Nova derrota do ministro do Meio Ambiente

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Nova derrota do ministro do Meio Ambiente, desta vez no Parna da Lagoa do Peixe

A primeira derrota do ministro do Meio Ambiente, desde que assumiu em janeiro de 2019, aconteceu no Parque Nacional da Lagoa do Peixe, no Rio Grande do Sul onde esteve em abril. O caso teve enorme repercussão. Salles e o então presidente do ICMBio, Adalberto Eberhard, compareceram a uma patética reunião. Foi no município de Mostardas e, mais uma vez, o ministro foi autoritário e arrogante com os funcionários do ICMBio. Às tantas, levantou a voz e, microfone em punho, sentenciou:

Determino a abertura de processo administrativo disciplinar contra todos os funcionários

O ministro pensava que os funcionários haviam sido convidados para a tal reunião, mas não teriam comparecido por desfeita. Na verdade, eles nunca foram convidados. Por isso não estavam na plateia majoritariamente formada por ruralistas.

imagem do ministro ricardo salles
Imagem, Adriano Machado/Reuters.

A visão do ministro

Não nos esqueçamos que o ministro tem uma visão ‘desenvolvimentista’, ele acredita que a ‘natureza intocada’ seria um empecilho ao progresso e industrialização. Assumiu uma pasta extremamente importante para o País. E sem dominar a matéria. Nem todos precisam ser especialistas, mas aqueles que não o são, deveriam ter a humildade de reconhecê-lo. E se aproximar  dos inúmeros cientistas, e peritos à disposição. Mas não foi esta a decisão. Desde que assumiu não fez outra coisa a não ser demonizar técnicos e cientistas. Exonerou 21, dos 27 superintendentes regionais do Ibama. E, pouco depois, entrou em rota de colisão com o cientista Ricardo Galvão, do Inpe, porque os dados da instituição não eram os que pretendia ver. Quem sabe, passado quase um ano, e muitas polêmicas depois, ele reveja sua posição. Que houve excessos no MMA, não temos dúvida. Mas daí a desacreditar a todos, não parece a melhor solução.

O caso de Mostardas rendeu a demissão de Adalberto Eberhard

Dar uma bronca grosseira e injusta, ao vivo e em cores na TV e redes sociais, foi demais. No dia seguinte, uma referência do ambientalismo brasileiro que deveria ser seu braço direito, Adalberto Eberhard, entregou sua carta de demissão. Salles, que não domina a matéria, ficava só no ministério do Meio Ambiente.

Motivo da desfeita do ministro

Tudo aconteceu porque, passados mais de 20 anos da criação do Parque Nacional da Lagoa do Peixe, um dos locais mais lindos e ricos em biodiversidade da costa brasileira, um dos ‘top ten’, a União jamais indenizou os antigos proprietários. Denunciamos este caso desde 2007. Isso levou a um conflito entre os moradores de Mostardas, Tavares e São José do Norte, que perderam suas terras.

O parque também falha

Ao mesmo tempo, o Parque falha, já que quando isso acontece, os antigos proprietários têm o direito de continuar suas práticas dentro da área protegida. Assim, no perímetro do Parna, há a criação de gado, a pesca, e a silvicultura entre outras. É um arranjo que não agrada ninguém. Nem os que pregam a conservação, muito menos aqueles que querem dar uso econômico ao espaço. E, infelizmente, esta situação é quase regra na criação de unidades de conservação. Criam-se UCs , às vezes desapropriando áreas, desde o tempo da redemocratização. Mas deixa-se a indenização pra depois…Só o ministro Salles não sabia. Foi por isso que ele foi ao…

Parque Nacional da Lagoa do Peixe

Quer dizer, ir, ele não foi. O ministro esteve na cidade de Mostardas, onde aconteceu o bafafá, uma das portas de entrada do parque. Mas não o conheceu ‘por falta de tempo na agenda’. Esteve a poucos metros de um dos lugares mais excepcionais da costa brasileira, num cenário arrebatador, mas deixou de conhecê-lo. Sobrou tempo, entretanto, para dar continuidade à sua disputa pública contra os funcionários que dirige, e ainda culpar os governos anteriores pelos erros do passado. Ao fim e ao cabo, Ricardo Salles exonerou o chefe do Parna, e colocou em seu lugar uma representante dos ruralistas, numa afronta pública à conservação que ele se esforça em espezinhar. A conservação, se bem feita, não atrapalha, ajuda. Mas Salles tem sido radical. Com isso, coleciona derrotas.

