Porto em Arroio do Sal ameaça mudar o litoral gaúcho

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Porto em Arroio do Sal ameaça mudar o litoral gaúcho

Portos são importantes. Movimentam cargas, geram empregos e ajudam a economia. Mas também estão entre as obras de maior impacto ambiental no litoral. Por isso, a pergunta se impõe: por que construir um novo porto em Arroio do Sal, justamente em um dos trechos mais sensíveis da costa brasileira? Ainda mais agora, quando o litoral brasileiro sofre com ressacas cada vez mais fortes e eventos extremos mais frequentes. Este é o momento de fortalecer a costa, recompor dunas e replantar restingas ocupadas, não de instalar molhes retos e duros em uma região extremamente dinâmica por natureza.

Ilustração do porto em Arroio do Sal, RS

O espanto aumenta quando se olha para o litoral do Rio Grande do Sul. Ele é quase uma linha reta, de Torres, na divisa com Santa Catarina, ao Chuí, na fronteira com o Uruguai. Além disso, ainda conserva em grandes trechos características quase selvagens, muito raras no litoral brasileiro.

Litoral do Rio Grande do Sul
Um porto com molhes saindo da faixa de areia seria uma agressão a um litoral que já sofre efeitos do aquecimento global.

A corrente das Malvinas e a alta produtividade da costa gaúcha

A alta produtividade se deve ao fato de que o litoral gaúcho é banhando pela corrente das Malvinas, de águas frias, ricas em nutrientes, o que proporciona grande biodiversidade marinha. Tanto é assim que a última grande unidade de conservação criada no País, em março de 2026, foi justamente o Parque Nacional Marinho do Albardão, uma demanda de décadas que agora tornou-se realidade.

Corrente das Malvinas no litoral do Rio Grande do Sul
A Corrente das Malvinas transporta águas subantárticas em direção ao norte, colidindo com a Corrente do Brasil (quente) na chamada Convergência Subtropical do Atlântico Sul, que oscila na altura da costa gaúcha. Ilustração, metsul.com.

E, além do mais, o litoral da região Sul já é coalhado de portos. Por exemplo,  ao sul, existe o super porto de Rio Grande, e ao norte, em Santa Catarina, há outros dois, Imbituba e Itajaí. Então, por que abrir uma nova frente de impacto em uma costa retilínea, vulnerável à erosão e às mudanças na dinâmica de sedimentos?

O litoral da região Sul já está sob ataque

O contexto torna a proposta ainda mais difícil de aceitar. O litoral brasileiro já sofre os efeitos de uma combinação diabólica: ocupação mal feita, baseada no modelo de casas pé na areia, de segunda residência, e avanço do mar, agravado pelo aumento da frequência e potência dos eventos extremos. A cada nova ressaca, trechos inteiros do litoral da região Sul e Sudeste, onde as restingas, dunas, ou manguezais, foram ocupados ao longo do tempo, agora ficam reféns das ondas, debaixo d’água, com severos impactos ambientais e prejuízos financeiros. Nesse cenário, abrir mais um porto em mar aberto não combina com a realidade climática. É uma ideia inusitada, arriscada e difícil de justificar que espantou os cientistas.

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audiência sobre porto em Arroio do Sal, RS
A população se manifeste durante a Comissão de Segurança, Serviços Públicos e Modernização do Estado (CSSP) da Assembleia Legislativa. Imagem,Celso Bender/ALRS.

Porto em Arroio do Sal? “Um absurdo”, classifica Jefferson Cardia Simões

Foi por estes motivos que Jefferson Cardia Simões, professor da UFRGS e uma das principais referências da ciência antártica brasileira, criticou duramente o projeto. Em entrevista ao Sul21, ele classificou a ideia como “um absurdo” e questionou: “Quem ganha com isso?”

A crítica de Simões vai direto ao ponto. Um porto em mar aberto, instalado em uma costa retilínea e vulnerável, vai alterar a dinâmica de sedimentos, mudar praias inteiras e ampliar processos de erosão no litoral norte gaúcho.

