Parcel de Manuel Luís: corais e naufrágios no meio do Atlântico
O Parcel de Manuel Luís é um dos ambientes marinhos mais extraordinários do Brasil. Fica em mar aberto, a cerca de 86 quilômetros da Ilha dos Lençóis, no litoral norte do Maranhão. Criado em 1991, foi o primeiro Parque Estadual Marinho do Brasil.

O parque protege uma das maiores áreas recifais da América do Sul com 45.237,9 hectares, ou cerca de 452 km². Marca o limite norte dos recifes rasos brasileiros e o extremo sul do Sistema de Recifes da Amazônia. Sua biodiversidade e características físicas diferem do ambiente ao redor, o Parcel ainda funciona como área de conexão entre as províncias biogeográficas do sudoeste do Atlântico e a região caribenha.
O Parque Estadual Marinho do Parcel de Manuel Luís também se destaca pelo patrimônio cultural subaquático, formado por naufrágios e sítios arqueológicos de grande valor histórico. Porém, sofre diferentes pressões. Há registros de pesca de lagosta, além de visitação para lazer, pesca e mergulho sem controle ou registro adequado. Durante muitos anos, a retirada de bens dos naufrágios também causou danos ao ambiente, inclusive com o uso de dinamite. Somam-se a isso a pesca ilegal, o aquecimento do oceano, espécies invasoras como o famigerado peixe-leão e, para finalizar, a expansão da exploração de petróleo e gás na Margem Equatorial.
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O Parcel de Manuel Luís é um complexo recifal oceânico formado por bancos, pináculos e canais sobre a plataforma continental do Maranhão. Seus recifes ficam, em geral, entre 15 e 45 metros de profundidade. Alguns pináculos têm até 23 metros de altura e chegam a emergir cerca de 1,2 metro durante as marés baixas de sizígia.

Apesar da presença de corais, boa parte da estrutura rígida do Parcel resulta da ação de algas calcárias. Elas acumulam carbonato de cálcio e ajudam a construir e consolidar o recife ao longo do tempo. E há uma ameaça próxima: a mineração de algas calcárias já ocorre em áreas da plataforma continental maranhense. É um tema que tratamos em algas calcárias e mineração do fundo do mar.
Saiba quem foi Manoel Luís
A origem do nome também guarda dúvidas. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, o Parcel homenageia um pescador chamado Manuel Luís, apontado como descobridor da formação rochosa. A mesma fonte situa essa descoberta no fim do século XIX.
Há, porém, um problema nessa versão. Em 1820, décadas antes, o oficial francês Albin-Reine Roussin já realizou um levantamento hidrográfico do local e o registrou como “Manoel Luiz”. A carta publicada posteriormente traz inclusive um detalhe específico do baixio. Portanto, o nome já circulava entre navegadores no início do século XIX.
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Quem responde é o estudo Conservation status of the southernmost reef of the Amazon Reef System: the Parcel de Manuel Luís, publicado em 2021 na revista Coral Reefs. Segundo os autores, a posição geográfica ajuda a explicar a riqueza do Parcel de Manuel Luís que age como ponte entre as províncias biogeográficas brasileira e caribenha.
Para além disso, o Parcel reúne ambientes muito diferentes em uma área relativamente pequena. Há pináculos, morros recifais, canais e até naufrágios colonizados pela vida marinha. Segundo o Plano de Manejo, os morros recifais concentram a maior biodiversidade, com esponjas, ascídias, algas e diferentes espécies de corais.

A biodiversidade do Parcel de Manuel Luís é uma das mais ricas entre os recifes brasileiros. O estudo publicado na revista Coral Reefs registrou 78 táxons bentônicos sésseis, com forte presença de macroalgas, que somaram 54 táxons. Também foram identificadas 59 espécies de peixes recifais, com destaque para grandes predadores, como garoupas e pargos. Entre os organismos bentônicos aparecem esponjas, ascídias, algas folhosas, algas calcárias e diversos corais. O Parcel abriga ainda espécies endêmicas. Uma delas é o coral-de-fogo Millepora laboreli.

