De Laguna, SC, para Rio Grande, RS

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    Quarta- feira, 7- 03- 2007.

    Pronto: chegamos ao final. São oito e meia da noite. Faz três horas que navegamos no litoral do Rio Grande do Sul, o último entre os dezessete Estados costeiros para quem vem do norte. Há quase dois anos perseguimos a meta que agora atingimos.

    Deixamos Laguna de madrugada. Às quatro Alonso ligou o motor. Depois subiu a vela Mestra. Então desatracamos.

    A lagoa de Santo Antonio estava escura quando saímos em direção ao molhe obstruído em seu lado sul por uma pedra onde quebram ondas. E dentro da área que deveria ser protegida. É assustador.

    Mas do lado norte a profundidade nunca fica abaixo dos quatro metros e, na maior parte do trajeto, está acima desta marca.

    Quando passamos no través do farol de Santa Marta, já em mar aberto, chamei pelo rádio o operador, sargento Jacinto, telespectador assíduo que nos procurou quando gravávamos cenas para o programa na viagem anterior. Desde então combinamos uma conversa pelo VHF na hora da saída. Cumprimos hoje o combinado. Passei a ele nosso plano de navegação e previsão de chegada.

    Às cinco da tarde estávamos no través de Torres, município na fronteira com Santa Catarina, que marca o início do litoral do Rio Grande do Sul. Ao largo gravamos imagens da ilha dos Lobos. Minúscula, ela está mais para um conjunto de pedras. Mas, em todo o caso, é a única “ilha” do litoral deste Estado. E é famosa também porque entre julho e novembro lobos marinhos sobem a costa até aqui para acasalarem.

    No momento estamos quase em Tramandaí. Ainda faltam 180 milhas até o próximo porto seguro, o Rio Grande.

    Hoje navegamos mais com o motor, ainda que a Mestra (vela principal) e a Mezena ( vela de ré) estejam levantadas desde que saímos. O vento é que andava sumido. Mas faz meia hora que o nordeste voltou. De um momento pro outro já sopra entre 15 e 19 nós. Excelente. Abrimos a genoa e agora deslizamos a 7.5, 8 nós. Melhor assim. Quanto mais rápido chegarmos mais safos estaremos. Josélia Pegorim prevê a entrada de uma frente fria forte na sexta- feira.

    Mesmo navegando de noite é possível perceber a ocupação desta parte do litoral. De Torres para Tramandaí são 38 milhas ou 70 KM, e durante todo o tempo dá pra ver a claridade da costa denunciando a forte ocupação. É uma cidade depois da outra. E será assim até o começo da restinga que separa a Lagoa dos Patos, mais 25 milhas para o sul, em Quintão, o que totaliza 66 milhas ou 122 km, quase contínuos de cidades. É muita gente. E são pessoas de todos os tipos, com múltiplos interesses, para uma mesma faixa costeira. O conflito de usos, o desinteresse por parte dos que freqüentam, a legislação capciosa e cheia de instâncias, e a precária fiscalização acabam cobrando um preço.

    Agora, com a proximidade do fim, pensando neste cenário não consigo evitar algumas conclusões. Não serão as únicas possíveis para nossa imensa e complexa costa, mas uma síntese do que vi e aprendi durante esta grande viagem.

    São três os protagonistas: o mar, a costa e as pessoas. Começo pelo primeiro

    e, previno, é difícil fugir ao clichê. “Os mares do planeta estão doentes”- aí está ele- e precisam de ajuda.

    Por ignorância em alguns casos, ganância ou egoísmo em outros, estamos destruindo um dos mais importantes ecossistemas do planeta. Responsável em grande parte pelo clima na Terra, ele ainda nos dá proteínas, riquezas minerais, lazer, esportes e, com sua beleza, promove o turismo. O mar também é fundamental como fonte de energia, e para o comércio exterior. Sem seus milhares de organismos marinhos a biodiversidade do planeta seria 40% menor. De acordo com o livro Amazônia Azul, “ele contém 96% da água doce do planeta, fornece 86% da evaporação total e recebe 78% de todas as precipitações”. E até o ar que respiramos depende em grande medida da fotossíntese feita pelas algas do fitoplâncton (80% do oxigênio da atmosfera). O mar, portanto, contribui para tirar dióxido de carbono- que produz o efeito estufa- da atmosfera.

