Tragédia em Brumadinho, devastadora e pré-anunciada

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Tragédia em Brumadinho, devastadora e pré-anunciada; 270 mortes desta vez

O Mar Sem Fim continua perplexo, e de olho. A tragédia em Brumadinho é o maior  acidente do mundo, entre mineradoras, em número de mortes. Foram encontrados 251 corpos, e outros 19 continuam desaparecidos até hoje. E a Vale S.A. é reincidente. A empresa é responsável pela maior tragédia ambiental do Brasil, em novembro de 2015, em Mariana, quando 19 pessoas morreram soterradas e o distrito de Bento Rodrigues foi riscado do mapa. Desta vez, a Vale repete a dose macabra, matando centenas. A empresa também é responsável pela morte de dois rios: O Doce, e o Paraopeba.

imagem de Ponte destruída pelo mar de lama da tragédia em Brumadinho
Tragédia em Brumadinho. Pontilhão destruído pelo mar de lama da Vale. Foto: www.bbc.com.

Polícia Federal indicia funcionários da Vale e da Tüv Süd

Setembro de 2019, O Estado de S. Paulo: “A Polícia Federal indiciou sete funcionários da Vale e seis da empresa de consultoria Tüv Süd por falsidade ideológica e produção de documentos falsos, por três vezes, em processo que investiga o rompimento da barragem em Brumadinho. Entre os indiciados por falsidade ideológica e apresentação de documento falso está o executivo da Tüv Süd na sede da empresa na Alemanha, Chris Peter Mayer, responsável pelas operações da companhia no Brasil. A Tüv Süd atua na área de consultoria e é a responsável pela emissão de laudo de estabilidade da barragem.”

Até agora, setembro de 2019, nenhum graúdo da Vale está entre os indiciados pela tragédia em Brumadinho

O Estado: “Nenhum integrante do alto escalão da Vale está entre os indiciados. O grupo é formado por responsáveis ou funcionários dos setores de geotecnia de gestão de riscos e geotecnia operacional da empresa.” Ao todo, sete funcionários da Vale foram indiciados. E prossegue o jornal: “Na Tüv Süd, os indiciados são, além de Mayer, Makoto Namba, André Yassuda, que assinam os documentos de estabilidade da barragem, Marlísio Cecílio de Oliveira, Arsênio Negro Júnior e Ana Paula Toledo Ruiz.”

Tragédia em Brumadinho: funcionários da Vale sabiam dos problemas

A tragédia em Brumadinho aconteceu devido a uma sucessão de erros que incluem, desde o funcionamento precário dos órgãos competentes, como o Ibama (leia abaixo), até o total descaso da empresa que sabia que corria riscos e nada fez, ao contrário, fingiu não saber. Agora a Polícia Federal confirma as suspeitas.

Estadão: “As investigações apontaram que todos os funcionários da Vale indiciados tinham conhecimento sobre problemas de estabilidade da barragem e, ainda assim, não fizeram nada para evitar a tragédia. “Os setores sabiam identificar riscos, mas não sabiam o que fazer depois disso”, afirmou delegado Pessoa. “A tragédia humana poderia ter sido evitada. Tenho convicção disso”, disse o responsável pela investigação.”

Falsidade ideológica e produção de documento falso na tragédia em Brumadinho

Estadão, setembro de 2019: “Os crimes foram cometidos, conforme as investigações, em junho e por duas vezes em setembro de 2018, durante envio de documentos a autoridades da Agência Nacional de Produção Mineral (DNPM) e a Fundação Estadual de Meio Ambiente (Feam). O crime de falsidade ideológica e produção de documento falso, dentro da Lei Ambiental, é punido com prisão de três a seis anos. No caso, multiplicado por três.”

Tragédia em Brumadinho, Ibama informa sobre dimensão do acidente

O Ibama declarou que a tragédia de Mariana  despejou 50 milhões de metros cúbicos de rejeitos, contra 13 milhões de Brumadinho. Foram detonados cerca de 270 hectares de terreno, que equivalem a 270 campos de futebol.

A seguir, outras informações sobre a tragédia em Brumadinho e o que aconteceu até hoje sobre o acidente da barragem de Mariana.

