Acidentes com submarinos, uma dramática retrospectiva

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Acidentes com submarinos, uma dramática retrospectiva

Felizmente eles são raros. Mas quando acontecem são alguns dos mais dramáticos acidentes com embarcações. É difícil alguém ficar indiferente com este tipo mortal de naufrágio no mar. Amontoados em espaço mínimo, presos em uma embarcação feita de aço e com grande tecnologia embarcada, os submarinos e seus tripulantes são incapazes de enfrentar a brutal pressão do fundo do mar. E quando perdem o controle por qualquer motivo, os submarinistas sabem exatamente o que vão enfrentar quando ultrapassarem a profundidade para a qual a belonave foi construída: um agonizante fim. Acidentes com submarinos, uma dramática retrospectiva.

Acidentes com submarinos, uma dramática retrospectiva

Nesta retrospectiva começamos com os mais recentes, até chegarmos aos mais distantes. No domingo, 25 de abril, as autoridades da Indonésia acharam o local do naufrágio do KRI Nanggala – 402, a 800 metros de profundidade, separado em três partes, e com todos os 53 tripulantes mortos.

Imagem do submarino KRI Nanggala - 402 que naufragou em Bali
O KRI Nanggala-402, em foto de 2012. Imagem, Reuters.

Aparentemente não houve explosão. O submarino perdeu controle, ainda não se sabe exatamente por qual motivo, e foi ao fundo sem conseguir adotar medidas que pudessem  trazê-lo à tona. Ao ultrapassar a profundidade para a qual foi construído, cerca de 250 metros, a pressão acabou por parti-lo em três pedaços.

De acordo com o site especializado gCaptain, ‘o submarino indonésio desaparecido estava velho e sobrecarregado’. E acrescentou: ‘Um submarino dessa classe tem capacidade máxima para 40 pessoas, de acordo com Ridzwan Rahmat, principal analista de defesa da Janes’.

‘Sua idade também não ajuda. Com mais de 40 anos, o submarino da era da Guerra Fria está entre os mais antigos do mundo em serviço hoje e não foi construído para suportar pressões além de 230 metros de profundidade, disse Ridzwan’. O analista finalizou dizendo que ‘este era um acidente já esperado’.

Conhecendo o interior de um submarino

Antes de mais um acidente na escala da história, sugerimos uma visita ao interior de um submarino para ter uma ideia real de como vivem os seus tripulantes.

Neste link você pode conhecer o interior do HMS Ocelot (em 2013 o interior do submarino foi  fotografado pelo Google Street View). É isto que você vai ver, um submarino diesel-elétrico, construído pela Inglaterra em 1964. Depois de se ambientar, então prossiga na retrospectiva.

 Losharik, submarino russo ‘de pesquisa’, julho de 2019

Em julho de 2019, um incêndio a bordo do submarino russo de pesquisa Losharik em águas profundas  matou 14 tripulantes. Cinco dos que estavam a bordo sobreviveram, de acordo com relatórios. O submarino foi recuperado e reparado.

Ilustração do submarino russo  Losharik
Ilustração, New York Times.

Na época escreveu o New York Times: ‘Um incêndio em qualquer submarino pode ser o pior pesadelo de um marinheiro, mas um incêndio no Losharik era uma ameaça de outra ordem. A embarcação é capaz de mergulhar muito mais fundo do que quase qualquer outro submarino, mas os feitos da engenharia que permitem isso podem ter ajudado a selar o destino dos 14 marinheiros mortos no desastre’.

Submarinos são armas secretas das nações mais poderosas. Por isso até mesmo acidentes com submarinos mortais são escondidos para que não sejam revelados os segredos militares.  Foi o caso deste incêndio.

Segundo o NYT,  ‘o Losharik não é um submarino qualquer. Acredita-se que seu casco interno consista em uma série de esferas de titânio que prendem a sala de controle, os beliches, o reator nuclear e outros equipamentos’.

Ao que parece, o Losharik era um projeto ultrassecreto, de um pequeno submarino preso a uma estrutura maior para missões de resgate ou espionagem.