    Foi ainda este gigantesco e fascinante organismo que pela primeira vez gerou vida no planeta. Aconteceu há 3,5 bilhões de anos quando surgiram os seres unicelulares, minúsculas criaturas envoltas em frágeis membranas. Pelos 2,5 bilhões de anos seguintes eles dominaram o cenário.

    Atualmente a tese científica investigada com maior empenho, em razão dos avanços da tecnologia, sugere que de algum modo estas células desenvolveram mecanismos para atuarem juntas e assim formarem o primeiro animal da Terra.

    Mas qual ?

    Desde que Charles Darwin publicou A Origem das Espécies, em 1859 (A primeira edição, esgotada em apenas um dia, teve como título “Sobre a Origem das Espécies Através da Seleção Natural ou a Preservação de Raças Favorecidas na Luta pela Vida”) milhares de estudiosos tentam decifrar este enigma finalmente esclarecido, nos anos 80, pelo biólogo evolucionista Mitchel Sogin, do Laboratório de Biologia Marinha, Woods Hole, em Cape Cod, Estados Unidos.

    Sogin extraiu e mapeou o código genético das esponjas, este primitivo animal aquático (vivem nos mares e rios), e em seguida comparou com o de outras estruturas provando que ele está na base de todo o reino animal.

    “As esponjas são o primeiro animal pluricelular e sua matriz genética é vencedora, todos os outros animais basearam-se nesta mesma matriz”, afirmou o cientista (fonte: The Shape of Life, National Geographic Society).

    Elas estão presentes em todos os mares: das regiões polares até as tropicais. Em nossos mergulhos, em Fernando de Noronha e Abrolhos, vimos algumas, lindas, exóticas. Esponjas são animais filtrantes que bombeiam a água para dela extrair seu alimento. Há 500 milhões de anos foram também pioneiras da reprodução assexuada.

    Nem assim poupamos o ecossistema.

    No dia a dia o ameaçamos seriamente, em escala planetária. Saiba que o despejo de esgoto sem tratamento é, em todo o mundo, a maior fonte de poluição. A segunda é a poluição industrial e, finalmente, as outras, difusas, como a poluição tóxica causada por agrotóxicos e herbicidas usados na agricultura, os automóveis, a mineração, o desmatamento etc. De acordo com a ONU, existem hoje 150 zonas mortas no mar, sem oxigênio para que haja vida. O mar, enfim, tem sido tratado como depósito de rejeitos da humanidade desde tempos antigos. Hoje, com o crescimento da população mundial estimada em sete bilhões em 2010 (ONU), sendo que 2/3 vivem na região costeira, ele não agüenta mais receber a carga. Sua capacidade de regeneração esgotou-se. E nós, no Brasil, apesar da responsabilidade que temos por ser nossa uma das maiores zonas costeiras do mundo não temos feito nossa parte. A maioria das cidades do litoral despeja esgoto in natura no mar. As pessoas da cidade, quando vão à praia, sujam ainda mais. Navios trazem organismos exóticos todos os dias, que vão tomando o lugar dos nativos. Cada vez mais empresas se instalam na costa e nem sempre têm suficiente responsabilidade social e ambiental.

    Somando tudo isto o resultado não poderia ser diferente. Os cientistas também verificaram que mais de 80% da poluição dos oceanos é causada por atividades humanas cuja origem está nos Continentes. Somente a menor parte (da poluição nos mares) tem como fonte atividades eminentemente marítimas como o tráfego de navios e barcos, ou a exploração de petróleo.

    Por estes dados você também, mesmo que aparentemente não tenha nada a ver, fica sabendo que tem sim. Tem tudo a ver. A responsabilidade, quer você goste ou não, é coletiva e está em nossas mãos.

    Isto é só para começar. Pense sobre estes conceitos. Amanhã continuo.

    Quinta- feira, 8- 03- 2007.

    Hoje foi um dia de navegação espetacular. O nordeste bateu quase sempre nos 20 nós o que fez com que surfássemos ondas a 10 nós várias vezes.

