Construção naval em Itajaí vive novo ciclo de expansão
Enquanto boa parte da economia brasileira patina, a construção naval em Itajaí vive um novo ciclo de expansão. O principal motor é a demanda criada pela exploração de petróleo e gás, especialmente pelas encomendas da Petrobras. Como é sabido, o petróleo bruto tornou-se um dos principais produtos da pauta de exportações brasileira e respondeu, sozinho, por 12,8% de tudo o que o país exportou em 2025. Esse peso ajuda a explicar por que a expansão da produção offshore voltou a puxar investimentos em navios, plataformas e embarcações de apoio. Ao mesmo tempo, os estaleiros de Itajaí também produzem fragatas de última geração para a Marinha do Brasil.

Esse novo ciclo revela um salto tecnológico importante. Hoje, Itajaí constrói navios híbridos de apoio offshore, embarcações militares sofisticadas, rebocadores e iates de alto padrão. Há pouco mais de um século, porém, a construção naval local ainda dependia do trabalho artesanal dos carpinteiros da ribeira.

O avanço não acontece apenas em Itajaí. Do outro lado do rio, Navegantes também ampliou sua indústria naval. Juntas, as duas cidades formaram um dos polos mais dinâmicos do setor no país.
O resultado aparece nos números. Só em junho de 2026 havia 16 embarcações offshore em construção nos estaleiros de Itajaí e Navegantes, envolvendo mais de dois mil trabalhadores. Ao mesmo tempo, Itajaí construía as fragatas Classe Tamandaré, o mais moderno programa de navios de guerra já executado no Brasil.
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A vocação marítima de Itajaí é antiga. Entre o fim do século XIX e o início do século XX, o porto já concentrava trabalhadores ligados à navegação, à pesca e às atividades portuárias. A construção naval ainda era artesanal, baseada principalmente na madeira e no trabalho dos carpinteiros navais. Uma dissertação recente da UFSC mostra como essa mão de obra marítima se consolidou na região entre 1860 e 1910.
Com o crescimento do porto e da pesca, a atividade ganhou escala ao longo do século XX. Mais tarde vieram os estaleiros dedicados a embarcações maiores, construídas em aço e alumínio. Aos poucos, Itajaí e Navegantes formaram uma cadeia que passou a reunir construção, reparo, fornecedores e mão de obra especializada.

Hoje, essa estrutura permite projetos muito mais complexos. O Detroit Brasil, instalado às margens do Itajaí-Açu desde 2002, ocupa 120 mil metros quadrados e já construiu mais de cem embarcações. O estaleiro mantém engenharia própria e trabalha com técnicas modernas para construções em aço e alumínio.
Navegantes também ampliou fortemente sua participação. Um sinal recente veio da Navship, primeira filial do grupo Edison Chouest Offshore fora dos Estados Unidos: em fevereiro de 2026, o estaleiro abriu mais de 500 vagas de trabalho.
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É essa combinação — estaleiros, engenharia própria, fornecedores e mão de obra especializada — que ajuda a explicar como a região passou de embarcações relativamente simples a navios de alta complexidade.
Já destacamos neste site um reel recente no Instagram mostrando uma dessas embarcações enfrentando ondas brutais no Mar do Norte que viralizou. Os PSVs construídos em Itajaí não ficam nada a dever em tecnologia, robustez e capacidade de operar em condições severas.
Itajaí e a construção naval
O crescimento de Itajaí precisa ser visto dentro de um setor que continua tendo no Rio de Janeiro seu principal centro industrial como acontece desde a construção do icônico galeão Padre Eterno, tido como maior navio do mundo no século 17. Segundo a Firjan, o estado concentra 24 dos 49 estaleiros do país e cerca de 66 mil dos 181 mil empregos ligados às atividades navais. Além disso, reúne mais de duas mil empresas fornecedoras de bens e serviços e abriga 82% das plataformas marítimas em operação no Brasil.
Os estaleiros cariocas atuam em reparos, manutenção, modernização de embarcações e plataformas, construção de módulos offshore, descomissionamento e desmantelamento.
Rio Grande, Pernambuco, Amazonas e Pará
Outros polos que também têm importância englobam o Rio Grande que voltou a receber grandes encomendas da Transpetro enquanto Pernambuco mantém o Estaleiro Atlântico Sul e outras estruturas criadas durante o ciclo de expansão dos anos 2000. No Norte, Amazonas e Pará concentram projetos ligados à navegação fluvial.
É nesse mapa que Santa Catarina ganhou espaço. Itajaí e Navegantes se destacam por reunir segmentos diferentes no mesmo polo: construção militar, embarcações offshore, rebocadores e barcos de lazer.

