Poluição e coronavírus: ela ajuda a disseminar o vírus?

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Poluição e coronavírus: ela ajuda a disseminar o vírus?

A rápida proliferação do novo coronavírus, o SARS-CoV-2, tem levado cientistas a investigar se e como a poluição do ar colabora para o expressivo aumento do número de infectados em tão pouco tempo aonde quer que ele chegue. Recentemente, Vincent-Henri Peuch, diretor do Serviço de Monitoramento Atmosférico Copernicus, programa europeu de observação da Terra, disse estar investigando se o vírus, em sua forma ativa, poderia sobreviver e ser transportado por partículas em suspensão.

ilustração de coronavírus e ser humano
Ilustração, Stephen Savage.

A pesquisa, segundo Peuch afirmou ao Libération, está sendo realizada por várias universidades em parceria com a Organização Mundial de Saúde (OMS). A ideia ainda é verificar em quais condições ele sobreviveria nas partículas e como poderia ser disseminado por elas. Levando-se em conta fatores como umidade do ar e temperatura, entre outras questões atmosféricas.

Poluição e coronavírus: no ar por 3 horas

Peuch explicou que a decisão de se investigar o papel da poluição como vetor da covid-19 foi baseada em um estudo preliminar publicado no The New England Journal of Medicine, em 17 de março de 2020. A pesquisa foi amplamente divulgada na imprensa internacional, como o The New York Times e a BBC. O estudo mostra, entre outros aspectos, que o novo coronavírus “se manteve viável (e infeccioso) em aerossóis (partículas finas em suspensão) durante três horas”. E, claro, nas condições do experimento.

imagem de poluição do ar

A pesquisa foi conduzida por cientistas do National Institute of Allergy and Infectious Diseases, de Hamilton; do Centers for Disease Control and Prevention, de Atlanta; e da University of California, de Los Angeles. E o desempenho do SARS-CoV-2 foi comparado ao do SARS-CoV-1 no mesmo experimento. SARS-CoV-1 é um vírus da mesma família, mas com algumas diferenças em relação ao parente mais jovem.

Foi ele que causou epidemias em 2002 e 2003 e também em 2012. Elas ficaram conhecidas como Síndrome Respiratória Aguda Severa (SARS, e daí vem a inicial) e Síndrome Respiratória Aguda do Oriente Médio (MERS), respectivamente.

As duas síndromes, entretanto, foram menos letais em suas épocas. Juntas, mataram mais de 1.600 pessoas. A covid-19 matou mais de 60.000 desde o início, no final de 2019, até o começo de abril. Segundo os pesquisadores, “a estabilidade do SARS-CoV-2 foi semelhante à do SARS-CoV-1 nas circunstâncias experimentais testadas”.

“Isso indica que as diferenças nas características epidemiológicas desses vírus provavelmente surgem de outros fatores, incluindo altas cargas virais no trato respiratório superior e o potencial de pessoas infectadas com SARS-CoV-2 eliminarem e transmitirem o vírus enquanto assintomáticas”, escreveram.

Poluição pode transportar vírus

Enquanto a OMS em parceria com o Copernicus e demais instituições iniciam suas investigações, cientistas italianos são mais enfáticos. Um relatório recentemente produzido por pesquisadores das universidades de Milão, Bari, Bolonha e Trieste afirma que a poluição excessiva no Norte da Itália, mais afetado pela covid-19, pode ter acelerado a disseminação do novo coronavírus na região. O relatório também é assinado por especialistas da Sociedade Italiana de Medicina Ambiental (Sima). A Itália foi o segundo epicentro da pandemia.

“Sabe-se que o material particulado atmosférico atua como um transportador, ou seja, um vetor de transporte, para muitos agentes contaminantes químicos e biológicos, inclusive vírus. Os vírus ‘prendem-se’ (por um processo de coagulação) ao material particulado atmosférico, constituído por partículas sólidas e/ou líquidas que podem permanecer na atmosfera durante horas, dias ou semanas, podendo espalhar-se e transportar-se mesmo em longas distâncias”, escreveu o grupo de doze cientistas.

Radiação solar desfavorece proliferação

Em meio a análises de vários tipos de vírus propagados anteriormente por partículas e baseados também em relatórios de poluição das agências italianas, eles disseram ainda: “O particulado atmosférico, além de ser um transportador, constitui um substrato que pode permitir ao vírus permanecer no ar em condições vitais durante um determinado tempo, em termos de horas ou dias”.

Mas ressaltaram que a “taxa de inativação dos vírus no material particulado atmosférico depende das condições climáticas. Enquanto um aumento das temperaturas e da radiação solar influi de forma positiva na velocidade de inativação do vírus, a umidade relativa alta pode favorecer uma taxa mais alta na propagação do vírus, isto é, de virulência”.

