Como destruímos o Guarujá, a ex-pérola do Atlântico

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Guarujá: de Pérola do Atlântico, para uma cidade onde impera o mau gosto e a violência

Guarujá: se fizermos um grande exercício de imaginação, será possível perceber como era espetacular a ilha de Santo Amaro. E verificar como conseguimos deformá-la. Antes de sua ocupação, talvez, Santo Amaro fosse uma das ilhas mais bonitas do nosso litoral. Morros cobertos de mata atlântica, praias espetaculares de todos os tipos: grandes, como Pitangueiras; charmosas, como Pernambuco; pequenas, como as praias Preta e Branca. Algumas surpreendem com  cachoeiras que descem até a areia, caso de Iporanga. E, se um dos lados da ilha foi desfigurado pelo maior porto do Brasil, o de Santos, as favelas de Vicente de Carvalho, e o polo industrial de Cubatão, ainda há o canal de Bertioga cercado por manguezal, ralo, mas ainda de pé, o que é quase um milagre.

 imagem de uma muralha de prédios numa praia do Guarujá
A especulação degrada qualquer cenário. Impossível não se revoltar. Que, ao menos, sirva de exemplo para outros não fazerem o mesmo.
 imagem do polo de cubarão
Polo de Cubatão, vizinho incômodo.

O lado histórico, pouco valorizado, da ilha de Santo Amaro, onde fica o Guarujá

A ilha de Santo Amaro é parte importante de nossa história, a primeira vila erguida no Brasil foi em São Vicente, ao lado do Guarujá. Ainda no aspecto histórico, a ilha de Santo Amaro guarda relíquias quinhentistas, como a fortaleza da Barra Grande, surpreendentemente, em bom estado de conservação. No lado norte, na barra de Bertioga, outro forte importantíssimo, e igualmente em bom estado, o forte São João da Bertioga, onde foi assinada a “paz de Iperoig” quando, a duras penas, os padres Manoel da Nóbrega, e José de Anchieta, conseguiram acalmar o cacique Cunhabebe, assinando o primeiro tratado entre colonizadores e índios.

imagem de mangue no Canal da Bertioga
O mangue no Canal da Bertioga

A primeira vila teria sido erguida na praia da Enseada

Observação: como explica o internauta Cassio Ramos Ribeiro, em mensagem ao término desta matéria, São Vicente não teria sido a primeira vila, “a primeira vila do Brasil não foi São Vicente, mas sim uma vila, encontrada em ruínas, por Martim Afonso de Sousa e descrita por Frei Vicente do Salvador, o historiador do século XVI, que nos contou sobre a fundação de São Vicente. Esta era a vila de Santo Amaro que ficava na praia da Enseada. Beauchamp, também historiador, escreve no século XIX, que a vila foi fundada em 1515, mas que sua ocupação era bem anterior a essa data”.

Mas quem se importa com nossa história?

 imagem da Fortaleza de Barra Grande, Santos
Fortaleza de Barra Grande

Guarujá e o glamour do passado

Quando os paulistas se deram conta de tanta beleza próxima da capital, transformaram Guarujá no balneário das elites. Casas de madeira, pré-fabricadas, foram importadas dos Estados Unidos. Eram chalés, que abrigavam os ricos de São Paulo durante as férias. Este primeiro núcleo, na praia de Pitangueiras, ainda tinha o famoso Grande Hotel e seu cassino.

 imagem de um cartão postal com Guarujá antigo
Guarujá em Cartão Postal, do acervo de Waldir Rueda
 imagem de Guarujá nos anos 40
Guarujá nos anos 40 (acervo de Francisco Carballa)
 imagem de Guarujá nos anos 50
Nos anos 50 começa tímida a destruição da paisagem

1942, o primeiro prédio. Salte no tempo… População atual, 311 mil habitantes, 40 mil em favelas.

