Ilha dos Lençóis e o reino encantado de Dom Sebastião

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Ilha dos Lençóis e o reino encantado de Dom Sebastião

Em 1578, o rei português Dom Sebastião desapareceu na batalha de Alcácer-Quibir, no Marrocos. Desde então, nasceu a esperança de que ele voltaria um dia de forma milagrosa. Na Ilha dos Lençóis, no Maranhão, essa crença ganhou contornos extraordinários.

Ali, Dom Sebastião passou a fazer parte do mundo dos encantados. Segundo a historiadora Adriana Zierer, ele aparece como um touro negro, com uma estrela branca na testa. Nas noites de lua cheia, corre pelas dunas e engravida as moças da ilha.

Pintura de Dom Sebastião.
Dom Sebastião, o Encantado da Ilha dos Lençóis. Imagem, Domínio público.

A tradição diz ainda que, se alguém atingir a estrela e romper o encanto, o rei voltará à forma humana. Então, trará riqueza aos pobres — e São Luís afundará no mar.

Esta é apenas uma das muitas lendas do litoral brasileiro. São histórias e contos do folclore que atravessam gerações pela tradição oral.

Saiba quem foi Dom Sebastião

Dom Sebastião nasceu em Lisboa, em 1554, e chegou ao trono ainda criança. Neto de Dom João III, cresceu sob a expectativa de garantir a continuidade da dinastia de Avis. Desde cedo, demonstrou forte religiosidade e grande interesse pela guerra.

Aos 24 anos, decidiu comandar uma campanha militar no norte da África. Em 1578, enfrentou as forças marroquinas na batalha de Alcácer-Quibir. O exército português sofreu uma derrota devastadora, e Dom Sebastião morreu no combate.

Pintura da batalha de Alcácer-Quibir
Batalha de Alcácer-Quibir, 1578. “Memórias para a História de Portugal. Domínio Público.

O rei não deixou filhos. Sua morte abriu uma grave crise de sucessão. O tio-avô de Dom Sebastião, Dom Henrique I, assumiu o trono. Mas morreu dois anos depois, também sem herdeiros. Em 1580, Filipe II da Espanha passou a ocupar também a Coroa portuguesa. Começava a União Ibérica, que duraria até 1640.

Nesse contexto nasceu o sebastianismo. Parte da população se recusava a aceitar a morte do jovem rei e esperava por seu retorno. Dom Sebastião voltaria para livrar Portugal de seus males, recuperar a autonomia do reino e devolver ao país a grandeza perdida. Com o tempo, essa esperança política ganhou caráter religioso e messiânico.

A morte de Don Sebastião
A morte de Dom Sebastião. Historia de España ilustrada. Domínio Público.

A crença atravessou gerações e cruzou o Atlântico. No Brasil, misturou-se a tradições locais e ganhou novas formas. Poucas, porém, são tão peculiares quanto a da Ilha dos Lençóis.

Outra herança cultural atravessou o ‘Mar Oceano’ e ganhou feições próprias no litoral do Sudeste foi o fandango caiçara que hoje luta para sobreviver.

O sebastianismo atravessa o Atlântico e chega na ilha dos Lençóis

“Rei, Rei, Dom Sebastião, quem desencantar Lençóis bota abaixo o Maranhão.” Segundo Sergio F. Ferretti, este é o refrão de uma conhecida toada cantada nos terreiros em homenagem a Dom Sebastião.

Ilha dos Lençóis.
Ilha dos Lençóis. Acervo MSF.

No Maranhão, a tradição se misturou à religiosidade popular e ao Tambor de Mina, religião afro-brasileira que ganhou força sobretudo em São Luís. Seus terreiros cultuam voduns e outras entidades espirituais, entre elas os chamados encantados. O nome “Mina” remete à Costa da Mina, na África Ocidental, de onde partiram muitos africanos escravizados.

Segundo Jacqueline Hermann, Doutora em História pela Universidade Federal Fluminense,

Minha pesquisa sobre os sebastianismos luso-brasileiros encontrou no caso maranhense, diversas inovações e especificidades que, de forma clara, agrega elementos da religiosidade africana e ameríndia, conformando, talvez, a versão mais genuinamente “brasileira” da crença sebastianista, na medida em que parece fundir e reelaborar aspectos importantes das três matrizes “originais” de nossa formação cultural.