Poluição e coronavírus: mais partículas no ar, mais “estradas de contágio”

Em entrevista à Ansa, Agência Italiana de Notícias, Gianluigi de Gennaro disse que quanto mais partículas existem mais “estradas são criadas para o contágio”. Gennaro é pesquisador do Departamento de Biologia da Universidade de Bari. “É necessário reduzir as emissões, esperando uma meteorologia favorável.” A Ansa afirma ainda que a Itália é o país da União Europeia “com o maior número de áreas expostas à poluição do ar tanto para níveis elevados de concentração de dióxido de nitrogênio, ozônio e partículas sólidas”.

“Com relação aos estudos sobre a propagação dos vírus na população, existe uma literatura científica significativa que correlaciona a incidência de casos de infecção viral com as concentrações de material particulado atmosférico (por ex: PM 10 e PM 2,5)”, informa o relatório.

O que são materiais particulados

“PM” são materiais particulados inaláveis. O 10 e o 2,5 se referem ao diâmetro (tamanho) da partícula, ou seja, inferior a 10 ou 2,5 micrômetros (milésima parte do milímetro). Segundo o Ministério do Meio Ambiente (MMA) brasileiro, material particulado (MP) “é uma mistura complexa de sólidos com diâmetro reduzido, cujos componentes apresentam características físicas e químicas diversas. Em geral o material particulado é classificado de acordo com o diâmetro das partículas, devido à relação existente entre diâmetro e possibilidade de penetração no trato respiratório”.

O MMA prossegue informando que “as fontes principais de material particulado são a queima de combustíveis fósseis, queima de biomassa vegetal, emissões de amônia na agricultura e emissões decorrentes de obras e pavimentação de vias”. Sobre os efeitos na saúde, ele diz que estudos indicam que “incluem câncer respiratório, arteriosclerose, inflamação de pulmão, agravamento de sintomas de asma, aumento de internações hospitalares e podem levar à morte”.

Poluição mata 8,8 milhões de pessoas por ano

Não à toa milhões de mortes anualmente no mundo têm sido atribuídas à poluição. No começo de março de 2020, cientistas do Instituto Max Plank e da Universidade Johannes Gutenberg, de Mainz, ambos da Alemanha, alertaram para o aumento do número de mortes causadas pela poluição do ar. Segundo eles, são cerca de 8,8 milhões todos os anos.  “O novo número divulgado é duas vezes mais alto do que as 4,2 milhões de mortes anteriormente estimadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS)”, ressaltou o site o Eco. No Brasil, morrem aproximadamente 50 mil pessoas por ano.

“Além disso, a pesquisa agora deu muito mais atenção aos impactos causados pelo material particulado 2,5 (MP 2,5) na saúde humana, e considerou um maior número de doenças causadas pela exposição a ele, como acidente vascular cerebral, doenças cardíacas, diabetes e pressão alta. O MP 2,5 é identificado pela OMS como um dos poluentes mais perigosos para a saúde humana”, disse o site.

O Eco também explicou que este tipo de material particulado tem um diâmetro equivalente a cerca de 3% do de um fio de cabelo. “E é aí que mora o perigo. Por ser tão pequeno e leve, tende a ficar mais tempo suspensa que outras partículas mais pesadas. Devido ao seu tamanho, o MP 2,5 pode passar diretamente pelo nariz e garganta e penetrar profundamente nos pulmões e sistema circulatório.” A OMS recomenda que as emissões de MP 2,5 não ultrapassem mais de 25 µg/m³ (micrograma por metro) em 24h.

Itália vai aprofundar pesquisas sobre poluição

De volta ao relatório italiano, os cientistas disseram que “para avaliar uma correlação possível entre os níveis de poluição de material particulado atmosférico e a propagação do covid-19 na Itália, foram analisados para cada Província: os dados de concentração diária de MP 10 detectados pelas Agências Regionais de Proteção Ambiental (ARPA) da Itália inteira…, e os dados sobre o número de casos de infecção por covid-19 indicados no site da Proteção Civil (covid-19 ITALlA)”, segundo relatório.

“Destaca-se, principalmente, uma relação entre os episódios de ultrapassagem dos limites de legislação das concentrações de MP 10 registradas no período entre 10 de fevereiro e 29 de fevereiro, e o número de casos de infecções por covid-19 atualizados em 5 de março”, explicam os pesquisadores. Na Itália, esse limite é de 50 µg/m3.

