Barcos chineses no Atlântico Sul: quem vigia a ZEE brasileira?
Barcos chineses no Atlântico Sul já cercam a costa da Argentina em números impressionantes. Centenas de embarcações avançam até o limite das zonas econômicas exclusivas, exploram estoques de lula e mantêm operações durante meses. No Brasil, ainda não há prova pública de invasão recente da ZEE.

Mas a presença dessa frota tão perto de nossas águas levanta uma pergunta inevitável: quem vigia a costa brasileira?

Argentina e Chile vigiam a frota chinesa
Cerca de 200 barcos chineses passam meses junto ao limite da ZEE argentina, sobretudo em busca de lula. Após acumular prejuízos anuais estimados em mais de US$ 2,6 bilhões, a Argentina reforçou a vigilância com navios, radares e aviões.

O Chile também reagiu. Como já mostramos no Mar Sem Fim, sua Marinha chegou a usar um submarino para acompanhar a frota estrangeira perto de áreas protegidas.
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Erosão costeira no Rio Grande do Norte ameaça 39 praiasCemitério de baleias guarda 5 milhões de anos de históriaTerra pode ter 20 milhões de espécies de insetosOs dois países mostram que a presença do Estado ajuda a conter invasões. Isso importa ainda mais diante de uma frota pesqueira mundial na qual até 75% dos navios não aparecem nos sistemas públicos de rastreamento. No Brasil, porém, quase não há informações sobre embarcações estrangeiras que se aproximam da ZEE.
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Quem vigia a ZEE brasileira?
O desafio brasileiro é colossal. A Amazônia Azul ocupa cerca de 5,7 milhões de quilômetros quadrados. A Marinha afirma que o SisGAAz integra radares, satélites, navios e outros sensores para acompanhar essa imensidão. Contudo, vigiar pelo radar não basta. Quando um barco apresenta comportamento suspeito, o Brasil precisa enviar navios ou aeronaves para identificá-lo e, se necessário, abordá-lo. É nesse ponto que aparece a fragilidade: nossa área marítima cresceu mais depressa que a capacidade de patrulhá-la.
O problema tende a crescer. Em 2023, o então comandante da Marinha, almirante Marcos Sampaio Olsen, defendeu a ampliação dos direitos brasileiros sobre a plataforma continental. O pleito pode elevar a área marítima sob interesse econômico do País para 5,7 milhões de quilômetros quadrados. Como já mostramos, ampliar a Amazônia Azul significa aumentar também a responsabilidade de vigiá-la. Sem navios, aeronaves, satélites e recursos suficientes, o Brasil corre o risco de conquistar no papel uma área que não consegue proteger no mar.
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A Marinha começou a renovar sua frota com as fragatas da classe Tamandaré, novos submarinos e navios de apoio. Esses meios aumentam a capacidade de presença e patrulha. Ainda assim, não bastam para vigiar uma área marítima tão vasta. Além de navios, o Brasil precisa de aeronaves, satélites, radares costeiros, inteligência e recursos permanentes para manter operações no mar. Sem isso, qualquer frota estrangeira que desligue seus sistemas de localização encontrará enormes espaços sem fiscalização.
Falta transparência sobre barcos estrangeiros
O maior problema não está apenas na falta de meios para detectar os barcos chineses no Atlântico Sul . O governo quase não divulga quantos barcos estrangeiros se aproximam da ZEE brasileira, quantos desligam o sistema de identificação ou quantos despertam suspeitas de pesca. Sem esses dados, o País não consegue avaliar a ameaça nem cobrar respostas. A frota chinesa já opera no Atlântico Sul. Falta saber até onde ela chega quando se aproxima do Brasil.
Um aviso vindo do alto-mar
Em 2018, o pesqueiro chinês Chang Rong 4 atingiu o atuneiro brasileiro Oceano Pesca I durante uma disputa por um cardume. O episódio ocorreu a 676 quilômetros do Rio Grande do Norte, em águas internacionais. Segundo os tripulantes, o navio chinês ainda tentou abalroá-los outras vezes. O caso não prova uma invasão da ZEE, mas mostra que a disputa pelos recursos pesqueiros já chegou perto do Brasil.
O Brasil precisa responder
A Marinha, o Ibama e o Ministério da Pesca precisam informar quantos barcos estrangeiros se aproximaram da ZEE nos últimos anos. Também devem revelar quantos desligaram os sistemas de identificação, quantos apresentaram movimentos suspeitos e quantas vezes o Brasil enviou navios ou aeronaves para averiguar esses casos. Sem transparência, ninguém sabe se o País vigia de fato suas águas ou apenas confia que as frotas estrangeiras respeitem a linha das 200 milhas.
Invasão ou falta de vigilância?
Até agora, não há prova pública de que barcos chineses tenham pescado recentemente dentro da ZEE brasileira. Contudo, a frota já explora intensamente o Atlântico Sul, pressiona países vizinhos e disputa recursos com embarcações nacionais. O silêncio do governo impede uma conclusão segura. Pode não haver invasão. Mas também pode faltar vigilância — ou transparência para mostrar que ela existe.
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