Baía de Ilha Grande revela berçário de tubarões
A Baía de Ilha Grande revelou um importante berçário de tubarões no litoral brasileiro. A informação ganhou destaque em reportagem recente da Associated Press. Pesquisadores identificaram, na enseada de Piraquara de Fora, em Angra dos Reis, dezenas de fêmeas grávidas de tubarão-galha-preta. Elas procuram as águas rasas e protegidas da região durante a gestação.

A descoberta amplia o que já sabemos sobre a riqueza desse ambiente. Recentemente, o Mar Sem Fim mostrou que quase 100 tubarões-tigre apareceram na Baía da Ilha Grande, onde o Instituto ProShark iniciou um monitoramento inédito no Sudeste-Sul do Brasil.

Agora, a identificação do berçário muda também a forma de olhar para os tubarões-galha-preta. Durante muito tempo, moradores enxergaram esses animais como alimento. A ciência mostra que a enseada cumpre papel decisivo para a reprodução da espécie e pode se transformar em área de conservação, educação ambiental e turismo de observação.
Em um país que ainda vende carne de tubarão sob o nome genérico de cação, proteger esse berçário tornou-se urgente.
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A enseada de Piraquara de Fora oferece águas rasas, protegidas e mais quentes que as áreas vizinhas. Essas condições favorecem o desenvolvimento dos embriões e ajudam as fêmeas grávidas a economizar energia. Por isso, elas se concentram na região principalmente entre maio e agosto.
Os pesquisadores acompanham o fenômeno desde 2016. Em uma das expedições, drones registraram 113 tubarões-galha-preta reunidos em um único trecho da enseada, a maior concentração da espécie já observada no Atlântico Sul.
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A presença repetida de fêmeas grávidas reforça a importância de Piraquara como área de reprodução. Em 2025, a União Internacional para a Conservação da Natureza reconheceu oficialmente a enseada como uma Área Importante para Tubarões e Raias.
Tubarão-galha-preta: um viajante das águas costeiras
O tubarão-galha-preta, Carcharhinus limbatus, recebeu esse nome por causa das manchas escuras nas extremidades das nadadeiras. De porte médio, pode ultrapassar dois metros de comprimento. Habita águas tropicais e subtropicais de quase todo o planeta, sobretudo regiões costeiras rasas, baías, estuários, manguezais e áreas próximas a recifes.
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Como outros tubarões, o galha-preta cresce lentamente e produz poucos filhotes. As fêmeas dão à luz animais já formados e procuram águas rasas e protegidas, onde os jovens encontram alimento e maior proteção contra predadores. Essa reprodução lenta torna a espécie especialmente vulnerável à pesca excessiva.
A União Internacional para a Conservação da Natureza classifica o tubarão-galha-preta como vulnerável e aponta tendência de redução populacional. A pesca dirigida, a captura acidental e a degradação dos ambientes costeiros representam suas principais ameaças. O comércio internacional da espécie também passou a receber controle pela Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção, a Cites.
O tubarão-galha-preta no Brasil
A Baía da Ilha Grande, porém, não representa o único local importante para a espécie no País. No litoral do Paraná, pesquisadores já identificaram uma área de parto e berçário, com a presença de fêmeas próximas do nascimento, recém-nascidos e juvenis. Além disso, estudos realizados no Nordeste indicam que os partos se concentram entre o fim da primavera e o início do verão.
O tubarão-galha-preta aparece, portanto, em diferentes pontos da costa brasileira, do Nordeste ao Sul. Ao mesmo tempo, análises genéticas mostram que a população do Norte do Brasil se diferencia das demais populações conhecidas. Isso sugere pouca troca genética e, por consequência, reforça a necessidade de proteger cada grupo regionalmente.
Apesar desses avanços, grande parte do conhecimento ainda vem de animais capturados pela pesca. Redes de emalhe e espinhéis atingem adultos, fêmeas grávidas e juvenis. Em São Paulo, por exemplo, a espécie já recebeu a classificação de sobre-explorada devido à redução de sua abundância e à captura em áreas de berçário.
Por outro lado, o controle permanece precário. Os desembarques pesqueiros costumam reunir diferentes tubarões sob nomes genéricos, como cação ou galha-preta. Assim, sem identificar corretamente as espécies, o Brasil não consegue avaliar os estoques nem saber quantos animais retira do mar.
De alimento a patrimônio natural
A matéria da Associated Press mostra que a descoberta já começa a mudar a relação dos moradores com os tubarões. Durante muito tempo, a comunidade pescou e consumiu esses animais. Agora, porém, pesquisadores promovem encontros com a população e pretendem levar educação ambiental às escolas.
Ao mesmo tempo, o projeto Tubarões da Baía da Ilha Grande usa câmeras subaquáticas, iscas e drones para acompanhar os animais. Além do galha-preta, a equipe também monitora tubarões-mangona e tubarões-martelo. Dessa forma, as imagens ajudam a identificar espécies, estimar a abundância e reunir argumentos para ampliar a proteção da região.
Por fim, a iniciativa também aposta no ecoturismo. Moradores e visitantes poderiam observar os tubarões de terra, de barcos ou durante mergulhos. Assim, um animal antes visto como alimento passaria a representar patrimônio natural e fonte permanente de renda.
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Três tubarões ameaçados usam a Baía da Ilha Grande
As águas brasileiras abrigam pouco mais de 80 espécies de tubarões. Segundo o Projeto Tubarões da Baía da Ilha Grande, pelo menos dez delas ocorrem regularmente na região. A iniciativa concentra seus esforços em três grupos ameaçados que provavelmente se reproduzem dentro da baía ou em seu entorno: os galhas-preta, as mangonas e os tubarões-martelo.

A situação preocupa. Cerca de um terço das espécies de tubarões e raias presentes no Brasil integra a lista oficial de animais ameaçados. A mangona enfrenta risco crítico de extinção no País, enquanto os tubarões-martelo estão entre os mais ameaçados do planeta. Algumas estimativas indicam que a sobrepesca já reduziu em cerca de 90% as populações de mangonas e martelos.
Por isso, a Baía da Ilha Grande pode representar muito mais que um ponto de concentração do galha-preta. Ela também pode funcionar como área de reprodução e refúgio para espécies que desapareceram de grande parte da costa brasileira. Proteger esses ambientes tornou-se essencial para evitar que a pesca elimine os animais justamente onde eles procuram completar seu ciclo de vida.
Em 2025 o Projeto Tubarões da Baía da Ilha Grande recebeu R$ 5 milhões do Programa Petrobras Socioambiental. O recurso financiará, durante três anos, a ampliação das pesquisas sobre espécies ameaçadas e ações de conservação e ecoturismo junto às comunidades locais.
O ativista Paulo Guilherme “Pinguim”, um dos fundadores do Divers for Sharks, conta um belo “causo” sobre a pesca de tubarões ao largo de Paraty. Segundo ele, um hidroavião lançava espinhéis e abastecia um navio português fundeado na região, mais uma prova de que esses animais sempre frequentaram a Baía da Ilha Grande.









