Expedição vai explorar a Zona de Fratura Romanche

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Expedição vai explorar a Zona de Fratura Romanche

A Zona de Fratura Romanche é uma das estruturas mais impressionantes do Atlântico Equatorial. Com quase 2 mil quilômetros de extensão, ela corta a Dorsal Mesoatlântica entre o Brasil e a África Ocidental e mergulha a milhares de metros de profundidade. A ciência conhece sua importância geológica e oceanográfica há décadas, mas ainda não explorou diretamente grandes trechos do fundo dessa região.

Zona de Fratura Romanche
Ilustração, Plos One.

Agora, uma expedição internacional pretende mudar esse quadro. Com o ROV SuBastian, os pesquisadores vão registrar imagens, coletar amostras e investigar áreas que nunca receberam uma exploração in locomovendo-nos o que é raríssimo no Atlântico Sul. A Zona de Fratura Romanche pode, inclusive, esconder hotspots de biodiversidade e espécies ainda desconhecidas pela ciência.

Um colosso dentro de outro

A Dorsal Mesoatlântica é uma das maiores estruturas geológicas da Terra. Essa imensa cordilheira submarina atravessa o Atlântico e o Ártico por cerca de 16 mil quilômetros. Em alguns trechos, suas montanhas chegam à superfície e formam ilhas como Islândia, Açores e Ascensão.

A Zona de Fratura Romanche abre uma passagem através dessa gigantesca cordilheira. Por ela circulam águas profundas entre os dois lados do Atlântico. Segundo José Angel Alvarez Perez, essas grandes fraturas se formaram durante o processo de formação do Oceano Atlântico, quando os continentes começaram a se separar. Ao longo dessa evolução, surgiram estruturas que atravessam o fundo oceânico de leste a oeste.

Navio Falkor, do Schmidt Ocean Institute, que fará expedição para a Zona de Fratura Romanche.
Navio Falkor too, do Schmidt Ocean Institute, que fará expedição para a Zona de Fratura Romanche.

Será nesse ambiente que acontecerá a expedição The Gap, liderada por José Angel Alvarez Perez, da Univali. José Angel é graduado em Oceanologia pela Universidade Federal do Rio Grande, tem mestrado em Oceanografia Biológica pela Universidade Federal do Rio Grande (1990) e doutorado em Biology – Dalhousie University. A equipe usará equipamentos de exploração de mar profundo ainda raros no Atlântico Sul. A missão ganha importância porque grandes áreas abaixo de 200 metros continuam pouco amostradas pela ciência, como mostrou estudo recente que já destacamos.

A geologia ajuda a explicar a importância da Zona de Fratura Romanche. Segundo José Angel Alvarez Perez, essas grandes fraturas se formaram durante o processo de formação do Oceano Atlântico, quando os continentes começaram a se separar. Ao longo dessa evolução, surgiram estruturas que atravessam o fundo oceânico de leste a oeste.

Um corredor de águas profundas e possível hotspot de vida

A Zona de Fratura Romanche não chama atenção apenas pela geologia. Segundo estudo publicado no Journal of Geophysical Research: Oceans, ela funciona como uma das principais passagens das águas mais frias do fundo oceânico através do Atlântico Equatorial. A Água de Fundo Antártica atravessa a região em direção ao Atlântico oriental, vencendo a barreira formada pela Dorsal Mesoatlântica.

Além disso, a Romanche reúne características que despertam o interesse dos biólogos. O Schmidt Ocean Institute destaca suas paredes íngremes, fortes correntes equatoriais, ressurgência sazonal e águas ricas em nutrientes. A região pode esconder hotspots de biodiversidade e Ecossistemas Marinhos Vulneráveis.

O Ocean Census considera a Romanche uma das áreas menos amostradas da Dorsal Mesoatlântica e estima que o trabalho possa revelar de dezenas até mais de cem espécies ainda desconhecidas pela ciência.

Cientistas brasileiros vão procurar vida desconhecida

A expedição The Gap terá forte participação brasileira, serão 25 cientistas do País. Entre os pesquisadores está Mauricio Shimabukuro, da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), que vai estudar organismos bentônicos — animais que vivem associados ao fundo do mar — como poliquetas, nematódeos e outros integrantes da meiofauna.

Mapa da Zona de Fratura Romanche.
Ilustração, oceanógrafo Lucas Gavazzoni.

Para José Angel Alvarez Perez, a expedição The Gap tem caráter exploratório. O primeiro objetivo é chegar à Zona de Fratura Romanche e descobrir o que existe ali. A equipe pretende identificar as comunidades biológicas que vivem em grandes profundidades e entender quais tipos de animais ocupam esses ambientes.

Como será a expedição The Gap

Segundo o INPO, a expedição The Gap embarca em Fortaleza em 20 de setembro e termina no porto de Takoradi, em Gana. A equipe vai trabalhar em duas áreas da Zona de Fratura Romanche, uma mais próxima do Brasil e outra da costa africana.

