Amazônia por Carlos Nobre, bom-senso afinal

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Amazônia por Carlos Nobre, o bom-senso vence as bobagens

Recentemente o cientista Carlos Nobre foi entrevistado pela GloboNews. O programa, do qual fizeram parte Heraldo Pereira, André Trigueiro, Natuza Nery, Cris Lôbo, Merval Pereira, e Gerson Camarotti, a Amazônia por Carlos Nobre, foi uma aula de bom-senso como há muito não se via. Ficou patente que nunca houve políticas públicas para a maior floresta úmida do planeta. Nobre é climatologista, pesquisador, e um grande conhecedor dos problemas da Amazônia. Como climatologista, desenvolveu estudos sobre a região há muitos anos. Há três anos lançou o conceito da terceira via amazônica que ele mesmo explica:

O elemento inovador da terceira via é propor trazer para o seio da floresta e das comunidades as modernas tecnologias que lhes propiciarão enorme poder de gerar novos conhecimentos

imagem de carlos nobre em programa sobre a Amazônia
Amazônia por Carlos Nobre.

Depois das bobagens de Bolsonaro e do ministro neófito, finalmente o bom-senso veio à tona

Nobre confirmou os recentes dados do Inpe que custaram a cabeça de seu diretor Ricardo Galvão, ‘um nome consagrado da ciência brasileira’, como disse. Como se sabe, Bolsonaro e seu fiel escudeiro, aquele que jamais pôs os pés na Amazônia até ser escalado para o ministério do Meio Ambiente, contestaram os dados sem nenhuma base científica. Apenas ‘porque não gostaram’. Os dados apontavam aumento de 88% no desmatamento da floresta Amazônica em junho, em comparação ao mesmo mês do ano anterior. O presidente, em seu estilo tosco, disse que os números estavam errados. E sugeriu que o diretor poderia estar a “serviço de alguma ONG”. Em seguida demitiu-o. Foi um quiprocó dos diabos. E, mais uma vez, mostrou o lado autoritário de Bolsonaro. Houve barulho e protestos em todo o mundo. O programa da GloboNews foi longo. Destacamos os pontos que nos parecem mais importantes.

Amazônia por Carlos Nobre: ‘existem projetos no Congresso que são muito preocupantes’

Um deles, diz Nobre, é o projeto de Lei que está no Senado e acaba com a Reserva Legal. Este é um projeto de Flávio Bolsonaro…Nobre diz o óbvio: que estas medidas “passam para os agentes interessados uma mensagem de que no futuro não haverá punição”. E explica como nasceu o contestado sistema Deter. “Ele foi criado depois que explodiram os dados de desmatamento entre 2003, 2004. Foram 27 mil km2, o maior nível de desmatamento já alcançado. Naquele tempo só havia o sistema Prodes, que uma vez por ano publica seus dados . Mas aí, é tarde demais. O Prodes é um sistema pós-desmatamento. Por isso, diz, “o ministério do Meio Ambiente solicitou ao Inpe para desenvolver o sistema Deter. Ele foi criado para dar ao Ibama informações diárias”. Com estes dados, “a partir de 2005,  houve uma enorme redução do desmatamento. O Brasil tornou-se protagonista mundial da questão ambiental.”

Sobre a agricultura brasileira, nem tão tech assim…

Instado a falar sobre políticas públicas, Carlos Nobre foi enfático: “é preciso intensificar a agricultura sustentável. A média de ocupação do gado aqui é de 1,35 cabeças por hectare, um campo de futebol, isso é muito baixo. Pode-se jogar isso para três cabeças por hectare. Mesmo a soja, que nos últimos anos aumentou muito a produtividade, ainda é baixa se comparada à dos Estados Unidos. A nossa é metade da que conseguem os americanos.” Nobre falou da área da agricultura e pecuária no Brasil, de 2,6 a 2,8 milhões de km2. Com a intensificação da sustentabilidade “teríamos como diminuir a área, aumentar a produtividade, e assim reduzir a pressão do desmatamento.”

Amazônia por Carlos Nobre: “Qual o potencial econômico da biodiversidade?”

