Personagens históricos da costa brasileira

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Personagens históricos da costa brasileira, conheça a história de Caramuru e Hans Staden

A costa brasileira tem uma enorme série de predicados. Algumas das paisagens mais bonitas do País é um deles. Com contornos ora sutis, como o das dunas e falésias nordestinas com seus tons pastéis; ora dramáticos, como o dos costões rochosos do Sudeste, com pequenas baías intercaladas por praias e promontórios. E tudo emoldurado pelo verde escuro da mata atlântica. Uma das  cerejas do bolo são as lindas embarcações típicas, fruto dos encontros entre os indígenas, europeus, e escravos vindos da África. Estão presentes de um extremo ao outro. Mas um destes predicados que às vezes passa batido, e não deveria, são os personagens históricos da costa brasileira uma riqueza ainda a ser  melhor divulgada. Eles também fazem parte de nossa história marítima. É o que nos arriscamos a fazer com uma breve pincelada sobre dois deles.

imagem de mapa antigo da baía de todos os santos
Mapa da baía de Todos os Santos em 1625. Ilustração, https://gvcult.blogosfera.uol.com.

Personagens históricos da costa brasileira

O padre José de Anchieta, Hans Staden, Caramuru, Jean de Lery, Iça-Mirim, filho do cacique carijó, Arosca,  que morreu na França aos 95 anos; o cacique Cunhabebe e a Paz de Iperoig; o pirata Thomas Cavendish, que destruiu Santos e São Vicente, terceiro navegador a completar uma circunavegação do globo, o enigmático Bacharel de Cananéia, e tantos outros, são alguns dos desbravadores da costa brasileira.

É preciso mais  divulgação deste rico período histórico. Através de cartas e documentos podemos ter uma ideia da pujança inigualável do litoral brasileiro nos tempos de antão, e os costumes do período.  Um deles, cujo nome todos aprendem na escola, é um dos personagens pitorescos de hoje. Diogo Álvares, vulgo Caramuru.

Diogo Álvares, vulgo Caramuru

Este singular personagem entra para a história ao tempo da quarta frota lusitana que veio ao Brasil. Capitaneada por Martim Afonso de Sousa, entre 1530 e 1532. A história de Caramuru não se perdeu nas incertezas da história em razão de um diário de bordo. Talvez seja o mais famoso de todos, escrito pelo irmão do capitão Pero Lopes de Souza.

ilustração de Caramuru
Assim a história retratou o nosso herói. Ilustração, Google.

Foi a partir deste raro documento que pela primeira vez tomamos ciência do personagem adotado pelos Tupinambás. Caramuru era uma espécie de ‘dono’ da Bahia ao seu tempo.

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Ele também construía barcos típicos, como os caravelões, e com eles dominava aquela parcela do litoral. Quem descreve sua história é o escritor Eduardo Bueno, fascinado por história, em seu belo livro Capitães do Brasil.

Uma luminosa manhã de março de 1531

“A frota de Martim Afonso entrou na baía de Todos os Santos na manhã de 13 de março de 1531. Aquele extraordinário ancoradouro – ‘largo o suficiente para abrigar todas as frotas da Europa’, nas palavras de Pero Lopes, já era conhecido desde 1502, quando a ele haviam chegado os navegadores Gonçalo Coelho e Américo Vespúcio, que o batizaram com o nome que ainda mantém.”

mapa de salvador no século 17
Caramuru e Paraguaçu não viveram para ver como Salvador se tornou no século 17. Ilustração, Google.

“Durante alguns anos, os portugueses também haviam ali mantido um entreposto para recolhimento de pau-brasil. Mas esta feitoria fora desativada por volta de 1525 e, desde então, a baía de Todos os Santos era frequentada principalmente por franceses e espanhóis.”

No atual Farol da Barra

“Tão logo puseram os pés em terra, Martim Afonso e seus soldados encontraram, estrategicamente instalado nas proximidades do atual Farol da Barra, o misterioso homem branco a quem os nativos chamavam Caramuru. Era um náufrago português que há mais de 20 anos vivia entre os tupinambás. Uma reputação misteriosa o envolvia então – e o passar do tempo apenas se encarregaria de adensá-la.”