Segundo a ApexBrasil, a indústria naval brasileira já soma mais de 50 mil empregos diretos e uma carteira de projetos apoiados pelo Fundo da Marinha Mercante de R$ 41,7 bilhões. Entre 2026 e 2030, estão previstos cerca de US$ 120 bilhões em investimentos em exploração e produção de petróleo e gás, além de US$ 9,7 bilhões da Petrobras destinados à construção naval.
E note que a Petrobras ainda não iniciou a extração na Margem Equatorial que, ao começar, vai acelerar ainda mais o processo da construção naval.
O salto tecnológico
Parte importante desse salto nasceu de uma decisão da Marinha do Brasil de renovar sua esquadra e, ao mesmo tempo, recuperar capacidade tecnológica da indústria naval nacional. Em 2017, a Marinha iniciou o Programa Fragatas Classe Tamandaré. A gestão ficou a cargo da Empresa Gerencial de Projetos Navais, a EMGEPRON, empresa pública ligada à Marinha.

Em 2020, a EMGEPRON contratou a construção de quatro fragatas. O projeto ficou com a SPE Águas Azuis, formada pela alemã TKMS, pela Embraer Defesa & Segurança e pela Atech, do grupo Embraer. A construção ocorre no TKMS Estaleiro Brasil Sul, em Itajaí. Importante ressaltar que, em paralelo, a MB segue construindo submarinos no Complexo Naval de Itaguaí.
O contrato da construção das fragatas prevê participação da indústria brasileira e transferência de conhecimento e tecnologia, inclusive em sistemas de gerenciamento de combate. Cerca de 40% dos equipamentos e serviços são de conteúdo nacional, com participação estimada de aproximadamente mil empresas brasileiras.
Navios offshore de nova geração
Com a expansão das operações offshore da Petrobras, aumentou a demanda por embarcações de apoio mais modernas, eficientes e menos poluentes. Entre 2026 e 2030, estão previstos cerca de US$ 120 bilhões em investimentos em exploração e produção de petróleo e gás no Brasil. No mesmo período, a Petrobras prevê US$ 9,7 bilhões para a construção naval.
É nesse mercado que atua o Detroit Brasil. O estaleiro constrói para a Starnav uma nova geração de navios de apoio marítimo, entre eles PSVs, usados no transporte de equipamentos, água, combustível e suprimentos para plataformas em alto-mar, e OSRVs, preparados para responder a derramamentos de óleo.

Um dos exemplos mais recentes é o Starnav Elektra, construído em Itajaí. Com 92 metros de comprimento, o navio combina propulsão diesel-elétrica com baterias e sistema de posicionamento dinâmico DP2, capaz de manter a embarcação praticamente imóvel mesmo sob ação de vento, ondas e correntes.
Segundo o SINAVAL, o Elektra é o primeiro de uma série de dez embarcações híbridas encomendadas ao Detroit. Parte importante do projeto foi desenvolvida pela engenharia do estaleiro.
Telemetria e inteligência artificial
A modernização também chegou à frota da Transpetro. O programa TP 25 prevê 25 novas embarcações para cabotagem, entre navios Handy, gaseiros e petroleiros de médio porte. A meta é ampliar em 25% a capacidade logística da companhia e reduzir em até 30% as emissões de gases de efeito estufa.

