Baía de Guanabara, entenda os motivos da poluição

2
3557
views

Baía de Guanabara, entenda os motivos da poluição

A baía de Guanabara tem uma área de aproximadamente 400 km2 e contém cerca de 3 bilhões de m3 de água. Dos 55 rios que deságuam nela, 50 são valões – rios que, com o tempo, se transformam em esgotos a céu aberto. Nove milhões de pessoas vivem no seu entorno (estima-se que um terço  resida em favelas e outro terço em áreas com condições precárias de urbanização e saneamento).

Duas refinarias, três portos e estaleiros…

Existem duas refinarias dentro da baía de Guanabara: a Duque de Caxias, da Petrobrás, inaugurada em 1961; e outra privada, do Grupo Peixoto de Castro. E ainda três portos e diversos estaleiros.  No seu entorno há milhares de oficinas clandestinas. O esgoto doméstico é jogado in natura. Uma frota de automóveis poluentes circulando em sei redor. E mais: assoreamento dos rios, ocupação desordenada das bacias hidrográficas e 16 municípios em volta.

Ocupação desordenada

Este é o motivo da poluição: a ocupação desordenada, e o pouco do caso de sucessivos governos que nunca investiram em saneamento básico e coleta e tratamento de lixo. A Baía de Guanabara é um exemplo macabro de como nossa geração foi capaz de destruir uma linda formação da natureza.

baía de guanabara,imagem da baía de guanabara
Nosso maior cartão postal destruído pela ocupação desordenada e inação do estado

Baía de Guanabara: 15 mil litros de esgotos não tratados por segundo

O resultado do descaso é que todos os dias 15 mil litros de esgotos não tratados são despejados, por segundo,  nas águas do mais icônico cartão postal do Brasil. Os dados são de Eliane Canedo de Freitas Pinheiro, autora do livro “Baía de Guanabara”. A ironia da história é que os Tamoios, seus primeiros habitantes, a batizaram de ‘Guanabara’ porque significa “seio de onde brota o mar”.

A degradação do entorno

Além do desmatamento, todos os rios que deságuam na baía tiveram seus cursos ratificados o que contribuiu para maior correnteza e conseqüente aumento dos sedimentos. A maioria ficou totalmente assoreado. Estas obras começaram no século 19, passaram pelo seguinte, e seguem até hoje. Inutilmente.

baía de guanabara, imagem do entorno da baía de gunabara
O entorno: favelas e mais favelas

Navios limpam seus porões dentro da Baía de Guanabara

Em 2006 quando o Mar Sem Fim produzia sua primeira série de documentários  estivemos em Copacabana, no posto seis, onde fica uma das última colônias de pescadores artesanais. Na época entrevistamos seu presidente, Ricardo Mantovani. Ele denunciou, entre outros absurdos, que navios limpam seus porões e contêineres dentro da baía, piorando ainda mais a situação, fazendo com que ninguém queira comprar o pescado que fica “impregnado com o cheiro do óleo diesel”. O descaso das autoridades cariocas é tão grande que até um crime como este, limpar porões dentro da baía, acontece sem que ninguém tome providências.

Próximo à ilha do Fundão um cemitério de navios dentro da baía de Guanabara

Naquela visita, a bordo do veleiro Mar Sem Fim, navegamos para a Ilha do Fundão. No fundo dela outra cena sinistra: uma espécie de cemitério de navios. São imensos cascos, alguns ainda com o convés de pé, antigos, abandonados, adernando enferrujados à espera da morte. Como é caro desmonta-los  eles ficam ali, aguardando não sei qual desastre para se desintegrarem de vez, provocando mais um problema ecológico na maltratada Baía de Guanabara.

baía de guanabara,imagem de refinaria dentro da baía de guanabara
Duas refinarias dentro da baía

Estudo para despoluição da Baía de Guanabara

O Programa de Despoluição da Baía de Guanabara (PDBG) teve ajuda internacional. Ele foi assinado em julho de 1991 e previa a cooperação técnica entre os governos brasileiro e japonês. Além do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), houve investimento do Japan Bank for Internacional Cooperation (JBIC). Estivemos no Instituto Baía de Guanabara, à época  coordenado por Dora Hess de Negreiros, para nos explicar o porquê do fracasso desta ação.

baía de guanabara, imagem de praia poluída na baía de guanabara
Praia (?) no interior da baía de Guanabara (Foto: O Globo)

Dora saiu da FEEMA durante o segundo Governo Brizola e, desde então atuava na ONG procurando produzir e divulgar informações. Além de participar em fóruns oficiais, como o Conselho Gestor da Baía de Guanabara, vinculado ao Governo do Estado (Desde o início do Governo de Rosinha Mateus, em 2003, não foi feita nenhuma reunião).

