A pesca no Brasil é uma esculhambação total

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A pesca no Brasil é uma esculhambação total

Durante a primeira série de documentários pela costa brasileira, aprendi muita coisa. Ao longo do litoral, flagrei absurdos de toda espécie. Aprendi que a pesca no Brasil, por exemplo, é uma esculhambação total.

No Ceará, pescadores capturavam lagostas com compressores. A prática mata a lagosta e também coloca o pescador em risco. Na Bahia e em outros Estados, encontrei pesca com bombas. Também vi arrasto na zona de arrebentação.

A pesca incidental  matava animais marinhos sem qualquer aproveitamento. Além disso, conflitos opunham pescadores artesanais e industriais.

Quando cheguei a Itajaí, capital da pesca no País, entrevistei o chefe do CEPSUL. O Centro de Pesquisa e Gestão de Recursos Pesqueiros do Litoral Sudeste e Sul integrava o Ibama.

Perguntamos sobre todos aqueles disparates. Ele respondeu sem rodeios: “João Lara, a pesca no Brasil é uma esculhambação total.”

pesca de arrasto na arrebentação
Arrasto na arrebentação. Litoral norte de São Paulo. Imagem, arquivo MSF.

Uma total esculhambação

Todas as questões sobre a pesca no Brasil, mencionadas acima, são proibidas pela legislação. E todas acontecem até hoje, na cara de quem quiser ver, sem quase nenhuma ação do poder público, muito menos do público consumidor de peixes e frutos do mar.

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Para se ter uma dimensão do esculacho, o Ibama dispõe de apenas três barcos para fiscalizar 7.300 quilômetros de litoral. Isso mesmo: um, dois, três barcos. Pode?

Desde a primeira série de documentários, entre 2005 e 2007, a situação piorou ainda mais. Naquela época, o País ainda produzia estatísticas da pesca. Sem esses dados, ninguém consegue organizar a atividade.

Desde o governo Dilma, porém, o Brasil abandonou esse levantamento. Até hoje, ninguém sabe exatamente quanto se pesca nem onde.

O Brasil figura entre os três únicos países do mundo sem estatísticas da pesca. Além deste site, pouquíssimas publicações mencionam o disparate.

Mianmar e Indonésia completam a lista. No entanto, os dois países já começaram a padronizar a coleta de dados. Por aqui, reina o silêncio.

Ameaçadas de extinção, raias manta são pescadas no Brasil

Esta é a nova denúncia. Quer dizer, nova não. Desde pelo menos 2015, denunciamos outro absurdo: a pesca e a venda de animais ameaçados de extinção, como as raias-manta.

Imagem de raia manta
Suburbana Paripe, Salvador, maio de 2020. Imagem, Projeto Mantas do Brasil.

Agora, recebemos outro apelo do Projeto Mantas do Brasil. A ONG trabalha pela preservação das maiores raias do mundo, conhecidas como raias-manta.

No Brasil, os pesquisadores registram a espécie Manta birostris, também chamada Mobula birostris. Ela pode alcançar oito metros de uma asa à outra e pesar mais de duas toneladas.

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Pescar e transportar raias é crime

O projeto lembra que a lei proíbe a pesca, o transporte e a comercialização de raias da família Mobulidae. Mesmo assim, estudos mostram que pescadores ainda capturam raias-manta, de forma intencional ou acidental, em vários Estados do litoral brasileiro.

imagem de raia manta pescada
Sul da Bahia, 2020. Imagem Projeto Mantas do Brasil.

Artigo científico denuncia

A oceanóloga Nayara Bucair, do Projeto Mantas do Brasil, assina o artigo científico. O Santos Port Authority patrocinou a pesquisa. A revista Global Ecology and Conservation publicou o estudo em outubro deste ano.

Os pesquisadores analisaram 270 animais. A ação humana causou 100% das lesões observadas. Além disso, 34,3% das raias feridas ainda arrastavam equipamentos de pesca.

Bahia, Espírito Santo e Sergipe são os mais reincidentes

O mapeamento destaca capturas incidentais e intencionais em vários Estados. Bahia, Espírito Santo e Sergipe concentram os principais registros.

Os relatos surgiram mesmo depois de o Brasil conceder proteção aos mobulídeos.

