Litoral gaúcho ameaçado por erosão

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Litoral gaúcho ameaçado por erosão e avanço do mar

Todo mundo sabe que vivemos um problema de dimensão gigantesca para a humanidade: o aquecimento global. Mas, infelizmente, no Hemisfério Sul esta ameaça é sistematicamente ignorada por nossos gestores e grande parte da população. A erosão é fenômeno natural no litoral mas, com o aquecimento, é anabolizada pelo avanço do mar e pelos eventos extremos cada vez mais fortes e mais frequentes. Agora pesquisadores da FURG – Universidade Federal do Rio Grande alertam para as dramáticas consequências no litoral gaúcho.

Imagem de erosão no litoral gaúcho
A erosão que aos poucos destrói o Hermenegildo. Imagem, arquivo MSF.

Litoral gaúcho ameaçado por erosão

O Mar Sem Fim vem denunciando os problemas faz tempo. Mas quase não vemos ação do poder público que finge que o aquecimento do planeta não é conosco. O resultado da omissão na zona costeira é que a erosão  já atinge perigosos 60% do nosso litoral.

O novo alerta é de especialistas da Furg. Eles chamam a atenção para três pontos do litoral gaúcho considerados os mais dramáticos para o processo de erosão e avanço do mar. São os chamados hotspots erosivos.

Segundo matéria do site gauchazh.clicrbs.com.br, ‘dois deles, o balneário Hermenegildo, em Santa Vitória do Palmar, e o Farol da Conceição, em São José do Norte, vêm sendo acompanhados há mais de 30 anos por pesquisadores da Furg.

Já o ponto mais recente identificado pelos especialistas fica em Mostardas, no litoral médio do Estado, local de uma beleza abandonada, o Parque Nacional da Lagoa do Peixe.

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Redução da faixa de praia no Farol da Conceição

De acordo com a matéria do gauchazh.clicrbs.com.br, entre 1984 e 2020 a faixa de praia na altura do Farol da Conceição foi reduzida em 150 metros. A erosão provocou a queda do farol. Seis anos depois, diz o texto, uma tempestade destruiu a antiga casa do faroleiro.

Imagem de erosão no litoral gaúcho
Imagem, gauchazh.clicrbs.com.br.

O oceanólogo Lauro Calliari, do Núcleo de Oceanografia Geológica da Furg, foi ouvido pelo gauchazh: 

O Farol da Conceição é o ponto com maior taxa de erosão do Estado, mas fica numa região sem moradores. Por isso, o primeiro ponto mais preocupante é o balneário Hermenegildo (com taxa de erosão anual entre 2m e 3m), porque tem urbanização e erosão costeira

Neste ponto a erosão é considerada natural por não ter a influência da mão humana. Uma das explicações para o avanço do mar é a concentração de energia de ondas no local devido à morfologia submarina.

Nas tempestades é comum a altura das ondas chegarem aos cinco metros na costa gaúcha. Em eventos extremos elas podem alcançar 10 metros, ou até mais.

Erosão entre Quintão e Torres

Para situar o leitor, Torres (cerca de 40 mil habitantes) fica na divisa do Rio Grande do Sul com Santa Catarina. Nesta região, diz a matéria, os processos erosivos em razão de tempestades já são capazes de destruir os calçadões e provocar alagamentos nas áreas urbanizadas.

Faixa de recuo em todo o litoral gaúcho

Calligari sugere estabelecer uma faixa de recuo em todo o litoral gaúcho. Mas, para os litorais central e sul, o professor sugere evitar a ocupação próxima das dunas frontais das áreas menos desenvolvidas.

Planície costeira gaúcha drenada nos anos 70

Quando visitamos a primeira vez o litoral gaúcho várias questões nos impressionaram. Uma delas é que a planície costeira gaúcha foi drenada nos anos 70 do século passado para que a região pudesse ser usada em reflorestamentos de pinus e eucalipto.

Imagem de reflorestamento na costa gaúcha
O reflorestamento em toda a planície costeira gaúcha custa muito caro. Perda de biodiversidade acelerada. Imagem, arquivo MSF.

De Torres até o final da restinga que separa a Lagoa dos Patos do mar, os reflorestamentos foram feitos em áreas de dunas. Para tanto os alagados, atrás, foram drenados!

Esta ação desastrada trouxe duas sérias implicações. A vegetação que fixava as dunas frontais na costa do Estado morreu sem a água.

Agora, quando entra o nordestão, suas areias voam para o interior. Ao mesmo tempo, um sem-número de animais, especialmente mamíferos, anfíbios e répteis que habitavam as áreas úmidas, diminuiu drasticamente.

