Ilha das Couves, superlotação devasta vida marinha

8
750
views

Ilha das Couves, pequena e sensível, sofre com superlotação turística neste verão

Como todas as outras, a ilha das Couves, em Picinguaba, Ubatuba, é um local extremamente sensível à presença humana. Desabitada, sem água, tem apenas 58 hectares cobertos por mata atlântica. É circundada por costões rochosos, tem duas pequenas e lindas praias; a  água do mar é quase sempre morna e, normalmente, transparente. O exemplo típico do que se convencionou chamar de… ‘paraíso’. Mas ela tem um sério problema: está muito próxima da costa, a menos de 15 minutos de lancha. Essa localização pode ser fatal.

Atualizado, fev. 2018

imagem de mapa com localização da ilha das Couves, Ubatuba
O ponto em vermelho é a pequena ilha das Couves.

O Mar Sem Fim entrevistou o secretário municipal de Meio Ambiente de Ubatuba

Atencioso, e muito preocupado. Essa a sensação que nos passou o secretário Wilber Schimidt Cardozo, com quem falamos em 8 de fevereiro. Wilber pegou um rojão aceso com as mãos: assumiu o cargo há menos de quatro semanas. E está sinceramente preocupado com o descalabro em Couves. O que ele nos contou?

Grupo de trabalho em Ubatuba

O secretário reafirmou que há um grupo trabalhando com gente da prefeitura, do Instituto Florestal de São Paulo, do Ibama, e do MPF. Mas, infelizmente, suas decisões, sejam quais forem, acontecerão somente depois do verão. Couves aguentará? Segundo o secretário Wilber, “eles (a prefeitura) não têm poder de polícia para impedir que este ou aquele  entre na ilha.” Mas, ponderou, depois da decisão do grupo, então a prefeitura poderá tomar medidas.” Diz Wilber que “a coisa está feia já faz uns três anos, mas explodiu como bomba neste ano.”

Ilha das Couves, um Parque Municipal?

Perigo à vista. Torço pela integridade da belíssima ilha das Couves. Por enquanto, é o que podemos fazer. O Mar Sem Fim vai cobrar decisões dentro de dois meses, quando o grupo de trabalho apontar quais serão as diretrizes. Antes de encerrar, Wilber disse que “gostaria de transformar a ilha em Parque Municipal, de modo que possam controlar rigorosamente a entrada de turistas.” E mais, segundo ele “o Prefeito Sato vem nos cobrando medidas sobre a ilha diariamente.” A boa notícia que é, segundo o secretário, a Marinha do Brasil estará em Couves durante todo o carnaval. Só a presença da força naval já é um bom começo. E, salienta Wilber, “o principal problema não é só a quantidade de pessoas que causam impacto na ilha mas, também, o comportamento delas.”

Turismo desordenado ameaça Ilha das Couves

A partir da pequena vila de pescadores de Picinguaba, é possível chegar em Couves em poucos minutos. Com a escassez de peixes, o turismo passou a ser o foco do pessoal da vila. É aí onde mora o perigo.

imagem da vila de Picinguaba, Ubatuba
A outrora vila de pescadores de Picinguaba

Experimentamos ‘googar’ “Ilha das Couves”. Surgiram quatro páginas com as chamadas típicas:

‘Ubatuba Tour faz roteiro para Ilha das Couves passando por cachoeira’; ‘Ilha das Couves: natureza e praias paradisíacas’; ‘Ilha das Couves – Águas Cristalinas em Ubatuba’; ‘Hotéis próximos a: Ilha das Couves. Reserve já o seu‎’…e por aí afora. O resultado? Vejam a foto abaixo, tirada das redes sociais neste início de ano.

imagem da ilha das Couves superlotada
Foto de matéria do G1 tirada das redes sociais

Ou essa de baixo que o Mar Sem Fim achou no FB…

imagem da ilha das Couves superlotada de turistas
Não há litoral que resista a tanta gente. Onde vai parar o lixo produzido? Como fica a mata pisoteada? É preciso por ordem na baderna.

Exemplos de destruição causada pelo turismo desordenado estão por toda parte. Pipa, no Nordeste; Atalaia, em Salinópolis, na região Norte; Camboriú, no Sul; ou mesmo o mais que conhecido Guarujá, no Sudeste, são apenas alguns do exemplos. As autoridades de Ubatuba têm que tomar medidas imediatas.

Ministério Público Federal procura uma saída para o turismo na Ilha das Couves

De acordo com G1 a prefeitura de Ubatuba reconheceu o problema e faz estudo para o turismo na área. A prefeitura informou que na primeira semana de 2018 cerca de dois mil turistas passaram pela ilha! Considerando que cada pessoa produz em média 1,5 kg de lixo por dia, que elas fazem suas necessidades fisiológicas na água, que a grande maioria usa cremes e loções, seja para evitar o sol, seja para se bronzear, pode-se imaginar o tamanho do perigo que Couves, sem nenhuma infraestrutura, enfrenta.

