Arqueologia submarina cresce no mundo mas engatinha no Brasil
A arqueologia submarina avançou muito nas últimas décadas. Em vários países, pesquisadores contam com robôs, sonares de alta resolução, fotogrametria, veículos autônomos e redes de sensores para localizar e estudar áreas submersas. Projetos como o Ocean of Things mostram até onde essa tecnologia já chegou.
No Brasil, porém, a área ainda engatinha. Faltam recursos, estrutura, equipes especializadas e uma política mais consistente para proteger o patrimônio cultural subaquático.

E o campo vai muito além dos naufrágios. A arqueologia submarina também estuda antigas cidades, assentamentos, portos, restos humanos e paisagens que o avanço do mar deixou debaixo d’água. Um exemplo famoso está em Alexandria, no Egito, onde parte da antiga cidade permanece submersa no Mediterrâneo.

Arqueologia submarina, disciplina desafiadora
A arqueologia submarina exige muito mais do que localizar objetos no fundo do mar. Os pesquisadores precisam combinar conhecimento arqueológico com mergulho técnico, cartografia, fotografia, conservação e operação de equipamentos especializados.
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Narvais ajudam cientistas a estudar o aquecimento do ÁrticoRota do Ártico ganha serviço regular entre China e EuropaIlha dos Gatos: abandono ameaça fauna e litoral fluminenseAlém disso, o ambiente dificulta cada etapa. Correntes, marés, pouca visibilidade e mudanças bruscas no tempo podem interromper uma expedição. Quando a equipe encontra um sítio, começa outro desafio: registrar cada objeto sem alterar sua posição e interpretar vestígios que a água pode deslocar, quebrar ou cobrir com sedimentos.
Por isso, tecnologias como sonares, fotogrametria, ROVs, IA, e veículos autônomos ganharam tanta importância na arqueologia submarina. Elas permitem mapear grandes áreas e documentar sítios frágeis sem depender apenas de mergulhadores.
A conservação pode ser ainda mais complicada. A água pode ser dura em objetos já delicados, e mover um objeto recém-recuperado fica ainda mais difícil quando está submerso. Este, entretanto, não foi o caso do Endurance o navio de de Ernest Shackleton encontrado na Antártica em fevereiro de 2022.
As leis locais e internacionais
As leis locais e internacionais também orientam esse trabalho. A UNESCO, braço cultural da ONU, criou regras para proteger o patrimônio cultural subaquático. Entre elas, recomenda preservar os sítios in situ sempre que possível.
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Conheça o submarino do Juízo Final, o russo BelgorodNova filmagem do Titan mostra os destroços no fundo do marLeões marinhos ajudam cientistas a mapear o fundo dos oceanosNa prática, isso significa manter muitos achados no local onde os pesquisadores os encontraram. Além disso, as equipes muitas vezes precisam esconder a localização exata dos sítios para evitar vandalismo e saques.
Esse é o caso do fabuloso galeão espanhol San José, cuja carga incluía prata extraída de Potosí. Estimativas avaliam o tesouro em até US$ 20 bilhões e por este motivo sua localização é segredo de estado na Colômbia. Pelo mesmo motivo, o naufrágio ganhou o apelido de “Santo Graal dos naufrágios”.
Novas e velhas tecnologias
A arqueologia submarina aproveitou tecnologias criadas originalmente para outras finalidades. Segundo o estudo Recent Advances in Underwater Archaeology, dois setores tiveram papel decisivo: a exploração de petróleo e minerais na plataforma continental e a guerra antissubmarino.
A indústria offshore, por exemplo, impulsionou o desenvolvimento de sonares, sistemas de posicionamento e equipamentos capazes de mapear o relevo do fundo do mar com grande precisão. Depois, arqueólogos adaptaram essas ferramentas para localizar e estudar sítios submersos.
Hoje já se começar a usar a Inteligência Artificial na exploração submarina. E redes de sensores espalhados pelos oceanos são tão vitais que nem mesmo negacionistas poderosos como Donald Trump conseguem acabar com eles.
Novas tecnologias ampliam as descobertas
A arqueologia submarina ganhou novas ferramentas nos últimos anos. Uma delas é o lidar submarino, que usa pulsos de laser para criar modelos tridimensionais de alta resolução. Assim, os pesquisadores conseguem registrar detalhes que o sonar nem sempre mostra. No entanto, a técnica funciona melhor em águas relativamente claras e complementa, em vez de substituir, o sonar.
Esses avanços ajudam a localizar e estudar descobertas cada vez mais importantes. Um exemplo está no navio da frota de Vasco da Gama, encontrado próximo a Omã. O naufrágio, do início do século 16, pertenceu à armada comandada por Vicente Sodré, tio de Vasco da Gama. Além disso, os objetos recuperados ajudaram os pesquisadores a reconstruir detalhes das primeiras viagens portuguesas pelo oceano Índico.
O marco atual no Brasil
No Brasil, sítios e objetos arqueológicos pertencem à União. Além disso, pesquisas em patrimônio arqueológico subaquático precisam de autorização do Iphan.
Ao mesmo tempo, a Lei nº 7.542/1986, alterada pela Lei nº 10.166/2000, mantém a Autoridade Naval no controle de operações de pesquisa, remoção e salvamento de bens submersos. A legislação também prevê recompensas calculadas sobre o valor dos objetos recuperados.
Assim, o país combina regras de proteção arqueológica com normas típicas de salvamento marítimo. Além disso, o Brasil ainda não ratificou a Convenção da UNESCO de 2001 sobre Patrimônio Cultural Subaquático, que prioriza a preservação in situ e rejeita a exploração comercial desses bens.
O que pensa a Sociedade de Arqueologia Brasileira
A Sociedade de Arqueologia Brasileira, SAB, critica esse modelo há anos. Para a entidade, o país já desenvolveu pesquisa, formação e experiência em arqueologia subaquática, mas a legislação ainda trata os vestígios submersos de forma diferente dos encontrados em terra.
Além disso, a SAB questiona a lógica de salvamento marítimo e de recompensa econômica prevista na Lei nº 10.166/2000. A entidade defende que o Brasil priorize pesquisa científica, preservação e proteção do patrimônio cultural subaquático.
Uma descoberta brasileira no rio São Francisco
A arqueologia submarina também avança no Brasil, embora em escala menor. Em março de 2026, Paulo Fernando Bava de Camargo, Luis Felipe Freire Dantas Santos, Thor Gabriel Martins e Gilson Rambelli publicaram um estudo sobre um naufrágio encontrado em Neópolis, no baixo rio São Francisco, em Sergipe.
Os autores dataram a embarcação entre os séculos 18 e 19. Além disso, o estudo analisou sua estrutura e o contexto histórico da navegação no São Francisco. O achado mostra que rios brasileiros também guardam sítios arqueológicos importantes, ainda pouco conhecidos e estudados.
Imagem de abertura: NOAA ONMS
Fontes: https://www.nationalgeographic.com/culture/archaeology/underwater-archaeology/?cmpid=org=ngp::mc=crm-email::src=ngp::cmp=editorial::add=History_20190812&rid=B71B4A33397786AAA2444AAD1304EA43; https://link.springer.com/chapter/10.1007%2F978-1-4615-4145-5_6; https://www.futurelearn.com/courses/shipwrecks/0/steps/7994;