“Caramuru era Diogo Álvares. Natural de Viana, no norte de Portugal, ele fora o único sobrevivente do naufrágio que, por volta de 1509, engolira seu navio nos traiçoeiros baixios do rio Vermelho, que fica a poucos quilômetros ao norte da ponta do Padrão (atual Farol da Barra).”

“Os tupinambás o encontraram entre as rochas costeiras – circunstância que acabou lhe dando o apelido indígena: em tupi, caramuru designa uma espécie de moreia, ou enguia, que vive entre as pedras.”

Baía de todos os santos no século 17. Aquarela do Atlas de Johannes Vingboons, publicado por volta de 1665.

Diogo Álvares é acolhido pela tribo

“Acolhido pela tribo, Álvares, então com 17 anos, se uniu a Paraguaçu, filha de Itaparica, o líder Tupinambá e senhor da ilha que mantém o seu nome. Instalado na Ponta do Padrão, e já chamado pelos nativos Caramuru, ele passou a fornecer víveres e auxílio a traficantes franceses e exploradores espanhóis, em troca de anzóis, manchados e até mesmo vinho.”

Ele também deve ter ajudado, ou ao menos convivido, com alguns  dos piratas que atormentaram as populações das vilas recém-fundadas.

Gravura de Salvador em 1625
Salvador em 1625, durante a reconquista espanhola. Observe que a Cidade organizava-se como uma fortaleza. A grande igreja na parte centro-esquerda da ilustração é a dos jesuítas, com o Colégio. A igreja mais ao centro é a Sé Primacial. Nesse empreendimento de conquistar a capital do Brasil, os holandeses fizeram valiosos mapas e ilustrações da Cidade, na época. Fonte: http://www.cidade-salvador.com/.

“…Ao longo dos anos Caramuru iria estreitar laços de amizade com os frequentadores mais assíduos das paragens onde se estabelecera: os contrabandistas franceses de pau-brasil.”

As guerras travadas na baía de Todos os Santos assistidas por Martim Afonso e sua tropa

O trecho abaixo não está no livro de Eduardo Bueno, mas no próprio Diário de Bordo de Pero Lopes de Souza cuja cópia temos em mãos. E conta das tradições guerreiras dos tupinambás e seus inimigos.

Com a palavra, Pero Lopes: “Estando nesta baía no meio do rio pelejaram 50 canoas de uma banda, e 50 de outra. Que cada uma traz 60 homens…e pelejaram desde o meio dia até o sol posto.”

Já imaginou o tamanho das árvores capazes, cada uma, de serem transformadas em canoas para 60 pessoas?

“As 50 canoas, ou ‘igaras’ que estavam surtos foram vencedores; e trouxeram muitos dos outros cativos e os matavam com grandes cerimônias, presos por cordas, e depois de mortos os assavam e comiam…”

De exílio tropical Caramuru vai à França

“Essa ligação se tornou tão explícita que, no segundo semestre de 1528, Caramuru interrompeu seu exílio tropical para visitar a França. Quem o conduziu até lá provavelmente foi o capitão italiano Girolamo Verrazano, comandante de um dos inúmeros navios que constituíam a frota particular de Jean Ango, visconde de Diepe.”

“Existem indícios de que o piloto do navio com qual Verrazano chegou à Bahia em maio de 1528 era jacques Cartier – um dos principais navegadores a serviço de Jean Ango.”

Casamento em Saint-Malô

“Uma vez na Franca, Diogo Álvares se casou com Paraguaçu, logo após ela ser batizada com o nome de Catarina. Sua madrinha foi Catarina des Granhes, esposa de Cartier. Que outro motivo poderia explicar a ligação entre a refinada senhora des Granhes e Paraguaçu, se não o fato de ter sido seu próprio marido que levara a exótica ‘princesa’ indígena para a França?”

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“Numa cerimônia presenciada pelo casal Cartier e por vários representantes da elite local, Diogo “Caramuru” Álvares e Catarina de Paraguaçu se casaram em Saint-Malô no dia 30 de julho de 1528.”

Não é fantástico um náufrago lusitano vivendo entre índios num país recém-apresentado ao mundo dar um pulo na França para se casar com a filha do chefe Tupinambá?

A filha de um cacique Tupinambá vai à França

O que teria passado pela cabeça da jovem Paraguaçu saída do sertão, onde vivia pelada sem medo de mostrar ‘suas vergonhas’, para embarcar numa ‘nave’ nunca antes avistada e seguir à Europa?

