Endurance de Ernest Shackleton encontrado na Antártica

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Endurance de Ernest Shackleton foi encontrado na Antártica

O navio foi esmagado pelo gelo e afundou no Mar de Weddell em 1915, forçando Shackleton e seus homens a protagonizarem uma saga inigualável a pé e em pequenos barcos até atingirem a ilha Elephant, nas Shetland do Sul. Mesmo  a 3 km  de profundidade há mais de um século, parece exatamente como no dia de novembro em que afundou. Assim a BBC saúda a descoberta do mais icônico naufrágio do mundo. “Sem nenhum exagero, este é o melhor naufrágio de madeira que eu já vi – de longe”, disse o arqueólogo marinho Mensun Bound, que está na expedição de descoberta e agora cumpriu uma ambição de sonho em sua carreira de quase 50 anos. O Endurance de Ernest Shackleton foi encontrado na Antártica.

popa do Endurance de Ernest Shackleton
A popa do Endurance. Imagem, You Tube.

A procura pelo Endurance

No início de fevereiro publicamos o post  A procura pelo Endurance, um olhar para o passado quando repercutimos  ‘A expedição Endurance22, cujo site você pode acompanhar neste link,  como é conhecida, espera navegar pelo notório gelo de Weddell até a área onde o navio afundou e então lançar alguns drones submarinos, também chamados submersíveis autônomos, para procurá-lo’.

proa do Endurance
A proa do Endurance.

Menos de um mês depois a imprensa mundial comemora o achado e as excelentes condições do navio. Ao deixarem a África do Sul a bordo do quebra-gelo Agulhas II, Mensun Bound, arqueólogo marinho e diretor de exploração da expedição Endurance22, declarou: “É o naufrágio mais inacessível de todos os tempos, o que torna esta a maior caça aos naufrágios que já houve.”

O feito de Mensun Bound: tão fantástico como a própria saga de Shackleton

O feito de Mensun Bound é tão fantástico como a própria saga de Shackleton, e demonstra como evoluíram os equipamentos da arqueologia submarina. Mostra ainda, ao mesmo tempo, a excelência do Endurance que, mesmo esmagado pela brutal força do gelo, permanece cem anos depois com sua estrututa absolutamente surpreendente como mostram as fotos. 

Quanto ao navio não ter sido ‘comido’ pelo tempo, isto não é surpresa e já era esperado pela equipe conforme alertamos no post Endurance22, o nome da expedição de Manson, e cujo site você pode acompanhar neste link, ‘Espera-se que o naufrágio esteja em condições relativamente boas por causa da água fria e da ausência de organismos que se alimentam de madeira nos mares da Antártida’.

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Naufrágio de 2.400 anos em perfeitas condições

Em 2018 foi encontrado um navio de 23 metros, considerado grego antigo,  descoberto com seu mastro, lemes e bancos de remo presentes, a pouco mais de um quilômetro abaixo da superfície. Ele repousava no fundo do Mar Negro, onde parece ter permanecido inalterado por mais de 2.400 anos em condições ainda mais surpreendentes que o navio de Sir Ernest Shackleton com pouco mais de cem anos debaixo d’água (veja as fotos deste naufrágio), mas em local ainda mais profundo, 3.000 metros. Isto explica a ‘sobrevivência’ da madeira ainda em ótimas conduções como previa Mensun Bound. Parabéns à ele!

Endurance de Ernest Shackleton
A roda de leme em perfeito estado.

O líder da missão, o veterano geógrafo polar Dr. John Shears, descreveu à BBC o momento em que as câmeras pousaram no nome do navio como “de cair o queixo”. “Concluímos com sucesso a busca do naufrágio mais difícil do mundo, lutando contra o gelo marinho em constante mudança, nevascas e temperaturas caindo para -18°C. Conseguimos o que muitas pessoas diziam ser impossível.”

