Discurso ambiental de Bolsonaro na ONU, e a repercussão

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Discurso ambiental de Bolsonaro na ONU, e a repercussão

Quem era a favor, continua sendo. Assim como quem era contrário. Prossegue a divisão iniciada por Lula e companhia, e anabolizada por Bolsonaro e seus pares. Pior para o Brasil que, além de sempre pobre, está chato pra caramba. Faz tempo que o País não sai do lugar. A economia avança pouco. E o desemprego recorde se estabiliza. O País patina, com trocas de bravatas de um, e outro lado. Mas o viés político do discurso de Bolsonaro, se ele foi ‘agressivo’ ou apenas ‘contundente’,  deixo para seus cronistas preferidos. Ao Mar Sem Fim interessa a parte ambiental do discurso de Bolsonaro na ONU e respectiva repercussão.

imagem do discurso ambiental de Bolsonaro na ONU
Imagem, Keith/Getty Images/AFP.

O discurso ambiental de Bolsonaro na ONU

O discurso de Bolsonaro teve aproximadamente, 32 minutos, dez dos quais, dedicados ao meio ambiente. É sobre estes dez minutos que trata esta matéria.

Apresentação da indígena

Bolsonaro começou apresentando a indígena Ysani Kalapalo, do Parque Nacional do Xingu, “aqui presente”. E emendou: “Meu governo tem compromisso solene com a preservação do meio ambiente e desenvolvimento sustentável. Nosso Brasil é um dos mais ricos em biodiversidade e riquezas minerais.”

“Meu governo tem compromisso solene com a preservação do meio ambiente e desenvolvimento sustentável”, a primeira mentira

Foi a primeira patranha do discurso ambiental de Bolsonaro. Ele esqueceu-se de dizer que foi eleito, sim, foi eleito com o discurso de acabar com o ministério do Meio Ambiente! Só não o fez, como já dissemos, porque foi aconselhado pelos caciques do agronegócio. Eles explicaram o mal que uma atitude intempestiva poderia trazer ao País onde a atividade é carro chefe da economia. Não bastasse, passou a campanha a desqualificar os órgãos que cuidam de nosso maior ativo, Ibama e ICMbio. E demonizar um dos poucos recursos que ambos têm: a revisão das multas por ilícitos ambientais foi uma das promessas de campanha. Para concluir, escolheu a dedo o ministro do Meio Ambiente. Um advogado que fez carreira defendendo ruralistas. E que jamais teve a curiosidade de por os pés na Amazônia. Um neófito das complexas questões da conservação.

“Nossa Amazônia é maior que toda Europa ocidental e permanece praticamente intocada. Prova que protegemos o meio ambiente”, a segunda mentira

A Amazônia é de fato maior que a Europa ocidental. Mas não permanece ‘praticamente intocada’. Cerca de 17% já foram para o saco, ainda que Bolsonaro não tenha participação direta nesta porcentagem. Saberemos, até o final do ano, a porcentagem que lhe cabe. Quem dirá, são dados do Prodes, do Inpe. Ainda assim, ‘ela não permanece praticamente intocada’. Não por outro motivo, cientistas afirmam que nos aproximamos perigosamente do ponto de não retorno, ou seja, da savanização da floresta.

“Nesta época do ano, o tempo seco, e os ventos, favorecem queimadas, inclusive a ilegal. Índios e nativos também usam fogo como parte de sua cultura”, meia verdade

É verdade. Estamos na época das queimadas que são favorecidas pelo tempo seco e ventos. E índios e nativos também usam o fogo, isso é fato. Mas, por isso mesmo, se o governo é tão comprometido com a Amazônia deveria ter tomado precauções. Precauções que o ministro do MMA não tomou. Ao contrário. Depois de exonerar 21, dos 27 superintendentes do Ibama, o ministro ficou sem qualquer referência. Deu no que deu.

“É uma falácia dizer que AM é patrimônio da humanidade, e equívoco, como atestam cientistas, afirmar que é pulmão do mundo”

É verdade! A Amazônia é patrimônio brasileiro. Mas contribui com a humanidade em tempos de aquecimento global que, a propósito, a gestão Bolsonaro acredita ser ‘complô comunista‘. Quanto a ser pulmão do mundo, é de fato um equívoco. Pela primeira vez em sua gestão, Bolsonaro não desqualifica cientistas. Desta vez o presidente se escora em afirmação científica, curiosa mudança de atitude. O oxigênio gerado pela floresta é quase todo consumido por ela mesma. Pulmão do mundo, como reiteradas vezes dissemos, são os oceanos, razão da existência deste site.