Como teria avaliado o ambiente, as roupas da época que deve ter usado, ou os salões dos ricos? De uma oca às margens da baía de Todos os Santos, para o centro da Europa… Não, não deve ter sido fácil nem simples.

Teria conseguido se comunicar, estaria com saudades das guerras travadas na baía de Todos os Santos, e consequente banquete com os perdedores?

O mais curioso foi a decisão do casal, de voltar ao país após o enlace: “…em março de 1531 lá estava Caramuru outra vez no Brasil, de volta à aldeia que o acolhera.”

Este retorno nos lembra a figura do escudeiro Fernão Lopes, nascido em Lisboa na virada do século 15 para o século 16, que passou 30 anos em solidão na ilha de Santa Helena.

Quando finalmente foi resgatado e levado à presença do rei de Portugal D. João III, tudo que pediu foi a sua volta à solidão na ilha perdida no Atlântico Sul.

Teria Caramuru sentido saudades da libertinagem em que vivia com suas várias mulheres? Não sabemos. Tudo que se sabe é que ele e Paraguaçu retornaram à Bahia.

Personagens históricos da costa brasileira: Hans Staden, no mesmo período, no litoral do Sudeste do Brasil

Hans Staden foi um aventureiro alemão que esteve no Brasil duas vezes logo após a ‘descoberta’. Na segunda viagem, a expedição do Almirante Sanabria, naufragou na costa sul na altura de Santa Catarina. Corria o ano de 1550.

Desenho de Hans Staden

Desta vez sabemos de sua história não através de fragmentos de documentos, mas por ele mesmo. Depois de inacreditáveis peripécias na costa brasileira, de ser preso e ameaçado de virar banquete durante os mais de nove meses em que foi cativo dos Tupinambá, conseguiu escapar e retornar à Europa onde publicou um clássico, um dos primeiros best-sellers sobre o novo País.

Depois de outro naufrágio  na altura de Itanhaém, Staden e alguns companheiros conseguiram chegar ao que se conhecia na época como Porto dos Escravos, a região de São Vicente (fundada por Martim Afonso depois que deixou a Bahia, em 1532. Curioso como as histórias se entrelaçam…). E acabou empregado como arcabuzeiro no Forte de Bertioga.

pintura mostra fundação de São Vicente
Fundação de São Vicente, por Martim Afonso, na visão de Benedito Calixto. Google.

Na apresentação da edição de sua obra pela editora da USP, está dito que “historicamente foi este navegador o primeiro a deixar em forma de livro uma obra que o tornou secularmente célebre e que se fixou como uma das fontes mais autorizadas da etnografia sul-americana.”

“Mais de cinquenta edições de seu relato, em alemão, flamengo, holandês, latim, francês e português dão testemunho de sua invulgar importância… A obra é valorizada pelas xilogravuras que devem, sem dúvida, ter sido feitas sob sua orientação”

Hans Staden em Bertioga

“A cinco milhas distante de São Vicente se encontra a povoação de Bertioga…cerca de dois anos antes de minha chegada havia resolvido construir em Bertioga, à maneira dos selvagens, um forte para a defesa contra os adversários…”

“Seus inimigos, os Tupinambás, observaram isso e armaram-se. Uma noite vieram em 70 canoas e atacaram, segundo seu costume, às primeiras horas da madrugada.”

Depois da refrega, diz Staden, “pareceu conveniente aos comandantes não abandonar o lugarejo, mas fortificá-lo o máximo possível porque de lá se podia defender toda a região. E assim aconteceu.”

desenho da ponta do Forte São João, Bertioga
Ilustração, wikipedia.

“Determinaram por isso construir bem em frente de Bertioga, na ilha de Santo Amaro (onde hoje fica Guarujá), próximo ao mar, uma casa, destinando-lhe uma guarnição e peças de artilharia com intenção de impedir a passagem dos índios. Fui lá a examinei a situação do lugar.”

As ruínas deste forte, chamado Fortaleza de São Felipe, ainda podem ser vistas hoje.

“Quando os habitantes souberam que eu era alemão e que entendia um pouco do manejo dos canhões, propuseram-me que me estabelecesse na casa da ilha e que os ajudasse na espreita do inimigo.”

