Indústria de salmão do Chile, perigosa e insustentável

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Indústria de salmão do Chile, perigosa e insustentável

Se você aprecia este peixe, e preza sua saúde, leia o texto até o final. A aquacultura é apresentada como uma das soluções para a alimentação mundial até 2050. O Mar Sem Fim tem dúvidas. A atividade aquícola em território chileno começou no início do século 20. Ela surgiu e cresceu no mundo em razão da depredação dos recursos marinhos explorados de forma insustentável como temos denunciado. E é por este motivo, o fim inexorável das espécies marinhas selvagens, que temos estudado o assunto há muito tempo. Este site tem dezenas de matérias sobre a indústria mundial da pesca e seus excessos, ao mesmo tempo em que há muitas  sobre a criação de peixes. Hoje o assunto é a indústria de salmão do Chile, perigosa e insustentável.

Imagem da indústria de salmões do Chile
Gaiolas no mar para criar o salmão nas águas prístinas dos Canais da Patagônia. Imagem, WWF Chile – Denisse Mardones.

Indústria de salmão do Chile, perigosa e insustentável

Recentemente publicamos o post Tilápias ou Saint Peter, criação é ideia de jerico, comentando o plano do governo Jair Bolsonaro de transformar as represas de 73 hidrelétricas do País em grandes criadouros artificiais.

A maioria deles para tilápia, uma espécie não oriunda do País mas da África, como se fosse apenas jogar os peixes nos tanques e esperar a colheita. Mas não é bem assim…tanto que a Argentina foi o primeiro país do mundo a proibir a criação de salmão nas águas prístinas da Terra do Fogo.

Nossa crítica foi severa e o post chamou a atenção do público leigo que se manifestou através de comentários, quase todos demonstrando desconhecimento do problema como acontece nas redes sociais.

Isso nos estimulou a uma pesquisa sobre a criação de salmões pelo país vizinho. Não é a primeira vez que abordamos a criação de salmões no Chile. E também mostramos problemas na criação da espécie no Canadá quarto maior produtor mundial onde salmões em cativeiro nasciam com deformações.

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Em nossa viagem à Antártica mais de dez anos atrás fizemos questão de parar em uma fazenda chilena nos canais da Patagônia, quando mais uma vez alertamos para os problemas.

De Puerto Natales para Ushuaia

Este é o título do post em que comentamos a visita a uma fazenda de criação de salmões, maio de 2011, na altura da ilha Capitão Aracena nos canais chilenos. O diário de bordo resgata a primeira impressão:

Imegm de tanques de criação de salmões
A fazenda visitada pelo Mar Sem Fim.

A maricultura ainda é um problema não resolvido no mundo. A razão é muito simples: a ração usada nas fazendas é feita à base de farinha de peixes. Espécies até agora sem valor econômico, deixadas de lado pelas frotas industriais, passaram a ser capturadas para serem transformadas em alimento para as criações. Para cada quilo de farinha é preciso entre três e quatro quilos de peixes. Com isto o volume da carne produzida é sempre menor que o total consumido como alimento.

Lembramos outros problemas da criação de peixes

No mesmo texto, lembramos outros problemas da criação de peixes em cativeiro: A maricultura ainda traz dois outros problemas: poluição da água, e conflitos sociais com os pescadores artesanais chilenos.

E ainda fizemos relação com a insustentável criação de camarões no Nordeste do Brasil. A história é interessante. Tudo faz lembrar a carcinicultura, criação de camarões em cativeiro, praticada no Nordeste brasileiro. Um escândalo ambiental que ajudei a denunciar, ao produzir a série Mar Sem Fim para a TV Cultura, desde 2005.

Vamos ver agora o que descobrimos ao estudarmos a questão chilena.

Indústria de salmão do Chile

Do ponto de vista econômico pode-se dizer que a criação de salmão é um sucesso. Hoje o Chile é o segundo maior produtor mundial perdendo apenas para a Noruega.

