Toninhas do norte do Espírito Santo quase extintas

0
1576
views

Toninhas do norte do Espírito Santo ameaçadas de extinção

O Instituto Baleia Jubarte (IBJ), por meio de Nota Técnica encaminhada aos órgãos ambientais – Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema), Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Centro de Mamíferos Aquáticos do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (CMA/ICMBio) – e aos ministérios públicos Federal e Estadual (MPF/ES e MPES) alertou para a extinção iminente das Toninhas do norte do Espírito Santo.

Toninhas do norte do Espirito Santo
Imagem, Projeto Toninhas/Univille.

‘Iminente risco das toninhas serem extintas’

Os autores da Nota Técnica, Milton Marcondes e José Truda Palazzo Jr, coordenadores de Pesquisa e de Desenvolvimento Institucional do IBJ, alertaram para o ‘iminente risco das toninhas (Pantoporia blainvillei) serem extintas no Espírito Santo se não forem tomadas com urgência medidas para reduzir sua mortalidade’.

Segundo o jornal Século Diário, no documento os pesquisadores ressaltam que, no litoral capixaba as toninhas se concentram apenas na porção norte, entre Santa Cruz/Aracruz e a divisa com a Bahia, e a maior presença está na região da Foz do Rio Doce, em Linhares.

Nesse trecho de 175 km, em que o destruído e morto Rio Doce deságua no mar, estima-se que resistam apenas 595 indivíduos. Ao sul desse ponto, a partir do litoral de Fundão e Serra, na Grande Vitória, há um vazio de ocorrência da espécie, que só volta a aparecer no litoral norte do Rio de Janeiro.

Conheça a Toninha

O Brasil é um dos três países do mundo em cujos litorais existe esta espécie. Os outros são Argentina, e Uruguai. Os pesquisadores não sabem exatamente quantas toninhas existem.

PUBLICIDADE

Toninha
Imagem, Projeto Toninhas/Univille.

Um censo de 2005 estimou que havia cerca de 13.000 a 14.000 na Argentina, enquanto uma pesquisa diferente em 2010 estimou a população brasileira de pouco menos de 2.000. Uruguai não tem censo oficial.

A toninha é um tipo de golfinho bem pequeno, um dos menores do mundo, e com comportamento discreto. Um cetáceo solitário.  No máximo está em dupla, mas,  às vezes, são avistados grupos de cinco indivíduos. Alimenta-se de pequenos peixes, lulas e camarão. Tem focinho longo, com 210 a 242 dentes. A toninha tem hábitos costeiros, mantendo-se em áreas com profundidade máxima de vinte metros.

Se ainda existem toninhas no Brasil, isso se deve à bióloga Marta Cremer. Ela iniciou o trabalho de proteção e conscientização com bolsa da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, e até hoje está à frente do Projeto Toninhas, na ameaçada baía da Babitonga (o outro habitat destes animais no País), ao norte de Santa Catarina.

‘Criticamente em Perigo no Brasil’

Assim a toninha está classificada no País. Eduardo Camargo, coordenador-geral do Projeto Baleia Jubarte e diretor-presidente do IBJ, declarou ao Século Diário:  “É a população de cetáceos mais ameaçada do Brasil.”

Para  Camargo, a população capixaba, especificamente, se encontra em posição ainda mais preocupante, exatamente devido a esse isolamento físico. “Já é possível identificar diferenças genéticas desse grupo.”

Toninhas do norte do Espírito Santo
Imagem, Projeto Toninhas/Univille.

“A degradação dos habitats costeiros é uma ameaça grave. Após o desastre da Samarco, houve maior contaminação”, disse ele. Na Nota Técnica, os autores afirmam que a população capixaba  “sofreu impacto do Desastre de Mariana, quando o rompimento da Barragem de Fundão em 2015 trouxe mais de 60 milhões de toneladas de rejeitos de mineração da empresa Samarco através do Rio Doce atingindo toda a área de ocorrência da espécie no Espírito Santo”.

