Tráfico de drogas, velejadores presos em Cabo Verde, drama e omissão

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Tráfico de drogas, velejadores presos em Cabo Verde, drama e omissão

Tráfico de drogas- atualizado

Presidente Michel Temer

O Presidente Michel Temer agiu  certo quando chamou para o si o caso, e conversou com o presidente de Cabo Verde em recente encontro naquele país. Temer e uma delegação brasileira lá estavam para participar de um encontro da comunidade Lusófona. O assunto é delicado, já que um presidente não pode interferir na política interna de outro país. Mesmo assim, com muito ‘jeitinho’ , Temer deixou clara a preocupação pelo fato da Justiça cabo verdiana não ter levado em conta relatório da Polícia Federal que inocentou os velejadores brasileiros. E no dia seguinte, para dar mais visibilidade à questão, o Presidente encontrou-se com parentes das vítimas deixado- se fotografar e filmar, o que gerou ainda mais repercussão. Temer mostrou-se um estadista nesta questão. Em breve os brasileiros estarão de volta, não temos dívida.

A seguir, matéria original

Matéria de Sonia Racy, Estadão, em 14/7

“O Brasil não conseguiu, por causa de sua burocracia, entregar a tempo, ao governo do Cabo Verde, a documentação necessária para que os velejadores Daniel Dantas, Rodrigo Dantas e Daniel Guerra pudessem ser libertados e aguardassem em liberdade o julgamento de seus recursos. Eles são acusados de tráfico de drogas, mas investigação da PF brasileira sobre o caso concluiu pela inocência dos três. Além deles, foi detido na operação o capitão do barco, o francês Olivier Thomas.”

Brasil perde prazo, eita burocracia!

“O prazo para levar a documentação às autoridades da ilha terminou na quinta-feira. Como ela não foi entregue, o pedido de libertação foi indeferido pela Justiça cabo-verdense. A burocracia venceu e os brasileiros terão de aguardar na prisão o novo julgamento, que pode ocorrer em agosto, outubro ou mais tarde”, desabafou à coluna nesta sexta, por telefone, de Cabo Verde, Barbara Dantas, irmã de Daniel. Este e Rodrigo estão detidos desde dezembro do ano passado, os outros dois desde agosto.”

O Mar Sem Fim e este caso

O Mar Sem Fim tem convicção da inocência dos velejadores, e sente demais pelos desencontros das autoridades brasileiras. Lamentável o país dominado pelos carimbos, segundas – vias, atestados, e que tais. Tudo isso não passa de ‘jeitinho’ para justificar empregos públicos, e mais “custo Brasil”. Palhaçada do País do herói sem caráter.

A seguir, a matéria original

Agosto de 2016. Um anúncio de empresa holandesa chama a atenção de velejadores brasileiros dispostos a um ‘delivery’. Eles atravessariam o Atlântico, do Brasil para Cabo Verde, a bordo do veleiro Rich Harvest, do inglês  George Saul. A prática do ‘delivery’ é comum. Muitas vezes o proprietário, por um motivo ou outro, não pode fazer uma ‘perna’ de seu périplo pelo mundo. Então usa o expediente. Os velejadores sabem disso, e torcem para um dia cruzarem os oceanos, adquirindo experiência, e sendo pagos por isso. Quer coisa melhor? Foi o que aconteceu com três brasileiros, o gaúcho Daniel Guerra, 36 anos, os baianos Rodrigo Dantas e Daniel Dantas (apesar do sobrenome não são parentes), de 25 e 43 anos. Juntos, iriam o dono do barco, e um skipper (comandante) contratado, o francês Olivier Thomas. Na última hora, o dono do barco pulou fora. ‘Teve que voltar para a Inglaterra’, mas os quatro dariam conta do recado. Deram. Mas, os velejadores brasileiros acabaram presos em Cabo Verde, acusados de tráfico de drogas. Havia pouco mais de uma tonelada de cocaína escondida nos porões do barco.

imagem de velejadores brasileiros em Cabo Verde acusados de tráfico de drogas
Da esq. para a dir.: o capitão francês Olivier Thomas, Rodrigo Dantas, Daniel Danas e Daniel Guerra, acusados de tráfico de drogas | Arquivo pessoal