Imagem de carne de salmão
Imagem,https://www.eldesconcierto.cl.

De acordo com o site www.eldesconcierto.cl ‘em 2018, foram embarcadas 829 mil toneladas, do sul do país para mais de 70 destinos, entre Estados Unidos, Japão e Brasil. Tudo no valor de US$ 5.157 bilhões, segundo informações do Banco Central do Chile’.

US$ 5 bilhões de dólares em vendas externas transformou a criação de salmões no segundo item de exportação do Chile, empregando 70 mil pessoas e só perdendo para o cobre a locomotiva econômica do país.

Como foram organizadas as fazendas chilenas

Elas nasceram no Chile com subsídios do governo para impulsionar o desenvolvimento econômico dos rincões mais pobres, em especial no sul do país. Esta é uma região pobre mas extremamente importante do ponto de vista geopolítico com acesso direto à Antártica, e sempre em disputa com a Argentina. Mas, mesmo com subsídios, até meados dos anos 80 era ainda uma indústria incipiente.

Ali viviam pescadores artesanais que, em muitos casos, acabavam migrando para a capital em razão da decadência da pesca e da falta de infraestrutura ou outras opções econômicas.

Para frear o êxodo, o governo chileno fomentou a criação de salmões desde o início do século 20, procurando importar ovas de diferentes espécies de salmão e partir para a prática.

Foram anos de erros e acertos. Até que finalmente as criações decolaram. Mas, o custo ambiental e com quais tipos de empregos gerados; é o que se verá abaixo.

Os tipos de salmões criados no Chile

Foram três as espécies escolhidas. O salmão do Atlântico, o salmão do Pacífico ou cocho, e a truta arco-íris, todos cultivados na região de Puerto Montt e Punta Arenas, em especial no arquipélago de Chiloé próximo a Puerto Montt.

Além do motivo geopolítico, a escolha do sul do Chile para as criações deveu-se também a fatores naturais como a corrente de Humboldt oriunda da Antártica que traz muitos nutrientes em suas águas frias, o que favorece a proliferação de outras espécies de peixes.

Como o salmão é uma espécie carnívora, ele se alimenta de peixes portanto, sua criação em grande escala exige que seja próxima a um local com abundância de peixes que serão o seu alimento.

Além disso era preciso mão de obra barata para tocar os empreendimentos que nasceram para serem itens de exportação. Esta mão de obra barata veio na forma dos ex-pescadores artesanais que, sem outra opção, migraram para as fazendas.

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As matérias que deram base a este post

Pesquisando na net chilena encontramos um artigo de Florencia Ortúzar, advogada pela Pontificia Universidad Católica de Chile com mestrado em Política e Regulação Ambiental pela London School of Economics.

Outro artigo, também de chilenos, é o de Francisca Quiroga, publicado em 2019 no site Biennes Comunes.

Um terceiro é uma tese de mestrado de Jonhathan Cunha Santos Wagner, da Universidade Federal de Santa Catarina, intitulado A Produção/Exportação de Salmão no Chile E Sua Importância Para o Comércio Mundial.

Dos três, dois são de especialistas chilenos, outro da academia no Brasil. Os chilenos condenam com veemência e abundância de provas a continuidade das criações. O terceiro, concorda com estes aspectos, mas defende o prosseguimento das fazendas.

Tese de mestrado do brasileiro Jonhathan Cunha Santos Wagner

O mais completo deles é a tese do brasileiro Jonhathan Cunha Santos Wagner. Sua tese tem 64 páginas onde o autor disserta sobre, entre outros, os aspectos da história da pesca no país, a inserção do salmão, um apanhado da produção, e os impactos ambientais e econômicos.

Logo no resumo o autor informa que “a tese aborda a produção/exportação de salmão no Chile e sua importância no comércio mundial, tendo como base o litoral sul chileno, local com as condições físicas necessárias para a produção.”