ARA San Juan, argentino, desapareceu em 2017

O submarino diesel-elétrico argentino desapareceu durante uma patrulha, em novembro de 2017. Após semanas de esforços de busca e resgate, foi declarado perdido junto com  as 44 pessoas a bordo. Seus destroços foram descobertos no ano seguinte em cerca de 900 metros de profundidade.

Imagem do submarino argentino Ara San Juan
Imagem, https://barrio-de-tango.blogspot.com/.

Depois da descoberta do local do afundamento, foram liberadas pelo “Ministério de Defesa” diversas imagens que mostram o casco deformado pela altíssima pressão e partes que se separaram do submarino, como o eixo com as hélices.

Imagem de destroços do submarino Ara San Juan naufragado
Imagem mostra hélice e parte do eixo propulsor do submarino ARA San Juan encontrado no fundo do Oceano Atlântico. Foto da Armada Argentina.

A operação de resgate foi uma das maiores do mundo, com navios e aviões de vários países participando das buscas. O submarino estava navegando da base naval de Ushuaia para a base naval de Mar del Plata, sua estação habitual, em uma ‘rota muito aberta’. Em algum momento foi perdida a comunicação.

Assim como o submarino da Indonésia, o Ara San Juan havia sido construído na Alemanha em 1985, e passado por uma reforma quando foi cortado ao meio. Uma declaração daquela época afirmou que os arranjos prolongariam a vida do navio por 30 anos.

Acidentes com submarinos: a catástrofe do Kursk, em 2000

Em 12 de agosto de 2000, o submarino nuclear russo K-141 Kursk com mísseis  afundou no mar de Barents, após duas explosões em sua proa. Todos os 118 homens a bordo morreram.

Imagem do submarino Kursk naufragado no mar de Berents
O Kursk no mar de Barents. Imagem, Google.

Este era um navio moderno, entregue à marinha da Rússia em 1994. Ele tinha dois reatores nucleares, comprimento de 154 metros, largura de 18,2 m. O Kursk podia navegar até a 32 nós quando submerso, e a 16 nós na superfície. A profundidade para a qual foi concebido oscilava entre 300 e 500 metros.

Quando aconteceu o acidente as autoridades da Rússia só aceitaram a ajuda dos noruegueses e britânicos quatro dias depois. A justificativa era a necessidade de se preservarem os segredos militares do submarino nuclear.

Nenhuma autoridade russa admitiu que 23 marinheiros haviam conseguido sobreviver por um período de dois dias após o acidente.

Depois da explosão na câmara de mísseis, os tripulantes foram para o compartimento número nove, localizado na popa, e emitiram sinais de socorro por 48 horas, antes de morrerem sufocados por falta de ar. Aproveite e conheça os seis maiores submarinos da atualidade.

Naufrágio do K-8, mais um navio russo naufragado em 1970

Um incêndio que eclodiu a bordo do submarino de ataque soviético K-8, em 8 de abril de 1970, desativou o navio de propulsão nuclear no Golfo da Biscaia, forçando a tripulação a abandonar o submarino.

Imagem do submarino russo K 8
Imagem, https://medium.com/.

Segundo o site nationalinterest.org ‘o Golfo da Biscaia é um dos maiores cemitérios de submarinos do mundo. No final da Segunda Guerra Mundial, aeronaves britânicas e americanas afundaram quase setenta submarinos alemães U-boot  na baía, que se juntaram a um punhado de submarinos aliados e alemães afundados na região durante a Primeira Guerra Mundial’.

Em 12 de abril de 1970, um submarino soviético encontrou o mesmo local de descanso. Ao contrário dos outros, no entanto, o K-8 era impulsionado por dois reatores nucleares e carregava quatro torpedos com ogivas nucleares.

Scorpion, da marinha dos Estados Unidos, desaparece em 1968

Em maio de 1968, o submarino de ataque Scorpion da Marinha dos EUA, movido a energia nuclear, desapareceu no Oceano Atlântico com 99 homens a bordo.

Imagem do submarino USS Scorpion que afundou nos Açores
O SS Scorpion. Imagem, https://nationalinterest.org/.