Terras indígenas

“Hoje 14% do território brasileiro está demarcado como terra indígena… Quero adiantar que o Brasil não vai aumentar para 20% as terras já demarcadas como terras indígenas como alguns chefes de estado gostariam. Existem no Brasil 225 povos indígenas, e 70 tribos vivendo em locais isolados…cada povo ou tribo com sua forma de ver o mundo. A visão de um deles não representa a de todos índios brasileiros. Muitas vezes alguns deles, como o cacique Raoni, são usados como peça de manobra por governos estrangeiros na sua guerra informacional para avançar seus interesses na Amazônia….”

Levar indígenas à tiracolo em viagens internacionais: dois pesos e a mesma medida

É verdade a parte que diz que “alguns deles, como o cacique Raoni, são usados como peça de manobra por governos estrangeiros”. O Mar Sem Fim já escreveu sobre o assunto. Criticamos Sting e Macron por usarem o cacique para favorecer seus interesses. Bolsonaro parece ter aprendido a lição. Levou uma indígena do Xingu, Ysani Kalapalo, para o mesmo serviço. Criticar os outros é fácil. Olhar o próprio umbigo, nem tanto. ‘Acabou o monopólio do senhor Raoni’. É verdade. Ele agora divide palcos internacionais com Ysani Kalapalo.

“O Brasil agora tem um presidente que se preocupa com aqueles que lá estavam antes da chegada dos portugueses”, terceira mentira

Bolsonaro passou 27 anos na Câmara dos Deputados. Jamais abordou a questão. E nunca apresentou qualquer projeto em relação aos índios que agora diz proteger.

Reservas Yanomami e Raposa Serra do Sol no discurso ambiental de Bolsonaro na ONU

“Infelizmente, algumas pessoas de dentro e de fora  do Brasil, apoiadas por ONGs, teimam em tratar e manter nossos índios como homens das cavernas….O índio não quer ser latifundiário, pobre em cima de terra rica. Especialmente, das terras mais ricas do mundo. É o caso das reservas Yanomami, e Raposa Serra do Sol. Nestas reservas existe grande abundância de ouro, diamante, urânio, nióbio e terras raras. E estes territórios são enormes. A Reserva Yanomami sozinha, conta com 95 mil km2 o equivalente ao tamanho  de Portugal ou Hungria, mas apenas 15 mil índios vivem nesta  área. Isso demonstra que, os que nos atacam, não estão preocupados com os índios, mas com a biodiversidade e riquezas minerais destas áreas.”

Meia verdade

A demonização das ONGs continua. E o complô internacional contra ‘as riquezas tupiniquins’, também. Mas as duas reservas são de fato imensas, e possuidoras de riquezas minerais. Uma delas ainda era área de produção agrícola importante, a Reserva Raposa Serra do Sol. A questão é complexa e polêmica. Merece mais pesquisas antes de uma palavra deste site. Fica aqui nosso compromisso de estudar a formação de ambas, levantar os prós e contras, e apresentar uma posição em breve. Que houve excessos no passado, não temos dúvida. Nem por isso se justifica transformar o MMA em apêndice do Ministério da Agricultura. Ou o teatro do absurdo que estamos assistindo protagonizado pela dupla dinâmica Bolsonaro-Salles.

“Nossa política é de tolerância zero para a criminalidade, aí incluídos os crimes ambientais”, quarta mentira

Se fosse verdade, Bolsonaro deveria ter pago a multa ambiental que lhe foi imposta, corretamente, por pescar em área de proteção integral onde a prática é proibida. Em vez de pagar multa, o fiscal que o multou foi exonerado. E, como lembramos acima, a revisão das multas do Ibama foi promessa de campanha.