“As regiões produtoras têm sofrido com diversos impactos socioeconômicos que afetam a qualidade de vida e o meio ambiente, em decorrência de uma produção ainda muito depredadora e sem os reais retornos para esses territórios até então mais pobres do Chile.”

Mas apesar da produção ainda muito depredadora e sem os reais retornos para esses territórios  o autor se mostra favorável às criações: “não acredito que os impactos negativos levem a pensar que a indústria deva ser interrompida, longe disso.”

“Porém, acredito que muitos elementos devam ser modificados e aperfeiçoados para que não interfiram na sustentabilidade dessa atividade, pois independentemente da existência desses impactos negativos, essa atividade movimenta boa parte da economia chilena.”

Os impactos ambientais e socioeconômicos

Os leigos imaginam que a criação de peixes seja parecida com a de bois ou plantas. Solta-se o animal ou a semente, espera-se a sua engorda ou crescimento para então fazer a colheita ou abate e a venda. Simples assim.

imagem de fazenda de salmão no Chile
As gaiolas nos fijords chilenos. Imagem, Vreni Häussermann.

Acontece que a história nos ensina que a domesticação de plantas e animais selvagens começou milhares de anos atrás. Os primeiros foram os cachorros e gatos há 135 mil anos.

Logo depois chegou a vez do gado, com o zebu há 10.500 anos na Ásia. A criação de aves teria começado no Egito, 4.500 anos atrás com o ganso. Já as primeiras plantas domesticadas como o trigo, de que depende a população mundial hoje, ocorreram no Oriente Médio há mais ou menos 11 mil anos.

De lá para cá, não se fez outra coisa a não ser melhorar estas culturas com altas doses de ciência e tecnologia de modo que pudessem alimentar a população mundial. Uma história que remonta ao período pré-neolítico e que demorou muito até se sofisticar como hoje a conhecemos.

Já a aquacultura intensiva é atividade recente, excluindo criações rudimentares como na cultura marajoara, entre outras, na era pré-colombiana cerca de 3.500 anos atrás. Naquela época os habitantes simplesmente fechavam lagos onde havia peixes para que de lá não saíssem. Assim, quando a pesca não era suficiente para alimentar a população bastava pegá-los.

Acontece que a aquacultura hoje praticada é intensiva, e não teve ainda a aplicação de doses de ciência e tecnologia suficientes para superar seus problemas.

A recente atividade da criação de peixes selvagens apenas engatinha. E traz em seu bojo problemas ainda não resolvidos em nenhuma parte do mundo, ao menos para peixes do mar.

Breve comparação com a agricultura e pecuária modernas

Tomemos o caso brasileiro. Aqui a agricultura alcançou a enorme produtividade atual depois de muito investimento em ciência e estudos de campo, desenvolvidos pela Embrapa, e por empresas multinacionais como a Monsanto, por exemplo.

São empresas altamente tecnológicas que estudaram o solo para cada cultura, modificaram sementes, desenvolveram adubos especiais, melhoraram a genética de sementes, etc.

Só depois a agricultura brasileira atingiu o estágio atual quando, num período de pouco mais de 40 anos, a produção de grãos cresceu quase seis vezes  pela produtividade e não por aumento da área cultivada. Nossa agricultura é motivo de orgulho e  ainda deixa a pecuária bem atrás na  produtividade por  não ter incorporado tanta tecnologia como no caso dos grãos.

E isso apesar do boi ter sido domesticado há mais de dez mil anos. É provável que um dia alcancemos a mesma produtividade na criação de peixes, mas até que isso aconteça é preciso ir devagar com o andor porque o santo é de barro.

Os problemas apontados pelos especialistas

Florencia Ortúzar começa seu texto com o seguinte parágrafo: “Na ausência de regulamentação estatal, a produção maciça de salmão deixa para trás poluição química, áreas marinhas sem vida. Danos a outras espécies e danos sociais a pessoas e comunidades que dependem da indústria e do mar para seu sustento. A situação pode piorar à medida que a indústria ameaça se deslocar para novas áreas de águas prístinas (discute-se no momento a possibilidade de autorizações para fazendas ao redor do cabo Horn).