Nesse ano foi erguido o primeiro prédio, o edifício Pitangueiras, com oito andares. A muralha de concreto começava a ser erguida. Guarujá foi ocupada sem nenhum planejamento, como sempre acontece no litoral do Brasil. No lado rico, que dá para o mar, a beleza de suas praias foi-se embora. Trocada por uma fila interminável de prédios, formando uma barreira disforme de concreto. Do lado pobre, no interior, ou na parte da ilha que dá para o porto de Santos, a favelização explodiu. Guarujá tem 311 mil habitantes, 40 mil, acredita-se, vive em favelas.

 imagem de costão ocupado no Guarujá
Como a especulação destrói um importante ecossistema, os costões. Eles, “não podem ser ocupados” , a não ser no Brasil, onde “há leis que não pegam”.

Consequências do processo de degradação: quem pode se fecha em guetos protegidos. Os outros…

Junto com a destruição de sua linda paisagem veio a degradação moral. Os serviços públicos pioraram. Saneamento, e policiamento, são insuficientes,  assim como a limpeza das praias. Isso fez com que os ricos que ainda frequentam a ilha, se fechassem em condomínios, privatizando suas praias favoritas, como Iporanga, ou São Pedro, com a complacência do poder público. Ali, pelo menos, os condôminos fazem as regras. Escolhem quem pode, ou não, entrar para o grupo; pagam sua própria guarda particular e garis para limparem “suas praias”, criando mais um gueto no litoral. Nestes poucos, e proibidos espaços privatizados, reina a paz. Mas fora deles…

imagem de predios-no-costão-
Vale arrebentar a paisagem, que é de todos, para alguns ‘terem vista para o mar’. A especulação não tem limites.

Guarujá bate recordes de roubos e assassinatos. Em um fim de semana houve 22 sequestros

No site The Eagle View, descobri o artigo O Triste Fim do Guarujá, que mostra uma série de estatísticas publicadas pela imprensa. É de arrepiar. Em 2013 o Guarujá já atingia a maior taxa de roubos por cem mil habitantes. Em 2014, acontecia um roubo por hora. Em 2016 o crime continua a ganhar a guerra. Em um fim de semana houve 22 sequestros de pessoas que, “feitas reféns, foram torturadas”.

O autor do artigo explicou o que levou Guarujá a este cenário de guerrilha urbana. Para Antonio Fernando Pinheiro Pedro,

Os três vértices desse triângulo de sumidouros têm identidade:

1- a corrupção histórica inoculada na prefeitura (seja qual for a gestão), que transformou o controle do uso do solo da cidade num leilão de interesses e compadrios;

2- a perseguição sistemática patrocinada pelo Ministério Público contra QUALQUER iniciativa urbanística ou imobiliária de revitalização da cidade, mistura de aparelhamento ideológico e xiitismo ambiental abominável que judicializou empreendimentos, desmoralizou a segurança jurídica e desestimulou qualquer investimento;

3- a política “criminosa” de segurança pública do estado na região.

imagem da praia de Pitangueiras, Guarujá
O  Atobá  parece não se  ‘encaixar’ na “paisagem que construímos”.

Por trás da especulação estão empresários, milionários, políticos e grandes empresas, atolados na corrupção

Mesmo acompanhando de longe, concordo cem por cento com o veredicto do autor. É o que acontece em 99% das prefeituras dos municípios da zona costeira: a corrupção, pela venda de mudanças na legislação sobre ocupação e uso do solo. Vejo casos iguais, a cada dois ou três novos municípios visitados. Não canso de repetir: na zona costeira, quem manda na ocupação e uso do solo é a especulação imobiliária. A força que existe por trás dela, é fenomenal, envolve grandes empresas, milionários, e políticos. Estão destruindo nosso litoral, banalizando praia por praia. Junto vem a degradação, e com ela, aumento da criminalidade.

A especulação banaliza a paisagem, ocupa áreas protegidas, destrói o patrimônio público

Com a especulação acontece a imediata destruição da paisagem. Permite-se que áreas protegidas sejam ocupadas. Em seguida, a prefeitura, ao invés de embargar a construção, leva ao  local as melhorias como luz, água, e outras. Com as benfeitorias, o preço do imóvel irregular vai às alturas, remunerando toda a cadeia marginal.