Uma armadilha para navegadores
Durante séculos, o Parcel de Manuel Luís representou enorme perigo para a navegação. Seus pináculos quase submersos, as fortes correntes de maré e a dificuldade de localizar com precisão os baixios tornavam a passagem arriscada. Tantos naufrágios acabaram cercando a região de lendas. Até a morte do poeta Gonçalves Dias, em 1864, já foi atribuída ao Parcel. Hoje, porém, as melhores fontes situam o naufrágio do Ville de Boulogne nos Baixos de Atins, também no litoral do Maranhão.
A tragédia de Aires da Cunha
O caso mais dramático ligado ao Parcel de Manuel Luís aconteceu em 1536, quando vigorava no Brasil o sistema das capitanias hereditárias. Aires da Cunha vinha ao Norte para participar da ocupação das terras concedidas aos donatários João de Barros e Fernão Álvares de Andrade. A empresa abrangia a Capitania do Maranhão e a do Rio Grande, numa vasta faixa do litoral setentrional.
João de Barros era um dos principais cronistas do Império Português e autor das célebres Décadas da Ásia, obra fundamental sobre a expansão portuguesa no Oriente, além de escritor e funcionário da Coroa.
Para tomar posse dessas terras e iniciar a ocupação, os sócios organizaram uma enorme armada: dez navios, cerca de 900 homens e mais de cem cavalos. Em tamanho, a expedição só ficava atrás da frota de Pedro Álvares Cabral, que partiu de Lisboa em 1500 com 13 navios.
O desastre comprometeu praticamente toda a tentativa de ocupação portuguesa daquela parte do Norte e demonstra a importância histórica do parcel desde o nascimento do novo País. Aires da Cunha morreu, centenas de homens se perderam e João de Barros ficou profundamente endividado. A expedição fracassou e se tornou mais um exemplo das dificuldades que levaram muitas capitanias hereditárias ao insucesso nas primeiras décadas da colonização.
Um cemitério de navios
O Parcel de Manuel Luís ganhou fama de cemitério de navios. Em 2015, o Ministério do Meio Ambiente chegou a citar cerca de 200 embarcações naufragadas na região. Esse número, porém, deve ser tratado com cautela, porque levantamentos arqueológicos mais recentes não confirmaram tantas ocorrências.

O Plano de Manejo do Parque Estadual Marinho destaca cinco naufrágios de valor histórico e arqueológico: Salinas, de 1904; West Point, de 1946; Altamar, de 1960; Ilha Grande, de 1962; e Ana Cristina, de 1984. Segundo o documento, parte desses destroços forma hoje um museu submerso, com vestígios ligados inclusive às duas guerras mundiais.
Os naufrágios também se incorporaram ao ecossistema. O Plano de Manejo mostra que os destroços passaram a servir de abrigo e habitat para a fauna marinha.
Saque e destruição do patrimônio subaquático
A proteção legal não impediu danos aos naufrágios. Segundo estudo publicado pelo ICMBio, em 1999 a Capitania dos Portos do Maranhão publicou um edital que autorizava, de forma pouco clara, a exploração do naufrágio conhecido como Fragata Portuguesa. Entretanto, pesquisadores afirmam que a retirada de bens também atingiu outros naufrágios do Parcel.
O estudo relata uma exploração intensiva durante anos, inclusive depois da criação do parque, com uso de explosivos.

E a pressão sobre os naufrágios continua entre os problemas que exigem atenção. A ela se somam outras ameaças apontadas pelo Plano de Manejo, como pesca e sobrepesca, mergulho sem controle, coleta de organismos, mineração carbonática, tráfego marítimo, mudanças climáticas e espécies exóticas invasoras. Assim, o desafio do Parcel é duplo: proteger tanto sua biodiversidade quanto um patrimônio arqueológico que já sofreu décadas de exploração e saque.
Desde 2000, o Parcel de Manuel Luís também integra a lista de Sítios Ramsar, reconhecimento internacional concedido a áreas úmidas de importância mundial.
O que acontece hoje
O Parcel de Manuel Luís continua sendo estudado e monitorado. Entre 22 e 26 de abril de 2026, uma expedição da Sema do Maranhão avaliou as condições ambientais do parque e registrou várias espécies de peixes, corais e esponjas.

A expedição também confirmou uma ameaça crescente: o peixe-leão. Segundo os pesquisadores, sobrepesca, mudanças climáticas e outras ações humanas também exigem acompanhamento permanente.
Ao mesmo tempo, a UFMA mantém pesquisas voltadas para ampliar o conhecimento do Parcel. Um projeto iniciado em 2022 e previsto até o fim de 2026 busca criar bases científicas para a conservação do parque.
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