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Hans Staden mal sabia que seu calvário estava prestes a começar. Ao falar da casa fortificada na ilha de Santo Amaro, não confundir com o Forte de São João de Bertioga, também chamado Forte de São Tiago, em pé até hoje, provavelmente erguido em 1560.

‘Como fui aprisionado pelos selvagens’

“Como eu caminhasse através da selva, levantou-se de ambos os lados do caminho um grande alarido, como é de hábito entre os selvagens. Essa gente correu para mim, e reconheci que eram índios. Eles cercaram-me, visaram-me com arcos e fechas, e assentaram-me. Então exclamei: Que Deus salve minha alma!”

“Mal tinha pronunciado estas palavras abateram-me ao solo…”

Staden foi levado até à praia pelos índios onde estavam suas canoas. “Estavam, como era costume, ornados de penas, e mordiam seus braços, a fim de significar a ameaça que iriam devorar-me.”

xilogravura da segunda viagem de Hans Staden
Durante a segunda viagem ao Brasil.

“À minha frente ia um chefe com o tacape que empregam para abater os prisioneiros. Discursava e narrava que em mim haviam aprisionado e feito escravo a um peró (Os Tupinambá assim chamavam os portugueses, seus inimigos, e Mair aos franceses seus aliados).”

“Lá estava eu, rezando e olhando em torno, porque esperava o golpe. Afinal o chefe que queria possuir-me, tomou a palavra e disse que deviam conduzir-me vivo para casa, afim de que suas mulheres também me vissem com vida e tivessem o divertimento que lhes cabia à minha custa.”

“Assim convieram e ataram-me quatro cordas no pescoço. Tive que subir a uma das canoas enquanto os índios ainda ficavam na praia. Prenderam-me então firme as pontas das cordas à canoa e empurraram-na n’água afim de seguir para casa.”

Os Tupinambá, navegadores costeiros

Quem vinha ao Brasil no período eram os melhores navegadores de seu tempo. Os portugueses, um dos povos náuticos mais adiantados de então, acabavam de iniciar o processo hoje conhecido como  ‘globalização’ ao descobrirem e dividirem com outros europeus as rotas marítimas em uso até hoje.

Quando se deram conta de que o trajeto natural de quem saía da Europa com destino às Índias era Pindorama, em razão dos ventos e correntes, transformaram o País em escala e estaleiro para a Carreira das Índias.

Uma das edições do livro de Hans Staden Duas Viagens ao Brasil
Uma das edições do livro de Hans Staden, Duas Viagens ao Brasil.

Vêm destes encontros a inacreditável quantidade e variedade de embarcações típicas ainda hoje em uso em alguns Estados, com influências das novidades náuticas ibéricas, francesas, inglesas e holandesas misturadas à natural habilidade náutica dos indígenas, que pouco mais tarde ainda receberiam influências dos africanos para cá trazidos.

Durante três dias a frota de canoas dos Tupinambá navegou costeando o litoral norte paulista. De noite paravam em alguma praia onde dormiam, para recomeçar a navegação no dia seguinte. Passaram entre Ilhabela e São Sebastião, depois, costearam Ubatuba, e seguiram em frente até chegarem no Rio de Janeiro, distante mais de cem milhas!

De Bertioga, litoral central de São Paulo, para Mangaratiba, no Rio de Janeiro, em três dias de canoa

“…Tínhamos levado três dias de caminho e percorrido de Bertioga, onde eu tinha sido aprisionado, trinta milhas.” Quando nos aproximamos vimos uma pequena aldeia de sete choças. Chamavam-na Ubatiba...”

Aqui há uma certa confusão em pessoas que já leram o relato de Hans Staden. Alguns imaginam que a aldeia ficava na ilha hoje conhecida como Anchieta, antiga ilha dos Porcos, em Ubatuba.

Acontece que o nome conforme dito por Staden, Ubatiba, era comum na época. Prestando atenção à oportunas notas do livro, fica-se sabendo que a aldeia na verdade ficava em Mangaratiba, Rio de Janeiro.

xilogravura de Hans Staden na aldeia de Cunhabebe
Hans Staden na aldeia do chefe Cunhabebe.

Foi nesta aldeia que nosso herói passou quase um ano convivendo com os indígenas e seus chefes, observando seus costumes, a maneira que pescavam e caçavam, o modo como preparavam os alimentos, suas crenças, lutas tribais, etc.