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Ponta dos Mangues, município de Pacatuba, Sergipe, outubro de 2021. Imagem, Projeto Mantas do Brasil.

O desabafo da oceanóloga Nayara Bucair

“A situação das mantas preocupa muito. No Brasil, a espécie ocorre em todo o litoral e sofre vários impactos causados pelo ser humano.

Além do consumo local, o País fornece subprodutos da raia-manta, como os feixes branquiais, ao mercado asiático. Também enfrentamos dificuldades para estudar uma espécie migratória.

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Faltam informações. A fiscalização também falha diante de um litoral tão extenso como o nosso.”

A palavra da coordenadora do projeto raias manta, Ana Paula Balboni Coelho

“Sem saber, os pescadores não apenas consomem carne imprópria para o consumo humano, como a de raias e tubarões. Também devoram hoje o próprio amanhã.

Precisamos levar esse conhecimento até eles. Assim, poderão se tornar agentes da preservação dos gigantes marinhos e do próprio futuro.”

Raias-manta: ameaçadas de extinção

A Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza, a IUCN, classifica as raias-manta como ameaçadas de extinção.

No Brasil, a legislação protege as raias-manta e todas as outras espécies da família Mobulidae.

imagem de raia manta pescada
Bairro Industrial, Aracaju, Sergipe, abril de 2020. Imagem, Projeto Mantas do Brasil.

Instrução Normativa Interministerial No. 2, de 2013 proíbe a pesca destas raias

Em 2013 foi publicada a Instrução Normativa Interministerial Nº2, que proíbe a pesca, transporte e comercialização destas raias.

Quem capturar, transportar ou comercializar esses animais poderá perder cadastros, autorizações, inscrições, licenças, permissões e registros ligados à atividade pesqueira. Além disso, responderá pelas demais sanções previstas para o crime ambiental.

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imagem de raia manta morta
Sul da Bahia, 2020. Imagem Projeto Mantas do Brasil. Enquanto o País continuar menosprezando a educação não avançaremos, não há como sem educação boa e para todos.

O problema é que quase ninguém cai nas mãos da fiscalização. Na prática, ela mal existe.

Pior: quase ninguém se importa com o que acontece no litoral. Por isso, só a pressão dos consumidores poderá mudar esse quadro. Quando os brasileiros entenderem a força que têm e protestarem juntos, talvez algo finalmente aconteça.

Secretário da pesca desrespeita leis da pesca

Por que esse descalabro tende a continuar? Além da absoluta omissão dos consumidores, o governo já mostrou que não compreende as questões ambientais.

Uma das muitas provas foi a escolha de Jorge Seif Júnior para comandar a Secretaria da Pesca. Até assumir o cargo, ele trabalhava na empresa pesqueira de sua própria família, em Itajaí.

Acontece que a empresa da família do secretário da pesca foi multada inúmeras vezes por…desrespeitar leis da pesca!

Pescar peixes que estão no período do defeso

O Ibama aplicou duas multas e emitiu uma notificação contra Sara Kischener Seif, madrasta do secretário da Pesca.

Uma das multas, de R$ 40 mil, veio depois que os agentes encontraram 250 quilos de sardinhas usadas como isca viva durante o período de defeso.

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Barcos da empresa desligam equipamento de rastreamento

O Ibama também aplicou uma multa de R$ 30 mil à embarcação Dona Ilva, da empresa da família. Segundo os fiscais, problemas técnicos impediam o rastreamento contínuo do barco.

Na terceira autuação, o órgão notificou Sara Seif para consertar os equipamentos de identificação.

Multa por pescar peixes na lista dos ameaçados de extinção

A empresa do pai do secretário, Jorge Seif, chama-se JM Seif Transportes. Em 2014, o Ibama aplicou uma multa de R$ 300 mil à empresa por transportar cherne-poveiro, a pesca no Brasil tem destas coisas.

A pesca dessa espécie já estava proibida. Desde 2004, ela integrava a lista de animais ameaçados, depois que os cardumes encolheram 90%.

Vale repetir: a pesca no Brasil é uma esculhambação total. Ou alguém ainda duvida?

Imagem de abertura: Projeto Mantas do Brasil

Fontes: Projeto Mantas do Brasil, https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2351989421003036.