Perguntado sobre ‘qual a estratégia do governo para a Amazônia? A aula que já era boa, ficou ainda melhor. “Falta, a este governo, e aos anteriores, nós, os brasileiros, nos enxergarmos como o País da maior biodiversidade do planeta. Qual o potencial econômico da biodiversidade? Este potencial é pouquíssimo explorado em todas as florestas tropicais. O potencial é muito superior à pecuária e aos grãos, mas muito mais superior. Pegue o exemplo do…

“O exemplo do açaí que gera um bilhão de dólares para a Amazônia”

“O açaí já gera mais de um bilhão de dólares para a Amazônia. Na economia mundial, muito mais. O açaí está sendo industrializado. Os produtos da fruta foram desenvolvidos no Vale do Silício, na Califórnia. Porque lá tem ciência, tem tecnologia que transforma em produtos que todos querem consumir. É um belíssimo exemplo do caminho futuro para a Amazônia. Nós nunca tivemos esta visão. A culpa não é só deste governo. Mas o grande potencial econômico que nós temos é a biodiversidade.”

“Primeira grande potência da biodiversidade”, ou a Amazônia por Carlos Nobre

Um parêntesis. Com o caso do açaí, fica claro que nenhum governo, recente ou não, criou o que se chama de políticas públicas para a Amazônia. O que fizeram os militares? ‘Integrar para não entregar’, era este o lema da época. E resultou em enormes estradas, muitas vezes sem sentido, que apenas contribuíram para o desmatamento que hoje se vê. Depois deles, os civis não foram além de tentar brecar o desmatamento com maior ou menor sucesso. Mas nenhum estudou e implementou políticas públicas que ajudem a desenvolver a região, tirando da pobreza os cerca de 20 milhões de brasileiros que vivem no que conhecemos como Amazônia Legal. E mantendo a floresta de pé. Carlos Nobre começa a sugerir o que falta: explorar o que temos de sobra, a biodiversidade.

“Qual o futuro do Brasil?”

Para Carlos Nobre,”falta industrializar a biodiversidade. E o que fizemos? Nós nos desindustrializamos nos últimos 30 anos Existem mais de 400 produtos da Amazônia com algum uso, mas em muito pequena escala. No entanto, o açaí atingiu escala mundial. Este é o grande futuro. Sistemas florestais com açaí rendem entre US$ 200,00 e US$ 1.500,00 dólares de lucro por ano por hectare. O gado na Amazônia mais lucrativo rende US$ 100,00 por hectare.” E conclui: “estamos indo para um caminho econômico que não faz sentido. Precisamos é de indústria, ciência e tecnologia que desenvolvam este potencial.” Ou seja, o cientista está falando de políticas públicas coerentes para a região. Hoje, tudo que se ouve é sobre o avanço da agricultura e pecuária na Amazônia, com aval presidencial.

Aquecimento global

O professor foi provocado pelos entrevistadores sobre o ceticismo de nosso chanceler, Ernesto Araújo, que não acredita no aquecimento global. Ele é seguido pelo presidente, e pelo neófito ministro, na  tese. Nobre, com extrema elegância, e esbanjando conhecimento, demonstrou o contrário.”A ciência climática é muito bem estabelecida, a razão das mudanças climáticas são antropogênicas, ou seja, nós. “Milhares de artigos científicos sobre o clima dizem que a razão é antropogênica. Só 0,7% deles são de pesquisadores que negam a tese.” Em seguida comparou estes textos com outros, do final dos anos 60 quando médicos, a soldo dos fabricantes, negavam o perigo de câncer para fumantes.”O que a gente vê nestes céticos do clima, nos Estados Unidos é muito comum, é que estão a serviço da indústria petrolífera.”

Cumpriremos nossa parte no Acordo de Paris?

“Se o País quiser, sim.” Em seguida, Carlos Nobre falou da imensa possibilidade do Brasil voltar a ser a liderança nas questões do clima, até que Bolsonaro foi eleito. E voltou a ironizar os ‘negacionistas’. “Não ver o aquecimento é fazer como o avestruz. Enfiar  a cabeça no chão.” E lembrou o físico sueco, “Arrhenius, (Svante August Arrhenius, Nobel de Química de 1903) que mostrou o aquecimento global em razão do gás carbônico, em 1896. Isso é algo que a ciência domina há mais de um século.”