‘Estamos prontos para, em parcerias, e agregando valor, aproveitar de forma sustentável todo o nosso potencial’, sexta mentira

Prontos como, presidente? Que políticas públicas o senhor e seu ministro do MMA apresentaram? Nenhuma, além de desmerecer as equipes que têm sido protagonistas  da questão ambiental desde antes da Eco 92. O que ambos fazem é culpar ONGs, demitir cientistas, etc.

‘61% de nosso território é preservado’, sétima mentira

“Qualquer  iniciativa de ajuda ou apoio a floresta Amazônia, ou outros biomas, deve ser tratada em pleno respeito à soberania brasileira. Também rechaçamos a tentativa de instrumentalizar a questão ambiental ou a política indigenista em prol de interesses políticos e econômicos externos. Estamos prontos para, em parcerias, e agregando valor, aproveitar de forma sustentável todo o nosso potencial.”

Atenção ao quadro abaixo que, apesar de não ser de responsabilidade da atual gestão, mostra os problemas de nossos biomas.

ilustração de diagrama com ameaças aos biomas brasileiros
O mais recente diagnóstico dos biomas nacionais não é muito animador. Todos sofrem reveses.

Depois do desastre que tem sido a questão ambiental, dizer que ‘61% de nosso território é preservado’ não corresponde à realidade. Não há bioma brasileiro que não esteja sofrendo reveses. Da Mata Atlântica sobraram menos de 10%; o Cerrado vira pasto para bois; a Amazônia perdeu cerca de 17% de sua área original; o Pantanal está em chamas; a soja e a silvicultura tornaram o Pampa o segundo bioma mais ameaçado; e a Caatinga talvez seja o mais maltratado, 60% de sua área está sujeita a desertificação.

A repercussão do discurso ambiental de Bolsonaro na ONU

Ainda neste tópico, não vamos entrar nas questões políticas, de soberania, e outras. Nossa intenção era analisar o ponto de vista ambiental, e suas consequências diretas, o agronegócio.

Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA)

Sobre isso, diz o G1, “a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) disse que “Bolsonaro esclareceu equívocos sobre a Amazônia e ressaltou o importante papel do Brasil na produção mundial de alimentos”.

Confederação dos Trabalhadores na Agricultura (Contag)

Mas a Confederação dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) que representa os agricultores familiares, “lamentou” o discurso do presidente brasileiro. Bolsonaro erra ao “rejeitar a tese de que a Amazônia é um patrimônio da humanidade. E, ao negar o aumento de incêndios e desmatamento nos últimos dois meses, mesmo com fotos de satélite, inclusive da Nasa, que comprovam”.

Associação que representa os produtores de soja (Aprosoja)

O presidente da Aprosoja, Bartolomeu Braz, questionado se as reações internacionais ao discurso de Bolsonaro pudessem prejudicar as exportações, disse não acreditar nesta possibilidade. “Não vejo dessa forma [risco de retaliação]. Nossos mercados são firmes. Somos os mais sustentáveis do mundo e contra fatos não há argumentos”

Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil

O presidente da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), João Martins, afirmou, em nota, que o presidente Jair Bolsonaro “conseguiu posicionar o Brasil” na ONU com o discurso proferido na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, segundo o site 360º.

Rubens Ricupero, embaixador aposentado

Ao Estado de S. Paulo, disse o embaixador, e ex-subsecretário da ONU: “Os acordos que o Mercosul tinha assinado com a União Europeia e a Área de Livre Comércio Europeu já estavam praticamente mortos. Agora, ele coloca vários pregos no caixão. Ele inviabiliza, no futuro previsível, qualquer esforço de boa vontade para apresentar esses acordos à aprovação dos diversos parlamentos europeus. Isso vai afetar muito as perspectivas do agronegócio brasileiro, da exportação do Brasil em geral.”

Expoentes do agronegócio

O acima exposto foi tudo que encontramos na internet sobre a repercussão entre os envolvidos com o agronegócio. Lembrando que o post foi escrito um dia depois do discurso, em 25 de setembro de 2019, e que, pouco antes, expoentes do agronegócio não se acanharam de criticar o ‘discurso ambiental do presidente’, mesmo sem a fala da ONU. Torcemos para que isso não nos traga mais prejuízos. O futuro dirá. E o Mar Sem Fim voltará ao tema.

Assista ao vídeo do discurso. A parte ambiental começa aos 7 minutos, e termina aos 17′.