A licença da barragem, empresa sabia do risco

Segundo a Folha de S. Paulo, ” a Ata da reunião extraordinária do órgão ambiental de Minas Gerais que aprovou em dezembro, de forma acelerada, a ampliação das atividades do complexo Paraopeba, que inclui a Córrego do Feijão, mostra que o risco de rompimento, que acabou acontecendo  foi objeto de discussão.” Ou seja, a empresa sabia do risco e não agiu porque não quis.

imagem de helicóptero sobrevoando a tragédia em Brumadinho
Tragédia em Brumadinho. Rastro de destruição. Foto: www.metropoles.com.

A Vale, em Minas Gerais, tem sido uma empresa irresponsável

No primeiro acidente a empresa matou um curso d’água, o Rio Doce. No segundo, tirou a vida do Paraopeba. Mais um recorde sinistro da companhia.

imagem de casa soterrada pela lama
Tragédia em Brumadinho. Horror dos horrores. Quem estava lá dentro? Foto: UOL.

Alguns dados da ex-Vale do Rio Doce

A vale é a “31ª maior empresa do mundo, atingindo um valor de mercado de 298 bilhões de reais. Em novembro de 2007, a marca e o nome de fantasia da empresa passaram a ser apenas Vale S.A. Foi privatizada em maio de 1997- durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Em janeiro de 2012 foi eleita como a pior empresa do mundo, no que refere-se a direitos humanos e meio ambiente, pelo “Public Eye People´s”, premiação realizada desde o ano 2000 pelas ONG’s Greenpeace e Declaração de Berna. Dessa forma a Vale tornou-se a primeira empresa brasileira a “vencer” tal eleição, também conhecida como “Oscar da Vergonha“. A escolha foi realizada por meio de votação pública, tendo a Vale recebido 25 mil votos. Em segundo lugar na eleição ficou a japonesa Tepco, responsável pela operação das usinas nucleares de Fukushima, atingidas por um tsunami em março de 2011.

imagem de resgate na Tragédia em Brumadinho
Tragédia em Brumadinho.

O caso da Barragem do Fundão, de 2015, não evoluiu

No caso da tragédia de Mariana, os pescadores artesanais continuam sem ter onde pescar; as indenizações ainda não foram pagas; a construção do novo povoado ainda não saiu do papel. Esta é a Vale do Rio Doce. E foi por esta indesculpável omissão do poder público, que a Vale se encorajou para ‘arriscar’ uma segunda dose. O jornal Estado de Minas publicou matéria. O título diz tudo: “Três anos depois do rompimento da barragem do Fundão, o pesadelo continua. Na Justiça criminal ou nos tribunais cíveis, a tragédia do rompimento da Barragem do Fundão permanece, três anos depois, uma questão sem resposta para as quase 500 mil pessoas atingidas entre Minas Gerais e o Espírito Santo.” O Mar Sem Fim observa que, tanto na Barragem de Fundão, como na de Brumadinho, a empresa sequer tocou o alarme para avisar os cidadãos.

imagem do desastre de Mariana pela Vale
O desastre de Mariana não serviu de exemplo. Gabriela Bilo/Estadao Conteudo/AP.

Rio Doce: inquérito não levou a nada

Em Outubro de 2016, quase um ano depois da tragédia, finalmente o inquérito chegou ao seu final.  O “MPF denunciou 21 gestores e conselheiros, por homicídio doloso”. Mas, mais uma vez passados vários anos, nenhum diretor foi preso.

imagem do rio Doce feita do espaço
O rio Doce acabou por poluir o Parque Nacional marinho de Abrolhos, sul da Bahia, e hot spot da costa brasileira. Imagem: NASA Earth Observatory/Joshua Stevens, using Landsat data from the US Geological Survey

Na época a dúvida era se a lama tóxica atingiria Abrolhos, o único banco de corais do Atlântico Sul. Hoje, sabe-se que sim. E mesmo assim, nada aconteceu para dona Vale até agora. “Heitor Evangelista, geocientista da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, mostra que o pior cenário se tornou realidade. O colapso dos resíduos da barragem de Fundão, instalação operada pela Samarco, joint venture entre Vale e BHP- contaminou os recifes de coral do Parque Nacional Marinho de Abrolhos, uma reserva natural 914 quilômetros quadrados no Nordeste do Brasil. A pasta tóxica causou a contaminação de exoesqueletos de coral por metais pesados ​​- substâncias que podem ter sérios efeitos sobre a saúde em muitos organismos.”

