Orquídeas ameaçadas de extinção: risco atinge mais da metade

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Orquídeas ameaçadas de extinção: risco atinge mais da metade

As orquídeas ameaçadas de extinção também dizem respeito ao Mar Sem Fim. Isso porque a Mata Atlântica cobre grande parte da Serra do Mar e depende diretamente da umidade trazida do oceano. Ao encontrar a barreira montanhosa, esse ar úmido sobe, esfria e provoca chuvas frequentes, ajudando a sustentar uma das florestas mais ricas, e mais ameaçadas, do planeta.

O Atlas da Mata Atlântica, lançado em maio de 2024, reportou a perda de mais 14.697 hectares de florestas nativas entre 2022 e 2023 (cada hectare equivale à área média de um campo de futebol), 40% dos quais no Piauí.

Orquídea da Mata Atlântica 𝘪𝘯 𝘴𝘪𝘵𝘶, Parque Estadual da Serra do Mar.
Orquídea da Mata Atlântica 𝘪𝘯 𝘴𝘪𝘵𝘶, Parque Estadual da Serra do Mar, em imagem de @paulodimasm.

É nesse ambiente que vive uma parcela enorme das orquídeas brasileiras. Uma revisão de 2025, Orchidaceae do Brasil, aponta 2.515 espécies nativas, das quais 1.398 ocorrem na Mata Atlântica. É, de longe, o domínio mais rico em orquídeas, à frente da Amazônia, com 784 espécies, e Cerrado, com 656. O Brasil também aparece como o segundo país do mundo em endemismo de orquídeas, com cerca de 1.540 espécies exclusivas.

A faixa de Mata Atlântica entre Espírito Santo e Rio de Janeiro é apontada por orquidófilos e produtores como uma das regiões especialmente ricas em espécies.

Serra do Mar, Espírito Santo
Serra do Mar no Espírito Santo. Imagem, www.gazetarondonia.com.br.

Mas agora um estudo global, com participação do professor Eric de Camargo Smidt, do Departamento de Botânica da Universidade Federal do Paraná (UFPR), alerta que mais da metade das espécies conhecidas pode estar ameaçada de extinção.

Risco de extinção para orquídeas

A Serra do Mar, os contornos do litoral e as orquídeas

A formação do litoral das regiões Sul e Sudeste devem sua feição à Serra do Mar. Como uma imensa escarpa cristalina que se joga em direção ao Atlântico, influencia a largura das planícies costeiras, a formação de baías e o desenho irregular da costa.

Serra do Mar

A Serra é formada por rochas cristalinas antigas, como granitos e gnaisses. Como essas rochas apresentam resistências diferentes à erosão, o litoral ganhou formas irregulares. Nos trechos mais resistentes surgiram cabos e penínsulas; nas zonas fraturadas, mais frágeis, o mar avançou e formou baías, enseadas e outros recortes profundos.

Serra do Mar e recorte profundo

A importância vai muito além da fisionomia do litoral. Muitas das ilhas do Sul e Sudeste — como Ilhabela (SP), Ilha Grande (RJ) e Ilha de Santa Catarina (Florianópolis) — são extensões geológicas da Serra do Mar. Elas se isolaram do continente devido ao aumento do nível do mar em períodos geológicos passados, mas compartilham a mesma estrutura montanhosa e rochosa.

Árvore da mata Atlântica cheia de epífitas

Sobre as orquídeas que esta mata úmida abriga na Serra do Mar, levantamentos clássicos estimavam entre 1.300 e 1.400 espécies, algo próximo de 60% das espécies brasileiras conhecidas à época.

O orquidelírio começou no século XIX

Na Grã-Bretanha vitoriana, colecionar orquídeas era símbolo de riqueza e prestígio. Aristocratas, banqueiros e industriais pagavam fortunas por exemplares exóticos retirados das florestas tropicais. Em 1821, por exemplo, o duque de Devonshire pagou £100 por uma única orquídea — algo em torno de £10 mil em valores atuais.

The Great Palm House
Ilustração da era vitoriana de Kew’s Palm House. Imagem, Royal Botanic Gardens Kew.

O insuspeito Royal Botanic Gardens Kew afirma que ‘embora Kew não estivesse envolvido em remessas de orquídeas em massa, era um centro inicial de especialização e cultivo, e pode ter contribuído indiretamente para a coleta excessiva, fornecendo detalhes sobre onde as plantas cresceram’.

orquídea no Royal Botanic Gardens Kew.
Laelia callistoglossa © RBG Kew.

A febre cresceu. Viveiros enviavam coletores para Ásia, África e Américas em busca de raridades retiradas em grandes quantidades. Segundo o Royal Botanic Gardens de Kew, essa coleta causou danos longevos e empurrou algumas espécies para perto da extinção.

orquídea do Royal Botanic Gardens Kew
Paul Figg © RBG Kew.

O problema não terminou com a Era Vitoriana. O comércio ilegal e a coleta predatória ainda pressionam populações silvestres. E hoje se somam ameaças ainda maiores: perda e fragmentação de habitat e mudanças climáticas.

Estas, são especialmente perigosas porque muitas orquídeas dependem de relações específicas com fungos e polinizadores. Alterações de temperatura e chuva podem mudar a época de floração, deslocar polinizadores e afetar os fungos necessários para a germinação das sementes.

