Poluição química passou dos limites, advertem cientistas

2
1917
views

Poluição química passou dos limites, advertem cientistas

Os cientistas estão preocupados. Para eles o mundo ultrapassou os limites seguros da poluição química que agora ameaça a estabilidade  global. Não bastasse a brutal poluição por plásticos há, segundo especialistas, o perigo de mais 350.000 produtos químicos sintéticos, incluindo pesticidas, compostos industriais e antibióticos nos ecossistemas do planeta Terra. Patricia Villarrubia-Gómez, doutoranda e assistente de pesquisa do Centro de Resiliência de Estocolmo (SRC), que fez parte da equipe de estudos, declarou que “Houve um aumento de cinquenta vezes na produção de produtos químicos desde 1950 e isso deve triplicar novamente até 2050”. Poluição química passou dos limites, advertem cientistas.

Poluição química
Acervo MSF.

O estudo

O estudo Outside the Safe Operating Space of the Planetary Boundary for Novel Entities foi publicado na revista Environmental Science & Technology. O trabalho sustenta que ‘o espaço operacional seguro do limite planetário de novas estruturas químicas  foi ultrapassado, uma vez que a produção e os lançamentos anuais aumentam a um ritmo que supera a capacidade global de avaliação e monitoramento’.

‘Revisamos a literatura científica relevante para quantificar o limite para novas substâncias e destacamos a poluição plástica como um aspecto particular de alta preocupação’.

‘Concluímos que a humanidade atualmente está operando fora do limite  com base no peso da evidência para diversas das variáveis ​​de controle’.

A repercussão foi imensa. O jornal inglês The Guardian escreveu que ‘A poluição química ameaça os sistemas da Terra ao danificar os processos biológicos e físicos que sustentam  a vida. Por exemplo, os pesticidas eliminam muitos insetos não-alvos, que são fundamentais para todos os ecossistemas e, portanto, para o fornecimento de ar, água e alimentos limpos’.

PUBLICIDADE

infográfico mostra poluição química
A cor verde assinala o que os cientistas chamam de ‘espaço operacional seguro’. Note o quanto já foi ultrapassado. E ainda faltam muitos estudos. Ilustração, https://theconversation.com.

O Brasil, seja por termos um dos mais vigorosos agronegócios do mundo, muitas vezes é criticado por supostamente usar mais pesticidas do que deveria. Trata-se de uma polêmica entre o agronegócio, de um lado; parte da academia, dos ambientalistas, e de médicos sanitaristas,  de outro.

E não é só. O novo marco regulatório do setor nasceu contestado quando foi aprovado em julho de 2019. Na mesma semana de sua aprovação, “o governo federal publicou no Diário Oficial a liberação de mais 51 tipos de agrotóxicos.

Mas a polêmica não é o nosso foco. Apenas para contextualizar, chamamos a atenção para o fato de que o Brasil é um dos grandes consumidores mundiais de agrotóxicos. Ponto. Isto é incontestável. E o governo federal libera outros a velocidades não recomendáveis, no mínimo.

O inédito fenômeno da superpopulação

Aos que querem tomar partido na polêmica dos agrotóxicos, primeiro seria oportuno lembrar que vivemos o fenômeno, único na história de 4,5 bilhões de anos da Terra, da superpopulação. Somos quase 8 bilhões, é inédito; e poderemos chegar aos 10 bilhões no final do século! Para piorar,  nossos hábitos de consumo (para os privilegiados que podem) são altamente incorretos e insustentáveis. Em suma,  nossa pegada em muito supera a capacidade do planeta. Sobre isto ninguém duvida.

Comentamos sobre agrotóxicos não como provocação, mas porque o produto foi citado no estudo. Se quisermos mudar para o outro lado do mundo, vamos lembrar o acidente de Fukushima de 2011, que ainda não parou de vazar elementos químicos no Pacífico, e cujos problemas ainda estão longe de terminarem.

Mas a palavra correta para o caso que hoje focalizamos, do excesso de elementos químicos na biosfera, é “superpopulação.”