Concentração de mercúrio e zinco no músculo e fígado dos animais encalhados

Uma das formas de pesquisar estes animais é estudá-los quando aparecem mortos nas praias. E o que eles encontraram mostra a mão da Samarco. O estudo com carcaças de toninhas encontradas na região “mostrou aumento na concentração de mercúrio e zinco no músculo e fígado dos animais encalhados após a chegada da lama.”

E ressaltaram: “a ocupação do litoral capixaba com a instalação de portos e terminais marítimos é uma ameaça à sobrevivência da espécie”.

Captura incidental da pesca

A captura incidental das artes de pesca é terrível em todo o mundo. Estudos demostram que a morte da vida marinha não intencional chega até 40% da captura global, estimada em 90 milhões de toneladas. 

PUBLICIDADE

No Brasil não seria diferente. A principal causa da morte das toninhas no Espírito Santo ainda é a captura incidental em redes de pesca.

Segundo o Século Diário, a afirmação se baseia em um monitoramento da atividade pesqueira em seis comunidades do norte do Espírito Santo durante dois anos (julho de 2017 a setembro de 2019), período em que o Projeto Baleia Jubarte também realizou reuniões com os pescadores para discutir opções para a sobrevivência das toninhas.

Ilustração de redes de emalhar
Redes de emalhar de superfície e de fundo. Ilustração, adaptado de MontealegreQuijano et al.

O Século Diário afirma que nos dois anos de monitoramento a equipe acompanhou 4,4 mil desembarques pesqueiros, nos quais foram identificadas capturas acidentais de pelo menos 15 cetáceos, dos quais três eram toninhas.

Com base nestes dados, explanam na Nota Técnica, foi possível estimar as capturas incidentais de toninhas para o período em seis animais, com um intervalo de confiança de 95% de 2 a 22 animais. De acordo com a Nota Técnica, “Como os dados de capturas foram obtidos de forma indireta, através do relato dos pescadores, é provável que estes números estejam subestimados.”

Há ainda um outro estudo feito pelo Instituto Baleia Jubarte com o Programa de Monitoramento de Praias da Bacia do Espírito Santo (PMP), por meio do qual foram encontradas, entre 2019 e 2021, 34 carcaças de toninhas na região.

O estado de decomposição não permitiu estabelecer a causa da morte de todos os animais, mas em pelo menos doze deles identificou-se o emalhe em redes de pesca como a causa do óbito.

‘Pesca proibida’

As aspas são por conta deste site. Explicamos: Atualmente a pesca está proibida na região ao redor da foz do Rio Doce. Mas, como inexiste fiscalização, ela continua apesar de tudo.

PUBLICIDADE

Na Nota Técnica os pesquisadores reforçam: “…mesmo assim ainda está ocorrendo pesca nesta área e captura de toninhas. Se não forem adotadas medidas urgentes para reverter a mortalidade das toninhas a espécie irá desaparecer do Espírito Santo num período relativamente curto.”

Seis recomendações dos pesquisadores

-Proibição definitiva da pesca com rede de emalhe em todo o litoral norte do Espírito Santo, desde a divisa com a Bahia até Santa Cruz, dentro da isóbata de 20 metros de profundidade.

-Realizar a compensação financeira adequada aos pescadores artesanais, bem como desenvolvimento e implementação, com participação das comunidades, de um programa de alternativas econômicas a essa modalidade pesca.

-Fiscalização rigorosa à proibição da pesca no trecho proposto, com ênfase nas regiões próximas à Regência e Guriri.

As outras três recomendações envolvem o direcionamento de recursos oriundos de multas, compensações ambientais e outras fontes para ações focadas na conservação da toninha no Espírito Santo; o monitoramento continuado do tamanho da população para avaliar a efetividade das ações adotadas; e a divulgação ampla sobre a situação das toninhas para o público da região e do Estado.

Imagem de abertura: Projeto Toninhas/Univille.

Fonte: https://www.seculodiario.com.br/meio-ambiente/projeto-baleia-jubarte-alerta-sobre-extincao-iminente-da-toninha-no-norte-do-es?fbclid=IwAR23vICm30rAQkgqz6L5qcc-ASKHOZFR_XcypgYcLLOM1f0nhPrkb0SQh6U.

O iate de Vladimir Putin, confiscado, e seu luxuoso interior

Comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here