Já o texto de Francisca Quiroga, sob o título Salmão no Chile: histórias de uma indústria polêmica e milionária, abre desta forma: “De acordo com todas as previsões, a aquicultura desponta como uma das principais soluções alimentares do mundo até 2050. Apesar disso, a criação de salmão continua sendo fortemente criticada no Chile. O acúmulo de desastres ambientais e de saúde lançou dúvidas sobre a imagem da indústria do salmão no Chile.”

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Ou seja, as três fontes começam seus textos apontando os desastres ambientais no país vizinho produzidos pela criação de salmões.

Entenda os motivos do desastre ambiental

Francisca Quiroga nos informa que “o primeiro episódio público veio à tona em 2007. Neste ano a superpopulação de salmão em incubadoras levou ao surto do vírus ISA. O evento desencadeou a pior crise de saúde da história da indústria nacional e deixou mais de 15 mil pessoas desempregadas.”

“Em 2016,  9.000 toneladas de salmões mortos foram despejadas no Mar de Chiloé, intensificando a maré vermelha a níveis nunca antes vistos, o que causou mortes sem precedentes de peixes e uma profunda crise social e econômica.”

Até hoje não foram resolvidos os problemas das criações intensivas

Note-se o primeiro grande impeditivo. Até hoje não foram resolvidos os problemas das criações intensivas sujeitas a dezenas de vírus mortais.

E a cada vez que um deles contamina um dos tanques as criações são quase extintas e, junto com os peixes mortos, deixam um rastro de mais mortandade nos peixes selvagens que vivem nas imediações: intensificando a maré vermelha a níveis nunca antes vistos, o que causou mortes sem precedentes de peixes.

‘Pesticidas, corantes, fungicidas e outros produtos químicos que melhoram a produção’

Florencia Ortúzar corrobora: “Esses salmões em cativeiro são alimentados com pellets, espécie de pílula que, além dos peixes selvagens transformados em farinha de peixe, contêm pesticidas, corantes, fungicidas e outros produtos químicos que melhoram a produção. Muitas destas pílulas não são consumidas e caem no fundo do mar.”

“Além disso, cada salmão é injetado com uma quantidade exorbitante de antibióticos (até 5 mil vezes mais que a usada na Noruega). Por fim, os resíduos gerados pelos peixes, como contêm os produtos químicos fornecidos também se acumulam no fundo do mar. Mais de 20 anos dessas práticas causaram zonas mortas onde a vida não é mais possível.”

Atenção especial a você que consome salmão no Brasil. Na verdade você não come salmão, mas uma ‘bomba química’ produzida no Chile que, além do mais, é insípida.

Salmões selvagens é mais uma espécie que se despede de nosso estilo insustentável de viver, à beira da extincão.

De acordo com o jornal The Independent (janeiro de 2021), na sugestiva matéria Should we still be eating fish? (em tradução livre, Ainda devemos comer peixe?) ‘em 2018, a última pescaria de salmão selvagem na Escócia, no rio Spey, foi encerrada porque havia poucos peixes para pescar. Com esse fechamento, todo o salmão escocês passa a ser cultivado’.

Salmão criado na Escócia

Pior que isso. O Independent  alerta que ‘uma razão pela qual agora há tão poucos salmões nos rios escoceses é a prevalência moderna de piolhos do mar, que floresceram nas fazendas de criação e são facilmente transmitidos às populações selvagens’.

Mesmo na Escócia, onde o salmão é um peixe nativo, as fazendas contribuíram para o fim da espécie selvagem.

O jornal informa que ‘a indústria de criação de peixes está agora sob enorme pressão para lidar com o aumento dos piolhos que afetam seus estoques, enquanto os eventos de mortalidade em massa também se tornaram comuns devido à proliferação de algas em águas mais quentes’.

É mais uma prova de que as críticas deste site à criação de tilápias não é política, está em sintonia com o que pensam os especialistas.