“Área agrícola está diminuindo no mundo. Só nos trópicos ela aumenta…”

Esta foi a grande revelação do programa. Mostrar que há enorme potencial na Amazônia, desde que se invista em ciência e pesquisa. Carlos Nobre voltou ao tema várias vezes durante a entrevista. E mostrou que a área agrícola está diminuindo nos Estados Unidos, Europa no Japão, e até na China. “Ela só está aumentando nos trópicos”. E por quê? Porque nestes países há grande produtividade. No Brasil, menos. Para ele há dois caminhos: explorar o potencial da biodiversidade junto com a intensificação sustentável da agricultura. O aumento da produção nos trópicos acontece menos pela tecnologia, e mais pela expansão  da área, disse. E voltou a lembrar o caso do açaí, levado para os Estados Unidos nos anos 90 por dois surfistas que gostaram da fruta. Então, no Vale do Silício aconteceu a transformação.

Mineração em área indígena

Mais uma tese estapafúrdia de Bolsonaro. “O modelo de exploração de garimpo, não a mineração industrial, historicamente tem sido muito destrutiva na Amazônia. Quase tudo é ilegal, a atividade não gera riqueza, o fluxo de garimpeiros gera violência, e historicamente tem trazido uma série de doenças para a Amazônia que dizimam populações indígenas”. E foi além, “a gente vê alguma explorações de minérios na Amazônia, mas o índice de desenvolvimento destas regiões não aumenta, ou aumenta muito pouco.” E, mais uma vez, volta ao tema: “mineração associada com industrialização, intensificação sustentável da agricultura associado com industrialização dos produtos agrícolas, não só vender a maior parte dos grãos in natura. Esta industrialização, até de minérios, pode sim, ser positiva. Mas não tem sido a história. Precisamos de um novo modelo.”

Ligações durante o programa

Foi interessante perceber que o neófito ministro assistia ao programa. Às tantas Natuza Nery, em vez de pergunta, diz a Carlos Nobre que ‘acabara de receber mensagem de zap de Ricardo Salles’, que este percebera bom-senso em suas respostas e queria um encontro. Carlos Nobre acedeu.

O acaso terá salvado Ricardo Salles?

É incrível que um rapaz de 45 anos, colocado de repente como ministro, e ignorante na área, não tenha tomado a iniciativa de procurar aqueles que passaram suas vidas estudando a matéria que desconhece. Até agora o ministro só espezinhou a categoria. Faz questão de se indispor. Ataca e desqualifica qualquer um que não pense como ele. Não importa se são técnicos do Ibama e ICMBio, ou expoentes da academia como o recém demitido Ricardo Galvão. No tempo que sobra, ou agride parceiros que investem na Amazônia como Noruega e Alemanha, ou desmonta o sistema de conservação, com falhas sim, mas a duras penas construído. Será que finalmente a ficha caiu?

Assista a íntegra da entrevista

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14 COMENTÁRIOS

    • Você poderia explicar melhor? Qual é a teta que está secando? De que forma a mídia (imbecil) está agonizando? Você sem duvida deve ter muita informação, pois o assunto é sério demais para ser tratado como piada, e creio que ninguém agiria de forma tão irresponsável. Por favor, seja generoso e compartilhe seu saber.

  1. Assunto sério e complexo demais para ser debatido nestes termos. E me refiro a ambos os pólos ideológicos. Até o pessoal do agro que curtiu a mudança anda preocupado.

  2. Aula de bom senso… o colunista deixa claro que concorda com o modelo atual por exemplo do fundo da Amazônia, onde mais de 70% do repasses do fundo que passam pelo BNDS, dispensa licitações olhem os casos das ONGs citadas que gastam 80% do dinheiro recebido em folha de pagamento. Tosco é não defender o direito de uma exploração consciente da Amazônia, vcs fica falando de europeus como modelo, duvido um alemão ou norueguês passar uma lei onde ele possa explorar apenas 20% de sua propriedade, o Brasil é um modelo, mas negar um mínimo de progresso apartir de uma exploração mínima da região é no mínimo irresponsável, todo mundo está lá pesquisando a Amazônia porque ? Nós temos que pesquisar, o que sair de lá, tem que ter dpi para o governo brasileiro.