O poder público, como sempre, atrasado

Era de se prever que isso iria acontecer. 2018 não foi o primeiro ano em que Couves foi assolada pela horda de turistas. No ano passado já havia sinais claros que já estava acontecendo. Mas, no país de Macunaíma, o poder público é incapaz de planejar. Tudo o que faz é correr atrás do prejuízo.

Folha de S. Paulo publica matéria sobre Ilha das Couves

Título: “Paraíso” do litoral norte vira pesadelo de turistas com sujeira e superlotação. ( 4/02/18)  ” Corpo do texto…”o que era um lugar bucólico no litoral norte se tornou um pesadelo para os turistas”…”A ilha vem recebendo até 5 mil pessoas por final de semana…” “…os turistas fazem do mar e das trilhas o seu banheiro…”A reportagem constatou lixo jogado na ilha, “fraldas descartáveis, caixas térmicas e muito lixo.” Em Picinguaba, diz o jornal, trilhas foram abertas para servirem de estacionamento de carros dos turistas.

imagem de superlotação de turistas na ilhas das Couves
Nenhum ilha aguenta tanta pressão. Vou destruir a ilha das Couves (foto: Folha de S. Paulo)

Peixes, moluscos e outras formas de vida desapareceram do mar da Ilha das Couves

De acordo com matéria da Folha, a guia Moara Sanches, da Associação Coaquira de Guia de Turismo, Monitor e Condutor de Ubatuba declarou:

…antes era possível ves espécies marinhas como raia pintada, cavalo- marinho, estrelas do mar, corais, garoupas e moreias. Com a multidão no mar agora sumiu tudo…

Pessoas de bom senso se manifestam

Dois dias depois de escrever esta matéria recebo um correio de um amigo, pessoa séria, engajada na causa do meio ambiente. Trata-se do chefe do Parque Nacional Marinho do cabo Orange, na divisa do Brasil com a Guiana Francesa, o oceanógrafo Ricardo Motta Pires. Eu o conheci quando fiz a última série de documentários para a TV Cultura, justamente no derradeiro episódio. Ele leu esta matéria e não se conteve. Vejam o recado e copiem o exemplo.

Oi João

Não sei se lembra de mim, mas sou o chefe do Parque Nacional do Cabo Orange, tudo bem? Vi a sua matéria sobre a Ilha de Couves e lembrei que quando passei por lá, trazendo o meu barco para Oiapoque, a realidade era bem diferente. Foi no ano de 2003. Envio duas fotos, da época. Note que já há uma tenda armada na praia. Era o início do caos……Grande abraço

         Ricardo Motta Pires
              oceanógrafo
Parque Nacional do Cabo Orange
Imagem da ilha das Couves, Ubatuba
A Ilha das Couves em 2003, ‘o início do caos’ , foto de Ricardo Motta Pires

Assista a um trailer da ilha das Couves, e veja o que está em jogo. Lembre-se, ela é um patrimônio de todos os brasileiros. Os atuais, e os que ainda virão. Ninguém tem o direito de destruí-la. Ajude a conservá-la como mostra este vídeo.

Imagem de abertura: Folha de S. Paulo

Ecoturismo Marinho conheça o imenso potencial

COMPARTILHAR

8 COMENTÁRIOS

  1. Ao mesmo tempo que estão acabando com a nossa Ilha das Couves o mesmo acontece com a Praia da Santa Rita no Pereque Mirim em Ubatuba. O esgoto do morro do Pereque Mirim desse ate a Praia que por sinal esta com bandeira verde. Todo tipo de ambulantes invadirom a Praia da Santa Rita, que por sua vez fica num condomínio de alto padrão .
    Mega Midia esta divulgando todas estas lindas praiais na internet para livre asseso

    • Oi, Maria Rosa, se é isso mesmo, faça sua parte. Denuncie ao MPF, tire fotos, grave com o celular. Mostre este descalabro pra todos. É a única opção que temos: denunciar, ‘botar a boca no trombone.’ Temos que ser chatos. Exercer cidadania dá trabalho. Mas resultados também. E conte com esse site. Se fizer fotos e gravações passe no meu mail pessoal ([email protected]). Publico matéria, encho o saco das ‘otóridades’, chateio até tomarem uma decisão. Mas alguém tem que atirar primeira pedra, isso, é, vc tem que me dar mais elementos além do depoimento. To esperando. Abraços