‘Elementos químicos somados a uma elevada quantidade de antibióticos’

A tese de Jonhathan Cunha vai na mesma direção, apesar do autor se declarar favorável à continuidade das fazendas: “As altas concentrações de elementos químicos, somados a uma elevada quantidade de antibióticos aplicados aos salmões como dietas para combater enfermidade, sem o suficiente conhecimento do seu real impacto ao meio ambiente.”

E acrescenta: “Outro sério impacto é causado pelos dejetos oriundos dessa atividade, somente 12% das indústrias de salmão tratam de forma correta suas águas, sem contar com os objetos sólidos que se acumulam no fundo das jaulas que são retirados pelas variações de marés, causando a diminuição do oxigênio e da biodiversidade.”

Mas, para além disso, os três autores concordam que os elementos químicos usados nos tanques de produção vazam para o mar provocando mortandade de peixes selvagens e até mesmo zonas mortas no mar.

É a hora para nos lembrarmos que a criação de peixes do mar nasceu em razão da finitude tida para breve da vida selvagem marinha. Mas, ao que parece, as criações matam mais peixes selvagens via a poluição química dos ambientes onde se encontram os tanques de criação.

Mas isso não é tudo.

A alimentação da indústria de salmão do Chile é feita com peixes selvagens

Este é o grande ‘X’ da questão. A absoluta insustentabilidade das criações citadas por três especialistas. Começamos com Florence que diz: “A criação de salmão no Chile nunca será sustentável porque requer muito mais proteína do que gera. Para produzir um quilo de salmão, são necessários cerca de 5 quilos de peixes selvagens para alimentação. Isso ocorre porque o salmão é uma espécie introduzida e carnívora.”

Jonhathan Cunha concorda: “No entanto o desenvolvimento da aquicultura está longe de diminuir a depredação dos recursos marinhos nativos. Ela foi incrementada para servir de alimento para salmão cultivado, acarretando outros impactos ambientais no ecossistema…”

Jonhathan expõe o problema da alimentação das criações: “…Por fim, alimentar salmões para sua produção tem se tornado um problema de segurança alimentar mundial, pois cada quilo de salmão demanda 2,5 a 5 quilos de peixes como alimentos.”

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Para cada quilo de salmão produzido são necessários entre 2,5 até 5 quilos de peixes comuns! Até uma criança percebe que a conta não fecha. É apenas uma questão aritmética. Não à toa, as criações mesmo por quem ainda as defende tem se tornado um problema de segurança alimentar mundial.

Sobre o escape de peixes de criação

Esta foi outra questão que apontei como problemática na criação de tilápias no Brasil, e na criação de qualquer espécie não nativa como acontece com o salmão no Chile. Aumenta a já acelerada perda de biodiversidade do planeta que, ao lado do aquecimento global, é o maior problema que a humanidade enfrenta hoje.

Florencia Ortúzar: “Outro problema sério é que os salmões freqüentemente escapam de suas gaiolas. Segundo relatório da ONG Terram, os vazamentos no Chile representam 1,5% da produção, o equivalente a mais de 9 mil toneladas por ano.”

“Alguns estudos mostram que esse percentual pode chegar a 5%. Embora por lei as fazendas devam ter planos de recaptura, eles geralmente não têm sucesso. O salmão é uma espécie agressiva que, quando liberada, compete com os peixes locais por alimento e alimento, transmitindo-lhes doenças.”

Francisca Quiroga: ” Em 2018, uma fuga de quase 700.000 salmões, a partir das gaiolas de criação, causou um novo problema ambiental com consequências até então desconhecidas, mas que, segundo as previsões dos cientistas, poderia colocar em risco as populações de espécies nativas.”

Jonhathan Cunha: “Os salmões que escapam dos tanques de cultivo ameaçam as espécies nativas, pois competem por habitat, por ser um peixe carnívoro.”
“A quantidade de antibióticos usados e a importação de ovas de distintos países acabam se caracterizando como um real portador de doenças e anticorpos para as espécies nativas, pois se relacionam com as mesmas, resultando em uma mudança genética para melhor se adaptar ao meio natural.”

