Trindade e Martim Vaz, exceções oceânicas sem proteção

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Trindade e Martim Vaz, são as duas únicas ilhas oceânicas brasileiras sem proteção

Como se sabe, o mundo corre atrás do prejuízo que nossa geração está causando ao meio ambiente, especialmente o marinho. Enormes áreas protegidas estão sendo criadas no Pacífico, Atlântico Norte, Índico, e nos oceanos austrais. O Atlântico Sul é o menos protegido. Mesmo assim alguns passos foram dados pela Inglaterra. O país anunciou a criação de reservas com um milhão de kms2 ao largo de suas ilhas oceânicas, algumas  como a ilha de  Ascensão, Santa Helena e Tristão da Cunha, no Atlântico Sul. Mas não foi só. Angola, na África, voltada ao Atlântico Sul, está discutindo a criação de áreas marinhas neste momento, pasmem vocês! No Brasil, as duas únicas ilhas oceânicas ainda não protegidas são Trindade e Martim Vaz!

O que está faltando, é ação por parte ‘do gigante pela própria natureza’: o Brasil. Esta é a hora, e Temer, apesar dos pesares, tem tido coragem para impor reformas impopulares. Ele é o cara! O país tem tudo para liderar esta corrida contra o tempo. Um dos mais importantes arquipélagos deste desprotegido Atlântico Sul é formado pelas ilhas Trindade e Martim Vaz, uma das joias do litoral do Brasil. Bora lá, protegê-la, presidente?

imagem da ilha de Trindade, parte do arquipélago de Trindade e Martim Vaz
A beleza dramática da ilha de Trindade (Foto: Simone Marinho).

Conhecendo Trindade e Martim Vaz

Este escriba teve o privilégio de conhecer Trindade, onde estive por três vezes. Tudo começou com a regata de longo curso Eldorado- Brasilis, criada pela rádio Eldorado no ano 2000. A regata teve oito edições. O percurso,  Vitória, ES – Trindade (onde ficávamos por um par de dias) – Vitória. Até hoje é o lugar mais espetacular que  conheci. Sua beleza é dramática.

imagem de paredão da ilha de Trindade
Fantástico paredão da ilha de Trindade (Foto: Marcelo Coelho).

Aspectos de Trindade

De formação vulcânica, distante 630 milhas da costa de Vitória, a ilha emerge no meio de um mar de cor azul arroxeado, típico das profundidades abissais, como um enorme paredão. A um terço da distância entre o Brasil e a África, Trindade fica longe o suficiente da poluição atmosférica para que o ar seja totalmente limpo, o que proporciona uma visão ainda mais privilegiada de suas formas e cores. Sua altura máxima é de 600 metros, e a geografia é única. Trindade tem morros e picos que mais parecem calombos com ‘inchaços’ lembrando feridas, resultado do derrame de lava, ora com texturas lisas, ora com rasgos profundos produzidos pela erosão eólica. O colorido é de tons fortes, destacando-se todos os  matrizes do amarelo, do verde, e do cinza; e alguns do terracota . Em contraste com o azulão roxo do mar, e o azul celeste do céu, o conjunto forma a beleza dramática de que falei. Sobre a descoberta, e aspectos geopolíticos, o Mar Sem Fim já escreveu em outra matéria.

O arquipélago

Ela é formado por Trindade, Martim Vaz, que fica a cerca de 40 km de distância. Ao lado de Martim Vaz existem as ilhotas do Norte e do Sul e mais alguns rochedos. Ao todo, o arquipélago tem 10,4 km2.

Para saber mais sobre este tesouro o Mar Sem Fim entrevistou o professor doutor Alberto Lindner, um jovem cientista  (vide ao pé desta matéria), professor da Universidade Federal de Santa Catarina.

MSF: Professor, por que os mares não chamam a atenção do público? As pessoas não se comovem com o que acontece nos oceanos. Como vê esta questão?

Alberto Lindner: “Concordo com você, nós (da academia) temos dificuldades em passar pra população em geral as condições. Em parte, também, porque as pessoas olham para o mar e sabem muito pouco o que tem lá por dentro… Ainda assim sou otimista. Recentemente, grandes áreas marinhas têm sido criadas, particularmente no Pacífico, nos últimos dez anos. Mas não podemos negar que a situação é muito ruim. Existe uma recomendação do Congresso Mundial de Parques de ter 30% dos oceanos protegidos...”