Maira Santos de Souza, agrônoma, e ruralista

Ricardo Salles escolheu uma agrônoma, filha de produtor rural de Mostardas, para ser a nova chefe do Parque Nacional da Lagoa do Peixe. Foi uma afronta pensada. Ele dava recado subliminar para aqueles que tivessem qualquer dúvida: entre ruralistas e conservação, o ministro do Meio Ambiente ficaria com os primeiros.

Assim, a chefia foi entregue à Maira Santos de Souza, 25 anos, agrônoma que trabalhava na fazenda de arroz e soja do pai, um dos produtores da região.

Nova derrota do ministro do Meio Ambiente, outubro de 2019

A mais recente é sobre decisão da Justiça de 11 de outubro de 2019, que determinou a demissão da produtora rural Maira Santos de Souza, por falta de experiência. O juiz argumentou que ‘produção de arroz irrigado e soja não é atividade correlata às áreas de atuação do órgão ICMBio ou relacionada às atribuições e às competências do cargo para o qual foi nomeada’. O juiz Bruno Brum Ribas, da quarta vara Federal de Porto Alegre atendeu pedido do MPF na ação civil pública assinada pelos procuradores Rodrigo Valdez de Oliveira e Nilo Marcelo de Almeida Camargo. O MPF argumentou que a nomeação não obedece ao decreto do presidente Jair Bolsonaro, que determina que nomeados para este tipo de cargo devam obrigatoriamente ter experiência mínima de dois anos na área determinada ou correlata, o que não é o caso.

Outros reveses de Ricardo Salles

Depois de afoitamente torpedear os métodos do Fundo Amazônia, criou mais um quiprocó internacional envolvendo Alemanha e Noruega, dois principais doadores do fundo, Ricardo Salles explicou em programa de TV os motivos da bronca, e com razão ao nosso ver. Ele finalmente definiu o número de ONGs que atuam na Amazônia com dinheiro do Fundo, ‘cerca de 60’, o que parece ser exagero.

Como agia o BNDES

Ricardo Salles finalmente explicou ‘que o BNDES decidiu 82% dos contratos no modelo balcão’. Ou seja, sem licitação, sem processo decisório estruturado, foi o grupo que gere o Fundo quem escolheu, ‘o que entendemos que é equivocado’. ‘Quem tem que escolher os projetos é uma metodologia colocada pelo Cofa, Comitê Orientador do Fundo Amazônia‘. Com isso também concordamos. Mas, não fosse a afoiteza, não teríamos perdido inutilmente os R$ 350 milhões  que estão bloqueados, destinados, também, a evitar queimadas e desmates ilegais. Bastava conversar antes com os países doadores, procurar um consenso, coisa que não fez.

A terceira derrota do ministro do Meio Ambiente: as queimadas na Amazônia

Quando começaram, como era esperado no período da secas, o Ibama já havia sido decepado de 21, de seus 27 superintendentes regionais. Salles mandou para casa  a ‘memória do ICMBio‘ e, com eles, a eficiência no trato da questão. Afinal, queimadas e desmates ilegais são antigos inimigos que estavam, antes da gestão atual, acuados. O desmatamento vinha caindo, a duras penas, mas caindo. Salles não se deu conta de que a época da estiagem é o período crítico para os desmandos. E não agiu com rigor. Ao contrário, desde que assumiu, afrouxou a fiscalização e as multas. Não poderia ser diferente. A crise aumentou e o barulho vazou para o exterior.

