Poluição sonora nos oceanos e seus impactos na vida marinha
Em minhas viagens pela costa brasileira não era incomum chegar em alguma comunidade de pesca e ouvir dos nativos ‘que depois da sísmica’ os peixes sumiram. A primeira vez levei um susto: sísmica, o que seria? Mas continuava o bate-papo sem avançar sobre algo que não compreendia. A reclamação passou a ser mais comum conforme eu avançava em investigações ao longo do litoral. Ao final eu havia escutado a mesma ladainha em todas as regiões do litoral. Mais recentemente, em 2020, uma notícia sobre possíveis ataques de orcas a barcos no litoral da Europa e do Brasil provocou mais um post, e desta vez com apoio de especialistas. Poluição sonora nos oceanos e impactos na vida marinha.

Poluição sonora nos oceanos e impactos na vida marinha
Ao estudar os possíveis ataques de orcas, entrevistei o professor Marcos Cesar de Oliveira Santos, do Instituto Oceanográfico da USP. Ele explicou no post Orcas e barcos, algo muito estranho está acontecendo, que “estes animais altamente evoluídos podem ter se irritado com o barulho das sondas dos barcos.”

Nos oceanos, grande parte da vida marinha se comunica ou orienta seu comportamento pelo som. A visão embaixo d’água enfrenta muitas limitações e alcança pouco, sobretudo entre espécies tão diferentes.
O som, ao contrário, percorre grandes distâncias. E, como nos disse o professor da USP, “a poluição sonora no meio marinho foi introduzida pelos primatas” — nós — “sem pedir licença aos animais”. Por isso, decidi pesquisar mais sobre o tema.
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Espécies marinhas afetadas pelo som
Vamos nos lembrar que até recentemente os oceanos eram silenciosos, ou melhor dizendo, os sons produzidos pelo ser humano ainda não haviam tomado conta deste gigantesco espaço que cobre 71% da superfície do planeta.
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Até quase o fim do século 19 era assim. Um átimo de tempo se considerarmos que a vida nos oceanos surgiu há 3 bilhões e 500 milhões com as algas e bactérias. Então, começou a evolução que nos trouxe até onde estamos hoje.
Do século 20, quando começou o processo sísmico, para o início do século 21, uma literal explosão da agitação sonora tomou conta do espaço marítimo.
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Cerca de 100 anos depois da primeira plataforma, há hoje mais de 1.300 espalhadas por todos os mares do planeta.
E um dos métodos para acharem petróleo no mar é o uso da sísmica.
Sísmica, entenda
Para acharem os locais mais prováveis onde ficam os depósitos de gás e petróleo no subsolo marinho são usados canhões de ar comprimido. “A onda sísmica se propaga através do meio e ao atingir a interface entre dois meios diferentes, parte de sua energia é refletida e retorna à superfície, onde é captada. Uma outra parte da onda é refratada para o meio inferior, voltando à superfície por outro caminho. Este método permite a investigação de estruturas geológicas subsuperficiais e camadas sedimentares que contenham petróleo e gás.”

Imagine, então, a quantidade de tiros de ar comprimido usados na prospecção que antecede cada um dos mais de 1.300 poços espalhados pelos oceanos, segundo a Statista.
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Antes, vale lembrar outro dado: “a taxa de descoberta de acumulações economicamente viáveis de óleo ou gás é de 1 descoberta para cada 7 poços perfurados”.
Em outras palavras, para manter 1.300 poços em operação, a indústria provavelmente disparou milhares de tiros de ar comprimido além daqueles que resultaram em poços produtivos.
Milhares ou milhões de tiros?
Milhares, ou milhões de tiros? Não importa qual seja a resposta correta, importa que o ser humano, além de plástico, e outros resíduos, levou ao interior dos oceanos um barulho infernal que por bilhões de anos esteve ausente.

E isso prejudica, sim, a vida marinha, como nos alertavam os nativos do litoral. Especialmente, mas não apenas, os mamíferos marinhos.
Cetáceos: os mais prejudicados?
‘Os cetáceos usam a percepção auditiva para funções essenciais de seu modo de vida como a orientação, comunicação, e detecção de presas ou predadores. Por isso os danos às estruturas auditivas podem impactar de modo significativo o comportamento do animal’.
O som e os animais marinhos
Estudo de Linda S. Weilgart, The Impact of Ocean Noise Pollution on Marine Biodiversity, diz que “a maioria dos animais marinhos, principalmente mamíferos marinhos e peixes, são muito sensíveis ao som. Estes animais usam o som para quase todos os aspectos importantes de sua vida, incluindo reprodução, alimentação; ou evitar perigos como predadores e navegação.”