Por mais de duas semanas os submarinos vasculharam uma área de busca

A BBC conta que, por mais de duas semanas, os submarinos vasculharam uma área de busca predefinida, investigando vários alvos interessantes em uma área de 150 milhas quadradas ao redor de onde o navio afundou, antes de finalmente descobrir o local do naufrágio no sábado 5 de fevereiro – o 100º aniversário do funeral de Shackleton. Os dias desde a descoberta foram gastos fazendo um registro fotográfico detalhado das madeiras e do campo de detritos ao redor.

O Agulhas II no Mar de Weddell
O Agulhas II no Mar de Weddell. Imagem, Esther Horvath.

Assista ao vídeo do Agulhas II

Segundo a rede inglesa, O navio tem a mesma aparência de quando fotografado pela última vez pelo cineasta de Shackleton, Frank Hurley, em 1915. Os mastros estão abaixados, o cordame está emaranhado, mas o casco está em boas condições. Alguns danos são evidentes na proa, presumivelmente onde o navio em queda atingiu o fundo do mar. Até as âncoras estão no lá. Os submarinos conseguiram captar imagens de algumas botas e louças de bordo.

Submarino usado na procura do Endurance
O submarino usado na procura do Endurance. Imagem,

Michelle Taylor, da Universidade de Essex, declarou à BBC: “O Endurance, parecendo um navio fantasma, está salpicado com uma impressionante diversidade de vida marinha do fundo do mar – ascídias, anêmonas, esponjas de várias formas, estrelas quebradiças e crinóides (relacionados a ouriços e estrelas do mar), todos animais filtradores das águas frias e profundas do Mar de Weddell.”

Imagem de Mensun Bound
Mensun Bound, o grande responsável pelo encontro do Endurance. Imagem, www.bbc.com.

Endurance de Ernest Shackleton: ‘A busca de naufrágios mais desafiadora do mundo’

O New York Times explicou porque o navio é tão famoso: Endurance, um navio de madeira de 144 pés e três mastros, ocupa um lugar reverenciado na história polar porque gerou uma das maiores histórias de sobrevivência nos anais da exploração. A descoberta do naufrágio foi anunciada na quarta-feira em um comunicado da expedição de busca, Endurance22.“Fizemos história polar com a descoberta do Endurance e concluímos com sucesso a busca de naufrágios mais desafiadora do mundo”, disse John Shears, líder da expedição.

acampamento no gelo
Imagem publicada pelo NYT com a legenda: ‘Membros da equipe, em uma barraca no gelo do mar, prepararam uma refeição na segunda-feira para comemorar a descoberta.’Imagem, Esther Horvath.

Polaris, ou Endurance?

O New York Times explica detalhes como a estrela que aparece embaixo do nome do navio, na popa. Uma imagem da popa mostrava o nome “ENDURANCE” acima de uma estrela de cinco pontas, um resquício de antes de Shackleton comprar o navio, quando se chamava Polaris.

Endurance antes de ficar preso no gelo
O Endurance antes de ficar preso no gelo. Imagem, Frank Hurley.

Mensun Bound, diretor de exploração da expedição e arqueólogo marinho que descobriu muitos naufrágios, disse que o Endurance foi o melhor que ele já viu. É vertical, livre do fundo do mar e “em um estado de preservação brilhante”, disse ele.

Mapa da viagem do Endurance de Ernest Shackleton
Ilustração, BBC.

O NYT explica a área de busca:  o navio foi encontrado a cerca de seis quilômetros ao sul da última localização registrada pelo capitão e navegador de Shackleton, Frank Worsley. A busca foi conduzida em uma ampla área para explicar erros no equipamento de navegação de Worsley.

US$ 10 milhões de dólares, o custo da descoberta

Segundo o NYT, A busca pelo naufrágio, que custou mais de US$ 10 milhões, fornecida por um doador que quis permanecer anônimo, foi realizada a partir de um quebra-gelo sul-africano que deixou a Cidade do Cabo no início de fevereiro.

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Agulhas II
Agulhas II.