Sarah Cornell, professora associada e pesquisadora principal do SRC, disse: “Há muito tempo, as pessoas sabem que a poluição química é uma coisa ruim. Mas elas não têm pensado nisso em nível global. Este trabalho traz a poluição química, especialmente os plásticos, para a história de como as pessoas estão mudando o planeta.”

Os limites planetários

O euronews.com diz que, ‘A Terra permaneceu notavelmente estável desde o início da civilização, há 10.000 anos. Em 2009, especialistas delinearam nove limites que nos manteriam dentro dos parâmetros desse ‘estado estacionário’. Eles incluem emissões de gases de efeito estufa, florestas, biodiversidade, água doce e camada de ozônio’.

fumaça de fábricas
Acervo MSF.

‘Embora já tenhamos estimado os limites para o aquecimento global ou os níveis de CO2, os cientistas não analisaram a poluição química. A ampla gama de diferentes fontes poluidoras significa que, até agora, os especialistas não conseguiram chegar a uma conclusão sobre o estado desse limite específico’.

Existem cerca de 350.000 tipos diferentes de produtos químicos fabricados – ou “novas entidades”, como são conhecidos – no mercado global. Eles incluem:

  • Pesticidas
  • Produtos químicos industriais
  • Antibióticos
  • Plástico

Estes são criados pela atividade humana com efeitos principalmente desconhecidos nos ecossistemas da Terra.

O euronews.com, ciente da superpopulação, diz sobre os resíduos que deixamos no planeta: ‘A produção dessa forma generalizada de resíduos só deve aumentar, apesar dos esforços em muitos países para reduzir o uso de plásticos’.

O fiasco da COP 26 na questão do plástico

A matéria do euronews é muito bem feita. Ela lembra que ‘Apesar de muitas questões sobrepostas, especialistas apontaram que não houve menção ao plástico na Declaração de Glasgow feita na COP26′.

E é verdade, apesar de todos sabermos os malefícios do excesso de plástico. Não há lugar do planeta, do local mais profundo, a fossa das Marianas onde foi encontrado excesso de plástico e radiação; ao mais alto, o pico do Everest, que não esteja poluído, ‘ressentido’, pela nossa ação.

Aproveitamos para lembrar que ‘a maior e mais poderosa cidade da América Latina’, São Paulo, tem na região do Grande ABC o poluidor e insustentável Polo Petroquímico de Capuava, um sucessor à altura do antigo ‘Vale da Morte’ (Cubatão nos anos 80).

PUBLICIDADE

Ali trabalha a Dra. Maria Ângela Zacarelli alertando solitariamente que a poluição de Capuava provoca o retardo mental em algumas crianças, e faz proliferar a Tireoidite de Hashimoto, doença incurável que, se não tratada, leva ao coma e à morte.

Apesar dos anos de alerta o máximo que aconteceu, além do silêncio ‘ensurdecedor‘ dos formadores de opinião, e mesmo de muitos ambientalistas,  foram algumas poucas multas da CETESB. Nada mais.

Desde 1950 um aumento de 50 vezes

“Houve um aumento de cinquenta vezes na produção de produtos químicos desde 1950 e isso deve triplicar novamente até 2050”, disse Patricia Villarrubia-Gómez, doutoranda e assistente de pesquisa do Centro de Resiliência de Estocolmo (SRC). E reforçou: “O ritmo que as sociedades estão produzindo e liberando novos produtos químicos no meio ambiente não é consistente com a permanência em um espaço operacional seguro para a humanidade.”

A brutal poluição química do polo de Capuava, São Paulo, Região do Grande ABC, onde está nascendo um novo Vale da Morte não comove os paulistanos, nem o poder público. Imagem, Dra. Maria Ângela Zacarelli.

Para o leitor ter uma ideia, um grupo de golfinhos do Mediterrâneo, estudado por pesquisadores do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC), da Espanha, estava contaminado por organofosfatos (composto orgânico constituído por fosfatos orgânicos de fósforo e muito usado como fertilizante ou pesticida) que foram encontrados na gordura, músculo, fígado e cérebro dos animais, atingindo concentrações de até 25 microgramas por grama de gordura.

E este não foi o único grupo de animais selvagens já intoxicados quimicamente.

