Viagem da Kika, travessia do Pacífico, etapa Nº 11

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Viagem da Kika, travessia do Pacífico, diário de bordo Nº 11

Viagem da Kika, travessia do Pacífico, diário de bordo Nº 11. Partimos de Hobart no início de maio, num belo dia outonal. O Mt. Wellington amanheceu coberto de neve culminando a vista da capital da Tasmânia. Nesta etapa vamos da Tasmânia para a Polinésia Francesa. Zarpamos voando baixo com 40 nós de vento, deixando para trás o porto do Antarctic, que navega oceanos afora mas aqui está em casa.

imagem de Finders Iland, tasmânia
Finders Iland, Tasmânia.

Atravessamos o canal de Dunalley, um atalho para evitar a volta pelo Cape Pillar e Tasman Island, o extremo sul do continente. Subimos a costa leste navegando entre ilhas e chegando em Clarck Island as rajadas chegavam a 50 nós. Decidimos esperar melhores condições para a travessia até a Nova Zelândia. Nestas latitudes dos 40˚ os centros de baixa pressão são constantes.

Viagem da Kika, travessia do Pacífico: ‘Éramos 5 pessoas a bordo, além de Georges e eu’

Éramos 5 pessoas a bordo, além de Georges e eu um jovem casal e uma amiga, todos entusiastas velejadores. Tivemos uma boa janela de oito dias para fazer a travessia até Cape Reinga, assim que contornamos o cabo Norte uma frente nos atingiu. Mas já estávamos abrigados a sotavento da ilha norte da Nova Zelândia. Fizemos a entrada em Opua, um pequeno porto com marina e serviços na Bay of Islands. A quantidade de veleiros impressiona.

Imagem de Gambier, Nova Zelândia
Ghegando em Gambier.

Ficamos poucos dias na terra dos kiwis pois temos um calendário a seguir. Queremos chegar em Puerto Montt no Chile no início de agosto, em meados de outubro desceremos os canais chilenos e no verão iremos para a Península Antártica. A tripulação que navegou conosco da Tasmânia desembarcou em Opua. Lá embarcaram três rapazes, dois franceses e um israelense.

E por falar em kiwis, o nome se deve a um pássaro e não à fruta como pensava eu. Outra observação bastante superficial para quem ficou apenas um par de dias é a presença de maoris (ou seus descendentes) cheios de auto estima por todos os lados. Na Tasmânia os aborígenes foram eliminados.

Viagem da Kika, travessia do Pacífico: ‘Nosso próximo destino foi Rapa na Polinésia Francesa”

Nosso próximo destino foi Rapa na Polinésia Francesa, uma travessia de 2.100 milhas. Dois dias após a saída de Opua decidimos retornar devido ao forte vento contra, ficamos ancorados na Great Barrier Island em frente a Auckland aguardando o vento virar. A ilha é cheia de fiordes, relevo montanhoso e florestas úmidas. Seguimos rumo norte e passamos próximos ao arquipélago de Kermadec, sobre a divisa de placas no fundo do mar, onde a profundidade despenca até uns 10.000 metros!

Imagem de Opua, Nova Zelândia.
Opua, Nova Zelândia.

Esta trinca segue até o Japão passando pela Fossa da Marianas, o ponto mais profundo do oceano, milhões de anos atrás era o limite entre a Bacia do Pacífico e o antigo continente melanésio que ficou submerso. Mais adiante abrigamos em Raoul Island, uma reserva marinha neozelandesa. Próximos à longitude 180˚ ultrapassamos a linha do dia, onde adiantamos o relógio uma hora e ganhamos um dia. Ou seja, vivemos duas vezes o mesmo dia.

“Chegamos em Rapa à noite”

Chegamos em Rapa à noite, a mais ao sul e isolada das ilhas Australes na Polinésia Francesa. No canal de entrada apenas uma baliza verde tinha iluminação, raspamos na barreira de corais mesmo com a bulina parcialmente levantada e constatamos que a carta náutica não estava atualizada. Jogamos duas ancoras e aguardamos o dia clarear para prosseguir.

Imagem de Rapa
Rapa.

Ao amanhecer uma comitiva de locais veio de barco nos dar as boas vindas e nos acompanhar. Dentro da baía as duas únicas vilas estão uma de frente `a outra, a população total é pouco maior que 500 nativos. A paisagem é espetacular, com picos vulcânicos emoldurando o cenário, por aqui não passam mais de vinte veleiros por ano pois é bastante fora de mão.

imagem do Preparo do taro, Rapa.
Preparo do taro, Rapa.

O isolamento no entanto é a melhor proteção desta comunidade que ainda consegue manter suas tradições, existe um conselho de anciãos que decide as regras. A ilha não tem aeroporto porque os locais não querem e o único meio de transporte para o resto do mundo é através de uma “goelette” a cada 6 semanas para o Tahiti. Chegamos para uma festa que durou três dias. Uma das vilas recebia a outra numa confraternização supostamente protestante, no entanto os rituais, músicas, instrumentos, cantos, danças, decoração e esmerados arranjos de cabeça eram polinésios. Fomos recebidos como convidados de honra, as pessoas são de uma gentileza e generosidade que inspiram esperança na natureza humana.

“Rumo a Gambier”

Seguimos navegando rumo a Gambier, um arquipélago que também pertence à Polinésia Francesa. Nestas latitudes de águas tropicais a temperatura é amena e o sistema de ventos predominante são os alísios. O conjunto de ilhas é rodeado por uma grande barreira de corais e existem três entradas bem sinalizadas. Gambier é a capital das perolas negras, seu cultivo traz riqueza para a população.

imagem de Rikitea.
Opua, Nova Zelândia.

A vida na pequena capital Rikitea é tranquila, com uma dezena de veleiros ancorados e poucos turistas que chegam com os dois voos semanais de Tahiti. Passamos dois dias na belíssima ilha Aukena onde mora nosso amigo Bernard e sua esposa Marie Noel (aqui os nativos tem nomes franceses e polinésios). Ele levou os rapazes para caçar cabras e nos ofereceu a carne, assim como frutas e verduras cultivadas em sua propriedade.

imagem de Aukena
Chez Bernard, em Aukena.

Nosso próximo destino será a Ilha de Páscoa numa travessia de 1.400 milhas, o ponto mais a leste da Polinésia, admirável a distância que os ancestrais Rapa Nui conseguiram atingir com suas canoas.

Por hoje é só. Ficamos por aqui. Até a próxima.

Leia o diário de bordo da etapa anterior quando o veleiro esteve na Antártica

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