derradeira, é a Expedição Shackleton-Rowett (1920-1922), que hoje comentamos.

A fase heroica, conheça

Os historiadores concordam que ela começou em 1895 quando o Sexto Congresso Geográfico Internacional reunido em Londres adotou a seguinte resolução:

Que este congresso registre sua opinião de que a exploração das Regiões Antárticas é a maior parte da exploração geográfica ainda a ser empreendida. Que em vista dos acréscimos ao conhecimento em quase todos os ramos da ciência que resultariam de tal exploração científica o Congresso recomenda que as sociedades científicas de todo o mundo incitem, da maneira que lhes pareça mais eficaz, que este trabalho seja realizado antes do final do século

Em seguida foram iniciadas as  expedições que até hoje fascinam os amantes da história polar, conquistando a imaginação do público e projetando nomes sempre associados ao mesmo adjetivo: ‘heroico’.

Roald Amundsen, Robert Scott, Adrien de Gerlache (o primeiro a invernar na Antártica) e, especialmente a que fechou o ciclo, a última viagem de Ernest Shackleton à Antártica, a Expedição Shackleton-Rowett (1920-1922).

Ernest Shackleton
Ernest Shackleton a bordo do Quest. Imagem, coolantarctica.com.

O site coolantarctica.com foi feliz em sua síntese: Felizmente, a exploração da Antártida foi abençoada com uma série de homens capazes de escrever sobre suas experiências com eloquência e sensibilidade. Excepcionalmente, em qualquer campo de exploração, houve um encontro em um curto período de tempo de concentração de caráter, bravura e habilidade literária.”

O legado de Shackleton

A primeira viagem de Shackleton para a Antártica ficou conhecida como a Expedição Nimrod (1907-1909) quando o explorador tornou-se a primeira pessoa a chegar ao Polo Sul Magnético.

Em seguida, em 1911, Roald Amundsen foi o primeiro a chegar a pé ao Polo Sul, seis semanas à frente de Robert Scott, seu concorrente, em mais uma épica viagem.

O Quest no Tâmisa
O Quest ainda no Tâmisa. Imagem,sgmuseum.gs.

A descoberta, ou o primeiro a chegar ao polo Sul, não marcaram o fim da exploração antártica: entender a geografia do continente, incluindo atravessá-lo, mapeá-lo e registrá-lo, ainda era visto como importante, e houve várias expedições subsequentes com este objetivo.

documento assinado por
A assinatura do ‘Boss’. Imagem, sgmuseum.gs.

Foi numa delas, a Expedição do Endurance (1914–17) também chamada Expedição Transantártica Imperial, a segunda de Shackleton, que o explorador alçou seu nome no mais alto posto da galeria dos heróis antárticos.

A sua reação, depois de ter o navio preso e esmagado no gelo, liderando seus homens nas mais duras condições jamais vistas, foi uma lição de liderança, bravura, e humildade poucas vezes repetida na história.

Imagem de Shackleton
Shackleton se despede da imprensa no início da expedição do Endurance. Imagem,sgmuseum.gs.

E como lembrou o site coolantarctica, foi durante este tormento que Shackleton provou sua ‘habilidade literária’ ao escrever o diário de bordo da expedição, posteriormente publicado em forma de livro com o título “A incrível viagem de Shackleton: A mais extraordinária aventura de todos os tempos”, um clássico e um best-seller até hoje.

O centenário da Expedição Shackleton-Rowett (1920-1922)

A missão original desta terceira viagem era mapear regiões costeiras ainda desconhecidas na Antártica. Mas, antes de chegar, Shackleton morreu de ataque cardíaco, em 5 de janeiro de 1922, quando estava na Geórgia do Sul.

A imprensa mundial destaca o centenário desta derradeira expedição, e há ao menos uma exposição comemorativa que pode ser visitada virtualmente.

PUBLICIDADE

Imagem de selos comemorativos da Expedição Shackleton-Rowett
Os britânicos cultuam seus heróis. Selos comemorativos. Imagem,sgmuseum.gs.

A exposição do site do South Georgia Museum pode ser vista neste link. Segundo informa o site do Natural and History Museum, da Grã-Bretanha ‘os vastos exemplares de história natural recolhidos durante a expedição Shackleton-Rowett foram dispersos pelas coleções do Museu, enquanto documentos adicionais desapareceram em outros arquivos’.

E comemora: ‘Agora, há esperanças de que esses espécimes possam ser reunidos e a história das descobertas do (navio) Quest contada’.

O site ouviu Mary Spencer Jones, curadora sênior de briozoários do Museu, que disse: ‘Cem anos depois, agora é o momento certo para começar a montar uma lista completa do que saiu da expedição. Temos uma quantidade razoável de material da expedição nas coleções, mas está tudo espalhado’.

Como foi montada a Expedição Shackleton-Rowett

O site do Natural and History Museum fez a recapitulação. A expedição tem suas origens no início de 1920, quando  Shackleton começou a montar uma viagem ao Ártico.

Imagem do navio Quest deixando Londres
O Quest deixando Londres. Imagem, sgmuseum.gs.

Com o apoio do governo canadense, ele planejava explorar os mares ao norte do Alasca, com parte do financiamento fornecido por empresários como John Quiller Rowett.

Plano do deck do navio Quest
Plano do deck e equipamentos de bordo. Imagem,sgmuseum.gs.

Mas quando os canadenses recuaram e a janela sazonal se fechou para uma missão no Ártico, foi decidido ir para a Antártida, com Rowett fornecendo todo o financiamento.