O USS Scorpion, baseado em Norfolk, era um dos 19 submarinos de ataque nuclear da Frota do Atlântico, e tinha sido programado para transmitir um “Relatório de verificação” de quatro palavras – criptografado para evitar que os soviéticos o interceptassem – que significava, em essência, “Situação normal, procedendo conforme planejado. ”

Mas, em vez da mensagem, o USS Scorpion desapareceu. Os destroços foram encontrados em outubro a cerca de 400 milhas (644 km) a sudoeste das ilhas dos Açores, a mais de 3.050 metros abaixo da superfície. Existem várias teorias para o desastre: o lançamento acidental de um torpedo que circulou de volta e atingiu o Scorpion; uma explosão da enorme bateria do submarino, até mesmo uma colisão com um submarino soviético.

Acidentes com submarinos e o naufrágio do K-129, em 1968

O ano foi trágico para os submarinistas. Em plena Guerra Fria duas betonavas afundaram. Uma dos Estados Unidos, outra dos soviéticos, o K-129.

O K-129, um submarino soviético de mísseis balísticos, com propulsão nuclear, afundou em 8 de março de 1968, no Oceano Pacífico, levando consigo todos os 98 tripulantes. A marinha soviética não conseguiu localizar o navio.

Um submarino da Marinha dos EUA o encontrou a noroeste da ilha havaiana de Oahu, a uma profundidade de cerca de 4.900 metros.

Ilustração mostra resgate de submarino russo pela Cia
A ilustração mostra como teria acontecido o resgate pela CIA do K-129, na operação super-secreta conhecida como Project Azorian.

Um navio de perfuração em alto mar, o Hughes Glomar Explorer, foi capaz de resgatar parte do submarino em uma operação secreta. Os restos mortais de seis tripulantes soviéticos encontrados foram enterrados no mar.

A implosão do Thresher

Em 10 de abril de 1963, o submarino de ataque com propulsão nuclear Thresher da Marinha dos Estados Unidos foi perdido com os 129 homens a bordo. O submarino se partiu em 2.560 metros de profundidade durante testes de mergulho profundo a sudeste de Cape Cod, Massachusetts.

De acordo com as análises militares dos EUA sobre o acidente, a explicação mais provável é que uma junta de tubo em um sistema de água do mar da casa de máquinas cedeu, causando um curto-circuito nos componentes eletrônicos e provocando o desligamento do reator da embarcação que a deixou sem energia suficiente para impedir que ela afundasse.

H.L. Hunley, o fim trágico do primeiro submarino a afundar um navio

Acidentes com submarinos são dramáticos desde o primeiro que se tem notícia. Ele tinha apenas 12 metros de comprimento. Sua hélice era acionada à força de músculos humanos. O submarino usava um ancestral dos torpedos modernos com uma carga explosiva que tinha 61 Kg de pólvora negra. Era disparado através de um cano de cobre a uma distância de apenas cinco metros do casco inimigo.

O nome do primeiro submarino a afundar um navio era o H.L. Hunley, e o episódio aconteceu em 1864, durante a Guerra da Secessão.

Ilustração do submarino H.L. Hunley
Ilustração,

Depois de dois naufrágios, ele conseguiu êxito na terceira tentativa. O Hunley foi içado e reparado por duas vezes. Com uma terceira tripulação, e sob ordens para operar apenas na superfície, começou uma série de tentativas de atacar navios da Marinha dos Estados Unidos no serviço de bloqueio de Charleston.

Em 17 de fevereiro de 1864, esses esforços foram bem-sucedidos. O Hunley aproximou-se do vapor USS Housatonic e detonou  seu ‘torpedo’. O navio federal afundou rapidamente, tornando-se o primeiro navio de guerra a se perder num ataque de submarino. Mas, o submarino desapareceu…

O mistério permaneceu até 1955, 131 anos depois do feito guerreiro. Ao ser descoberto, perceberam que os tripulantes estavam em seus respectivos lugares. Numa cena macabra, seus esqueletos continuavam na mesma posição.

Segundo o estudos, com o choque contra o costado do USS Housatonic os tripulantes desmaiaram. E sem a força de seus músculos, o submarino foi para o fundo do mar.

