Erosão em Boa Viagem ameaça novo calçadão de R$ 146 milhões
A erosão em Boa Viagem preocupa ainda mais porque Recife está entre as cidades brasileiras mais ameaçadas pela elevação do nível do mar. A capital pernambucana é baixa, densamente urbanizada e particularmente exposta aos efeitos do avanço do oceano, como já mostrou estudos da Climate Central.

Esse risco, porém, encontrou uma orla ocupada da pior maneira possível. O Grande Recife é um paradigma do insustentável modelo pé-na-areia adotado no litoral do País. Ao longo das décadas, dunas e áreas naturalmente móveis deram lugar a avenidas, prédios e outras obras urbanas. Agora, enquanto o mar avança e os projetos para conter a erosão seguem travados há pelo menos dois anos, a Prefeitura do Recife investe mais de R$ 146 milhões na reforma do calçadão de Boa Viagem.

Recife ocupou mangues, alagados e dunas
A vulnerabilidade do Recife e a erosão em Boa Viagem não decorrem apenas da proximidade com o mar. A cidade cresceu sobre uma planície costeira baixa, entre rios, áreas alagadas e extensos manguezais. Segundo o Diário de Pernambuco, o mangue chegou a predominar no solo onde a capital pernambucana se expandiu. Hoje, dos cerca de 220 km² do município, apenas 5,34 km² são áreas de mangue, o equivalente a 2,4% do território.

Nesse processo, fez-se praticamente tudo o que não deveria ter sido feito. Dunas, vegetação costeira e áreas livres cederam espaço a uma faixa urbana cada vez mais rígida. Estudos da UFPE mostram que os trechos onde ainda restam dunas com vegetação retêm melhor os sedimentos.
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A erosão da praia de Boa Viagem é conhecida há décadas pelos sucessivos prefeitos. Muito antes de o aumento do nível do mar ganhar a dimensão atual, pesquisadores já registravam o recuo da linha de costa e a perda de areia em diferentes trechos da orla.

Na década de 1990, por exemplo, fortes ressacas destruíram partes do calçadão. Diante disso, o poder público instalou estruturas de contenção. Desde então, diferentes intervenções tentam proteger uma orla cada vez mais rígida e urbanizada. Ainda assim, nenhuma delas resolveu o problema de forma definitiva.
Planos contra o avanço do mar estão travados
Em março de 2024, a prefeitura anunciou a contratação de estudos e projetos para enfrentar o avanço do mar em 9,3 quilômetros da orla, entre Brasília Teimosa, Pina e Boa Viagem. Em junho daquele ano homologou a licitação por R$ 3,3 milhões e estabeleceu prazo de oito meses para a conclusão do trabalho.
Assim, os estudos deveriam terminar em fevereiro de 2025. No entanto, em março de 2026, o Diário de Pernambuco informou que o trabalho ainda continuava em andamento. Além disso, a conclusão ganhou uma nova previsão: apenas o segundo semestre de 2026.
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Enquanto os estudos para enfrentar a erosão continuam sem conclusão, a prefeitura avança com a requalificação da orla de Boa Viagem. O contraste chama atenção porque o município admite que há trechos com redução da faixa de areia e comprometimento da infraestrutura urbana pelo avanço do mar e pela erosão costeira.

Ainda assim, colocou em andamento o projeto Orla Parque que prevê reforma completa do calçadão, novas áreas de convivência, iluminação, banheiros, paisagismo e aumento das áreas verdes.

A inversão é evidente: primeiro se investe pesadamente na infraestrutura situada à beira-mar; depois se decide como protegê-la. No papel. Porque, até agora, a proteção não saiu do papel. E, apesar da prefeitura reconhecer perda de areia e ameaça à infraestrutura existente, segue com investindo no projeto Orla Parque.
Pode?
O aviso de Paulista
Em agosto de 2026, o problema ficou evidente no Grande Recife. Parte do calçadão da Praia do Janga, em Paulista, cedeu e abriu uma grande cratera junto à orla.

O buraco interrompeu a passagem de pedestres, derrubou um poste e deixou a erosão ainda mais próxima da avenida. Ou seja, aconteceu o óbvio que só o poder público não viu.
O caso serve de alerta para Boa Viagem. Quando a faixa de areia encolhe e deixa de funcionar como primeira linha de defesa, ondas e ressacas ficam livres para explodir calçadões, muros e outras estruturas urbanas. Por isso, renovar uma infraestrutura situada na linha de frente da erosão antes de definir como proteger a praia escandaliza quem ainda pensa neste País.
Engordar a praia também exige cuidado
A engorda aparece entre as possíveis soluções, mas não pode ser feita a qualquer custo. Boa Viagem tem arrecifes próximos à costa e uma dinâmica sedimentar complexa. Por isso, pesquisadores da UFPE alertam há anos que qualquer intervenção precisa considerar ondas, correntes, transporte de sedimentos e os efeitos sobre áreas vizinhas.
Uma proposta anterior para Boa Viagem, que previa estruturas de granito no mar seguidas de engorda com areia dragada, despertou forte reação da comunidade científica nacional e internacional. O projeto foi discutido em várias reuniões por seus riscos potenciais.
Além disso, estudo da UFPE sobre a evolução da linha de costa alerta que grandes obras de contenção podem alterar o transporte de sedimentos e até acentuar a erosão em determinados trechos.
Portanto, não basta despejar areia como adora fazer os prefeitos de Santa Catarina. Uma engorda mal dimensionada pode deslocar o problema, interferir na dinâmica da praia e ameaçar os arrecifes que ajudam a dissipar a energia das ondas.
E sobre o novo calçadão? Ora, quem se importa com R$ 146 milhões de reais?
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