Ao mesmo tempo, a Transpetro avança na digitalização da frota. A empresa já utiliza telemetria e inteligência artificial para acompanhar desempenho, consumo e confiabilidade dos equipamentos, além de desenvolver sistemas capazes de antecipar decisões de manutenção.
A indústria náutica também cresceu
Itajaí também se consolidou como o principal polo brasileiro de embarcações de esporte e lazer segmento que cresce a despeito da notória falta de marinas públicas. Hoje, responde por cerca de 35% da produção nacional de barcos. Santa Catarina, como um todo, fabrica aproximadamente sete de cada dez embarcações a motor produzidas no país.
As exportações mostram a força desse segmento. No primeiro semestre de 2026, empresas de Itajaí venderam ao exterior US$ 8,7 milhões em iates e outras embarcações de lazer, alta de 93% sobre o mesmo período de 2025. O município liderou as exportações brasileiras do setor.
Esse mercado também exige tecnologia. Motores, radares, estabilizadores, sistemas eletrônicos, resinas e materiais de acabamento fazem parte de uma cadeia cada vez mais sofisticada. Só as importações brasileiras de componentes ligados à construção de barcos de esporte e lazer chegaram a US$ 75,6 milhões no primeiro semestre de 2026, crescimento de 23%.
Itajaí também abriga o único estaleiro da italiana Azimut Yachts fora da Itália, outro sinal do grau de especialização alcançado pela indústria náutica local.
Por que Itajaí avançou
Há décadas, a cidade é um dos principais polos pesqueiros do país. Essa atividade ajudou a formar mão de obra naval, oficinas, fornecedores e serviços ligados à construção, manutenção e reparo de embarcações.
A partir do fim dos anos 1990, políticas públicas também ajudaram a reativar a indústria naval brasileira. A Lei do Petróleo, de 1997, abriu o mercado de exploração e refino e acelerou a expansão offshore. Em 2000, o Programa Navega Brasil ampliou o acesso ao crédito do Fundo da Marinha Mercante, elevando de 85% para 90% a participação financiável e aumentando de 15 para 20 anos o prazo dos empréstimos.
Depois vieram o Prorefam, voltado à renovação da frota de apoio marítimo, e o Promef, da Transpetro. A partir de 2008, principalmente com o Promef, o país voltou a construir navios oceânicos em maior escala.
Tudo isso faz parte da chamada economia azul, que reúne as atividades econômicas ligadas ao mar. Em Itajaí, ela aparece de forma especialmente clara: pesca, porto, petróleo offshore, construção naval e indústria náutica se alimentam mutuamente e ajudam a explicar por que a cidade se tornou um dos polos marítimos mais completos do país. Saiba mais sobre o PIB do mar brasileiro e a economia azul.
Outros polos perderam força
A trajetória de Itajaí contrasta com a de outros grandes polos navais brasileiros. Depois de 2014, a redução das encomendas da Petrobras e da Transpetro atingiu duramente estaleiros do Rio de Janeiro, de Pernambuco e de Rio Grande. Muitos reduziram equipes, suspenderam obras ou passaram a sobreviver principalmente de reparos.
Itajaí também sentiu a crise, mas tinha uma vantagem importante: uma base mais diversificada. Além do offshore, a região manteve atividades ligadas à pesca, ao porto, à indústria náutica e, mais recentemente, à construção militar. Essa combinação ajudou a preservar conhecimento, fornecedores e mão de obra até a chegada do novo ciclo de encomendas.
Um novo ciclo para a construção naval
A construção naval em Itajaí mostra como a combinação de demanda, tecnologia, mão de obra qualificada e continuidade das encomendas pode reconstruir capacidade industrial. O petróleo offshore voltou a puxar investimentos, a Marinha trouxe projetos de alta complexidade e a indústria náutica ampliou a diversificação do polo.
O desafio agora é manter esse ciclo por tempo suficiente para consolidar fornecedores, formar novos profissionais e evitar a repetição do velho problema brasileiro: crescer com grandes encomendas e encolher quando elas desaparecem.
Outro sinal da valorização da economia ligada ao mar foi a compra de duas grandes empresas brasileiras por grupos estrangeiros. Em 2024, a francesa CMA CGM acertou a aquisição de 47,6% da Santos Brasil por R$ 6,3 bilhões. Pouco depois, a suíça MSC fechou acordo de R$ 4,35 bilhões para assumir 56,47% da Wilson Sons, tradicional empresa de rebocadores, terminais e apoio marítimo. Segundo a Forbes, as operações refletiram tanto o interesse crescente pela infraestrutura oceânica brasileira quanto a desvalorização do real, que tornou esses ativos mais atraentes para investidores internacionais.
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