Fragata Tamandaré marca a volta da construção naval militar
A fragata Tamandaré marca a volta da construção naval militar brasileira em grande estilo. Depois de 46 anos, a Marinha do Brasil voltou a incorporar uma fragata nova construída no país. O fato merece registro. Mas também pede contexto.

Num país com uma Amazônia Azul imensa, frota envelhecida, planos ambiciosos e verbas escassas, a chegada da Tamandaré diz muito sobre o que o Brasil conseguiu fazer — e ainda mais sobre o que deixou de fazer por décadas.

A fragata primeira de uma nova classe
A fragata Tamandaré é o primeiro navio do Programa Fragatas Classe Tamandaré. A Marinha prevê quatro embarcações desse tipo. Todas devem reforçar a Esquadra em tarefas de patrulha, escolta, vigilância e proteção da Amazônia Azul.
A construção começou em 2022, com o corte da primeira chapa de aço. O lançamento ao mar ocorreu em agosto de 2024. Depois vieram os testes de mar, até a incorporação em abril de 2026.
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Mais que um navio novo, a Tamandaré representa a tentativa de recompor uma capacidade que o Brasil não deveria ter perdido: construir, integrar e operar navios militares modernos em território nacional.
Uma fragata para várias guerras ao mesmo tempo
Segundo a Agência Marinha de Notícias, a fragata Tamandaré chega com capacidade para atuar, ao mesmo tempo, em três frentes: guerra antiaérea, guerra antissubmarino e guerra de superfície. Portanto, ela muda o patamar operacional da Esquadra.
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Além disso, o principal ganho está nos sensores. O navio conta com radar de busca volumétrica, capaz de detectar e acompanhar contatos acima d’água. Isso inclui embarcações a longas distâncias, aeronaves e drones. Também opera sistemas de guerra eletrônica, que monitoram emissões eletromagnéticas e de radiofrequência.

Em linguagem simples, a Tamandaré enxerga mais longe, acompanha mais alvos e antecipa ameaças com maior precisão. Assim, amplia a consciência situacional da Marinha. Essa capacidade faz diferença num país que precisa vigiar uma área marítima imensa.
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A indústria nacional no programa
A fragata Tamandaré também importa pelo que movimenta em terra. O programa envolve estaleiros em Itajaí, engenharia nacional, aço brasileiro, sistemas de combate, armamentos, eletrônica embarcada e mão de obra altamente especializada.
Segundo estudo abrigado no repositório do Ipea, o Programa Fragatas Classe Tamandaré envolve investimentos de cerca de R$ 13 bilhões e permite medir, por variáveis de finanças públicas municipais, seus efeitos na atividade econômica de Itajaí.

Na área de armamentos, por exemplo, a Marinha tenta reduzir a dependência externa. Em parceria com a CBC, busca nacionalizar munições usadas nas fragatas Tamandaré, sobretudo as de 30 mm do sistema Rheinmetall Sea Snake e as de 76 mm do canhão Oto Melara.
O plano inclui munições mais sofisticadas, como a Vulcano, guiada por GPS ou infravermelho. Além disso, as fragatas devem operar com o Míssil Antinavio Nacional, o MANSUP, em especial na versão de maior alcance.
Segundo a Marinha, o Programa Fragatas Classe Tamandaré deve gerar cerca de 2 mil empregos diretos e 6 mil indiretos ao longo da construção das embarcações. Outros levantamentos falam em até 23 mil postos, quando incluem empregos induzidos pela cadeia produtiva.
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A volta de uma fragata construída no país
A Tamandaré também carrega um peso histórico. Segundo o Poder Naval, a Marinha não incorporava uma fragata nova construída no Brasil desde a União, em 1980.

O intervalo de 46 anos diz muito. Mais que uma lacuna, ele expõe a dificuldade brasileira de manter continuidade em projetos estratégicos. O país constrói, para, perde ritmo, recomeça e paga caro por isso.
Por que o Brasil precisa de uma Marinha forte?
O Brasil precisa de uma Marinha forte porque tem uma imensa Amazônia Azul. Por ali passam 95% do comércio exterior brasileiro. Dali também saem grande parte do petróleo e do gás natural do país. Além disso, cabos submarinos, pesca, biodiversidade e recursos minerais dependem desse espaço.