Tamara Klink, velejadora solitária, volta ao Brasil

Comentários

112 COMENTÁRIOS

  1. Excelente reportagem.No Ceará, na Praianha do Canto Verde, por razões políticas, foi criada uma Reserva Extrativa alcançando grande área de área do litoral. Mas verdade é que não existe nenhuma fiscalização e nada de pesca.. Os pescadores sobrevivem comendo carne de lata.

  2. o que dizer, só lamentar o descaso, o país carece de políticas de responsabilidades e coragem, mas sabemos que os políticos são os primeiros a não dá valor as riquezas que estão aí para serem destinadas as pessoas e a quem pode contribuir para o bem e a coisa certa.

  3. Todo o conteúdo desta reportagem, é muito triste e vergonhoso. Lendo ainda, comentários de outros leitores, onde destacam ainda mais, o pouco caso e importância das “chamadas autoridades” à toda essa situação e etc. Em poucas palavras, nosso país chamado bRASIL. “ESCULHAMBAÇÃO NÃO SOMENTE NA FISCALIZAÇÃO DA PESCA, MAS EM TUDO E TODO”.
    Analisem…. Se vivemos em um lugar, onde não são capazes de fiscalizarem e exterminarem com pancadões e qualquer outra perturbação do sossego à quais, adoecem moradores devido a carga de estresse, aumento de sequestros, roubos, latrocínios, falta de vacinas, desvio de milhões de reais, corrupção, aumento de maus tratos aos animais, etc…etc….etc…
    “O bRASIL é uma esculhambação”.
    (Já dizia Fausto Silva, qnd apresentava “PERDIDOS NA NOITE”) :- ***A SAÍDA DO bRASIL É CUMBICA***

    • Falou tudo e mais um pouco . Infelizmente acontece isso mesmo . País de natureza incrível , mas pouco preservado . Governo cego , e povo ignorante ….
      Ótimo comentário …. Parabéns

  4. A verdade é que existe os dois lados da moeda quando se fala de preservação de espécies. O órgãos que impõe proibições aos coletores e pescadores sem oferecer alternativas e, extrações indevidas. O que me chamou a atenção neste artigo foi afirmações como “raias ameaçadas de extinção” pois bem desafio a qualquer biologo a provar isso. Onde vivo rais manta estão longe da extinção pelo menos uns 3 milhões de indivios da espécies. Tartaruga marinha podem ser observadas aos bando e levo qualquer um pra ver. Peixe boi tem localidade que não dar nem pra colocar uma rede porque há tantos que você arrisca perder todo material. O chamado extinto peixe mero no porto de Suape no vapor Baía e Cabedelo pode ser visto aos montes. Sabe em extinção estamos nós. Toda essa falácia é apenas para manter empregabilidade de órgãos que só servem para gastar dinheiro público.

  5. Realmente é uma vergonha.eu moro em santa Catarina r vrjo pescadores fazendo arrasto de rede nas costas do mar com papagaios, ou pipas . e quando vc quer pegar um peixe de molinete não tem. Eu penso que as autoridades braseiras deveriam aplicar multas a estes pescadores q nem profissionais são.

  6. Eu trabalho com pescados há mais de 30 anos e o problema tbm é na estrutura de armazenamento pós a pesca….
    Como pode uma variedade de iguarias chegar no ponto de vendas já fedendo???
    Culturalmente pra maioria isso é normal…infelizmente.

  7. Eu moro distante do litoral. Resido no Estado de Goiás, onde o rio Araguaia faz divisa com o Estado do Mato Grosso. Nós, conhecedores da legislação, sabemos que não podemos trazer pescado do Rio Araguaiana, mas somente pescar e consumir no local o pescado. Ao voltarmos de nossa “praia de água doce” (o rio Araguaia) e nos pararem em blitz da Polícia militar estadual, federal e encontrar “pescados” é prisão, multa, etc. mas vem uns “parentes de políticos de São Paulo “que manda nos policiais da blitz” e fala que vão levar os pescados sim, coagindo os fiscalizadores e ameaçando que é parente do deputado paulistano de tal, senador de tal, que é primo do governador de são Paulo e etc, e acabam sendo liberados com os “pescados”

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