Ibama não aceitou plano de recuperação Ambiental do Rio Doce

Veja a cara-de-pau, e a impunidade imperando apesar dos pesares. Uma das obrigações da Samarco, depois da tragédia, foi apresentar um plano de recuperação ambiental para todo o vale do Rio Doce. A empresa  mostrou plano tão ruim que não foi aceito. Segundo o Ibama, o que a Samarco apresentou era…

…de caráter genérico e superficial, sem considerar o imenso volume de informações produzidas e disponíveis até o momento, além de apresentar pouca fundamentação metodológica e científica…

Por estas e outras, aconteceu Brumadinho. Só que agora não são apenas 19 mortos, mas centenas. O Mar Sem Fim considera que, tudo a seu tempo, os gestores da Vale merecem cadeia.

Imagem de mar de lama na Tragédia em Brumadinho
Tragédia em Brumadinho. Foto: exame.abril.com.br.

Brilhante artigo de José Goldenberg sobre a Tragédia em Brumadinho

De tudo que se publicou até agora sobre este negro episódio da nossa história recente, que pegou mal no mundo inteiro, foi o recente artigo de José Golbenberg no Estadão. Como se sabe, Goldenberg, PROFESSOR EMÉRITO DA USP,  FOI MINISTRO DO MEIO AMBIENTE E SECRETÁRIO DO MEIO AMBIENTE DO ESTADO DE SÃO PAULO. O título, muito apropriado em épocas de Bolsonaro, foi, ‘Licenciamento e desastres ambientais‘.

Licenciamento e desastres ambientais‘.

O artigo começava assim: “É possível ser mais rigoroso e proteger a população sem impedir o desenvolvimento.” O professor explica: “Os desastres ambientais de Mariana e Brumadinho põem na ordem do dia, com alta prioridade, o problema do licenciamento ambiental. Isso significa uma séria inversão de prioridades do governo federal. A reorganização administrativa promovida em janeiro (de 2019) levou à extinção e realocação de várias áreas ligadas a questões ambientais, o que indicava uma visão desenvolvimentista em que o licenciamento ambiental parece ser um obstáculo ao desenvolvimento.”

Observação: O Mar Sem Fim já alertou sobre a importância do licenciamento ambiental e as tentativas de abortar este importante instrumento da política ambiental brasileira.

“Pagamos o preço”

José Goldenberg: “Estamos pagando hoje o preço com os desastres de Mariana e Brumadinho. E o governo Bolsonaro não ajudou nada, até agora, a resolver os problemas reais do setor ao reduzir o status do Ministério do Meio Ambiente (que até cogitou de extinguir) e tolerar entrevistas e declarações de membros de sua administração desqualificando a defesa do meio ambiente (O Mar Sem Fim concorda em gênero, número, e grau, veja).

“Semelhança com Operação Lava-jato”

José Goldenberg: “Esta é uma situação parecida com a Operação Lava Jato e o papel do juiz Sergio Moro. A legislação anticorrupção, com delação premiada e outros dispositivos legais, já existia, mas foi a coragem do juiz em aplicá-la que fez toda a diferença.”

“Isso não significa que a legislação ambiental não possa ser aperfeiçoada e simplificada – sem perder o rigor -, sobretudo definindo melhor as características específicas dos empreendimentos. Licenciar uma pequena central hidrelétrica numa fazenda no interior não precisa ter a complexidade de licenciamento de uma grande usina hidrelétrica.”

Receita para evitar desastres como o de Mariana

José Goldenberg: “Para evitar novos desastres, como em Mariana e Brumadinho, o governo federal precisa demonstrar claramente que vai aplicar as leis vigentes, “doa a quem doer”. Somente assim os técnicos e engenheiros responsáveis pelos projetos e pela fiscalização ambiental se sentirão respaldados para propor a interdição de projetos inadequados e não conceder novas licenças sem a permissão de medidas protetoras da população.”

“Licenciar uma barragem como a de Brumadinho, permitindo que abaixo dela fossem instalados uma pousada e um refeitório da Vale, ultrapassa as raias do absurdo na sua irresponsabilidade. E poderia ter sido evitado por uma simples medida administrativa.”

Manter a natureza intocada?

Goldenberg finaliza: “Não é possível, como querem alguns, resolver os problemas da pobreza no País mantendo a natureza intocada. Mas é possível fazer um licenciamento ambiental mais rigoroso e ágil, que proteja a população sem impedir o desenvolvimento.”