Inimigos do agro aproveitaram

Os inimigos do agro brasileiro aproveitaram a deixa. Começou a pressão internacional. Só então veio a ação. Bolsonaro despachou o exército para conter as queimadas. Era tarde demais. O estrago na imagem internacional do País, especialmente ao agronegócio que nos sustenta, estava feito. E na Amazônia e Cerrado, ao que parece, também. Os dados do Prodes, do Inpe, ainda não disponíveis, devem confirmar até o final do ano. Os do Deter, também do Inpe, e motivo da exoneração de Ricardo Galvão, apontam um aumento da área desmatada de 45% em comparação com os três anos anteriores. Uma dose de humildade, e previsibilidade, teriam evitado o desgaste.

Derrota do ministro do Meio Ambiente no giro europeu

Ricardo Salles acaba de voltar de um giro europeu, onde foi explicar o inexplicável, em relação à Amazônia, e possivelmente trazer dinheiro para substituir o que perdemos com as doações de Alemanha e Noruega. Não conseguiu nem um, nem outro. Voltou de mãos abanando, e a imagem externa do Brasil continua no chão.

Chegou às vésperas do primeiro leilão de petróleo da ANP, em que sete blocos da área de Abrolhos foram oferecidos. O ministro havia ignorado parecer contrário do Ibama, e ofertou os blocos de Abrolhos. Resultado? O leilão foi recorde de arrecadação, quase R$ 9 bilhões de reais. Mas sequer um lance foi feito para Abrolhos. Foi mais uma derrota do ministro.

O desafio das manchas de petróleo no Nordeste

No momento, ele enfrenta outro desafio, as manchas de óleo no Nordeste que só passaram a ter atenção de seu ministério quase um mês depois de terem invadido o litoral. Deve ter sido a primeira vez que o cidadão Ricardo Salles se deparou com um problema desta magnitude: derramamento em grande escala de petróleo no litoral. Sem conhecer o assunto, não percebeu de início o tamanho da encrenca. E não há, ao seu lado, nenhum técnico ou perito que ouça. Mais uma vez, quando decidiu agir, o estrago, estava feito. Assim tem sido sua gestão, aos trancos e barrancos. Nacionais e internacionais. A ver, agora, o que dá a investigação. Se pelo menos descobrem quem, e por quê. E quais medidas serão tomadas para mitigar o estrago. Até agora nenhuma, exceto a limpeza de praias  que não é suficiente. O MPF se antecipou a inação, já quase comum em momentos difíceis, e obrigou o Estado a colocar barreiras de contenção em bocas de rios. Nem isso o MMA havia mandado a fazer. Uma coisa é certa: as derrotas estão se tornando rotina.

Imagem de abertura: Adriano Machado/Reuters

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2019/10/apos-decisao-da-justica-icmbio-exonera-produtora-rural-que-dirigia-parque.shtml.

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22 COMENTÁRIOS

  1. Esse nhenhenhen de meio ambiente está enchendo o saco! A terra está em constante modificacao, independente da acao humana. Parem de infernizar a vida natural do mundo.

    • nunca li comentário mais imbecil. VOcê é um ser fatalista que não crê em reencarnação, se acreditasse entenderia do porque do nhenhenhem. Pensou nascer nas áreas degradadas que você ajudou a destruir? Bela lição para aprender a dar valor não é?

  2. Não gosto do ministro, mas é bom lembrar qua o barulho feito pela esquerda sobre a Amazônia, deveria ser feito agora novamente, mas não o fazem pq o petróleo é venezuelano. E não foi pela Amazônia, era apenas para sujar a imagem do governo perante o planeta.