Imagem da planicie costera gaúcha
Com ausência de vegetação as dunas frontais passaram a jogar cada vez mais areia para a planície costeira. Imagem, arquivo MSF.

Este problema acontece em quase toda a costa gaúcha, mas pode ser melhor observado no Parque Nacional da Lagoa do Peixe, cujas lagoas estão sendo assoreadas pela areia raramente atingindo mais de um metro de profundidade.

Litoral gaúcho: erosão no Hermenegildo

Hermenegildo fica quase na divisa do Brasil com o Uruguai, a poucos quilômetros do Chuí. Quando foi loteado pela especulação imobiliária as casas foram construídas em cima de dunas. Dunas têm uma porção de funções.

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Imagem de erosão no litoral gaúcho
As casas do Hermenegildo são tragadas pelo mar. Imagem, arquivo MSF.

Elas não estão onde estão por acaso, mas em razão dos elementos naturais de determinada região: ventos, marés, ressacas; e ainda as subidas e descidas do mar.

Elas protegem a costa contra a erosão natural, asseguram a qualidade da água dos lençóis freáticos ao agirem como filtros da água da chuva. E ainda são um importante ecossistema para a flora e a fauna.

A função das dunas

Uma das funções das dunas é devolver a areia da praia que as ondas, ressacas, e a erosão natural tiram daquele espaço. O vento leva grãos de areia das dunas para o mar. As ondas devolvem estes grãos para as praias, assim mantendo o que os acadêmicos chamam de ‘equilíbrio dinâmico’.

Ao impedirem que esta função continue, em razão da construção em cima das dunas, o processo de erosão acelera. E quando vem as ressacas, a praia é “comida” sem ter a reposição natural. Foi o que aconteceu no balneário Hermenegildo que está sendo tragado pelo mar.

Erosão no Balneário Mostardense

A matéria do gauchazh.clicrbs.com.br diz que o geógrafo Rodrigo Simões mostra indícios de que o Mostardense é um novo hotspot erosivo do litoral gaúcho. No local o mar vem avançando entre 3m e 4m ao ano.

Para o pesquisador, ‘o Balneário Mostardense pode ser como o Hermenegildo no futuro, com problemas socioambientais decorrentes da associação de ocupação costeira não planejada em uma área de hotspot erosivo’.

Ilustração mostra processo de erosão no litoral gaúcho
Ilustração, gauchazh.clicrbs.com.br.

‘O processo de ocupação do Balneário Hermenegildo começou a se intensificar a partir da década de 1940, quando esses conceitos ainda não eram bem conhecidos’.

‘No momento atual, com a grande gama de ferramentas e conhecimentos adquiridos sobre esses processos costeiros nas últimas décadas, o poder público e a sociedade civil deveriam aplicá-los para evitar tal situação. Se um plano de manejo alinhado aos conceitos da geomorfologia costeira não for implementado no local, mais casas serão destruídas.’

Acontece que a sociedade pouco se comove com os problemas do litoral. E o poder público só age quando pressionado. Portanto, devemos continuar a ver a destruição não só em Mostardas, mas em quase todo o litoral do País.

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Mapeamento e ação judicial

Para concluir, a matéria do site gauchazh.clicrbs.com.br informa que ‘segundo o prefeito de Mostardas, Moisés Pedone, desde 2009 tramita na 9ª Vara Federal de Porto Alegre uma ação civil pública contra o município, que busca mapear as áreas de proteção permanentes (APPs) de Mostardas’.

Imagem mostra mar mais perto da cidade costeira
O mar cada vez mais perto…Imagem, MSF.

‘Entre os problemas apontados pelo Ministério Público Federal estão as residências construídas em terrenos próximos aos balneários, definidos como de preservação. O objetivo do MPF, autor do processo, é evitar que o modelo de ocupação em Mostardas siga os exemplos de outros municípios do Litoral Norte, considerados predatórios ao meio ambiente’.

E conclui: ‘Um dos primeiros resultados da ação judicial foi o mapeamento da zona costeira feito pelo Núcleo de Estudos de Monitoramento Ambiental (Nema) a partir de um convênio com o Executivo municipal. A sentença final do processo deveria ter ocorrido em março de 2020, mas foi adiada devido à pandemia’.

A contribuição do ministério do Meio Ambiente na gestão Bolsonaro

Como dissemos acima, os problemas de erosão no litoral não são novos. Mas ao menos eram acompanhados pelo ministério do Meio Ambiente até 2019 quando assumiu Bolsonaro et caterva.