“Sua praia vai mudar”, alerta Jefferson Simões

Foi este conjunto de riscos que levou Jefferson Cardia Simões a fazer uma das críticas mais contundentes ao projeto. Em audiência pública na Comissão de Segurança, Serviços Públicos e Modernização do Estado da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, o professor da UFRGS alertou o porto trará “riscos ambientais à dinâmica costeira e destruição da dinâmica marinha”, alterando o transporte de sedimentos.

Não é difícil entender. Na região de Arroio do Sal, os sedimentos migram de sul para norte, acompanhando a corrente marinha. Ao instalar uma barreira rígida nesse fluxo, como molhes e paredões em mar aberto, o porto tende a provocar erosão ao norte e acúmulo de areia ao sul. Na prática, isso altera o desenho das praias vizinhas. “Ou seja, sua praia vai mudar”, afirma Simões.

O que diz a Porto Meridional Participações

Segundo o site da Porto Meridional Participações S/A, o projeto é apresentado como uma obra estratégica para o Rio Grande do Sul. A empresa afirma que o porto ampliaria a capacidade logística do Estado, reduziria custos de transporte e evitaria que cargas gaúchas sejam escoadas por terminais de Santa Catarina.

Ainda segundo o site, o empreendimento teria investimento privado estimado em R$ 6 bilhões, capacidade para movimentar até 53 milhões de toneladas por ano e promessa de geração de empregos. A empresa também informa que o licenciamento ambiental está em curso no Ibama e que os estudos indicam medidas para evitar, reduzir ou compensar impactos. O problema é que, diante da dimensão da intervenção na costa, críticos questionam se compensar é suficiente.

Poluição do mar, do ar, e sonora

O que a Porto Meridional não diz, entretanto, é que além dos problemas já mencionados na costa do Estado, o novo porto provocará outros. Entre eles, a poluição da água, do ar e sonora, causada tanto pelos navios quanto pelo tráfego de caminhões.

A poluição sonora nos oceanos interfere em funções vitais da vida marinha. Baleias, golfinhos, peixes e tartarugas usam o som para se orientar. Também usam para encontrar alimento, fugir de predadores, se comunicar e reproduzir.

O ruído de navios pode mascarar esses sinais naturais. Pode ainda provocar fuga de áreas importantes, afetar a alimentação e até contribuir para encalhes de cetáceos. No caso dos peixes, há indícios de redução de cardumes em áreas submetidas a ruídos intensos.

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Ou seja, a poluição sonora é mais uma forma de agressão aos oceanos. Ela também deve ser contabilizada. Não pode ser tratada como algo menor num período de  perda acelerada da biodiverisidade mundial.

Mas tem mais. Segundo o professor Jefferson Cardia Simões, o projeto carece de um estudo detalhado sobre o tráfego pesado de caminhões na região. Algumas estimativas indicam que dezenas de milhares de caminhões circularão mensalmente pela Rota do Sol, pela BR-101 e pela Estrada do Mar. Para isso, o Estado teria que ampliar a Rota do Sol.

A oposição das ONGs ambientais e o porto em Arroio do Sal

O Instituto Curicaca, uma das ONGs ambientais mais atuantes do Rio Grande do Sul, entrou na briga contra o Porto Meridional. A entidade levou o caso ao Ministério Público Federal, participou de reuniões com o Ibama e cobrou rigor no licenciamento. Também pediu que os estudos considerem a possível inviabilidade ambiental da obra. Para o Curicaca, o projeto ameaça espécies sensíveis, como baleia-franca, toninha, o cetáceo mais ameaçado no Brasil, além do boto-de-lahille e pinípedes. Além disso, pode afetar a pesca artesanal, a Lagoa de Itapeva, as restingas raras do litoral norte e a dinâmica das praias.

Porém, as críticas não param na dinâmica costeira. O Movimento Unificado em Defesa do Litoral Norte afirma que o Porto Meridional representa risco de colapso ambiental e urbano. Especialistas também apontam impactos sobre a Lagoa Itapeva, a pesca artesanal, a biodiversidade, o turismo e até o patrimônio arqueológico da região. Há ainda a dúvida operacional. Paulo de Vasconcellos, integrante do movimento, afirma que um porto em mar aberto exigiria dragagens contínuas para manter a profundidade necessária aos navios. Ou seja, o problema não termina com a obra. Ele começa nela.

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