Metas de Aichi e a proteção dos oceanos, até agora só 3,5% protegidos

AL “…Também temos outra meta (Metas de Aichi) de ter até 10% dos oceanos protegidos até 2020. Mas, nas últimas leituras que fiz, a gente ainda está com apenas 3,5% de áreas protegidas em termos globais, sendo apenas 2% de proteção integral. Isso é muito ruim…”

Atlântico Sul, o oceano que está em piores condições

AL “...Mas, ruim mesmo é saber que o Atlântico está muito pior que o Pacífico. E se pensarmos só no Atlântico, o Atlântico Sul ainda está pior que o Norte. Por exemplo, nas Bahamas você não pode pescar tubarões na Zona Econômica Exclusiva. Já no Brasil, isso ainda acontece. Pesca-se o cação, que é o mesmo que tubarão. Eu não como mais, e acho que ninguém deveria consumir este tipo de pescado. Fora isso, há uma importante proposta de implementação de um santuário marinho no entorno da ilha de Ascensão, ainda não implementado. Ainda assim considero que o Atlântico Sul tem uma lacuna  bem maior…”

O  Brasil e o Atlântico Sul na visão do professor doutor Alberto Lindner

AL “…O Brasil pode ter uma posição de mais liderança, se houver essa coragem para tornar algumas áreas de nossa Zona Econômica Exclusiva como áreas de proteção integral.”

A pesca é o pior problema na visão do professor

MSF: qual o pior problema dos oceanos hoje: a poluição industrial, o plástico, o aquecimento e consequente acidificação; como colocar tantos problemas numa ordem cronológica?.

Alberto Lindner: “A saga humana nos oceanos é complicada. Onde o ser humano chega…ele destrói…Acho que o problema começa lá atrás, com a pesca. Não só de peixes, mas cetáceos, outros mamíferos marinhos, tartarugas…Por isso acho importante selecionar algumas áreas como Trindade e Martim Vaz e torna-las áreas de proteção integral, justamente para a gente salvar os últimos locais onde ainda existe uma razoável biodiversidade e abundância  de vida marinha.”

“Até o século 19 cientistas viam o mar como fonte inesgotável de recursos…”

AL “…a gente tem hoje uma mudança de patamares de referência. Se você pergunta pra pescadores mais antigos eles têm um patamar de referência bem diferente dos pescadores atuais. Porque estas pessoas, bem velhinhas agora, ainda viram a pesca de tubarões, cações,  de grandes meros. Já a geração atual de pescadores, ela nem acredita que isso existiu em nossa costa. Por isso, em relação a essa parte cronológica, eu começaria com a pesca e a sobrepesca. Veja, até o século 19 cientistas como Thomas Huxley, amigo de Darwin, viam o mar como uma fonte inesgotável de recursos…”

Os recifes de coral…

AL “…Sobre os recifes de coral, os problemas se acentuaram na década de 80. Tivemos eventos fortes de branqueamento de coral em 1998, e agora, com o branqueamento forte nos últimos três anos ocorrendo principalmente no Pacífico. Sem falar na poluição, zonas mortas, e mais recentemente o microplástico.”

Trindade e Martim Vaz versus as outras ilhas oceânicas brasileiras

MSF: Como comparar Trindade e Martim Vaz com as outras ilhas oceânicas brasileiras?

Alberto Lindner: “Todas as ilhas oceânicas são importantes pro país, a soberania nacional, e a manutenção da biodiversidade marinha. A questão é que as outras já estão protegidas. O Atol  das Rocas, os penedos São Pedro e São Paulo, e Fernando de Noronha, de uma forma ou outra, já são unidades de conservação. Já em Trindade e Martim Vaz não existe nenhum tipo de proteção do ambiente marinho…”

Imagem da ilha de Martim Vaz, parte do arquipélago de Trindade e Martim Vaz
Martim Vaz e ilhas adjacentes (foto:Foto de João Luiz Gasparini)