O MMA tinha dois planos em ação: o Programa Nacional para Conservação da Linha de Costa – Procosta, elaborado pelo Ministério do Meio Ambiente desde 2018; e o Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima (PNA), criado em 2016; ambos foram engavetados pelo ex-ministro Ricardo Salles que nada colocou no lugar.

O medíocre Brasil de Bolsonaro conseguiu a façanha de alçar ao ministério um cidadão que não acredita que o aquecimento global seja consequência da superpopulação mundial, além de ser  ignorante nos assuntos da pasta.

Não à toa nossos biomas terrestres são desmatados contando com a leniência federal, e o marinho, poluído, pobre em vida marinha, mas forte o suficiente para tragar cidades ao longo da costa, entre muitos outros problemas.

Imagem de abertura: arquivo MSF

Fonte: https://gauchazh.clicrbs.com.br/comportamento/verao/noticia/2021/01/pesquisadores-da-furg-alertam-para-o-avanco-do-mar-na-costa-gaucha-ckk8t89qm001b017wfi7pirqp.html.

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Comentários

6 COMENTÁRIOS

  1. Parabéns Estadão e parabéns Mar Sem Fim. As informações do artigo, sua construção, explicações a alertas são excelentes fontes para o Brasil ficar sabendo dos problemas ambientais da imensa e belíssima área de restinga do litoral do RS. Contudo, trago a seguinte questão ao autor: é claro que, diante do clima de pesadelo político e ambiental atual (2021) e tudo que vem antes, é impossível não trazer para o texto um tom crítico mais contundente. Porém, ao introduzir nos últimos parágrafos adjetivações ao governo atual e seus órgãos ambientais, isto facilmente se transforma no tipo de manifestação que pode justamente limitar o alcance do artigo – que fica vulnerável a ataques ao autor (de que seria parcial, ideológico, partidário, etc.). O que eu acho uma pena. Temo que diversas pessoas a quem eu já indiquei o artigo desconsiderem tudo o que foi lido antes e não repassem o artigo, apenas por duas ou três palavras dispensáveis. O governo atual passará, mas a região e o meio ambiente precisarão de um amplo leque de pessoas que se informem e passem a compreender melhor sobre com lidar com as questões ambientais que estão postas. Parabéns ao autor pelo artigo e que continue trazendo para nós informações tão urgentes e necessárias.

    • Luciano, obrigado pela mensagem. Mas antes que me esqueça, explique porque não devemos criticar as políticas governamentais. Por acaso o ‘mito’ é inatacável? Democracia não pressupõe críticas? Quem determinou o desmonte da legislação ambiental? Não sei o motivo deste ‘não me toque’ quando se trata de criticas a Bolsonaro. Nenhum presidente recente deixou de ser criticado. Por que só à ele não valem as críticas?

      • Acho que se trata de uma questão global e não apenas local. Se todos conspiram para que problemas ambientais ocorram, privilegiando a economia em detrimento do ambiente, porque queimar o Bolsonaro???? Só ele?….
        E porque compraram terrenos em dunas? Foi o Bolsonaro o corretor?
        E lembre-se que você escreve expondo os problemas ambientais ou escreve para criticar um governo eleito por cerca de 57 milhões de votos????

        • Geraldo: assim como há jornalistas especializados em economia, esportes, ou assuntos internacionais, há os como eu, especializados em meio ambiente. Há mais de 30 anos atuo na área. É meu dever, queriam ou não os fanáticos pelo inquilino do Palácio do Planalto, criticar a política ambiental do meu País. E se isso envolve o chefe das rachadinhas, pior pra ele e pra seus seguidores. Quem não quiser que não leia. Democracia, torno a dizer, é assim que se faz. Ameaçar dar golpes porque foi contrariado é ‘coisa de maricas’.

  2. “Todo mundo sabe que vivemos um problema de dimensão gigantesca para a humanidade: o aquecimento global.”‘ Discordo. Desde sempre a humanidade tem invadido os limites marítimo ampliando cidades, construindo novas ilhas, vulcões recriam nossa geografia ano após ano. E, logicamente, as aguas invadidas vão se deslocar e invadir regiões mais baixas.

    • O seu argumento não faz sentido. Quer dizer que, só porque em alguns poucos lugares há construção de ilhas e “invasão dos limites marítimos” quer dizer que o aquecimento global, estudado por centenas de renomados cientistas, é uma conspiração global? Um argumento não invalida o outro em absolutamente nada, mas a sua lógica leva a crer isto.

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