Os cientistas consideraram ainda o tempo estimado entre o contágio e o surgimento dos sintomas da doença. “Além das concentrações de material particulado atmosférico, como fator transportador do vírus, em algumas áreas do território, podem ter também influído as condições climáticas desfavoráveis à taxa de inativação viral.” Esse grupo de trabalho, eles disseram, também vai aprofundar a pesquisa a fim de contribuir para a compreensão do fenômeno da expansão do SARS-CoV-2 tão rapidamente.

Isolamento social limita avanço do coronavírus

De qualquer maneira, é consenso que as medidas de isolamento social estão contribuindo para limitar o avanço do novo coronavírus. E também para reduzir a poluição do ar, mesmo que em curto espaço de tempo. E mesmo que o impacto da redução das emissões de gases do efeito estufa na atmosfera mal consiga ser medido. Como afirmou Peuch, do Copernicus, “o problema com gases como dióxido de carbono (CO2) ou metano é que as concentrações de fundo na atmosfera (as antigas) já são muito altas. As emissões ‘frescas’ representam apenas cerca de 1% do total”.

Mas, na China e nos países europeus, os primeiros que adotaram medidas de isolamento, não faltaram registros de ar mais limpo, como mostram muitas imagens. Incluindo de satélites da Nasa, a agência espacial norte-americana, em relação à Europa e China. Em Veneza, a bucólica cidade italiana, sobraram também imagens divulgadas na imprensa e redes sociais de águas mais limpas em seus canais, sem o enorme fluxo habitual de turistas.

Pandemia mostra impactos da poluição na saúde

As imagens da redução da poluição em cartões postais da Índia também impressionam. Agora, são frequentes os relatos de melhora na qualidade do ar nos Estados Unidos, o mais novo epicentro da pandemia. Na China, a queda na poluição foi tão impressionante que cientistas declararam à rede CNN que a melhora na qualidade do ar poderia salvar milhares de vidas.

“Marshall Burke, professor assistente do Departamento de Ciências do Sistema Terrestre da Stanford (universidade na Califórnia, EUA), disse que apenas a melhor qualidade do ar na China poderia salvar entre 50.000 e 75.000 pessoas de mortes prematuras. ‘Isso significa que as pandemias são boas para a saúde? Não’, disse Burke. ‘Em vez disso, significa que o modo como nossas economias operam, sem pandemias, tem enormes custos ocultos de saúde e é necessária uma pandemia para ajudar a ver isso’.”

Para a saúde humana e também para toda a vida no planeta, como Mar Sem Fim não cansa de mostrar. As emissões de poluentes são as principais responsáveis pelo aquecimento global e, em decorrência, pela crise climática. Que afeta, inclusive, drasticamente os oceanos. Os mares têm registrados aumentos na acidificação e alta nas temperaturas, o que coloca em risco a vida marinha. Além do derretimento das geleiras nos polos Ártico e Antártico, que tem elevado os níveis dos oceanos e pode fazer desaparecer regiões costeiras e ilhas em várias partes do mundo.

Isolamento social ajuda a reduzir poluição no Brasil?

No Brasil, onde o isolamento social é recente, também não faltam relatos de como ar está mais respirável e o céu mais limpo, especialmente em grandes centros como a capital paulista. No entanto, muitos cientistas brasileiros, assim como muitos especialistas mundo afora, estão cautelosos e reticentes sobre o assunto. Para eles, esse vírus é muito novo para se compreender ainda seu real funcionamento.

É preciso aprofundar as pesquisas até mesmo antes de se afirmar que a qualidade do ar está realmente melhor, com o isolamento social, afirmam. Mas, principalmente, para se confirmar se a redução da poluição causada pelo isolamento colabora para a diminuição da proliferação do novo coronavírus. Ou se a poluição ajuda a aumentar os índices de contágio.

Fabio Luiz Teixeira Gonçalves ressalta que o vírus é muito sensível à radiação ultravioleta solar. “É difícil tirar uma conclusão agora. Há, como em todo o resto da área científica, uma necessidade de mais tempo, para ver a viabilidade do mesmo (sobreviver) nas partículas aéreas.” Gonçalves é professor de Biometeorologia do Instituto de Agronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP).

“São muitas as variáveis envolvidas porque ao espirrar, tossir e mesmo falar eliminamos as partículas viróticas, e estas precisam entrar em contato com as superfícies do aerossol e aderir a elas. De outro modo, elas sempre se depositarão nas superfícies adjacentes (em móveis, pisos, roupas, entre outros) com tolerâncias bem variadas de sobrevida”, observa o professor.