A saída da Cidade do Cabo

Em 17 de setembro de 1921,o navio Quest de Ernest Shackleton finalmente deixou Londres para a Cidade do Cabo, África do Sul, onde a tripulação pretendia pegar um hidroavião, equipamento polar e o cientista Professor Ernest Goddard.

tripulação do navio Quest
A tripulação. Imagem,sgmuseum.gs.

No Rio de Janeiro

Como já comentamos neste site, durante o século 19 o Rio de Janeiro foi parada obrigatória, na ida ou na volta, de quase todos que se aventuraram na Antártica, da expedição de Bellingshausen, ainda no início do século, ou a derradeira de Shackleton.

No entanto, problemas no motor forçaram o Quest a navegar para o Rio de Janeiro para reparos vitais. A essa altura, os sinais de problemas de saúde de Shackleton também começaram a aparecer, mas o navio continuou para a Geórgia do Sul de qualquer maneira.

5 de janeiro de 1922

Nas primeiras horas de 5 de janeiro de 1922, Shackleton sofreu um ataque cardíaco fatal. A pedido de sua esposa, seu corpo foi posteriormente enterrado na Geórgia do Sul, onde repousa no pequeno cemitério de Grytviken, depois de uma tentativa de levá-lo de volta à Inglaterra.

Gravura mostra corpo de deixando o navio
O corpo do ‘Boss” deixa o navio pela última vez. Imagem,sgmuseum.gs.

Embora as tentativas da tripulação restante ainda tenham sido feitas para chegar à Antártida, grandes blocos de gelo tornaram a viagem impossível.

PUBLICIDADE

O navio Quest preso no gelo
O Quest barrado pelo gelo. Imagem, sgmuseum.gs.

Em vez disso, o Quest voltou e navegou para a Cidade do Cabo como parte de um plano para reabastecer o navio para uma segunda tentativa no ano seguinte –  que nunca aconteceu.

A última grande viagem da era heroica havia chegado ao fim. Sir Ernest Shackleton morreu no meio da expedição. A viagem é muitas vezes lembrada por ser sua última, e não por suas realizações científicas, diz o Natural and History Museum.

Procissão fúnebre de Ernest Shackleton
O corpo de Shackleton deixa a pequena igreja da vila de baleeiros em Grytviken, e segue para o cemitério na procissão final. Imagem,sgmuseum.gs.

O adeus dos companheiros

Túmulo de Shackleton
O adeus dos companheiros registrado por um deles: “Ninguém se ressentiu do trabalho e do tempo gasto, pois era o último trabalho que deveríamos fazer para o Boss.” Frank Wild.

O que aconteceu com o acervo da expedição

Depois que a expedição terminou, as centenas de espécimes coletados, variando de pássaros a rochas, foram enviadas aos cientistas para análise.

À medida que foram gradualmente devolvidos ao Museu, os espécimes foram dispersos pelas coleções e estudados independentemente uns dos outros.

aves catalogadas na expedição Shackleton-Rowett
Algumas aves catalogadas pela expedição. Imagem, www.nhm.ac.uk.

Uma vez que o centenário começou a se aproximar, os pensamentos voltaram-se para a expedição  novamente. Como neto de John Quiller Rowett, Jan Chojecki estava ciente da associação de sua família com Shackleton e começou a pesquisar o papel de seu avô na história da Antártida.

“Sempre tive curiosidade sobre a carreira e a vida do meu avô”, diz Jan, “mas quando me deparei com um grupo de escoteiros indo para a Antártida, fui cooptado pelo projeto e comecei a me aprofundar um pouco mais.”

ninho de briozoário
Foto de um ninho de briozoários assim legenda: ‘Investigações modernas, como a análise deste ninho feito de briozoários, esperam revelar mais descobertas da expedição mais de um século depois’. Imagem,www.nhm.ac.uk.

Os diários do naturalista do Quest

E prosseguiu: “Li os diários do naturalista do Quest, George Hubert Wilkins, e achei absolutamente fascinantes suas descrições de como ele estudou a vida selvagem em condições incrivelmente difíceis. “

Gravura do retorno do navio Quest para a Inglaterra
O retorno do Quest assim descrito por Frank Wild, companheiro desde a viagem do Endurance: “Voltamos para a Inglaterra em 16 de setembro, em silêncio, como convinha. Um retorno entristecido pela perda do companheiro que deixamos lá embaixo.”

Nascia a exposição que hoje destacamos. Enquanto a morte de Shackleton e o fim da viagem do Quest completaram uma era de exploração da Antártida, hoje a pesquisa continua no continente.

Túmulo de Ernest Shackleton na Geórgia do Sul
O túmulo de Ernest Shackleton, hoje atração turística na Geórgia do Sul. Imagem, Pat Lurcock.

Existe um acordo internacional para garantir que a Antártica seja um lugar ocupado exclusivamente para a pesquisa científica.

Assista ao vídeo da partida do Quest

Shackleton Leaves For Antarctic (1921)

Imagem de abertura: sgmuseum.gs.

Fontes: https://www.nhm.ac.uk/discover/news/2022/january/shackletons-final-expedition-reuniting-quests-collection-100-years-later.html?fbclid=IwAR3eFyS-BwhtHt7uyijeoIowPYWa21yyJAq31QSzNV4k7j1CDi6D3-NDKos; https://sgmuseum.gs/shackletonslastquest/; https://www.coolantarctica.com/Antarctica%20fact%20file/History/The_heroic_age_of_Antarctic_exploration.php.

Muro na praia Maria Farinha, PE, vai parar na Justiça

Comentários

1 COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here