    Foi uma delícia de navegada. Todos curtimos o leme do barco, até o Cardozo, que se deu muito bem. O Mar Sem Fim estava arisco, “nervoso”, como fica sempre que recebe esta força de vento pela popa ou três quartos de popa. Mesmo assim nosso compenetrado cinegrafista o levou sem fugir do rumo.

    No final do dia, já próximos de Rio Grande, recebemos uma chamada pelo VHF do navio de Patrulha, Beneventes, da Marinha do Brasil, que estava ao largo. Ele perguntou sobre nosso destino, horário de chegada e avisou que “uma frente fria com força 6 e 7 ( entre 22 e 33 nós), era esperada para o final da tarde”.

    Vixe! Era a mesma já apontada por Josélia. A diferença é que nossa meteorologista previa sua chegada para a madrugada de sexta, enquanto o pessoal da Marinha antecipava para esta tarde.

    Não tínhamos nada a fazer, a não ser velejar da melhor forma possível para garantir nossa chegada o quanto antes. Fora isto podíamos torcer enquanto olhávamos o horizonte que relampejava. Por horas o infinito ficou marcado pela luz de dezenas de raios que caíam sem parar.

    Às 22h 10 entramos pelo molhe do porto de Rio Grande. Avisei ao Beneventes. Minutos depois desabou a tempestade.

    Em segundos o vento chegava aos 45 nós pela marcação do relógio de bordo. Não se via um palmo adiante da proa.

    Em vez de procurar o Iate Clube, no meio da refrega, optei por colocar o barco contra o vento e acelerar o suficiente para que ele permanecesse imóvel. Estávamos ao lado do primeiro cais, local bem iluminado que poderia servir de referência. Lá ficamos enquanto durou o bafafá.

    Meia hora depois amainou, então procuramos um lugar mais abrigado, para o fundo do porto, onde jogamos nossa âncora para dormir. Agradeci por termos chegado antes da frente. Que beleza estar num porto quando despenca do céu esta força tremenda.

    Sexta- feira, 9- 03- 2007.

    Continuo agora o que comecei quando ainda navegávamos: uma rápida visão sobre os atores que influenciam o estado dos oceanos aqui e no mundo. Hoje comento rapidamente sobre a ocupação de nossa costa porque é dela que depende a maior ou menor ameaça aos nossos mares.

    Aprendi algumas coisas. A primeira é que não há só um diagnóstico para o problema. Mas a segunda é que, não tenho dúvidas, precisamos mudar rápido nossa ação, e políticas, se não quisermos ser responsabilizados em parte por mais um desastre.

    Portos, e as seqüelas ambientais (mas também benefícios econômicos e sociais), eu já sabia. Assim como as conseqüências de cidades e empresas na costa. Ou a enorme quantidade de pessoas que moram e freqüentam o litoral.

    Mas talvez não soubesse da miríade de problemas que todos eles, em conjunto, são capazes de causar. E me espantei com o nível de poluição. Até mesmo no pouco habitado Amapá. Os rios daquele Estado estão sendo degradados constantemente pelos rejeitos de suas populações a começar do município do Oiapoque e suas hilárias placas sobre poluição fluvial , e também pelo mercúrio, em outros rios onde é extraído ouro.

    No Pará a situação se repete no que diz respeito à total falta de saneamento básico. Mas em Belém, aliado ao fato, existe alto grau de risco em atividades portuárias que deslocam enormes quantidades de petróleo em barcaças, e outras substâncias ainda mais tóxicas, sem que exista qualquer preparo para medidas de contenção e combate, ou mitigatórias, em caso de acidentes.

    Ao entrar no Nordeste, a estes dois fenômenos some-se a febre da carcinicultura, que arrasa enormes áreas de mangues (além de coqueirais e babauçais), um dos mais importantes criatórios de vida marinha.

    E acrescente-se mais um ingrediente devastador: especulação imobiliária em escala internacional.

    O dinheiro forte e abundante de europeus abre um Resort atrás de outro ( e o dos brasileiros, condomínios e prédios). A grande maioria começa destruindo a paisagem, banalizando o que a Natureza demorou algumas eras para criar, gerando poucos empregos e movimentando pouco a economia das comunidades locais.