A Mata Atlântica é um dos grandes refúgios das orquídeas brasileiras

A Mata Atlântica concentra a maior diversidade de orquídeas do Brasil. Das cerca de 2.500 espécies nativas registradas, aproximadamente 1.400 ocorrem nesse bioma.

Essa riqueza também explica a vulnerabilidade das orquídeas ameaçadas de extinção. Quando a floresta é derrubada ou fragmentada, elas não perdem apenas a árvore onde vivem. Podem perder também o fungo necessário para germinar, o polinizador que garante sua reprodução e o microclima do qual dependem.

orquidea brassavola flagellaris barb-rodr
Brassavola flagellaris Barb. Rodr, a variedade mais nova de orquídea descoberta em Florianópolis – Foto: Marcelo Vieira Nascimento/Divulgação/ND.

Enquanto isso, as restingas, embora mais abertas e sujeitas a condições extremas, abrigam dezenas de espécies de orquídeas. Porém, sofrem forte pressão da urbanização, da especulação imobiliária e da consequente perda de vegetação nativa.

Proteger as orquídeas ameaçadas de extinção da Mata Atlântica significa conservar muito mais do que flores. Significa manter uma delicada rede de relações ecológicas que depende diretamente da integridade da floresta.

Por que as orquídeas estão tão ameaçadas

O alerta mais recente sobre as orquídeas ameaçadas de extinção veio de uma revisão global publicada no periódico Biodiversity and Conservation, com participação do professor Eric de Camargo Smidt, do Departamento de Botânica da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

O estudo reuniu dados até março de 2025 e cruzou diferentes bases de informação para estimar o risco de extinção das orquídeas no mundo. O resultado preocupa: entre 55,6% e 69,2% das espécies podem estar ameaçadas.

selos com imagens de flores da Mata Atlântica
Selo Flores da Mata Atlântica.

O problema é ainda maior porque a ciência conhece mal a situação de muitas delas. Das cerca de 30 mil espécies de orquídeas conhecidas, apenas aproximadamente 2 mil passaram por avaliação na Lista Vermelha da IUCN, principal referência mundial sobre risco de extinção.

Isso significa que boa parte da família Orchidaceae permanece fora do radar. Muitas espécies podem estar desaparecendo antes mesmo que os pesquisadores consigam medir com precisão o tamanho de suas populações, sua distribuição e o grau de ameaça que enfrentam.

Orquídeas viraram um grande negócio

As orquídeas hoje fazem parte de um mercado amplo que envolve viveiros, laboratórios, floriculturas, supermercados, exposições e concursos, este dado positivo merece destaque.

No Brasil, a cadeia de flores e plantas ornamentais gerou R$ 21,23 bilhões em 2024 e cerca de 265 mil empregos, segundo o Cepea/Esalq-USP e o Ibraflor. Embora o valor inclua todo o setor, as orquídeas ocupam posição de destaque.

Em 2021, por exemplo, mudas de orquídeas representaram 76,8% das importações brasileiras de materiais como sementes, mudas, bulbos, rizomas, etc.

No Espírito Santo,  um laboratório citado pela Conexão Safra produz cerca de 35 mil mudas de orquídeas por mês. A reprodução em laboratório permite abastecer o mercado sem retirar plantas da natureza.

Orquídea da Mata Atlântica em imagem de Gustavo Pedro
Reserva Biológica das Orquídeas, em Arraial do Cabo, na Região dos Lagos do RJ Foto Gustavo Pedro/Divulgação.

Ao mesmo tempo, exemplares raros ou considerados excepcionais alcançam valores muito altos. A mesma reportagem cita plantas avaliadas entre R$ 15 mil e R$ 30 mil e uma Cattleya schilleriana albescens estimada em R$ 80 mil.

Há também um circuito de exposições e concursos que reúne produtores, colecionadores e jurados especializados. Em um desses eventos, 23 expositores disputaram premiações avaliadas por jurados vindos de diferentes regiões.

Esse mercado legal ajuda a reduzir a pressão sobre populações silvestres. Mas a valorização da raridade também cria um incentivo perigoso: quanto mais difícil de encontrar uma espécie, maior pode ser o interesse de colecionadores por exemplares retirados diretamente da mata.

Comprar uma orquídea pode alimentar o tráfico?

O risco é maior entre as orquídeas ameaçadas de extinção que têm distribuição restrita. A retirada de poucos indivíduos pode comprometer populações inteiras. Entre os grupos mais cobiçados estão Cattleya, Laelia e as chamadas orquídeas-sapatinho.

Orquídea Cattleya
Orquídeas ameaçadas de extinção: Cattleya. Imagem, Wikimedia Commons.

Por isso, ao comprar espécies nativas ou raras, vale conferir a procedência e preferir viveiros estabelecidos. O problema não está em cultivar orquídeas, mas em retirar da natureza justamente as espécies que a raridade torna mais valiosas.

Há também boas surpresas. Em 2015, a Cattleya schilleriana, uma orquídea da Mata Atlântica que se acreditava extinta na natureza, foi redescoberta no Espírito Santo. O caso mostra quanto ainda desconhecemos sobre essas plantas. Algumas sobrevivem em populações minúsculas, escondidas em fragmentos de floresta pouco estudados — e que, justamente por isso, precisam ser preservados.

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