Poluição versus condições meteorológicas

Adalgiza Fornaro, também professora do IAG-USP, diz que o isolamento é ainda muito recente no País para se obter uma avaliação mais precisa do impacto na poluição. “São poucos dias para se avaliar adequadamente o efeito do isolamento social na qualidade do ar, pois as condições meteorológicas são parâmetros muito importantes para a qualidade do ar, além das emissões”, diz a professora, especialmente, em relação a São Paulo, uma das cidades mais problemáticas do País no quesito poluição.

“Em geral no período das chuvas a qualidade do ar é melhor, em função dos processos de remoção (por chuva) dos poluentes e presença de nuvens que fazem diminuir as reações fotoquímicas que produzem ozônio. Para se confirmar o efeito do isolamento social na qualidade do ar de São Paulo será preciso comparar com o mesmo período de anos anteriores e avaliar as condições meteorológicas, como ocorrência de chuvas ou quantos dias seguidos sem chover, duração e intensidade da radiação solar, entre outros. Além disso, é preciso no mínimo três semanas (de isolamento) para se começar a comparar com o mesmo período dos anos anteriores”, diz Fornaro.

Em pleno isolamento, mais poluição em SP

A patologista e pesquisadora Evangelina Vormittag compartilha da mesma opinião. Uma das principais especialistas em poluição no Brasil e diretora do Instituto Saúde e Sustentabilidade, Vormittag diz que tem acompanhado os índices de poluição na capital paulista, ainda altos no final de março. Ela explica que em meados de março, já durante o isolamento social, estavam inclusive mais altos do que no começo do mês.

“Choveu muito no final de fevereiro e início de março. Depois, começou o tempo seco, a umidade foi diminuindo, o que não ajuda a dispensar poluentes. De 16 até 29 de março, a poluição estava mais alta que no começo do mês.” Ou o isolamento não foi eficaz ou o ar mais seco não colaborou, explica a médica. Ela observa, assim como Fornaro, que é preciso mais tempo de isolamento e comparações com anos anteriores para se analisar os efeitos reais. Além disso, é preciso observar outros fatores atmosféricos, diz.

Poluição e coronavírus: é preciso ampliar as pesquisas sobre poluição

Para Vormittag, uma das coisas mais graves em todo esse cenário de pandemia é como os novos vírus têm surgido. Na maior parte das incidências, é por meio do contato de humanos com animais selvagens, que perderam seus habitats por causa da degradação do meio ambiente. “Isso já está bastante consolidado cientificamente”, afirma a médica.

Se há uma correlação entre degradação de florestas e outros ecossistemas com a proliferação de vírus, como já amplamente demonstrada pela ciência, a tragédia da covid-19 pode mostrar que é chegada hora de se investigar também se a poluição colabora para o agravamento desses cenários.  E mais do que nunca de se reduzir drasticamente os índices de poluição para o bem do planeta.

Imagem de abertura: google

Fontes: https://www.nejm.org/doi/pdf/10.1056/NEJMc2004973; https://www.nejm.org/doi/10.1056/NEJMc2004973; https://www.liberation.fr/planete/2020/03/24/le-virus-pourrait-etre-transporte-par-la-pollution_1782754; http://www.simaonlus.it/wpsima/wp-content/uploads/2020/03/COVID19_Position-Paper_portoguese.pdf; http://www.simaonlus.it/?page_id=694; http://ansabrasil.com.br/brasil/noticias/italia/noticias/2020/03/20/poluicao-pode-ter-acelerado-transmissao-de-virus-na-italia_1ede279e-51bf-41a8-8e18-8b268ed78ea2.html; https://www.oeco.org.br/reportagens/novo-alerta-sobre-impacto-da-poluicao-do-ar-na-saude-e-divulgado-mas-brasil-nao-escuta/; https://www.nytimes.com/2020/03/17/health/coronavirus-surfaces-aerosols.html; https://edition.cnn.com/2020/03/27/europe/europe-pollution-decline-coronavirus-lockdown-intl/index.html?fbclid=IwAR1mQUGAlshZKsfcS9PWS4nKwH3i_Es7VVJstME9P0QdQ8vprphtbihjVc0; https://www.bbc.com/future/article/20200317-covid-19-how-long-does-the-coronavirus-last-on-surfaces; https://www.dailymail.co.uk/news/article-8167421/Air-pollution-plunges-India-coronavirus-lockdown-continues.html; https://cetesb.sp.gov.br/ar/boletim-diario-por-poluente/.

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1 COMENTÁRIO

  1. Parabéns pela reportagem: muito provocadora e informativa. Gostei bastante!
    Mas gostaria de deixar uma observação de que o significado de IAG-USP seria “Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas – USP”.
    Na reportagem grafa-se “Agronomia” ao invés de “Astronomia”, incorretamente.

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