‘Licenciamento ambiental é obstáculo ao crescimento’

É isso que o Presidente apregoa quase toda semana desde que estava em campanha. Será que ele ainda considera que o ‘Ibama é uma fábrica de multas’? Que o ‘licenciamento ambiental é obstáculo ao crescimento’? Infelizmente, este trágico acidente mostra mais uma vez a importância de um ministério do Meio Ambiente bem aparelhado por equipes, e equipamentos. O que quase nunca aconteceu.

2018 – orçamento do Ministério do Meio Ambiente: 0,1% do orçamento da União

Patinho Feio de todos os ministérios, o do Meio Ambiente, encarregado de cuidar de nosso mais importante ativo, tem um orçamento que demonstra claramente não ser ele uma prioridade, apesar de todo o blá-blá-blá que está na Constituição. É um orçamento irrisório,  0,1% do orçamento da União (aprovado, não necessariamente realizado, sempre há as contingências de verbas…). Assim tem sido em todos os governos recentes.

O Ibama e o ICMBio jamais tiveram o investimento que merecem. São deficitários em equipes e equipamentos como já demonstramos várias vezes. O jornal O Globo confirma: “Estudo divulgado pela WWF-Brasil, em parceria com a ONG Contas Abertas, aponta que, em cinco anos, o orçamento do Ministério do Meio Ambiente (MMA) caiu mais de R$ 1,3 bilhão. Em 2013, a verba prevista para a pasta era de pouco mais de R$ 5 bilhões – já em 2018, o orçamento autorizado é de 3,7 bilhões.”

imagem da Barragem I – Mina Córrego do Feijão
Nova barragem da Vale se rompe. Barragem I – Mina Córrego do Feijão. Fonte: valeinformar.valeglobal.net

 Nova barragem da Vale se rompe. Tragédia em Brumadinho.

Veja abaixo o caminho da lama na tragédia de Brumadinho.

Fontes: https://gauchazh.clicrbs.com.br/; https://valeinformar.valeglobal.net/BR/MG/Paginas/Home-14-03-18.aspx?pdf=1; https://exame.abril.com.br/brasil/bombeiros-rompimento-de-barragem-em-brumadinho-deixa-200-desaparecidos/; https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/01/risco-de-rompimento-foi-citado-na-tensa-reuniao-que-aprovou-licenca-da-barragem.shtml; https://www.pontosbr.com/mina-de-ferro-carajas-vale-do-rio-doce-parauapebas-pa-21.html; https://pt.wikipedia.org/wiki/Vale_S.A; https://g1.globo.com/natureza/noticia/em-cinco-anos-orcamento-do-ministerio-do-meio-ambiente-cai-r-13-bilhao-diz-estudo.ghtml; https://www.hakaimagazine.com/news/research-unveils-new-damage-caused-brazils-failed-fundao-dam/; https://sustentabilidade.estadao.com.br/noticias/geral,pf-indicia-13-funcionarios-da-vale-e-da-tuv-sud-por-producao-de-documentos-falsos,70003018057.

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  1. Texto requentado que só fala o que já foi dito em artigos mais bem escritos. Esse “Mar Sem Fim” precisa sair do lugar comum e do denuncismo “datenizado”. Os textos rasos publicados por esse blogue (ou sei lá o que é isso) parecem escritos por um profeta apocalíptico. Não transfira sua falta de fé em si mesmo para seus textos porque você aparece bem no meio do meu jornal. E se eu quisesse ler porcaria iria para o UOL. Aliás, mande um currículo para lá. Torço por você!

  2. O “bom deste país” é que ninguém se suicidou pelas mortes causadas e muito pelo contrário foram farrear no Carnaval; ninguém foi e será preso pois vivemos no país das “desculpas” legais mais esfarrapadas e em breve todas as vítimas e seus familiares serão chamados à justiça para responderem por “danos morais” causados a empresa que NÃO VALE merda alguma, pois eu cidadão brasileiro não recebi R$ 0,000.000.0001 das exportações seja em serviços que estes desgovernos nos roubam.
    Muito em breve teremos algum outro evento de morticínios por atacado, porque no varejo é todo dia e tal fato encobrirá os passados recentes como Mariana, Brumadinho assim como as vítimas do naufrágio Bateau Mouche IV devem estar a ver navios porque direitos??? Já caducaram.

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