Ilha dos Gatos: abandono ameaça fauna e litoral fluminense

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Ilha dos Gatos: abandono ameaça fauna e litoral fluminense

A Ilha dos Gatos parece, à primeira vista, apenas uma curiosidade do litoral fluminense. Mas a Ilha Furtada, em Mangaratiba, abriga hoje centenas de gatos abandonados e se transformou em um problema ambiental, sanitário e de bem-estar animal. Sem água doce suficiente e com pouca oferta natural de alimento, os felinos dependem de ajuda externa para sobreviver.

Ilha dos Gatos, Mangaratiba
Imagem, Alerj, Divulgação.

Um estudo publicado em 2026 encontrou anticorpos contra Toxoplasma gondiiem 40,4% dos 52 animais analisados. Agora, pesquisadores investigam se o parasita e outros impactos associados à superpopulação podem alcançar o ambiente marinho e afetar a fauna da região.

Mapa da Ilha dos Gatos, em Mangaratiba
A Ilha dos Gatos, ou Ilha Furtada está assinalada em vermelho.

O caso da Ilha dos Gatos mostra como décadas de abandono de animais podem criar um problema de conservação em pleno litoral da Costa Verde. Para não falar que segundo o Island Conservation, existem 465.000 ilhas no mundo. Juntas, elas cobrem 5,3% da área do planeta. Contudo, as ilhas representam a maior concentração de biodiversidade e, ao mesmo tempo, extinções de espécies. 

Mais de 700 gatos em uma pequena ilha

A dimensão do problema impressiona. Segundo a UERJ, mais de 700 gatos vivem hoje na Ilha Furtada. A ilha não tem água doce suficiente nem alimento natural capaz de sustentar uma população desse tamanho.

Por isso, muitos animais dependem de comida e água levadas por voluntários. Ao mesmo tempo, novos abandonos mantêm a população elevada e dificultam qualquer tentativa de controle. O caso já levou a Alerj a discutir medidas de manejo, fiscalização e proteção ambiental para a ilha.

Estudo encontra toxoplasmose em 40% dos gatos

Um estudo publicado em 2026 analisou 52 gatos da Ilha Furtada. Em 21 deles, ou 40,4%, os pesquisadores encontraram anticorpos contra o Toxoplasma gondii, protozoário que causa a toxoplasmose.

A toxoplasmose é uma infecção que pode atingir aves, mamíferos e seres humanos. Na maioria das pessoas saudáveis, provoca poucos sintomas ou passa despercebida. Quando aparecem, os sinais podem incluir febre, cansaço, dores musculares e aumento dos gânglios. Já em gestantes e pessoas com baixa imunidade, a doença pode causar complicações graves.

Nos animais, os efeitos variam conforme a espécie. Podem ocorrer alterações neurológicas, respiratórias, oculares e reprodutivas. Os gatos ocupam um papel central nesse ciclo porque são os hospedeiros definitivos do parasita e podem eliminar oocistos pelas fezes.

Em uma ilha, isso preocupa especialmente. A chuva pode carregar esses oocistos pelo solo até o mar. A partir daí, eles podem alcançar organismos marinhos e entrar na cadeia alimentar. O estudo, porém, não demonstrou que isso já esteja acontecendo na Ilha dos Gatos. Os pesquisadores defendem justamente mais monitoramento ambiental para verificar esse risco.

Ilha dos Gatos fica em uma das áreas marinhas mais ricas do litoral fluminense

A localização torna o problema ainda mais relevante. A Ilha dos Gatos fica em Mangaratiba, dentro do complexo formado pelas baías da Ilha Grande e de Sepetiba, uma das regiões de maior biodiversidade marinha do litoral fluminense.

Recentemente, pesquisadores identificaram nessa área evidências de um importante hotspot reprodutivo de tubarões. Fêmeas grávidas de três espécies — tubarão-galha-preta, tubarão-rotador e tubarão-mangona — foram registradas no complexo, reforçando sua importância como possível área de reprodução e berçário.

Por isso, qualquer possível contaminação que parta da Ilha dos Gatos merece atenção. O problema não está isolado em terra: a ilha faz parte de um ecossistema marinho de alto valor para a conservação.

Gatos ferais também ameaçam a fauna nativa

Além do risco sanitário, há um problema ecológico conhecido. Gatos ferais são predadores eficientes e, em ilhas, podem causar impactos desproporcionais sobre aves, pequenos répteis e outros animais nativos.

Esse risco preocupa especialmente em ambientes insulares, onde muitas espécies evoluíram com poucos predadores terrestres. Quando centenas de gatos passam a ocupar uma ilha pequena, a pressão sobre a fauna cresce rapidamente.

Por isso, o caso da Ilha dos Gatos não pode ser tratado apenas como uma questão de abandono ou bem-estar animal. É também um problema de conservação da biodiversidade. Como mostra uma dissertação de mestrado da UFRRJ, de 2023, de Erica Rodrigues de Matos, os gatos da Ilha Furtada já vivem em condição asselvajada e compartilham o ambiente com aves migratórias, lagartos, gambás, cotias, capivaras e pacas, criando competição e pressão sobre a fauna nativa.

Para saber mais assista ao vídeo

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