    As cidades crescem e ciclos migratórios são comuns. Mas o poder público ou, as prefeituras, não está preparado mesmo quando não há corrupção. Muitas vezes passa deliberadamente por cima das leis e “autoriza” usos e ocupações para os quais quem teria o direto seria o Estado, ou mesmo o IBAMA. Então os mangues são aterrados. E a autoridade permite que eles sejam ocupados, seja qual for a forma, desde que ela traga algum recurso rápido para os combalidos cofres públicos de hoje. Amanhã a gente vê.

    As próximas gerações que se virem com o que restar, se é que alguma coisa vai, de fato, restar se continuar o festival. Porque não são só mangues. Elas cedem outros ecossistemas sensíveis e importantes como as dunas, praias, falésias, restingas etc.

    Especuladores agem livremente em suas barbas e a legislação não se completa. Cada um empurra a culpa para o outro. Os vários responsáveis não se entendem enquanto o crime continua impune.

    A mesma carência permeia o Ibama que além de tudo não tem recursos mínimos para exercer uma de suas tarefas, que é a de fiscalizar. Eles sequer têm barcos!

    Enquanto isto a costa se degrada. Construções irregulares tomam todo o litoral leste do Ceará. Sobra, intacto, parte do litoral oeste do Estado.

    No Rio Grande do Norte há praias esquizofrênicas, como a famosa Pipa, entre outras, superadensadas e com organização caótica. Algumas crescem para cima de áreas de dunas, como Búzios, enquanto se vê placas de venda de áreas, ou imóveis, em inglês nas estradas.

    Mas além desta degradação ser mais ou menos comum no Nordeste, exceção à Paraíba, há Estados onde as unidades de conservação da costa estão ao Deus dará, como Alagoas.

    Em Pernambuco a consequência foi pior. Está provado que um dos motivos dos ataques de tubarão nas praias do Recife foi o desmatamento e aterramento dos mangues de Suape.

    Outro problema comum no Nordeste, neste caso incluo a Paraíba, é o constante pisoteamento de estruturas de corais (o mais importante ecossistema marítimo, já ameaçado pelas mudanças climáticas) próximas das costa, por moradores ou turistas.

    No geral quase todos os rios do Brasil que deságuam na costa estão poluídos, assoreados, com barragens, sem mata ciliar e com construções próximas demais de suas fozes.

    Apesar de tudo o governo federal segue insistindo em transpor o São Francisco (o edital para a primeira parte do projeto foi lançado este mês) ao custo de 6.5 BILHÕES de reais enquanto, no ano passado, todo o orçamento do MMA não chegou a 500 milhões de reais entre custeio e investimentos.

    Com isto mais um convidado entra neste enredo: a erosão. Em razão deste mau uso quase sempre tolerado e, às vezes induzido pelo poder público, a erosão é hoje presente em cerca de 40% da costa brasileira.

    Na Bahia o governo patrocina enormes fazendas de camarão e chega ao cúmulo de fomentar criações de tilápias, uma agressiva espécie exótica de água doce, em pleno estuário, como no rio Cairú!

    Para encerrar a parte sobre o Nordeste, em sua porção sul avançam os reflorestamentos com eucaliptos e pinus, ambos exóticos, em locais onde antes havia a mais rica mata atlântica.

    No sudeste, especialmente no Espírito Santo, ele já é cenário de toda a costa. Em qualquer praia que uma pessoa esteja, se olhar para os lados ou para trás verá alguma área com reflorestamento (fiz este teste).

    Então chegamos no Rio e vemos, além do Cristo Redentor, a baía da Guanabara. Morta, completamente podre. E as favelas continuam escalando os morros.

    A situação melhora em São Paulo, apesar do estuário de Santos estar morto e da destruição da paisagem no Guarujá. Cubatão regenerou-se e no sul do Estado, a partir de Juréia, e até a fronteira com o Paraná, em Cananéia, há uma série de unidades de conservação que são o que de melhor vimos no litoral do país.

    Mas torna a piorar em seguida. A Baía de Paranaguá já tem níveis acima do permitido para vários metais pesados, além de todos os outros agentes que geram poluição.