Além de algumas falhas técnicas envolvendo os dois submersíveis e parte de um dia passado no gelo quando as operações foram suspensas, a busca prosseguiu de forma relativamente tranquila.

Os submersíveis movidos a bateria vasculharam o fundo do mar duas vezes por dia, por cerca de seis horas de cada vez. Eles usaram o sonar para escanear uma faixa do fundo do mar liso, procurando por qualquer coisa que se elevasse acima dele.

Endurance preso no gelo
Imagem domínio público.

Uma vez que o naufrágio foi localizado há vários dias, o equipamento foi trocado por câmeras de alta resolução e outros instrumentos para fazer imagens e varreduras detalhadas.

Endurance de Ernest Shackleton: naufrágio passa a ser Monumento Histórico

O Tratado da Antártica cultiva o passado do continente. Há vários monumentos históricos bem preservados e ainda íntegros apesar dos anos. Um deles, por exemplo, são os restos das estações baleeiras erguidas na ilha Deception. Outro, ainda mais famoso, é a base inglesa de Port Lockroy, do tempo da Segunda Guerra Mundial e aberta até hoje, com os mesmo móveis, objetos, e até latas de comida da dispensa, um dos locais mais visitados da Antártica.

Endurance de Ernest Shackleton esmagado pelo gelo
O Endurance esmagado pelo gelo. Imagem, Frank Hurley.

Não são os únicos. A cabana usada por Shackleton na expedição  do Nimrod (vc pode ver o interior em 360º), em 1908, a primeira chefiada por nosso herói ainda está de pé, em perfeitas condições.

Cabana usada por Shackleton na expedição  do Nimrod

Agora, o local do naufrágio do Endurance passa a ser outro deles. O NYT explica: Nos termos do Tratado da Antártida, o pacto de seis décadas destinado a proteger a região, o naufrágio é considerado um monumento histórico. Os submersíveis não o tocaram; as imagens e digitalizações serão usadas como base para materiais educativos e exposições em museus. Um documentário também está nos planos.

Ernest Shackleton e a Expedição Transantártica

Shackleton deixou a Inglaterra a bordo do Endurance com uma tripulação de 27 pessoas em 1914, com destino a uma baía no Mar de Weddell que deveria ser o ponto de partida para uma tentativa dele, e de um pequeno grupo, de ser o primeiro a cruzar a Antártida a pé e passando pelo polo Sul.

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Endurance de Ernest Shackleton preso no gelo
A imagem de Frank Hurley que ajudou a imortalizar a saga de Sir Ernest Shackleton.

A expedição fracassou, como se sabe, mas colocou o nome de Shackleton e seus companheiros no píncaro das expedições da fase heroica da Antártica que destacou entre outros, Roald Amundsen o primeiro a chegar ao polo Sul em 1911, numa disputa entre ingleses e noruegueses que determinou a morte de outro expoente das expedições, Robert Scott; e também Adrien de Gerlache, o belga que foi o primeiro a invernar na Antártica em 1897.

A derradeira expedição de Shackleton

Depois da fama alcançada por ter salvado toda a sua tripulação numa jornada épica, houve a derradeira expedição na qual nosso herói morre a bordo de seu navio. Foi a Expedição Shackleton-Rowett (1920-1922), com o navio Quest. Com a saída de Shackleton do cenário descia, pela última vez, a cortina da conquista da fase heroica na Antártica.

Assim é a Antártica, o continente superlativo, o único a ter três ‘descobridores’ simultaneamente.

Assista ao vídeo da descoberta do Endurance de Ernest Shackleton 
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Imagem de abertura: You Tube.

Fontes: https://www.nytimes.com/2022/03/09/climate/endurance-wreck-found-shackleton.html#:~:text=the%20main%20story-,At%20the%20Bottom%20of%20an%20Icy%20Sea%2C%20One%20of%20History’s,in%20the%20Antarctic%20in%201915; https://www.bbc.com/news/science-environment-60662541.

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