A propagação do som debaixo d’água
O mesmo estudo nos informa que “o som pode viajar por grandes distâncias subaquáticas, às vezes centenas ou mesmo milhares de quilômetros, enquanto a visão é apenas útil para dezenas de metros debaixo d’água.”
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O ruído, ou ‘som indesejado’
Linda Weilgart diz que “o som indesejado, ou ruído, pode ter um grande impacto no ambiente marinho, porque os ruídos cobrem uma área muito grande, potencialmente impedindo peixes ou baleias de ouvir suas presas ou predadores, encontrando seu caminho, ou conectando-se com companheiros, membros do grupo ou seus filhos. “
Sonar para detectar submarinos e o encalhe de cetáceos
As novidades que nós, ‘primatas’, levamos aos oceanos não se resumem à sísmica, ou às milhares de embarcações que navegam de um lado para o outro.
Os sonares para detectar submarinos são outro problema, segundo a autora, “o sonar ativo de frequência, usado para detectar submarinos, pode afetar a vida marinha em uma área de cerca de 3,9 milhões de quilômetros quadrados (Johnson 2003). Este valor é baseado nos níveis mostrados para produzir evasão em peixes e baleias.”

E hoje há mais de 500 submarinos no mundo que navegam praticamente sem parar. Esta é a função deles, navegar ininterruptamente, seja para defenderem as nações a que pertencem, seja para uns detectarem a posição dos outros. E a cada vez que um sonar é usado pode impactar uma área de cerca de 3,9 milhões de quilômetros quadrado
Já, “o ruído sísmico do canhão de ar da exploração de petróleo e gás alcançou 3.000 km de distância, foi o mais alto ruído (de fundo) registrado debaixo d’água.”
Tudo somado, parecem ter razão os nativos com quem conversei, embora ainda não haja estudos conclusivos sobre os efeitos nos peixes. A certeza que existe é que a poluição sonora prejudica, sem dúvida, os cetáceos.
Segundo estudo do brasileiro Cristiano Vilardo (2006), “encalhes de cetáceos em massa” — fenômeno cada vez mais frequente — ocorrem em áreas onde operam sonares militares.
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Tartarugas-marinhas e poluição sonora
Também há indícios de prejuízos equivalentes às tartarugas marinhas. Só existem oito espécies no mundo, todas ameaçadas de extinção. Nas águas brasileiras cindo destas espécies estão presentes. Vilardo diz que “o estado de ameaça de extinção em que se encontram justifica uma postura de precaução sobre estes animais.”
Peixes e barulhos ‘antrópicos’
Quem pescou sabe: basta um ruído na canoa para afugentar os peixes. Mas ainda sabemos pouco sobre os efeitos da poluição sonora nos cardumes e nas cerca de 30 mil espécies de peixes.
Segundo o pesquisador brasileiro, estudos analisaram a capacidade auditiva de apenas 100 espécies de peixes. Por isso, a sensibilidade auditiva das demais ainda permanece especulativa.
Ainda assim, ele lembra que peixes com bexiga natatória têm maior sensibilidade auditiva. Eles percebem melhor as variações de pressão acústica no ambiente.
De modo geral, diz o autor, “a audição é um sentido fundamental para a vida dos peixes”. Por isso, uma alteração grave nessa capacidade pode prejudicar atividades vitais, como reprodução e detecção de presas e predadores.
Experimento no mar de Barents em 1992
A tese de Cristiano Vilardo comenta esta experiência sobre os cardumes de bacalhau no mar de Barents. E os resultados, ao menos com esta espécie, não foram nada otimistas. Segundo ele, o estudo ‘consistiu no registro hidroacústico da densidade de peixes e na realização de pescarias experimentais’.
“Os resultado obtidos indicaram uma drástica redução na abundância (do já combalido bacalhau ou Gadus morhua) e do haddock “recursos pesqueiros importantes para os europeus.”
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Poluição sonora nos oceanos
A conclusão, ainda que faltem mais estudos, indica que a poluição sonora por nós introduzida nos oceanos é mais um fator de preocupação. Tanto é assim que pelo menos em dois locais da costa brasileira o Ibama proibiu o uso da sísmica. Um deles fica no litoral da Bahia e procura preservar as baleias jubartes, o outro, pelo mesmo motivo, no litoral do Rio Grande do Sul.
Psiu!
(Fale baixo…)
Ilustração de abertura: Callie Wohlgemuth ’21
Fontes: https://www.iag.usp.br/geofisica/sites/default/files/M%C3%A9todo_S%C3%ADsmico.pdf; http://filesrodadas.anp.gov.br/round9/arquivos_r9/guias_R9/sismica_R9/Bibliografia/Vilardo%202006.pdf; http://citeseerx.ist.psu.edu/viewdoc/download?doi=10.1.1.542.534&rep=rep1&type=pdf; https://docplayer.com.br/7336036-Informacao-elpn-ibama-no-012-03-resumo.html; https://www.statista.com/statistics/279100/number-of-offshore-rigs-worldwide-by-region/; https://www.statista.com/statistics/279100/number-of-offshore-rigs-worldwide-by-region/.











Interessante! Mar Sem Fim, informação científica confiável e aprendizado garantido. Obrigado.
AOS SONHADORES DOS SALVEM AS BALEIAS QUE TENTEM DESEVOLVER REALMENTE UM TAPA-TUDO AFINAL POÇOS PETROLÍFICOS, NAVIOS, BARCOS, SUBMARINOS, E TRALHAS DE PESQUISAS E BRINQUEDINHOS DOS MAIS AQUINHOADOS. POBRES SERES SUBMARINOS.