    Santa Catarina me impressionou. Suas praias mais famosas foram todas muradas. De uma ponta a outra. Um exemplo do sucesso retumbante da especulação imobiliária destes últimos 15 a 20 anos. E o saneamento básico, especialmente nelas mas não apenas, é rigorosamente ridículo, quase inexistente.

    O litoral sul, do Rio Grande do Sul, por ter áreas inóspitas e de difícil acesso, até agora ainda conserva parte de sua paisagem original. Mas ao norte a conurbação é um fato. Ela começa em Torres e vai até Tramandaí. Ambas as áreas não estão livres da poluição humana, muito menos do reflorestamento com Pinus e eucaliptos (promovidos com incentivos desde 1970 até 1980) na planície costeira. De Torres até o final da restinga que separa a Lagoa dos Patos do mar, os reflorestamentos foram feitos em áreas de dunas. Para tanto os alagados, atrás, foram drenados! Esta ação desastrada trouxe duas sérias implicações. A vegetação que fixava as dunas frontais na costa do Estado, morreu sem a água. Agora quando entra o nordestão suas areias voam para o interior. Ao mesmo tempo, um sem-número de animais, especialmente mamíferos, anfíbios e répteis que habitavam as áreas úmidas, diminuíram drasticamente.

    Para encerrar a opinião pública, até agora pelo menos, demonstra pouco interesse com o mar ou a zona costeira, que associa com praia e lazer. Como nos disse o professor Lauro Barcelos, oceanógrafo da FURG, “o brasileiro não entende o mar. Ama a praia mas não enxerga além da arrebentação”. E assim não reage; ou reage pouco à ocupação predatória que vai destruindo a paisagem que nos deu fama mundial, ao mesmo tempo em que mata o que resta de vida marinha já que é na orla que começa grande parte da cadeia alimentar.

    Como não ficar preocupado?

    Sábado, 10- 03- 2007.

    Nestes dois dias aproveitamos o tempo bom pra gravar cenas desta cidade portuária, e arredores, para os três programas que queremos fazer. Um será sobre o litoral norte. Outro a restinga da Lagoa dos Patos e, o terceiro, Rio Grande.

    O porto e seu molhe enorme, carrinhos à vela que circulam entre eles sobre trilhos, os barcos tradicionais e a pesca, e o casario antigo que ainda resta na cidade foram nosso foco de interesse.

    Mas, se nos outros dias comentei sobre aspectos do mar e da costa, hoje falo de quem vive, trabalha, estuda ou freqüenta esta região especial. O assunto é rico e apaixonante. Comporta muitas visões. Exponho a minha, com humildade, na esperança de que possa contribuir com a discussão. Omisso não fico.

    Na faixa a que chamamos de Zona Costeira estão 400, dos mais de 5 mil municípios brasileiros. A densidade média na costa é de 87 habitantes por quilômetro quadrado, enquanto a média nacional é de 17 habitantes por km².

    Por sua importância ambiental a Zona Costeira é reconhecida pela Constituição como Patrimônio Ambiental Brasileiro, e “sua ocupação deve se dar de modo autosustentável”.

    Este é o enorme desafio que se impõe. E mais complexo ainda se considerarmos as diferenças regionais de renda, sócioculturais e de ocupação.

    Não bastasse o fato de 15, das 26 regiões metropolitanas brasileiras estarem na costa (IBGE), nos últimos anos as faixas com menor densidade de população passaram a ser alvo forte do turismo, urbanização e industrialização.

    Perdidos, em situação de quase abandono, ficaram no caminho os nativos, grupos formados por pescadores artesanais, quilombolas, tribos indígenas e outros que vivem do que conseguem extrair dos vários ecossistemas desta área de transição entre o mar e o continente.

    Ao longo de nossa viagem tenho falado das diferentes ameaças que estão consumindo estas riquezas naturais, mas o que mais impressionou foi a confusa legislação que faz com que haja constantes conflitos entre as esferas do poder. A saber: municípios, Estados e a União. Encontrei o jogo do empurra- empurra por parte de alguns, espécie de esporte nacional ao lado do futebol, e até mesmo a mais pura ignorância por parte de muitos prefeitos.