Como se vê, apesar de sua inegável importância, desde sempre a vida de submarinistas não foi nada fácil.

Imagem de abertura: Getty Imagens

Fontes: https://www.nytimes.com/2020/04/20/world/europe/russian-submarine-fire-losharik.html; https://gcaptain.com/a-history-of-major-submarine-disasters/?subscriber=true&goal=0_f50174ef03-4d5c7ef9bc-170347750&mc_cid=4d5c7ef9bc&mc_eid=0d2c840093; https://pt.wikipedia.org/wiki/Kursk_(submarino); https://www.imdb.com/title/tt2042455/.

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7 COMENTÁRIOS

  1. Uma reportagem esclarecedora como sempre, esta cronologia é um retrato da difícil vida de quem vive abaixo da água, quando o acidente acontece é quase fatal que acidente seja irreversível. A alta tecnologia ainda não resolveu a a segurança do pessoal a bordo, parabéns mais vez pela bela reportagem, abraços.

  2. Ola Joao,

    É sempre muito bom ler seu blog!
    Uma vez em um passeio à costa oeste americana tive a oportunidade de visitar um submarino americano e nosso guia mencionou que tripulantes de submarinos teriam medidas de `ùltimo recurso` para evitar a morte por sufocamento em caso de acidente.
    Devido a presença de crianças e a natureza macabra do assunto, ele nao elaborou detalhes. Poréem minha curiosidade ficou em dia. Ele se conteve a dizer que esses recursos seriam similares aos utilizados por alemaes nos ùltimos dias de guerra.
    Ainda que o assunto seja especìfico da esfera militar, você ja ouviu algo assim? (Me perece logico e mais reconfortante que esperar o ar acabar lentamente….)

  3. Parece absurdo ainda haver submarinos navegando. Em época de alta tecnologia com controle externo com drones, controles de naves e helicópteros em Marte e aviões indetectáveis a radar sem tripulação, como pode existir ainda na Marinha essa classe. Triste saber que o próprio Brasil ainda constroi esses monstros a custo de bilhões de reais.

  4. Em uma de minhas viagens Brasil-Japão-Brasil e numa das últimas viagens da defunta VARIG no trajeto de Los Angeles-Cumbica já estávamos muito provavelmente sobre território brasileiro há cerca de três horas de Cumbica, quando de repente o Jumbo sofreu ação de wind shear e caímos algo como uns 1500 metros (ESTIMADO POR MIM) pois quem estava de pé ou sem os cintos foram lançados ao teto e bateram suas cabeças e quem, como eu estava tomando o café matinal viu de repente tudo ir para o alto. Naquele curto espaço de tempo não tive tempo sequer para pensar em morrer e se fosse realmente uma queda, não teríamos muito mais que uns 90/120 segundos de sofrimento.

    Enfim, mortes em acidentes de aviação são “quase” instantâneos, mas a morte num submarino chega a ser impensável mesmo que as morte nas UTIs sem oxigênio sejam bem análogas. Saber que vai morrer e não ter jeito para se safar….

  5. A tendencia serao submarinos drones, sem gente pra morrer. Podrao ser menores, mais eficientes, e carregar muito mais municao. Imagina 45 pessoas a menos comendo, dormindo, sujando, fedendo. Isso sem pensar em ar para respirar, depositos de comida, etc. Poderao ficar inertes a 2.ooo mts profundidade, quase que desligados, economizando energia, e serem acionados so em caso de necessidade.

    • Interessante que em Viagem ao Fundo do Mar já se propunha submarinos controlados a distância, eles o chamavam teleguiados. Os roteiristas da época já antecipavam isso. Incrível, não?

      • O ser humano é muito denso, muito frágil. Mesmo em viagens espaciais será muito melhor enviar robôs com funcões humanas. Tipo humnos mas que não precisam comida e ar. Precisam graxa e baterias. Até um robô pode concertar outro que da pane. Concertar as máquinas de funcionamento da nave. Além de que robô não surta, nem adoece com as mudancas de ambiente fora da terra. Levar humanos encarece a viagem e tem de se ocupar com muito trabalho para manter o viajante vivo.

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