Biodiversidade em Trindade: 650 espécies, e muito endemismo…

AL “…Existe um posto oceanográfico da Marinha do Brasil, desde 1957, em Trindade. O segundo ponto é a própria biodiversidade. São mais de 650 espécies de algas, invertebrados, peixes, e outros vertebrados; e muitas delas são endêmicas. Algumas, nas ilhas mesmo, outras na cadeia submarina Vitória Trindade, adjacente. Isso inclui espécies de crustáceos, moluscos, peixes e até aves. Há um tipo de fragata que é endêmica das ilhas. Esse endemismo torna as ilhas, do ponto de vista biológico, uma região extremamente interessante…”

“Proteção integral para Trindade e Martim Vaz, um consenso na academia”

Alberto Lindner: “…Em todas as listas de prioridades para áreas que mereçam ser protegidas, Trindade e Martim Vaz estão listadas. É consenso na academia que são áreas importantes para preservação.”

A pesca na região das ilhas

Alberto Lindner: “…Tem alguns trabalhos em relação à pesca na região. Um deles do Hudson Pinheiro…desde a década de 90 existem informações de pessoas que vão para lá fazer pesquisa e observam barcos de pesca no entorno das duas. E pelo menos há 20 anos, existe a questão da pesca recreacional feita pelos marinheiros que ficam na base… O trabalho do Hudson mostra que existe uma frota de embarcações menores, de 15 metros, do Espírito Santo. Eles utilizam o espinhel de fundo…uma linha de cerca de 2 kms de comprimento, que visa principalmente os tubarões como o  bico- fino, ou tubarão-dos-recifes;  o lambaru, ou tubarão lixa; além de badejos e garoupas que são peixes de fundo. Estes barcos também pescam de currico próximos as ilhas.”

Espinhel de superfície, linhas com até 60 kms e  três mil anzóis

AL: “… Em 2007, Hudson Pinheiro passou um mês na ilha. Ele fez contatos com embarcações pesqueiras, esteve a bordo delas… E além desta pesca existe uma frota em escala industrial que vem tanto do Espírito Santo, como da Bahia e Santa Catarina,  e fazem espinhel de superfície. São linhas de até 60 kms de comprimento com até três mil anzóis, principalmente para a pesca do espadarte e do tubarão azul…O que tem demonstrado é que esta pesca é ainda mais intensa na Cadeia Vitória Trindade que nas ilhas. Mas também ocorre no entorno das ilhas.”

Mapa da cadeia submarina Vitória Trindade
No mapa do Google fica nítida a cadeia de montanhas submarinas conhecida como Cadeia Vitória Trindade, um ‘hot spot’ a ser protegido

A pesca se esgota na costa? Os barcos vão pescar mais longe, mas não param nunca de pescar…

Alberto Lindner: “…À medida que os recursos vão sendo sobre-explotados na costa, a frota vai cada vez mais longe em busca destes recursos. A parte triste é que nos últimos dez anos já tem se observado novamente que os estoques, como os de tubarões e badejos tem diminuído …Os dados mostram que essa pesca  está tendo impacto negativo nas ilhas e em seu entorno.”

Trindade e Martim Vaz um ‘hot spot’ da costa brasileira

Alberto Lindner: “…Trindade e Martim vaz estão sobre  um hot spot, que é o centro da formação da Cadeia Vitória Trindade. Já os montes submarinos, mais próximos da costa, foram formados há dezenas de milhões de anos, onde hoje fica Trindade e Martim Vaz. Mas, por conta da separação das placas tectônicas, eles hoje estão mais próximos da costa.”

A corrida contra o tempo para a proteção marinha

Alberto Lindner: “…Nós estamos numa corrida para proteger os locais menos impactados pelo homem. No ambiente marinho, no Brasil, esses locais são as ilhas oceânicas. Temos uma janela de oportunidade. Vejo que tem um movimento tanto dentro da academia, quanto fora; no próprio governo, de se fazer algo neste momento. Nos últimos dez anos não vi um momento tão importante como agora, com tantas pessoas empenhadas.”

O tamanho ideal das áreas de proteção na visão do Prof. Dr. Alberto Lindner

Alberto Lindner: “…Áreas menores que 20 km de raio, 40 km de diâmetro em áreas oceânicas são importantes, mas claramente insuficientes… Bem, elas   conseguem preservar espécies de menor mobilidade.  Mas as de maior mobilidade, como tubarões recifais que são importantíssimos para o ecossistema, são animais que nadam tranquilamente dezenas  de kms….Já áreas com 100 kms de raio são bem mais interessantes. Conseguem proteger muito melhor as espécies que têm mais mobilidade, caso dos tubarões.”