  3. Colocaram um coordenador administrativo sem caráter na cadeira de ministro do meio ambiente. Ele não tem a mínima visão estratégica do que é meio ambiente, desenvolvimento sustentável e nunca imaginou que o Brasil poderia assumir seu potencial como líder mundial nessa questão, conseguindo recursos para isso se assim o fizesse. Enquanto esse canalha continua seu show de horror na pasta, nossas florestas ardem com a especulação de terras, nossos oceanos se afogam em petróleo venezuelano e nossa reputação mundial afunda rumo ao centro da Terra, ameaçando nossos produtos agrícolas! #ForaSalles

    • Sem caráter ? E os que compunham a quadrilha do PT no poder ? Ladrões profissionais . Canalhas que destruíram nossa nação que agora começa a se recuperar com honestidade e dignidade .

  4. Ricardo Salles é burro demais e mal intencionado. Quando o Bolsotonto disse que só colocaria pessoas técnicas no governo dele e nomeou o Ricardo Salles, essa foi pra doer. O cara foi considerado o pior Secretario do Meio Ambiente de São Paulo dos útimos 30 anos e nem durou um ano e meio no cargo, de tão ruim que era. No periodo que ele era secretario do meio ambiente daquele estado, ele acumulou em tempo recorde, três processos por improbiedade administrativa e perdeu todas elas na justiça. Vale lembrar que ele não sabe nada sobre meio ambiente. Ele é apenas um mero advogado desconhecido, que tinha contato politico, e apenas virou secretario de meio ambiente de São Paulo, porque o Alkimin tinha negociado esse cargo com o presidente do partido PP, que tinha interesses mineradoras no estado. Essa é a razão que Salles foi colocado como secretario do Meio Ambiente de São Paulo pra começar. Não é mera coincidencia que quando ocupou o cargo, ele foi pego forjando mapas ambientais do APA do Rio Tiete, para poder legalizar mineração pesada nessa area. A deliquencia dele tb é conhecido há muito tempo. Ele é investigado pela policia civil de São Paulo em dezenas de crimes e tem uma dezena de processos contra ele por coação, formação de quadrilha, falsidade ideologica e enriquecimento illicito. A revista Crussoé fez uma reportagem sobre a vida criminal dele, uns oito meses atras. Num país sério, esse marginal já estaria na cadeia.

  5. Difícil não é matar o monstro, difícil é remover o corpo!
    O Ministro trabalha pra mudar a realidade que atendia e beneficiava a vários atores do processo; só não resultava em benefício para o meio ambiente.
    Quer conhecer uma situação com profundidade, tente mudá-la !!!

  6. Que materia ridícula. Lava roupa suja do jornalista com o ministro. Fala um pouco de todas as outras ações dele em melhoria ao meio ambiente. Acabou com a farra das ONGs ambientalistas de fachada que so serviam de cabide de emprego.

    • De acordo totalmente, este é o x da questão, tirou privilégios e pseudos ambientalistas que só fazem turismo pelo mundo falando mal do Brasil. E o petróleo jogado nas prais brasileiras, não é nada né???

      • E as do esposo de Marina Silva, ex ministra Governo Lula??? E dos outros ministros da época negra foram importantes??? Fizeram algo de bom em relação a Mariana e Brumadinho?? Limpeza de rios??? ahhhhhh, so o Salles é ruim clapt clapt…

      • Está apagando os incêndios causados pelo IBAMA e IMPE , que eram comandados por comunistas fantoches que apenas trancávamos desenvolvimento do nosso país com uma burocracia escandalosa . Enquanto isso faziam incêndio e garras com o papel moeda 💰💰💰que ganhavam fácil . Acabou-se o que era doce !

    • falam tanto das ONGS, mas não mostram documentos, nao falam quais são, A frase é ouvi dizer, ou me falaram. Este governo e ministro tem sempre que culpar alguém pela propria incompetencia

  7. Usar reportagem da Folha de São Paulo como fonte de informação para reportagem é absolutamente inadmissível para um jornal como o Estado.
    Todos sabem como são tendenciosas as matérias da Folha e segui-las seria igualar a credibilidade de um jornal com o outro.
    Lamento muito a atitude suicida do Estado.

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