Foram inúmeras as vezes que quase o mataram

Tudo relatado em saborosos parágrafos, mesmo tendo chegado muito próximo de ter seus miolos estourados por um porrete para depois ser comido. Foram inúmeras as vezes que quase o mataram.

Enquanto isso, para manter-se vivo, Hans Staden dizia ser francês, negando veementemente ser um peró que os Tupinambá tanto odiavam. Até que um dia surgiu um francês aliado dos indígenas.

Gravura sobre canibalismo de Theodor de Bry
Theodor de Bry. Cena de canibalismo, a partir de “Americae Tertia Pars”, 1592. Gravura colorida. Service Historique de La Marine, Vincennes, France.

Mais que depressa, Hans Staden foi levado ao seu encontro para que tirassem a dúvida. Seria ele um Mair (francês), ou um Peró (português)?

“Conduziram-me então nú ao francês. Era um jovem a quem os índios chamavam Caruatá-uará. Ele falou-me em francês e não pude entendê-lo. Os selvagens rodeavam e ouviam-nos. Como não pude responder-lhe, disse lhes o francês na língua dos nativos: “Matai e comei-o, esse biltre; ele é bem português, vosso inimigo e meu.”

Mas, como um gato de sete vidas, Staden foi poupado. Ele foi levado ao grande chefe da época, o temível Cunhabebe.

Na aldeia de Cunhabebe

“Alguns dias depois, conduziram-me a uma outra aldeia, que chamavam Arirabe, ao chefe Cunhabebe. Este era o mais nobre dentre todos os chefes. Em sua morada haviam-se reunido ainda alguns outros e à sua maneira tinham preparado uma grande festa. Por isso ordenou o Cunhabebe que fosse eu trazido para lá naquele dia.”

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xilogravura de tupinambás assando e comendo carne humana
Ilustração mostrando Hans Staden (de barba, ao fundo) observando os índios tupinambás praticando antropofagia, em uma aldeia situada entre Bertioga e Rio de Janeiro.

Uma índia de presente

Habilidoso, Hans Staden sobreviveu mais uma vez. Ganhou até mesmo uma índia pra chamar de sua, ‘como presente’, enquanto estava preso. Participou de algumas batalhas entre os Tupinambá e seus inimigos, sempre escapando da morte por um triz, numa aventura que mesmo o mais criativo romancista não conseguiria imaginar.

O relato de uma das mortes assistidas

Enquanto lutava para permanecer vivo, assistiu e relatou a morte de vários europeus ou índios inimigos também aprisionados. “Arrastaram-no diante da choça do chefe Guaratinga, e dois o mantiveram, pois estava tão doente que não percebeu o que queriam fazer dele. O homem, a quem haviam incumbido da matança, veio e deu-lhe uma pancada na cabeça, que fez saltar os miolos. Depois o largaram em frente da choça e queriam comê-lo.”

Desenho de rede indígena do livro de Hans Staden

“Decepou-lhe a cabeça, pois o carijó tinha só um olho e tinha má aparência…atirou fora a cabeça, chamuscando a pele do corpo sobre o fogo. Picou-o depois, repartindo-o com outros, em partes iguais, como é usado entre eles. Consumiram-no todo, menos a cabeça e tripas, das quais tiveram nojo…”

Contrabando de pau-brasil pelos franceses

Enquanto passavam os dias e as semanas, via frequentemente os franceses em negociatas com os tupinambás. A eles davam presentes em troca da madeira que nos deu nome, o pau-brasil.

xilogravura de tupinambeas e prisioneiro
Tupinambás e prisioneiro.

“Aí costumavam os franceses fazer carregamento de pau-brasil. Vieram num bote até a nossa aldeia e compraram dos índios pimenta, macacos e papagaios…”

Começava o tráfico de animais silvestres que perdura até hoje.

As batalhas navais entre indígenas

Assistia e narrava suas guerras náuticas: “Também o chefe Cunhabebe veio aí com suas canoas…Eram trinta e oito canoas, guarnecidas cada uma com mais ou menos dezoito homens. Alguns deles tinham feito profecias sobre a guerra através de seus ídolos, sonhos e outras bobagens…”

Navegando entre Ilha Grande e Ilhabela

E navegava por entre a baía de Ilha Grande até Ilhabela com frequência. Um dia foi novamente levado a aldeia de Cunhabebe, e por mais tétrica que seja a cena que viu, a descreveu com frieza e precisão: ” Durante isto (a visita em sua oca) Cunhabebe tinha à sua frente um grande cesto de carne humana.”