Há ainda outro ponto que o Brasil quase sempre esquece. A economia do mar pesa muito. Como mostrou o Mar Sem Fim, estudo da PUC-RS estimou que, em 2015, os setores ligados ao oceano geraram R$ 1,11 trilhão, 19% do PIB brasileiro. O mesmo estudo apontou mais de 19 milhões de empregos ligados à economia azul.
Portanto, defender o mar não é luxo militar. É obrigação de Estado. Sem presença naval, o Brasil deixa vulnerável uma das bases de sua soberania, de sua economia e de seu futuro.
A ampliação da ZEE brasileira
Logo ao assumir o Ministério da Marinha, o almirante Marcos Sampaio Olsen defendeu a ampliação da Zona Econômica Exclusiva brasileira. O Mar Sem Fim destacou a declaração à época, porque ela apontava na direção correta.
Desde então, o Brasil já avançou. Em março de 2025, a Comissão de Limites da Plataforma Continental, da ONU, aprovou a ampliação de nossa plataforma continental na Margem Equatorial. Com isso, o país ganhou o direito de explorar cerca de 360 mil km² além das 200 milhas náuticas, em área que vai do Amapá ao Rio Grande do Norte.
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Agora, o próximo passo é ainda mais estratégico. O Brasil trabalha para incluir a Elevação do Rio Grande em sua Zona Econômica Exclusiva. A área ganhou importância adicional depois da descoberta de jazidas minerais e metais de terras raras, recursos cada vez mais disputados pela indústria de alta tecnologia e pela transição energética.
A Marinha do Brasil se moderniza em várias frentes
A fragata Tamandaré não é um caso isolado. A Marinha também toca o Programa de Desenvolvimento de Submarinos, o Prosub. O primeiro resultado concreto foi o Riachuelo, já lançado ao mar e incorporado à Força.

O programa prevê quatro submarinos convencionais e um submarino com propulsão nuclear. Trata-se de um projeto estratégico para um país com a dimensão marítima do Brasil.
A Marinha também fala em ter um porta-aviões nuclear até 2040. Aqui cabe o alerta. Uma Força que ainda luta para manter navios básicos em operação precisa medir melhor seus sonhos. Antes de mirar projetos grandiosos, precisa garantir manutenção, presença no mar e capacidade real de cumprir suas missões.

O contraponto: a falta crônica de verbas
É aqui que o entusiasmo precisa encontrar a realidade. A Marinha do Brasil quer se modernizar, e deve fazê-lo. Mas enfrenta falta crônica de verbas, envelhecimento da frota e dificuldade para manter seus meios operacionais.
Ainda assim, como o Mar Sem Fim já destacou, a Marinha consegue alguns avanços mesmo em meio à crise. Foi assim com o porta-helicópteros Atlântico, com o submarino Riachuelo, com o navio de socorro a submarinos Guillobel e, agora, com a fragata Tamandaré.
Portanto, uma nova fragata ajuda. Mas não resolve, sozinha, décadas de atraso, cortes e descontinuidade.
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Avanço, sim; ufanismo, não
A fragata Tamandaré merece registro. Ela representa avanço tecnológico, industrial e militar. Também mostra que o Brasil ainda pode construir meios navais modernos quando mantém foco, encomenda e capacidade técnica.
Mas não cabe ufanismo. A Tamandaré também expõe o atraso acumulado, a falta de continuidade, a carência de verbas e a necessidade de fiscalização rigorosa. O Brasil precisa de uma Marinha moderna para defender a Amazônia Azul, ampliar sua presença no Atlântico Sul e proteger riquezas que vão do petróleo às terras raras.
Para isso, precisa tratar a defesa naval como prioridade de Estado. Com orçamento estável, transparência e menos delírios de grandeza.
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