Guarujá não é exceção

Infelizmente, a ex-pérola do Atlântico não é exceção. Em todas as regiões do litoral brasileiro há casos semelhantes. No sul, por exemplo, temos a aberração do Balneário de Camboriú. No Nordeste, entre muitas outras, Pipa, no Rio Grande do Norte. E na região Norte, o exemplo que também não é único, é Salinópolis.

Falta-nos ética, estamos aqui de passagem

Aproveitar cada momento de nossa viagem pela Terra não implica deixar as duras pegadas, irreversíveis, que produzimos em série. As futuras gerações têm o direito de conhecer a zona costeira como nós a conhecemos. Ainda com sua beleza preservada. A paisagem é um bem de todos. Não é possível que transformemos nosso litoral num imenso Guarujá.

Fonte: http://www.ambientelegal.com.br;The Eagle View.

Mas é isto que está acontecendo.

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  1. Destruíram o Guarujá, agora rumam ao litoral sul do Estado que já é por si horrível mas pelo menos não tem o nojo daqueles prédios medonhos nas praias… essa é a elite brasileira, qualquer uma quer seu imóvel na praia, constroem vários empreendimentos que destroem a cidade… agora o litoral norte que se cuide, os gafanhotos já chegam a praias de São Sebastião e Ubatuba… logo logo estarão igual… uma verdadeira aberração!!

  2. Acho que deveríamos exaltar a nova gestão do Guarujá a partir de 2019,pois alem de pegar uma prefeitura falida,uma cidade largada,sem leis cumpridas,esta pondo ordem no município.Hoje temos praias iluminadas,cachorros não podem ir na areia,fiscalização de ambulante,saúde sendo terceirizada,policiamento reforçado,Não se pode concertar em um ano o que foi destruído em décadas.

    • Nunca mais poderá se “concertar” (sic) o que foi destruido por lá. Não se trata de tentar conviver um pouco melhor com a situação de degradação geral ceiada no passado.

    • Isso não tem nada a ver. Se o prefeito “é bom”, é o que deveria se esperar de um prefeito.
      E por “fiscalização de ambulante” você quis dizer “atrapalhar os que moram aqui e/ou são licenciados”, né?
      Porque, a maioria dos ambulantes não são nem desse estado. Cadê os fiscais (que entre muitas coisas, adoram ficar parados quando precisa-se fiscalizar, e olham com desprezo para quem ajuda a economia local porém de forma “informal”) pra ver isso?
      Pelo que vejo aqui nos comentários em geral, só tem pessoas de outra$ realidade$, que condenam o pobre, mas que precisou (e sempre vão precisar) dele pra construir a cidade e hoje poder ficar com saudosismo.

  3. Sempre teve muita favela no Guarujá e em toda região da baixada santista. O crime explodiu depois da poplarização do funk, o cançer social que prega ostenção como estilo de vida pra um jovem pobre

  4. Especulação veio devido à proximidade de São Paulo é claro a facilidade de chegar ,agora o problema real e a criminalidade que está desde a gestão pública até nas escolas , Guaruja mesmo com. 300 mil ,nao tem hospital decente nem um efetivo policial compatível (culpa das autoridades) ,do resto ainda é maravilhoso

  5. Ao mesmo tempo que saúdo o incrível texto, a reportagem eficaz e o registro histórico da decadència do Guarujá, lamento por nossas gerações futuras e, pela geração atual pela situação gerada e permitida.

  6. Exemplo de autoridade ocorreu em Cananéia-SP, onde uma juíza determinou a desocupação de todas as casas de proprietários que não eram nativos na ilha do Cardoso, ainda exigiu a retirada dos entulhos…..

  7. A dita especulação imobiliaria não matou o Guaruja, que continua lindo. O que mata mesmo é a falta de segurança pública e as sucessivas quadrilhas que se apossam da Prefeitura e da Câmara Municipal.

  8. Lendo, com muita tristeza, esse artigo hoje, 05/março/2019….
    Seria interessante ver sua atualização….
    Realmente de chorar aos prantos pela desgraceira que impera por todo nosso maravilhoso litoral….

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