  2. Caro João, em 1985 fomos implantar o Núcleo Picinguaba do Parque Estadual da Serra do Mar, em Ubatuba.
    Por volta de 1988, o juiz da comarca era o jovem e combativo Filipe Augusto Vieira de Andrade. Chegou a ele a denúncia de que estariam a executar obras na Ilha das Couves. Em companhia do Dr. Filipe estivemos na Ilha das Couves e constatamos que o possuidor, um italiano de nome Luis Pini Neto, estava de fato a efetuar desmatamento e movimentação de terra, pois pretendia construir um caminho ou estrada que contornaria a ilha.
    Elaboramos o laudo com base no qual o Ministério Público conseguiu a liminar e as obras foram paralisadas. Após 1989 não mais voltamos ao local, pelo que tínhamos por certo que a Ilha das Couves continuava preservada.
    Mas parece que está sendo degradada, agora não mais com máquinas, mas pelo uso descontrolado, como sói ocorrer em todo o litoral do país.
    Na mesma época, também com sucedâneo técnico em laudos nossos, o Dr. Filipe Augusto Vieira de Andrade obteve o embargo judicial da Pedreira Itamambuca, que devastada o Morro do Respingador, e de um grande loteamento na praia do Ubatumirim.
    Infelizmente, após a desativação da pedreira da Tonesa, que extraia o granito verde, a encosta do Morro do Respingador foi invadida e os imóveis ali construídos findaram por poluir o Rio Itamambuca.
    Espero que os ambientalistas de hoje consigam preservar a Ilha das Couves.
    Parabéns pelo trabalho conservacionista!

    • Olá, João Melo, obrigado pelas informações. Elas ajudam as pessoas a compreenderem todo o contexto da Ilha das Couves. Sobre o Luis Pini eu já ouvi falar. É aqui de São Paulo, pessoa rica, de posses, e grande grilador do litoral. Ele esteve em várias praias fazendo o mesmo que tentou em Couves. Ainda bem que vcs conseguiram expulsa-lo. Bom, mais uma vez, eu é que agradeço por suas informações. Vamos torcer, e pressionar a prefeitura da Ubatuba para que ela adote medidas antes que a horda ensandecida consiga dar fim a belíssima ilha. Grande abraço, e por favor, volte sempre com suas contribuições.

  3. Poucos dias antes da data dessa matéria estive em Ubatuba. A cada menos de 100 metros no calçadão da orla de Itaguá tem agências vendendo passeios de barco e lancha para Ilha das Couves (alem de Cedro, ilha Prumirim e Anchieta)… O que me preocupou muito, já que em quase 20 anos frequentando Ubatuba com a minha família, nunca vi Ubatuba tão superlotada como esse ano (embora de 2014 para cá eu venho sentindo muita diferença). A cidade não está comportando tanta gente… A gente percebe pelo trânsito, pela quantidade de lixo que se acumula em alguns pontos e etc… A situação da ilha das Couves acredito que algumas medidas é possível se reverter, como regulamentar e tornar mais “rígidas” as regras de visitação (como na ilha Anchieta, por exemplo)… Mas a situação de outros ecossitemas sensíveis de Ubatuba, realmente me preocupa e me entristece… Tenho uma ligação forte com esse lugar…

    PS: Eu amava a série Mar Sem Fim da TV Cultura. Não perdia um episódio. E sempre acompanho as postsgens daqui. =) Parabéns pelo trabalho, tão necessário num país que não dá a mínima para as questões ambientais.

    • Oi Thais, muito obrigado pela mensagem, e palavras amáveis sobre as séries que fiz. Bom, a coisa tá muito feia em todo o litoral. Ele não aguenta essa superlotação. Os ecossistemas são frágeis, não há infraestrutura nenhuma, seja para recolhimento de lixo, seja coleta e tratamento de esgoto. O déficit é geral. Se o prefeito de Ubatuba não tomar uma medida urgente vão detonar a ilha das Couves. Essa horda de turistas detona a ilha em um mês. É gente demais para um ecossistema extremamente frágil. É um absurdo demorar até outubro pra entregar o tal plano de ação como a matéria diz. O mesmo com relação à toda Ubatuba. Essa cidades não comportam essa quantidade absurda de gente. O problema é que normalmente os prefeitos das cidades costeiras são medíocres, em média, e a grande maioria envolvida com a especulação imobiliária. Não conheço o atual prefeito de Ubatuba, não o acuso, falo de forma genérica. Assim tem sido no litoral do Brasil de Norte a Sul. Uma judiação. Vão detonar o que sobra dele. Nossos filhos e netos terão um osso roído. É uma pena mas é a realidade. recomendo que vcs briguem, reclamem, façam protestos, mandem e mails ao prefeito, etc,etc. Abraços, boa sorte, e até breve.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here