Entre a contratação dos brasileiros e a saída do porto

Entre a contratação da equipe africana, e a saída, houve vários percalços. Hoje é fácil reconstituí-los. O Rich Harvest, apresentou problemas,  seguindo para Salvador, estaleiro OCEANA, para ser reparado. Ali, soube-se depois, o proprietário pediu que o tanque de água fosse levantado do casco, onde uma caixa oca, de cimento, mesmo material do casco, foi construída e laminada em volta. Foram meses de reformas. Em seguida navegou para o Espírito Santo, com o proprietário e outra tripulação a bordo. Ao chegarem, a equipe foi dispensada, ficando apenas o dono. Não se sabe o que houve. Mas sabe-se que foi de lá que o proprietário ficou só por um tempo. Depois, ligou aos baianos, recrutados na OCEANA pedindo que viessem buscar o veleiro e levá-lo  à Bahia. De lá seguiram para Natal, último porto brasileiro onde esteve.

Em Natal, Polícia Federal alertada

O inglês veio a liberar o barco e apresentar os documentos, além de participar da preparação final. Ele estava escalado para fazer a viagem. A PF, alertada pela agência britânica NCA (National crime Agency), entra a bordo, e faz vistoria. Nada. A droga estava tão bem escondida que nem depois de seis horas de busca com cães farejadores, a PF achou os pacotes. No dia anterior à partida, o inglês comunica   que, por motivos familiares, ‘não poderia fazer o trajeto’. Brasileiros, e skipper francês, seguem viagem. Próxima parada, ilha da Madeira.

Mindelo, Cabo Verde

Com muita dificuldade, chegam em Cabo Verde onde a polícia, mais uma vez alertada, entra a bordo e descobre o fundo falso. Dentro, 1.157 quilos da mais pura cocaína. Valor de mercado? R$ 800 milhões de reais. Coisa de cachorro grande. Acusados de tráfico internacional, comandante e tripulação são presos. Começa a travessia para o inferno.

Polícia holandesa

Mais tarde, com os alertas da imprensa, a BBC questiona  Cuno Landman, holandês dono da The Yacht Company, responsável pelo anúncio que fisgou os brasileiros. O proprietário  averiguava antecedentes criminais e outras informações de pessoas que contratam serviços na empresa? Recebeu como resposta, que “não conhecia” a história. Frente à insistência, informa que a polícia holandesa aconselhou-o a não se pronunciar.

Ousadia do tráfico internacional

Como se trata de negócio milionário, o tráfico de drogas se esmera à procura de falhas na fiscalização entre as nações, e encontra no Brasil o ‘paraíso’. Aqui, o mar e zona costeira estão ao deus- dará. Faz tempo que o país é corredor para escoar a produção para a África e, de lá, para a Europa ou os Estados Unidos. Até submarinos já foram usados pelos  cartéis. Mas, se estes chamam a atenção, veleiros que correm o mundo, não. “Cerca de 10% dos navios que transportavam drogas identificados por forças de segurança do mundo (em 2008) tinham como origem o Brasil. Outros 11% tinham como origem países da África ocidental, que serve de entreposto para a droga que sai do Brasil com destino à Europa. A Venezuela reponde por mais da metade das embarcações (51%).”

ilustração de mapa da rota do tráfico de drogas entre América do sul, África e Europa
Tráfico de drogas

PF na investigação do tráfico de drogas

A Polícia Federal entra na investigação e garante “que a droga foi embarcada no Espírito Santo. Os federais corroboram.” A droga foi dissimulada no interior da embarcação por George Saul  responsável pela laminação no interior do porão, não havendo nenhuma obrigação de compartilhar com a tripulação a informação sobre a cocaína.” No dia 23 de agosto de 2018 a polícia de Mindelo prende a tripulação. Julgamento rápido. Decisão: “No dia 29 de março de 2018 o Tribunal da Comarca de São Vicente condenou os quatro a pena de dez anos de prisão por tráfico de droga em coautoria”, apesar de “seguramente a nossa investigação não ter apurado quem carregou a droga.”

imagem do veleiro Rich Harvest acusado de tráfico de drogas
O Rich Harvest apreendido em Mindelo

“Também não sabemos o local, nem como, porque a investigação se cingiu a São Vicente.” E desde então, os brasileiros mofam esquecidos naquele país insular cercado pelo Atlântico Norte.

