Fazendas de salmão poluem fiordes da Noruega

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Fazendas de salmão poluem fiordes da Noruega

As fazendas de salmão da Noruega, vendidas ao mundo como exemplo de aquicultura moderna, despejam nos fiordes resíduos comparáveis ao esgoto bruto de milhões de pessoas. A informação vem de reportagem do jornal britânico The Guardian, com base em relatório do Sunstone Institute. O caso mostra que o salmão de cativeiro pode parecer limpo no prato, mas deixa uma conta pesada no mar.

Fazenda de salmão na Noruega .
Fazenda de salmão na Noruega. Imagem, Aleksander Nordahl.

A outra face ambiental da Noruega

A Noruega gosta de se apresentar ao mundo como exemplo ambiental. No entanto, a imagem não resiste a um exame mais atento. O país quer minerar sua plataforma continental, atividade que ameaça destruir habitats profundos, levantar nuvens de sedimentos, afetar espécies pouco conhecidas e levar a lógica predatória da mineração para o fundo do mar.

A lista não para aí. A Noruega ainda mata baleias para produzir ração de cachorros. Também cortou R$ 196 milhões do Fundo Amazônia, enquanto a norueguesa Hydro acumulava denúncias e multas por contaminação em Barcarena, no Pará.

Agora, as fazendas de salmão da Noruega entram na mesma lista. Segundo o Guardian, a atividade despeja nos fiordes fezes, urina e restos de ração em volume incompatível com a imagem limpa que o país vende ao mundo. Ou seja, por trás da vitrine ecológica, também há exploração, contradição e poluição.

O esgoto invisível das fazendas de salmão

Segundo o Guardian, a criação de salmão em gaiolas abertas lança diretamente no mar fezes, urina e restos de ração. Em 2025, a aquicultura norueguesa despejou 75 mil toneladas de nitrogênio, 13 mil toneladas de fósforo e 360 mil toneladas de carbono orgânico nas águas costeiras.

Ainda segundo o Guardian, essa carga equivale ao esgoto sem tratamento de 17,2 milhões de pessoas em nitrogênio, 20 milhões em fósforo e 30 milhões em carbono orgânico. A comparação impressiona porque a Noruega tem apenas 5,5 milhões de habitantes.

O problema é simples de entender. O salmão come ração industrial dentro de gaiolas no mar. O que ele não aproveita cai na água. O que ele excreta também. Portanto, a fazenda parece limpa na superfície, mas transfere a sujeira para o fiorde.

O salmão também deixou rastro no Chile

O problema das fazendas de salmão não começou na Noruega. Este site já tratava do tema em 2015, ao mostrar que a criação de peixes em cativeiro podia repetir nos oceanos os erros da produção industrial de carne.

No Chile, a indústria cresceu na Patagônia com promessas de emprego e desenvolvimento. Depois, vieram mortes de trabalhadores, denúncias de trabalho precário, poluição, uso intenso de antibióticos e pressão sobre ecossistemas frágeis.

A Argentina preferiu outro caminho. Em 2021, proibiu a criação de salmão na Terra do Fogo para proteger seus canais, fiordes e ecossistemas frágeis. A decisão mostrou que alguns países já entenderam o risco antes que o desastre vire rotina.

Fiordes sufocados por nutrientes e falta de oxigênio

Os resíduos produzidos pela criação de peixes, ricos em nutrientes, podem fertilizar o fitoplâncton e provocar proliferações destrutivas de algas que reduzem os níveis de oxigênio. Os fiordes são particularmente vulneráveis a esses efeitos, porque são massas de água semicerradas, o que contribui para um maior acúmulo de nutrientes.

Segundo o Guardian, o alerta sobre o Sognefjord tem base em um relatório publicado em 2025 pelo NIVA, o Instituto Norueguês de Pesquisa da Água. Os autores são André Staalstrøm, Evgeniy Yakushev, Anfisa Berezina, Shamil Iakubov e Lars Gunder Golmen. O estudo apontou que, no Sognefjord, cerca de dois terços da queda de oxigênio vêm do aumento de nutrientes e partículas. O terço restante vem do aquecimento da água.

A própria mídia norueguesa repercutiu o alerta. O Verdens Gang, um dos principais jornais da Noruega, comparou os despejos das fazendas a 17 milhões de pessoas fazendo suas necessidades diretamente no mar. Já o Aftenposten destacou uma contradição: a Europa exige tratamento de esgoto urbano, mas não impõe regra semelhante às fazendas de salmão em gaiolas abertas. Segundo o NIVA, o Sognefjord já perdeu cerca de 15% do oxigênio desde 1970.

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