Cunhabebe comendo carne humana

“Comia de uma perna, segurou-ma diante da boca e perguntou-me se também queria comer. Respondi: Um animal irracional não come um outro parceiro, e um homem deve devorar outro homem? Mordeu-a então e disse: Jauára ichê. ‘Sou um jaguar’. ‘Está gostoso’. Retirei-me dele, à vista disso”.

A salvação afinal

Dizem que um dia a sorte vira. E este dia chegou para Hans Staden. Ele nos conta como aconteceu no capítulo ‘Como eu logo depois fui dado de presente, e como veio da França um outro navio, o Catherine de Vetteville que, pela graça de Deus, me resgatou’.

No vilarejo de Taquaraçú-tiba

Staden estava no vilarejo de Taquaraçú-tiba, em casa do chefe Abatí-poçanga, ‘quando um dia me procuraram alguns selvagens e disseram que tinham ouvido atirar. Devia ser no porto de Niterói, que também é chamado Rio de Janeiro…’

“Tinha-lhes sido ordenado (aos selvagens) trazer-me a bordo, e isto deviam eles empreender por todos os modos…Com estas informações levaram-me a bordo, e meu amo me acompanhou.”

Staden tinha sido dado como presente ao chefe, ambos foram a bordo. Staden combinou com o capitão que tripulantes parecidos se passassem por seus irmãos e exigissem seu retorno.

‘Tal desejo tinha sido exposto aos índios’…E depois de escaramuças a bordo, o alemão convenceu o chefe que iria com os europeus, mas voltaria assim que pudesse.

A despedida

“Principiou (o chefe indígena) a vociferar, dizendo que devia voltar com o primeiro navio, pois me havia tratado como filho e ficado muito enraivecido com os (índios) de Ubatiba.”

Facas machados, espelhos e pentes

“E uma de suas mulheres que estava junto a bordo, teve, segundo seu costume, de lamentar-me em altas vozes e lastimei-me também, como entre eles é hábito. Depois deu-lhe o capitão algumas bugigangas, facas machados, espelhos e pentes, no valor de cinco ducados, com o que partiram à terra em busca de suas habitações.”

“Assim livrou-me o Senhor todo poderoso, Deus de Abraão, de Isaac, e Jacó, do poderio dos bárbaros cruéis… No ano da graça de 1554, no último dia de outubro, desferramos as velas no porto do Rio de Janeiro e rumamos para a França.”

Terminava o calvário de Hans Staden em sua segunda e última viagem ao Brasil. Poucos anos depois, lançava na Europa o livro que iria imortalizá-lo.

Imagem de abertura: Salvador no século 17

Fontes: Capitães do Brasil, Eduardo Bueno, Coleção Terra Brasília, volume III, editora Objetiva; Hans Staden, Duas Viagens ao Brasil, Editora da Universidade de São Paulo.

Tráfico de animais silvestres com Dener Giovanini, da RENCTAS

Comentários

8 COMENTÁRIOS

  1. E assim nasceu o Brasil – sua melhor prenda de Natal para quem ama!
    “Hans Staden, Sua Alma – Minha Alma?”
    O autor Detlef Günter Thiel realizou uma pesquisa completa sobre o lansquenete espingadeiro Hans Staden (1525 – 1576) em todo lugar onde esteve: no Norte de Hessen, em Portugal e no Brasil. Ele conhece a época das descobertas e utiliza os eventos históricos relevantes como fundo para uma descrição meticulosamente detalhada de todas as ocorrências. Deste romance histórico e seu tempo, poderão entender os hábitos das pessoas, e também o seu sofrimento naquela época da renascença no início do século XVI.
    Para quem desejar esta obra histórica, favor entrar em contato com a Paula Lourenço Oz das Edições Paula Lourenço Oz para deixar mensagens na página de Facebook,
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    ou via email: [email protected]
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    “Acima de tudo, a História nos ensina o que é belo, o que é vergonhoso, proveitoso e inútil.”
    Philipp Melanchthon
    https://www.facebook.com/Hans-Staden-Sua-Alma-Minha-Alma-132550057611597

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