    Mas o problema principal ainda é comezinho: o lixo e a falta de saneamento básico.

    De acordo com o IBGE (2000), 60% da população não tem acesso à rede coletora de esgotos e apenas 20% do esgoto gerado no país recebe algum tipo de tratamento (Atlas de Saneamento do IBGE).

    O dado preciso é que, de todos os domicílios brasileiros, apenas 47.2% são servidos pela rede de esgotos.

    A coleta de lixo é menos ruim, embora a pesquisa indique que 63.3% dos municípios depositam seus resíduos em lixões a céu aberto, e sem tratamento algum.

    Lembre-se das copiosas chuvas deste país tropical. Pois elas também caem em cima dos lixões. Aonde você supõe que o sopão mortal vai parar?

    Estes dois fatores combinados, aponta o IBGE, foram responsáveis, no ano 2000, por 800 mil casos de doenças entre elas a dengue, malária, hepatite tipo A, leptospirose, tifo e febre amarela. Neste período mais de três mil crianças ( menos de 5 anos) morreram de diarréia! Pode-se creditar este quadro à má qualidade da água, à falta de tratamento do lixo e do esgoto. E também a alta poluição de nossos mares.

    Os turistas e veranistas também contribuem. A cada feriadão milhares de pessoas saem dos centros mais afastados e vão para as praias. Grande parte deles atira de tudo no chão ou no mar. De bitucas de cigarros a garrafas plásticas, além de seus carros depositarem, via o escapamento, ainda mais óleo no mar.

    De quem é a culpa senão nossa?

    De forma geral estes dados não são novidade. A grande descoberta foram duas: do mar, a perspectiva é implacável, e vê-se a real dimensão da destruição. Ela é espantosa. Até eu, que costumo navegar com frequência, fiquei assombrado. A segunda é ainda pior: o brasileiro deu as costas para o mar. E sem a pressão da opinião pública não há qualquer esperança.

    Amanhã termino. Já é muito tarde.

    Domingo, 11- 03- 2007.

    Esta manhã gravamos imagens da pesca de camarão, pelos nativos, na Lagoa dos Patos.

    As redes ficavam a menos de cem metros de enormes dutos de esgoto, fétido, lançado

    in natura na Lagoa (av. Henrique Pancada, defronte a ilha dos Marinheiros). Em seguida, de carro, tocamos para Porto Alegre. Fomos buscar Paulina Chamorro que chegaria de São Paulo, e encontrar a Land Rover que alugamos para percorrer todo o litoral deste Estado.

    A costa do Rio Grande do Sul não permite aproximação de barco. Ela é retilínea, rasa, e quase sempre assolada por ventos fortes. Para mostrá-la na TV teríamos que refazer o percurso de perto.

    Chegamos tarde em Torres.

    Segunda- feira, 12- 03- 2007.

    Como, desde quando e porquê o brasileiro deu as costas para o mar?

    Esta é outra questão difícil de ser respondida. Aceito correr o risco mas, para isto, é preciso retroceder no tempo e dar uma espiadinha em como era o Brasil dos séculos 19 e 20.

    Em 1865 os paraguaios invadiram o sul de Mato Grosso.

    Só um mês e meio depois as autoridades federais, no Rio de Janeiro, ficaram sabendo.

    O interior e suas populações estavam muito distantes do Brasil oficial que, até esta data, ficava na costa.

    O acesso era difícil e os meios de comunicação pouco eficazes.

    Tão logo a República foi proclamada começava a primeira ação coordenada do Estado para incorporar terras e populações. O Marechal Cândido Mariano Rondon foi escolhido para a tarefa. Sua missão era construir pontes e linhas de telégrafo entre Cuiabá e Corumbá, seja pela preocupação dos militares, ou pelo surto da borracha. Foi o que fez entre 1900 e 1906.

    Em 1907, Afonso Pena então presidente da República, incumbiu novamente Rondon a outro e ainda mais complicado objetivo: construir nova linha, ao norte e oeste, entrando na bacia Amazônica. Surgiu a Comissão Rondon. Além do telégrafo o Marechal deveria explorar a região promovendo sua integração nacional (dados do livro Rondon, de Todd A. Diacon).