Imagem e abertura: Keith/Getty Images/AFP

Fontes: https://g1.globo.com/economia/agronegocios/noticia/2019/09/24/para-setores-do-agronegocio-discurso-de-bolsonaro-esclareceu-equivocos-sobre-a-amazonia-e-nao-deve-prejudicar-exportacoes.ghtml; https://www.poder360.com.br/economia/bolsonaro-conseguiu-posicionar-o-brasil-na-onu-diz-presidente-da-cna/; https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,fala-vai-afetar-muito-as-perspectivas-do-agronegocio-brasileiro-diz-ricupero-sobre-bolsonaro,70003023796.

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17 COMENTÁRIOS

  1. Faz um mês que entrei como assinante do Estadão. Como é tendencioso esse jornal. Só falam mal de nosso presidente. Por que vocês não eram contra o Luladrão, um cafajeste de primeira, imundo que deixou o Brasil com 14 milhões de desempregados, entregou nosso dinheiro a comunistas. enfim, eu vou ficar somente olhando o que é esse jornal. Vergonhoso tratar nosso presidente assim como vocês fazem. Em quatro anos vocês irão ver a mudança em nosso país.

  2. Resumo, inverdades ou quase verdades. Deveria, antes de discursar, exonerar o ministro anti meio ambiente, o qual, foi nominado em uma reportagem, como ministro do desmatamento, não sem razão.

  3. Os comentários foram bons, esclarecedores, sem a patriotada de soberania que de rigor nunca foi ameaçada. Até agora, os discursos pró-Amazônia são no sentido de manter a floresta em pé e não o aproveitamentos de suas riquezas no solo. E a coisa é tão radical entre os bolsonaristas que de certo modo até defendem maior devastação na Amazônia. Sim, o ministro do meio ambiente concordava com todas as afirmações infelizes, anti-meio ambiente de Bolsonaro, dando espécie de senha para a predação que virou sanha criminosa. Que não esperavam. Agora é cuidar que o discurso na ONU mais que palavras virem ações

  4. Os comentários são esclarecedores, reais. O que importa é, após os discursos, cuidar do meio ambiente como de certo modo prometeu na ONU. O que se deu no avanço da predação foram as manifestações infelizes do Bolsonaro, ratificadas pelo seu ministro do meio ambiente. Agora, então, é hora de se resignar e olhar com seriedade para a preservação ambiental.

  5. Veja, mas vc, colunista, não vê um perigo real nestas propostas de auto-determinação dos povos indígenas?Eu, por mim, julgo que a história se repete sempre, movida por interesses econômicos das grandes potencias… Lembra-se do que aconteceu no Oriente Médio após a Primeira Guerra? Todo retalhado em benefício dos países que ganharam a guerra, de olho no petróleo… Deu no que deu, até hj… Alguém se lembrou de resolver a questão dos árabes e judeus? Poderiam, já que estavam dividindo tudo e criando tantos países novos, ter resolvido isso de uma vez por todas… Mas alguém tem interesse em resolver algo para os outros? Enfim, acho que corremos o risco da criação de uma série de república das bananas nas fronteiras da Amazônia. depois que acontecer, aí é irreversível…

  6. O Presidente precisava falar desta forma. Não haveria outra oportunidade. Ninguém é 100% além de Deus ! Vamos amadurecendo, e as vezes nem tanto.

  7. Para dizer tudo oque esta escrito acima só pode ser um petista braço direito de lula.
    O discurso do presidente para que não esta comprometido em entregar nossa soberania foi o disturso que salvou o Brasil. Este discurso vai ficar para a historia, pois foi o único presidente que blindou o Brasil das garras dos europeus mal intencionados. O mundo do bem, sabe que o Brasil é o pais que mais preserva sua biodiversidade, é pais que tem o código florestal o melhor do mundo é o pais onde tem mais de 60% de sua terras ainda em florestas. Para quem não é patriota, ou esta comprometido para afundar o pais, ou com a corrupção ou chegar ao poder de novo e afundar mais o pais fica criticando o mito. falando só m.

  8. De teses em teses, teorias me teorias caminha a humanidade. O humano vai perecer, acabar, ser extinto e será sim por mudança climática, ms não PROVOCADA por nós. Ciclos naturais!! Esperem!!

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