MSF: Qual o tamanho ideal que o Sr. julga para a proteção de Trindade e Martim Vaz?

Alberto Lindner: “…No caso de Trindade e Martim Vaz o limite é a Zona Econômica Exclusiva…Considero essa a melhor possibilidade da gente garantir que  nossos filhos e netos saibam como foi o ambiente marinho não devastado pelo homem. Que elas sejam protegidas até o limite da Zona Econômica Exclusiva que são 200 milhas, ou 370 kms…É importante lembrar que há  estudos internacionais que mostram que tubarões  recifais  se locomovem  até 900 kms. Não temos dados tão precisos no Brasil mas, pelo princípio da precaução, advogo que a área de proteção seja a maior possível.”

Trindade e o Tamar

Trindade, ainda por cima, é local de desova de tartarugas marinhas, assunto que este site também  já abordou. Mas, para além de toda a biodiversidade marinha, a ilha tem outro tesouro: as samambaias gigantes, outra espécie endêmica, tida como “uma relíquia botânica”.

Assista um vídeo e conheça mais essa riqueza do Arquipélago ainda desprotegido.

Conheça Alberto Lindner:

Imagem de Alberto Lindner
Alberto Lindner (Foto: You tube)

O jovem Prof. Dr. Alberto Lindner
Universidade Federal de Santa Catarina – Dep. de Ecologia e Zoologia – CCB

Graduação em Ciências Biológicas pela Universidade de São Paulo (1999), mestrado em Zoologia pela Universidade de São Paulo (2000), doutorado em Zoologia pela Duke University (2005), e pós-doutorado pela Universidade de São Paulo (2009). Desde 2009 é docente da Universidade Federal de Santa Catarina, onde leciona nos cursos de graduação em Ciências Biológicas e Oceanografia. Faz parte do corpo docente permanente do Programa de Pós Graduação em Ecologia da UFSC e é coordenador do projeto Biodiversidade Marinha do Estado de Santa Catarina FAPESC, coordenador do projeto Conectividade Marinha da Rede Sisbiota-Mar FAPESC/CNPq.

Imagem de abertura:  Foto de João Luiz Gasparini, http://cnpq.br

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2 COMENTÁRIOS

  1. A Reserva da Biosfera da Mata Atlântica em conjunto com a ONG Voz da Natureza (da qual participa o citado Professor Dr Hudson Pinheiro,certamente um dos maiores pesquisadores marinhos brasileiros) apresentou ao Ministério do Meio Ambiente uma proposta detalhada para que o Brasil busque o reconhecimento da Cadeia Vitória -Trindade (incluindo as ilhas da Trindade e Martim Vaz) como a primeira Reserva da Biosfera Marinha a ser reconhecida pela UNESCO.
    A proposta foi aprovada por unanimidade na Comissão Brasileira do Programa MAB-UNESCO,a COBRAMAB em setembro de 2017.O Governo do Espirito Santo,à pedido de empresários locais solicitou ao Ministro que a proposta não fosse enviada de imediato à Unesco.Esperamos que o diálogo avance rapidamente e o Ministro Sarney possa articular,juntamente com o Itamaraty o envio da proposta ainda durante sua gestão no MMA.
    Como diz a matéria é absoluto consenso entre a comunidade científica e ambientalista brasileira que se trata de área de extrema prioridade para conservação.
    Parabéns ao Mar Sem Fim por pautar esta fundamental luta pela nossos ecossistemas marinhos,tão desconhecidos e ameaçados nas aguas brasileiras.
    Clayton Lino
    Presidente do Conselho Nacional da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica

    • Obrigado, Clayton, mas pra mim o mais importante é que tanto Trindade e Martim Vaz, quanto S. Pedro e S. Paulo, se tornem UCs de proteção integral. Qualquer outra coisa que não seja isso será um lamentável equívoco. Um passarinho me contou, espero que esteja errado, que “estão preparando que ambos os arquipélagos se tornem megas APAs”. Se for verdade será uma empulhação inaceitável.
      Estou muito preocupado. Minha fonte é bem informada. Torço pra que esteja errada.
      abs

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