Inocentes presos não é fato novo

” A população carcerária do Brasil chega a 500 mil presos e 30% deste número é composto de pessoas recolhidas indevidamente. Ou seja, há no sistema prisional cerca de 150 mil indivíduos que não deveriam estar encarcerados e estão.” Retrato do fenômeno no Brasil,  autoria da advogada Juciene Souza Ribeiro. O mesmo acontece no mundo, especialmente países subdesenvolvidos, ou em desenvolvimento, caso de Cabo Verde.

Famílias e a comunidade da vela

Desde então as famílias dos infelizes, auxiliadas pela comunidade nacional da vela,  fizeram de tudo para alertar as autoridades brasileiras e cabo verdianas. Nem um laudo da PF, inocentando os brasileiros, amenizou a angústia. Os velejadores seguem enjaulados. Conheço dezenas de velejadores que atestam o logro por que passou a tripulação. A comunidade se aflige, acredita na inocência. A reconstituição dos fatos, na terra de Macunaíma, prova sua inocência. Não é a primeira vez que cartéis transportam cocaína pura a bordo de veleiros que saem do Brasil.

Estadão, Folha e O Globo

Curiosamente, em mais uma prova de que os mares e nosso litoral não passam dum enorme balneário para a grande imprensa, ela não escreveu uma linha sequer. Estado, Folha, Globo, e as revistas semanais, demonstram com isso sua cegueira  congênita, cobrem apenas o assassinato de Marielle, ignorando o que se passa com outros 61.618 brasileiros assassinados todos os anos, e outros tantos presos injustamente. O que faz de Marielle a única a merecer repúdio, enquanto os outros mais de 60 mil merecem desprezo? Será que era por ela ser gay?

O grande público não fica sabendo

O grande público não fica sabendo. Há pouca pressão da sociedade. E as autoridades competentes seguem seus ritos, nem sempre céleres. O Ministro da Defesa, Raul Jungmann, ‘agora está agindo com vigor’, e Aloysio Nunes, do Itamaraty,  tomou para si o caso e vai conversar com seus contrapartes na próxima cúpula da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Poderia ser mais fácil, e rápido, se a grande imprensa fizesse o que se espera, e abrisse espaço para os filhos da ‘mãe gentil’. Angustiados, e sem luz no final do túnel, eles vivem pesadelo em vida real. Até quando amargarão o inferno sozinhos?

Fontes: https://www.google.com.br/search?q=Brasil,+corredor+da+droga&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwjE09L37uTbAhVIIpAKHX-rAzwQ_AUIDCgD&biw=1467&bih=677#imgrc=3kyxYgFDvenShM; http://almanautica.com.br/2018/04/13/brasileiros-condenados-sem-provas/; http://noticiasdonorte.publ.cv/75288/75288/; https://www.bbc.com/portuguese/internacional-42513726; https://www.yachtmollymawk.com/2018/04/a-cautionary-tale-and-a-rallying-call-to-the-cruising-community/; http://noticiasdonorte.publ.cv/75222/juiza-brasileira-decreta-prisao-preventiva-para-os-donos-do-veleiro-apreendido-no-mindelo-com-uma-tonelada-de-cocaina/; http://almanautica.com.br/2018/04/13/brasileiros-condenados-sem-provas/; https://jucienesouza.jusbrasil.com.br/artigos/129697572/mentalidade-encarceradora-e-presos-inocentes.

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31 COMENTÁRIOS

  1. A PF nao tem que se meter nas investigacoes feitas num pais soberano. Se eles fiscalizaram o barco duas vezes no Brasil e nao encontraram nada e o mesmo barco é apanhado pouco depois noutro país com mais de mil kilos de cocaína, entao das duas uma: ou foi passado um atestado de incompetencia à policia federal que nao conseguiu detetar a droga, ou entao a droga foi colocada em alto mar com a complacencia do velejadores. Eu sei que um helicoptero com 500 kilos de cocaina é capaz de passar impune no Brasil, mas nao é obrigatoriamente igual noutros lugares

  2. FOSSE EU UM JUIZ, SENTENCIARIA:
    Inadmissível desrespeito que alguém cite o título de um livro do navegador Amir Klink em uma reportagem sobre possíveis traficantes de maconha. Um desacato a quem estabeleceu marcos na arte de navegação solitária que se inscrevem nos registros de feitos heróicos dos homens.
    Por exigíveis ficam devendo pedido de desculpas retratado em primeira página. São poucos os exemplos positivos nesses pagos, cabe resguardar os poucos que temos.

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