Ela nos informou que depois de lançado o movimento, foi iniciado um estudo para o qual vieram técnicos do Japão que haviam participado da limpeza da baía de Tókio.

baía de guanabara, imagem da ponte Rio Niterói
A interferência humana

Projeto de despoluição tinha objetivo de tratar 60% do esgoto. Hoje mal chega a 25%

O projeto, conhecido como “Programa de Despoluição da Baía de Guanabara”, tinha o objetivo de tratar cerca de 60% do esgoto lançado. Índice que mal chega hoje aos 25%. Passados tantos anos sequer a primeira etapa foi concluída. Dora, triste pela situação de abandono, declarou:

As obras começam e param. Não há continuidade por parte dos sucessivos governos. Dos 16 municípios, vários não têm nem mesmo água encanada. Sem água encanada não há tratamento de esgotos domésticos

12 mil toneladas de lixo

Os números são cavalares: vão parar na baía resíduos de 12 mil toneladas de lixo dos aterros sanitários próximos. Estima-se que estes 16 municípios produzam algo como 450 toneladas de esgoto que também têm destino certo: a mesma baía. E ainda há derramamento de óleo, através da poluição difusa produzida pela frota de automóveis do Rio. Além de acidentes ocasionais na refinaria Duque de Caxias, ou com navios e barcos (o último derramamento, por parte da Petrobrás aconteceu no ano de 2000, quando cerca de um milhão e duzentos mil litros de óleo vazaram…). Fechando a lista temos ainda algumas toneladas de metais pesados, fruto dos efluentes industriais. Um massacre ambiental.

baía de guanabara, imagem de Plataformas de petróleo na baía de Guanabara
Plataformas de petróleo na baía de Guanabara

Nem as Olimpíadas do Rio conseguiram sucesso na despoluição da Baía de Guanabara

Quando o Rio foi escolhido como sede das Olimpíadas de 2016, houve um sopro de esperança que os governos municipais, das várias cidades do entorno, e o governo estadual, tocassem finalmente as obras. Ledo engano. Desde o primeiro evento teste, em 2014, a situação já mostrava que não seria fácil. De um lado o Comitê Rio assegurava que os 320 velejadores de 34 países encontrariam condições adequadas para a disputa, do outro,  biólogos duvidavam.

Mário Moscatelli, biólogo que há mais de duas décadas luta contra a degradação da Baía alertava que Brasil passaria muita vergonha:

 das sete usinas de tratamento prometidas pelo governo do estado, só uma está funcionando.

No período, o O Comitê Rio garantiu “condições adequadas” para todos os velejadores que estiverem classificados para a disputa por medalhas. Como providência, o Comitê preparou míseros três ‘ecoboats’ – embarcações adaptadas para recolher lixo nas águas – e prometia que  o número saltaria para 24 embarcações. Puro blá-blá-blá.

baía de guanabara, imagem de Lixão nas encostas da Baía de Gunabara
Lixão nas encostas da Baía de Gunabara

Compromisso de despoluir 80% da baía quando o Rio foi escolhido sede das Olimpíadas

Moscatelli advertia que a solução era meramente paliativa e não resolveria o problema mesmo para o evento-teste. Nem mesmo a pressão internacional funcionou. Em Maio de 2014 o New York Times alertou: “não caia na água do Rio”. Um ano depois o então secretário estadual do Ambiente do Rio de Janeiro, André Corrêa, afirmou que desistia da meta de sanear 80% da Baía de Guanabara até os Jogos Olímpicos de 2016. O compromisso foi assumido pelo governo Sergio Cabral (PMDB) durante a campanha para a escolha do Rio como cidade sede da competição.

R$ 10 bilhões para universalizar o saneamento básico

Pelos cálculos da secretaria do Ambiente, seriam necessários R$ 10 bilhões somente para universalizar o saneamento básico dos municípios no entorno da Baía de Guanabara. E assim a situação persiste até hoje.

(foto de abertura: BBC)

Conheça os Mares e Oceanos mais poluídos do planeta.

COMPARTILHAR

2 COMENTÁRIOS

  1. Saiu uma agora, que INEA afirma que tem mais de 100 lixões clandestino na região metropolitana, sendo muitos próximo a baia. E saiu no RJTV mostrando os lixões, inclusive aquele que vocês denunciaram no município de São Gonçalo. Também tem um imenso lixão clandestino próximo ao lixão de gramacho, muito grande,aterram uma gigantesca parte do mangue.

    • Pois é Leitor, os problemas são tantos que “justificam” 15 mil litros de esgoto por segundo despejados em nosso cartão postal. Um retrato do Brasil. Patético, mas real. abraços

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here