    Desde então já se falava na necessidade da mudança da capital, da costa para o interior, por motivos, naquela época, eminentemente de segurança.

    Mas nada se fez.

    Finalmente, depois da Segunda Grande Guerra, recomeçou o impulso oficial deste avanço.

    Até este período os brasileiros- cerca de 40 milhões, viviam praticamente no litoral.

    Foi então criada pelo governo a Expedição Roncador- Xingu, cujo objetivo era desbravar a “terra- incógnita” , entre outros. Ao mesmo tempo criou-se a Fundação Brasil Central com a função de implantar núcleos habitacionais nos lugares apontados pela expedição.

    Foi esta a missão que celebrizou os irmãos Villas Boas. Apenas um, entre seus muitos legados, foi a criação de 42 cidades e vilas com população acima de um milhão de habitantes (dados do livro A Marcha para o Oeste- A Epopéia da Expedição Roncador- Xingu).

    A terceira etapa aconteceu nos anos 50, do século passado, quando JK chegou ao poder e efetivou a mudança da capital. Do Rio, na costa, para o cerrado central. Nascia Brasília.

    A quarta, e definitiva, foi também neste mesmo governo quando Juscelino deu forte impulso à industrialização, implantando a indústria automobilística. Em seguida nosso modelo de desenvolvimento privilegiou o transporte rodoviário.

    Desde então este país, cujo “nascimento teve o mar como placenta e a navegação como cordão umbilical da nacionalidade” (como escreveu Dennis Radünz, no livro Museu Nacional do Mar- Embarcações Brasileiras), virou suas costas para o mar.

    Este é um rapidíssimo resumo, lógico. Mas a partir deste ponto, estou certo, passamos a menosprezar a costa. Esquecemos suas tradições, ciclos naturais e fragilidade. Então este espaço relativamente virgem desde 1500, dada sua imensa dimensão, em menos de 50 anos, um átimo em se tratando da história de uma Nação, foi se transfando nas imagens que temos mostrado.

    É devastador perceber o tanto que estragamos no curto período. E uma carga pesada demais que, se não abrirmos os olhos já, será atribuída pelas próximas à nossa geração.

    Esta manhã saímos de Torres, na divisa do Rio Grande do Sul com Santa Catarina, e rodamos até o município de Mostardas no início da restinga da Lagoa dos Patos.

    Esquadrinhamos esta parte do litoral gaúcho passando por Arroio do Sal, Capão Novo, Xangri-lá, Imbé, Tramandaí e Quintão. Praia por praia, quilômetro a quilômetro.

    De modo geral os dados sobre esgotos tratados nos domicílios seguem o mesmo e triste padrão. Os melhorzinhos são os de Torres, com 40% e, o pior, Tramadaí, com apenas 14%.

    A paisagem também é parecida. A planície costeira, outrora uma área de lagoas e restingas, é forrada por reforestamentos com Pinus Elliots, ou culturas de arroz.

    Na região das praias, com exceção de Torres, dunas frontais.

    Amanhã nos espera a Lagoa do Peixe.

    Terça- feira, 13- 03- 2007.

    Visitamos hoje o Parque Nacional da Lagoa do Peixe cuja paisagem é uma das mais belas de toda a costa brasileira. A Lagoa fica na restinga que tem, de um lado a Lagoa dos Patos e, do outro, o oceano. Com 35 km de comprimento por 2 de largura, sua profundidade média é de 60 centímetros mas, na barra ( que abre e fecha conforme os ventos), pode atingir os 2 metros. A área é um berçário para o camarão- rosa, a tainha e o linguado.

    A vegetação é formada basicamente por mata de restinga, banhados, campos de dunas, lagoas de água doce e salobra, e praias. São 35 quilômetros de praia e, com sorte, além dos faróis de Mostarda, da Solidão e do Cristóvam Pereira, nela pode-se ver leões e lobos marinhos, pinguins, toninhas, baleias francas e vários tipos de tartarugas.

    Saímos cedinho da cidade de Mostardas, acompanhados por Rodrigo Meneses, técnico do parque, e Fabiano Souza, monitor, que nos guiaram no trajeto. Toda a área da Lagoa, e arredores, é um dos mais importantes refúgios de aves migratórias dos hemisférios norte e sul.

