Pecuária na Amazônia, 46% dos abates são da região

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Pecuária na Amazônia, 46% dos abates de 2020 são da região

Apesar da especialidade deste site ser o bioma marinho, desde o início da gestão Bolsonaro e sua jihad contra a conservação temos procurado abrir espaço para os biomas mais atacados pela atual política ambiental. Até o momento a maior floresta tropical do planeta, a Amazônia, é o bioma que mais sofreu.  Basicamente a região sofre ameaças de setores distintos, todos atuando na ilegalidade e contando com a leniência do governo, em especial do Ministério do Meio Ambiente. São os garimpeiros ilegais, que dão preferência a Terras Indígenas, estimulados pelo presidente; os grileiros e desmatadores, que investem contra terras públicas e unidades de conservação em busca de madeiras nobres, para depois colocarem gado à espera de uma regularização. O resultado é que a pecuária avança na região.

Imagem de gado na Amazônia
Aos poucos o gado vai se embrenhando na Amazônia. Imagem, Gabriela Bilo/Estadão.

Pecuária na Amazônia, 46% dos abates de 2020 são da região

Recentemente, publicamos um post sobre os municípios que mais emitem gases de efeito estufa, em um trabalho do Observatório do Clima. O campeão de emissões é São Félix do Xingu, no Pará, com apenas 128 mil habitantes, mas com o maior rebanho bovino do País: 2,5 milhões de cabeças em 2019.

Dos dez municípios que mais emitem, sete estão na Amazônia (pelos mesmos motivos de São Félix do Xingu); os outros três são, São Paulo (com 12 milhões de habitantes e a maior frota de automóveis do País, além de fábricas), em quarto lugar; Rio de Janeiro, em nono, e Serra, no Espírito Santo, em décimo.

Infográfico mostra gado na Amazônia
Ilustração, O Estado de S. Paulo.

Estas informações já davam a pista de que a pecuária está avançando na região Amazônica. Agora uma matéria de O Estado de S. Paulo, de 7 de junho, confirma a suspeita com dados do Ministério da Agricultura. O título é Indústria da carne ainda não garante proteção à floresta, de autoria de Fernando Scheller.

Logo na abertura vem a confirmação: “A dependência do setor de carnes da região da Amazônia Legal é grande: dos 22 milhões de cabeças de gado abatidas em 2020 no País, de acordo com o Ministério da Agricultura, 10,2 milhões (46%) tiveram origem nesta área.”

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O agronegócio e suas variações

Em setembro de 2020 publicamos um post onde mostrávamos os avanços do agronegócio, e sugerimos o fim da ‘guerra’ entre a conservação e a produção.

O agronegócio brasileiro

Mas fizemos uma observação: O agronegócio é o setor mais pujante da economia nacional. Nas últimas décadas o País promoveu uma revolução agrícola. Há meio século o Brasil dependia da importação de comida para alimentar sua população. Hoje é o segundo maior exportador do mundo, atrás dos EUA.

A pecuária fora da Amazônia

A pecuária brasileira também avançou. Não por outro motivo o País se tronou o principal exportador de carne bovina do mundo. Houve progressos em que todas as regiões onde a pecuária é praticada, exceção à Amazônia Legal.

Matéria de O Estado de S. Paulo, com o título  Boiada Tecnológica, publicada em junho de 2021 mostra alguns exemplos. Os investimentos em ciência e tecnologia foram feitos especialmente na genética, com ‘técnicas como inseminação artificial em tempo fixo (com aplicação de hormônios   para sincronizar o cio  das vacas), fecundação in vitro, além da genômica- biotecnologia que indica com mais precisão quais os acasalamentos de touros e vacas propiciarão melhores resultados, entre muitas outras’.

Mas, a julgar pelos dados do Ministério da Agricultura estas avanços se referem a 54% do rebanho. O resto está jogado na Amazônia com índices de produtividade de fazer corar o setor.

A agricultura e sua produtividade excepcional

Mas há os agricultores que vão para o campo e produzem com alta tecnologia, alcançado enorme produtividade. Isto faz com que o aumento da produção não se dê através de maiores áreas dedicadas à agricultura, mas de maior produtividade.

Pecuária, nem tanto

O mesmo não se pode dizer da pecuária. A confirmação pelo Ministério da Agricultura de que quase metade da produção de gado em 2020 vem da Amazônia não é inteiramente nova. Quem estuda a região sabe que ‘a pecuária é ferramenta da contínua expansão do desmatamento’, como nos disse o pesquisador Carlos Nobre em entrevista.

Para Carlos Nobre, “o principal vetor da pecuária, ao contrário da agricultura, não é a produtividade mas a posse da terra. E isso é um fenômeno mundial. 65% do desmatamento mundial em florestas tropicais é para o boi. E no Brasil a produtividade é baixa, 1,35 cabeças por hectare; no Pará ainda pior, 0,9 cabeças por hectare.”

Quem se beneficia com o desmatamento na Amazônia?

Esta é a pergunta de um milhão de dólares, como se diz. E voltamos à ela em entrevista com outro especialista na Amazônia, Tasso Azevedo. Ele é engenheiro florestal, consultor, e coordenador do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima (SEEG) e do Projeto de Mapeamento Anual da Cobertura e Uso do Solo no Brasil (MapBiomas). Em entrevista a este site disse Tasso Azevedo sobre quem se beneficia com o desmatamento da Amazônia:

“As ‘narrativas’  confundem o público.” Para ele é impossível dizer exatamente quem são os desmatadores. “Mas a atividade que está empurrando o desmatamento na Amazônia é a pecuária, em primeiro lugar, e a agricultura, em seguida.”

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É mais que hora da pecuária se mirar na agricultura e investir em ciência e tecnologia para alcançar produtividade semelhante, evitando ameaçar nosso mais importante bioma do qual depende o agronegócio, especialmente no momento em que o mundo finalmente parece disposto a investir para mitigar o aquecimento global.

No mundo é assim

Para encerrar,  e corroborando as informações de Carlos Nobre sobre o gado como instrumento ‘de posse da terra’, um relatório da Forest Trends divulgado em maio de 2021 mostra que mais de dois terços das florestas tropicais do mundo foram exploradoras pelo agronegócio entre 2013 e 2019, sendo desmatadas de forma ilegal para a produção de carne bovina, soja e óleo de palma. O relatório está neste link.

Imagem de abertura: Gabriela Bilo/Estadão

Fonte: https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,sob-pressao-industria-da-carne-ainda-nao-consegue-garantir-protecao-a-floresta,70003738048.

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