Os conflitos sociais

Vamos ao que disse Florencia Ortúzar: “Anos de más práticas das empresas e a falta de controle governamental resultaram em graves danos ambientais, com graves consequências sociais para quem vive do pescado. Na Ilha Grande de Chiloé, por exemplo, há uma crise social relacionada à catástrofe ambiental gerada em grande parte pela indústria do salmão, que é muito intensiva na região.”

Agora quem escreve é Francisca Quiroga: “Apesar dos grandes números, o crescimento da indústria do salmão no Chile tem sido e é altamente questionado por setores da sociedade civil ligados à ciência, organizações de pescadores, organizações de proteção ambiental e habitantes das regiões sul de onde essas empresas operam.”

Finalmente, com a palavra Jonhathan Cunha: “Os impactos socioeconômicos que recaem sobre as regiões produtoras, além da migração ocasionada pelo desemprego em decorrência da chegada do aparato tecnológico, afetam a pesca artesanal devido à redução dos recursos marinhos, obrigando que as famílias sejam assalariadas nos centros de cultivo, por salários relativamente baixos.”

E sobre a qualidade destes empregos, diz Jonhathan Cunha: “É visível que essa nova indústria oferece novos postos de trabalho, no entanto, se caracterizam como sendo precários e de baixa qualificação, tanto é que os postos de trabalho com maior nível de profissionalização são ocupados por pessoas de regiões consideradas mais desenvolvidas.”

O depoimento de um pescador artesanal chileno

Jonhathan foi além, e conta na página 47 de sua tese um emblemático encontro com um pescador. “Durante uma das minhas passagens pelo Chile, mais especificamente na cidade de Pichilemu, litoral centro sul, antes mesmo do início desta pesquisa, conheci um pescador natural de Chiloé, que estava trabalhando em Pichilemu há alguns anos.”

“Perguntei o motivo de estar trabalhando em Pichilemu na pesca, já que o litoral sul é caracterizado pela grande quantidade de peixes. Ele me respondeu que a pesca artesanal e industrial ao sul do Chile foi aniquilada pela indústria do Salmão e que as condições de trabalho nas empresas eram totalmente insalubres e pouco remuneradas, o que fez com que migrasse para Pichilemu com a família e começasse a trabalhar na pesca industrial de Bacalhau, no litoral central do Chile.”

A mesma crítica é feita no Brasil na criação de camarões em cativeiro. O lucro vai para poucos produtores. O prejuízo fica com os nativos que se alimentam do que o mangue (extirpado) produzia, já os trabalhadores das criações têm salários baixos, empregos temporários, e muitos sequer são contratados.

Indústria de salmão do Chile, com quem fica o lucro?

No início do processo eram apenas empresas chilenas. Com o tempo, e o crescimento, o capital internacional entrou no negócio. Jonhathan Cunha informa em seu trabalho que  ‘o capital internacional sustenta a maior parte das empresas que operam no setor. Isso está associado à aquisição de grande empresas internacionais de toda a cadeia produtiva, ou seja, uma empresa controla desde a produção nos tanques, alimentos para os peixes, até a produção e exportação’.

E acrescenta ‘que a introdução de tecnologia nos sistemas de operação e produção para maior qualidade e competitividade em âmbito internacional resulta, no entanto, em impactos negativos que se fazem presentes e visíveis, a começar pelo lucro que as 27 empresas internacionais adquirem e não são repassados para a região produtora e sim para o país de origem’.

Com isso fica claro que a criação de salmão no Chile pode ser boa fonte de lucros para o capital internacional e uma parte menor para o capital nacional. Para o país de origem sobram conflitos sociais e ambientais, e mais depredação da vida marinha selvagem. Além de eternizar a pobreza das regiões escolhidas para a produção que supostamente seriam favorecidas.