    Do Alasca vêm milhares de maçaricos, de várias espécies, numa jornada de 15 mil quilômetros. Da Argentina e Chile, flamingos com sua plumagem cor-de-rosa. Mas há muito mais: gaviões, diversos tipos de martim- pescador, colhereiros, marrecas, gaivotas e trinta- réis, cisnes de pescoço- negro, batuíras, garças, enfim, uma infinidade que dá gosto de ver. Foram catalogadas cerca de 190 espécies.

    Historicamente esta é uma região de baixa densidade demográfica em razão da dificuldade de acesso e clima rude, o que garantiu uma “certa” integridade. Fui obrigado a usar aspas porque há problemas como reflorestamento com o malfadado Pinus e pastagem para o gado. Perguntei ao monitor o porquê. Resposta desalentadora: apesar do parque ter sido criado em 1986, passados mais de VINTE ANOS, apenas 6% dos antigos proprietários de terras foram indenizados pelo governo. Os que não receberam, portanto, têm direito a continuar com suas atividades mesmo sendo elas extremamente prejudiciais como estas.

    Ainda assim conhecê-lo foi uma agradável surpresa. A extraordinária explosão de vida, o colorido e a paisagem são deslumbrantes.

    Quarta feira, 14- 03- 2007.

    Deixamos Mostardas em direção a São José do Norte, mais ao sul, onde pegaríamos a balsa para Rio Grande. Mas chegamos depois da última já ter saído.

    Teríamos que dormir aqui mesmo. A estrutura hoteleira é precária. Só havia dois hotéis, se é que as hospedarias onde ficamos poderiam receber este nome. E não havia quartos suficientes. Paulina e Cardozo dormiram numa delas, eu e Sven Jansen, da Land Rover, em outra.

    Quinta- feira, 15- 03- 2007.

    Atravessamos o canal e fomos direto para a Furg, Fundação da Universidade de Rio Grande.

    Ali entrevistamos dois notórios especialistas: Ulrich Seeliger, professor titular no departamento de Oceanografia, autor de vários livros e trabalhos sobre a zona costeira, e Lauro Barcellos, oceanógrafo e museólogo.

    Eis um breve resumo: eles se preocupam com os reflorestamentos com pinus e eucalipto, fruto dos incentivos federais nos anos 70, especialmente pela drenagem nas áreas atrás de dunas, e a natural proliferação das árvores.

    O professor Ulrich lembrou que no litoral do Rio Grande do Sul, com exceção da região de Torres, não há rochas na costa. São 622 km de orla formada quase apenas por areia.

    Os dois apontaram o aumento de intensidade da pesca industrial, especialmente o arrasto. E explicaram que aqui a consequência é ainda pior. O mar rio grandense é pouco profundo na costa, e muitos peixes se refugiam de seus predadores na parte rasa, varrida constantemente pelas redes.

    Lauro comentou que é difícil ordenar a pesca e, com ironia, discorreu sobre “o dever do homem de matar a vida nos oceanos”. E arrematou: “vamos extraindo até o esgotamento total”.

    Ambos falaram da diminuição da vida marinha e animal na zona costeira. “Os valores de hoje são consideravelmente menores que os da década de 50”, disse Lauro.

    O professor Ulrich, por sua vez, reclamou do governo: “quando ele quer saber sobre impactos na costa na maior parte das vezes chama ONGs ao invés de pesquisadores da Universidade”.

    E o professor Lauro finalizou: “O ser humano é a maior esperança, ao mesmo tempo a maior ameaça é o homem”.

    Sexta- feira, 16- 03- 2007.

    Seguimos de carro para o Chuí, que comento no próximo diário.

    Sábado, 17- 03- 2007.

    Retornamos e dormimos no Mar Sem Fim, em Rio Grande.

    Domingo, 18- 03- 2007.

    Novamente de carro, fomos para Porto Alegre e, de lá, para São Paulo.

    Alonso se encarrega de levar o Marzão para a capital assim que o tempo melhorar. A chuva copiosa, e ventos fortes, impedem a saída já.

    Na próxima e última viagem faremos os três derradeiros programas.

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