  3. O governo precisa remunerar bem os índios, para que esses trabalhem na fiscalizacäo e monitoramento (GPS, drones) e demais tarefas para a preservacäo e protecäo da Amazônia. Ao contrário, o que ele está fazendo atualmente é ensinando e incentivando os índios a destruírem suas terras, com garimpo e agricultura de larga escala. Isso vai transformar a Amazônia em deserto e nos matar de sede e fome.

  4. Uma coisa é certa : A AMAZONIA é de interesse global, e cabe a nós brasileiro exercer a função mais difícil, que é de gerencia-la.

  5. Uma coisa é certa… nem tudo está perdido. Porém há de se lembrar aqui um pequeno detalhe… não vi (e ainda não vejo) uma justificativa para tantas organizações não governamentais estrangeiras na “Amazônia Legal”, aliás, também não vi uma justificativa plausível para “catequese de índios” também feita pelos mesmos estrangeiros que lá estão. Não vi a mídia questionar isso, não vi jornalista algum falar sobre isso. Bolsonaro pode não ser o melhor para o momento mas, era o que havia disponível… vocês que falam tanto em globalização estão contentes com esses desmandos?? Isso vem de longe e acho que a “gota d’agua” foi o governo petista que retirou gente que produzia há mais de 40 anos assim… da noite para o dia. Isso também a imprensa não questionou. Desculpem mas… como está não dá para ficar.

    • Bravo! Muito boa a sua colocação. Há pelo menos 17 anos que soube dessa sua afirmação e eu não aceito nenhuma justificativa da presença de tantas organizações estrangeiras na Amazônia Legal. E não só estrangeiros que se comunicam com os índios pra ter o conhecimento sobre a floral que ajuda curar muitas doenças e dão dinheiro aos índios e levam essas plantas para o seus países. Esse negócio de catequese não cola mais : índio não precisa aprender outra religião pois ele já tem a dele.

  6. Importante e ilustrativa entrevista o cientista Carlos Nobre. No entanto, em sua entrevista apresenta números que no decorrer do programa não temos condições de checar. Após, com tempo necessário, pesquisei alguns dados disponíveis na internet para checar a credibilidade dos números citados. Em um deles, de mais fácil compreensão, verifiquei algumas inverdades proferidas. No artigo “Produtividade da soja : Analises e Perspectivas, Volume 10 – ano 2017 Em Compêndios de Estudos da CONAB, desmente claramente os dados apresentados pelo Pesquisador. É para se acreditar nos demais indicadores que ele apresenta?

    • Caro Luiz, não sou especialista em produtividade de soja, mas re-chequei seu comentário, o qual confirmei em pelo menos duas fontes independentes, como https://www.researchgate.net/publication/46534692_World_Soybean_Production_Area_Harvested_Yield_and_Long-Term_Projections/link/00b7d529d9806abf75000000/download , reforça que a produtividade da soja no Brasil está muito próxima a dos EUA, sendo os EUA o principal produtor mundial de soja, enquanto o Brasil encontra-se em segunda posição.

      Não chequei as outras afirmações, as quais espero que o ESTADÃO o faça, particularmente quanto a produção de carne bovina por área, sendo este o indicador relevante para análise deste embate político.

      • Acho que vocês deveriam saber que este pesquisador é um dos mais conhecidos cientistas dentro e fora do Brasil. Faz parte do IPCC – Painel da Onu pra vários temas de Climatologia e outros temas afins.

        • Lígia, climatologista, não é doutor em tudo o que perguntaram. Entre outras coisas a rede BOBO é contra o governo e não abre. Ele tem razão em falar da biodiversidade, mas o pessoal falada amazônia e se esquece da mata atlântica, que infelizmente, já foi destruída por demais. Esta mesmo que seja menor em área, não podemos esquecer que ela tem muitas áreas em grande declive, o que permite a entrada de luz, e, consequentemente grande diversidade. Alguns, como o francês, falou em produção de O2. Isso é balela, Uma floresta que não muda com o passar do tempo, tudo o que produz, consome. Até já fizeram medidas, mas nem precisaria. Quanto ao clima, é certo que pelo menos no nosso continente, é importante, associada aos andes inclusive.

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