Faz sentido?

E, então, a indústria de salmão do Chile é sustentável?

Em resumo, são estes apenas alguns dos problemas das criações de peixes em cativeiro. Matam-se peixes saudáveis e selvagens para alimentar as criações numa taxa que qualquer cidadão percebe ser insustentável: entre 2,5 a 5 quilos de peixes selvagens para produzir um quilo de salmão salpicado de produtos químicos.

Em troca, o mar territorial chileno sofre com a poluição, e consequente morte da vida marinha selvagem em razão do escape e excesso de produtos químicos que provocam até mesmo zonas mortas, sem oxigênio para que haja vida. E aqueles que escaparam, e por alguma razão não poluem, passam a competir com a fauna nativa.

E assim acontece em quase todas as fazendas de peixes exóticos, poluindo e degradando o mar ou os cursos d’água, e a vida selvagem que ainda têm.

Foram estes problemas que comentamos ao publicarmos o post sobre a criação de tilápias  de um presidente que nega a ciência, ignora os problemas estruturais que prometeu combater em campanha, acusa sua própria eleição de fraude, e só se preocupa com questões menores que desconhece como armar a população ou a criação de espécies invasivas.

Afinal, qual o sentido da atual ‘criação’ de peixes? Responda quem for capaz.

Imagem de abertura: WWF Chile – Denisse Mardones.

Fontes: https://aida-americas.org/es/blog/la-industria-del-salm%C3%B3n-en-chile-sostenibilidad-imposible; http://seafoodbrasil.com.br/a-historia-e-o-presente-do-salmao-no-chile; https://www.eldesconcierto.cl/bienes-comunes/2019/04/05/salmones-en-chile-historias-de-una-industria-polemica-y-millonaria.html; https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/181733/TCC%20JONATHAN%20SANTOS%20-%20BU.pdf?sequence=1&isAllowed=y; https://www.independent.co.uk/independentpremium/uk-news/fishing-diet-unsustainable-trawling-uk-b1783088.html?r=73874.

Bioma Pampa e a indiferença da opinião pública

Comentários

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  1. Carpas comem milho. Não sei se algum peixe come soja. Se possível alimentar peixes com o que comem animais, não haveria necessidade de sacrificar quantidade maior de peixes do que os que são criados. Haja pesquisa.

  2. O ser humano recebe o que merece, destrói tudo o que toca, mata e devasta tudo por onde passa. Não existe vírus que se compare ao poder destrutivo da espécie humana. Tenho a mais absoluta convicção de que mto antes do último animal desaparecer nós já estaremos extintos há mto.

  3. Favor se informar sobre a Monsanto . A lógica seria que com todas as modificações genéticas de sementes e produtos produzidos e comercializados por eles (glyphosate, por exemplo), os produtores rurais devem comprar para utilizarem esses produtos tóxicos com o objetivo de afastar insetos e outras pragas, ervas daninhas, logo as plantas que dão os frutos e vegetais se tornam mais resistentes a esses agrotóxicos e são perfeitas visualmente e até no sabor. Então, podemos concluir que não é bom para a saúde ingerir esses alimentos contaminados e resistentes ao agrotóxicos. Desculpe-me sair do foco da aquicultura, mas quando li a defesa e empoderamento da indústria agrícola utilizando a Monsanto como parceira da EMBRAPA, tive que dar a minha opinião . Já orientei toda a família para dar preferência aos alimentos orgânicos .

  4. Tudo procedente, além do mais, consta que o Salmão criado em cativeiro não apresenta os benéficos índices de Ômega 3, conforme encontrados nos salmões selvagens. Confere também o impacto causado por expécimes exóticos. A maldita Tilápia (mantenho-me distante de tilápias, st peters e pangus), por exemplo, além de comer excremento dos suínos (haja vista que as psiculturas da espécie estão associadas à suinocultura, para aumento do rendimento), se alimenta também das ovas dos espécimes nativos, dentre eles, o tão prestigiado Tucunaré.

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