O perigo dos CFC

Algumas ameaças foram abordadas em maior medida, disseram os cientistas, como os produtos químicos CFC que destroem a camada de ozônio (Obs do MSF: o buraco de ozônio bateu recorde de tamanho em 2020 no Ártico) e sua proteção contra os raios ultravioleta prejudiciais.

Ainda assim, determinar se a poluição química cruzou uma fronteira planetária é complexo porque não existe uma linha de base pré-humana, ao contrário da crise climática e do nível pré-industrial de CO 2 na atmosfera.

Há também um grande número de compostos químicos registrados para uso – cerca de 350.000 – e apenas uma pequena fração deles foi avaliada quanto à segurança.

Assim, a pesquisa usou uma combinação de medidas para estimar a situação. Isso inclui a taxa de produção de produtos químicos, que está aumentando rapidamente, e sua liberação no meio ambiente, que acontece muito mais rápido do que a capacidade das autoridades de rastrear ou investigar os impactos.

Extração e vazamento de combustíveis fósseis

Os conhecidos efeitos negativos de alguns produtos químicos, desde a extração de combustíveis fósseis para produzi-los até o vazamento no meio ambiente, também fizeram parte do trabalho. Os cientistas reconheceram que os dados eram limitados em muitas áreas, mas disseram que o peso das evidências apontava para uma violação da fronteira planetária.

PUBLICIDADE

“Há evidências de que as coisas estão apontando na direção errada a cada passo do caminho”, disse a professora Bethanie Carney Almroth, da Universidade de Gotemburgo, que fazia parte da equipe.

Mais plástico que a massa de todos os mamíferos

Bethanie Carney Almroth disse mais: “Por exemplo, a massa total de plásticos agora excede a massa total de todos os mamíferos vivos. Isso para mim é uma indicação bastante clara de que cruzamos um limite. Estamos com problemas, mas há coisas que podemos fazer para reverter um pouco disso.”

fábricas e fumaça
Chega! Arquivo MSF.

Para Villarrubia-Gómez, “Mudar para uma economia circular é realmente importante. Isso significa mudar materiais e produtos para que possam ser reutilizados, não desperdiçados.”

Regulamentação mais forte

Os pesquisadores disseram que é necessária uma regulamentação mais forte e, no futuro, um limite fixo na produção e liberação de produtos químicos, da mesma forma que as metas de carbono visam acabar com as emissões de gases de efeito estufa.

Os cinco limites já ultrapassados pelos terráqueos

O limite planetário da poluição química é o quinto dos nove que os cientistas dizem já ter sido ultrapassado. Os outros são o aquecimento global, que no Brasil não é levado a sério;  a destruição de habitats selvagens, o declínio da biodiversidade e a poluição excessiva por nitrogênio e fósforo.

Ainda sobre poluição química, parece incrível, mas é verdade. Os testes nucleares produzidos na Guerra Fria deixaram consequências em todos os mares do planeta. Inclusive em nosso litoral.

Aproveitamos para esclarecer que nossas múltiplas matérias sobre as mazelas de nossa geração, os imensos e graves problemas que causamos ao planeta, não têm outro objetivo que não seja sensibilizar a opinião pública. Se cada letrado refletir sobre a questão uma vez por mês, teremos dado imensa contribuição. As gerações futuras merecem nosso discernimento. Mais por ética que por compaixão.

Imagem de abertura: Acervo MSF

Fontes: https://www.theguardian.com/environment/2022/jan/18/chemical-pollution-has-passed-safe-limit-for-humanity-say-scientists; https://www.euronews.com/green/2022/01/18/scientists-say-chemical-pollution-has-now-passed-the-safe-limit-for-humanity.

Descoberto recife de coral gigante no Taiti

Comentários

2 COMENTÁRIOS

  1. Preocupante a matéria, mas esclarecedora. Todos têm parcela de culpa. Aqui não cabe discurso de cunho somente ideológico, mas também científico. A pobreza sempre é lembrada quando o tema é poluição. Os mais ricos parecem que poluem muito mais. Assim a conta não fecha, na hora de pedir sacrifícios. Só haverá uma solução quando houver uma equidade social mais justa.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here