A Ilha dos Lençóis e seus moradores

A Ilha dos Lençóis fica no arquipélago de Maiaú, no Litoral Ocidental do Maranhão, cerca de 160 quilômetros a oeste de São Luís. De Cururupu, a viagem de barco leva mais de sete horas. Durante muito tempo, o arquipélago ficou esquecido pelo poder público.

Moradores de Lençóis
Imagem, Governo do Estado do Maranhão.

Em 1996, a ilha ainda não tinha água encanada, posto de saúde, esgoto, telefone, energia elétrica nem atendimento dos Correios. A única obra pública era a escola. Mas ela estava fechada porque o teto havia desabado. As aulas aconteciam numa igrejinha e num barracão comunitário, segundo matéria da Folha de S. Paulo.

A eletricidade só chegou em 2008. A ilha também ganhou fama pela alta incidência de albinismo. Seus moradores albinos ficaram conhecidos como Filhos da Lua, devido à grande sensibilidade da pele ao sol.

Foi nesse pequeno mundo de pescadores, dunas e isolamento que sobreviveu uma das versões mais extraordinárias do sebastianismo brasileiro.

Os Filhos da Lua

Em 1978, um estudo liderado pelo geneticista Newton Freire-Maia encontrou 18 pessoas com albinismo entre os 304 habitantes da ilha. A pesquisa estimou em cerca de 3% a prevalência da condição naquela época.

Lençóis continuava pequena quando o Mar Sem Fim a visitou em 2005. Eram apenas 350 moradores. Todas as casas eram de madeira ou palha de babaçu. A única exceção era a escola, construída em alvenaria.

Casa típica na ilha dos Lençóis.
Casa típica na ilha dos Lençóis. Acervo MSF.

Em uma comunidade pequena e isolada por gerações, os casamentos entre famílias favoreceram a transmissão do gene ligado ao albinismo.

A expressão Filhos da Lua se soma a outra tradição: a dos Filhos do Rei Sebastião. Na Ilha dos Lençóis, albinismo, isolamento e sebastianismo passaram a dividir o mesmo imaginário, embora tenham origens diferentes.

O touro encantado da Ilha dos Lençóis

Na tradição local, Dom Sebastião vive encantado na Ilha dos Lençóis. Às vezes, aparece como um grande touro negro, com uma estrela branca na testa.

Vila da ilha dos Lençóis e o veleiro Mar Sem Fim ao fundo
Aspectos da vila da ilha dos Lençóis com o veleiro Mar Sem Fim ao fundo.

Segundo a historiadora Adriana Zierer, o animal percorre as dunas nas noites de lua cheia e engravida moças da ilha. Outras versões dizem que ele guarda riquezas sob a areia. O encanto só terminaria quando alguém atingisse a estrela em sua testa.

Nesse momento, Dom Sebastião voltaria à forma humana. Algumas versões afirmam que ele distribuiria riquezas aos pobres. Outras trazem uma profecia mais sombria: São Luís desapareceria sob as águas.

De acordo com Encantaria Maranhense de Dom Sebastião, de Sergio F. Ferretti, Dom Sebastião costuma aparecer sobretudo em junho, durante as festas do bumba-meu-boi. Também surgiria em agosto, mês da batalha de Alcácer-Quibir, e em janeiro, na festa de São Sebastião. Hoje, porém, dizem que o rei aparece menos porque “a praia dos Lençóis está sendo muito visitada e já tem muito morador”.

Uma lenda que atravessou séculos

Não se sabe ao certo quando Dom Sebastião entrou no imaginário da Ilha dos Lençóis. Mas, no século XVII, o sebastianismo já encontrava terreno fértil no Maranhão.

Vila da ilha dos Lençóis em 2005.
Vila da ilha dos Lençóis em 2005.

Sérgio Ferretti, citando Waldemar Valente, lembra um episódio de 1656. Após a morte de Dom João IV, o padre Antônio Vieira pregou na matriz do Maranhão que o rei estava morto, mas haveria de ressuscitar.

O episódio mostra que crenças no retorno de reis já circulavam no Maranhão há mais de três séculos. Mais tarde, o sebastianismo português se misturou às tradições locais. Dom Sebastião então passou a fazer parte do mundo dos encantados da Ilha dos Lençóis.

São essas peculiaridades, somadas à beleza da paisagem, que dão cor, sabor e identidade ao litoral brasileiro. É triste ver essa impressão digital desaparecer, substituída pela banalidade dos Beach Clubs.

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