Navio Falkor, do Schmidt Ocean Institute, que fará expedição para a Zona de Fratura Romanche.
Falkor e o ROV SuBastian. Imagem, Schmidt Ocean Institute.

Primeiro, os pesquisadores vão mapear o fundo com ecossonda multifeixe para escolher os pontos de interesse. Depois, veículos autônomos subaquáticos, os AUVs, produzirão mapas de alta resolução. Por fim, veículos operados remotamente, os ROVs, farão missões de nove a 16 horas. Eles vão registrar imagens, fotografar e coletar amostras biológicas e geológicas.

ROV SuBastian.
O moderno ROV SuBastian. magem, Schmidt Ocean Institute.

O principal equipamento será o ROV SuBastian, operado a partir do navio de pesquisa Falkor (too), do Schmidt Ocean Institute. A missão pretende investigar um gradiente que chega a aproximadamente 4.500 metros de profundidade. Além disso, instrumentos oceanográficos medirão temperatura, salinidade, correntes e outras características da água até cerca de 4 mil metros.

Garras do ROV SuBastian
As garras do ROV SuBastian. magem, Schmidt Ocean Institute.

Segundo José Angel Alvarez Perez, “ninguém nunca tirou uma foto deste local”.

Por que a expedição importa

A expedição à Zona de Fratura Romanche  deve produzir mapas, imagens e dados de uma região estratégica do Atlântico. Além disso, quanto mais o mundo discute mineração e outros usos do mar profundo, mais urgente se torna conhecer esses ambientes antes de explorá-los.

Segundo Perez, se a expedição confirmar que a Zona de Fratura Romanche concentra uma biodiversidade relevante, a região poderá ganhar força como candidata a uma futura área marinha protegida em águas internacionais. O Tratado do Alto-Mar criou um mecanismo para que os países proponham esse tipo de proteção fora das jurisdições nacionais. Antes disso, porém, a ciência precisa produzir evidências concretas sobre a riqueza biológica da Romanche.

A equipe da expedição

A expedição The Gap reunirá uma equipe multidisciplinar formada por pesquisadores brasileiros e estrangeiros. Segundo o professor José Angel, o grupo inclui sete pesquisadores principais, os chamados Principal Investigators, além de estudantes de graduação, pós-graduação, pós-doutorandos e outros pesquisadores. A maior equipe será a de biologia marinha, mas a missão também contará com especialistas em oceanografia física e geológica.

O contraste entre petróleo e ciência

Ao falar sobre os investimentos brasileiros em ciência oceânica, Perez destacou uma contradição. A indústria do petróleo opera no Brasil com dezenas de ROVs, robôs submarinos capazes de trabalhar a milhares de metros de profundidade. A pesquisa científica brasileira, porém, não dispõe de equipamentos equivalentes. Por isso, pesquisadores dependem muitas vezes de expedições e parcerias internacionais para investigar diretamente o mar profundo. Para Perez, o contraste mostra como o País desenvolveu grande capacidade tecnológica para explorar economicamente o fundo do mar, mas não criou estrutura semelhante para conhecê-lo cientificamente.

José Angel Alvarez Perez concorda com a avaliação do professor Alex Cardoso Bastos, da UFES, de que mapear e conhecer o fundo do mar também é uma questão de soberania para o Brasil. Bastos, aliás, integra a equipe da expedição The Gap como um dos pesquisadores principais. Em artigo que já destacamos, ele chamou atenção para uma contradição: o Brasil depende fortemente do mar para atividades econômicas, defesa e infraestrutura, mas ainda conhece pouco o território submerso sob sua responsabilidade. Perez reforça o mesmo diagnóstico ao apontar a falta de equipamentos e investimentos para a pesquisa científica em águas profundas.

Aproveitamos a conversa para saber de José Angel Alvarez Perez o que ele pensa sobre a tão discutida mineração submarina. Para o professor, a mineração submarina exige cautela porque os ecossistemas profundos se desenvolvem muito lentamente e podem levar longos períodos para se recuperar. Uma alternativa seria dividir o fundo do mar entre áreas protegidas e zonas eventualmente destinadas à exploração. Ainda assim, ele defende que nenhuma atividade avance enquanto não houver segurança suficiente sobre seus impactos.

Você poderá assistir aos mergulhos ao vivo

Os mergulhos do ROV SuBastian terão transmissão ao vivo pelo canal do Schmidt Ocean Institute  no YouTube. Segundo Perez, essa divulgação faz parte da própria proposta do instituto e ajuda a aproximar a ciência do público. Ele concorda com a ideia: “essa é a hora que a gente tem que mostrar o que está fazendo”. Assim, qualquer pessoa poderá acompanhar a operação e ver, praticamente em tempo real, imagens de uma região do fundo do Atlântico que a ciência ainda conhece muito pouco.

Então, fique atento. Segundo Perez, a primeira fase de mergulhos deve começar em 28 de agosto e seguir até 5 de setembro. Depois, haverá uma segunda fase ainda sem datas precisas.

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