Jet skis já ameaçam o Lagamar
Em tempos de perda acelerada de biodiversidade, elevação do nível do mar e eventos extremos cada vez mais frequentes, espanta ver os jet skis no Lagamar avançarem sobre um dos hotspots mais valiosos da costa brasileira. O estuário, abrigo de vida marinha, comunidades tradicionais e remanescentes preciosos de Mata Atlântica, já sofre pressões antigas. Agora, passa a enfrentar também a invasão do turismo náutico motorizado.

O que é o Lagamar
Para quem não conhece, o Lagamar é um imenso estuário de cerca de 140 quilômetros de extensão. Começa em Peruíbe, passa por Iguape e Cananeia, no litoral sul de São Paulo, e alcança Paranaguá, no Paraná. Por sua dimensão, produtividade e riqueza biológica, é considerado o mais importante berçário do Atlântico Sul.


Sua importância social e ambiental é tão grande que governos anteriores reconheceram esse valor e criaram ali uma ampla rede de proteção. Segundo o ICMBio, o Lagamar congrega mais de 40 unidades de conservação.
Entre elas estão a APA Cananéia-Iguape-Peruíbe, o Parque Estadual da Ilha do Cardoso e o Parque Nacional do Superagui. Não por acaso: trata-se de um dos trechos mais valiosos e sensíveis da costa brasileira, protegido justamente por sua riqueza natural e pelos modos de vida das populações tradicionais que ali vivem.
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O Lagamar já sofre uma agressão antiga em sua porção norte, na região de Iguape. O Canal do Valo Grande, aberto desde 1852. A obra foi projetada para encurtar o caminho da produção de arroz, ligando o rio Ribeira de Iguape diretamente ao porto da cidade, no Mar Pequeno.

Contudo, o que era para facilitar o transporte abriu caminho para um desastre ambiental que atravessa gerações. Mesmo assim, o assunto mal aparece. Ambientalistas quase não tocam no assunto. Parte da academia, quando reclama, o faz em seus gabinetes. E o governo de São Paulo, desde que assumiu, age como se o problema não existisse.
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Assista ao vídeo de 2016 sobre o Canal do Valo Grande
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Em plena crise ambiental, espanta ver dois governadores tratarem um hotspot com tamanha irresponsabilidade. Seria ignorância, ou o quê?
Jet skis nos canais
Durante quatro dias navegando pelo estuário, vi e filmei um grupo de cerca de 25 jet skis no Lagamar. Esse tipo de passeio cresce na região. Eu já ouvira relatos de conhecidos, mas ainda não tinha cruzado com um comboio nos canais.
A cena do bando de motos aquáticas me deixou horrorizado. Trata-se de uma agressão evidente. Boa parte desses braços d’água é estreita e rasa, inadequada para tráfego intenso e barulhento. Um grupo assim revolve a água, levanta ondas e castiga as margens lodosas. Num ambiente tão delicado, esse uso amplia a pressão sobre os manguezais.
Poluição sonora prejudica a fauna, em especial, o boto-cinza
O problema não para nas margens. O Lagamar abriga rica fauna marinha e costeira, entre ela o boto-cinza, além de aves como guarás, colhereiros, e o endêmico e ameaçado papagaio de cara roxa, sem falar nos peixes que dependem de águas mais calmas.
No mar, grande parte da vida marinha se orienta, se comunica e reage por meio do som. Debaixo d’água, a visão quase sempre é limitada, o que vale para muitas espécies diferentes.
A poluição sonora dos jet skis no Lagamar, somada ao excesso de movimento e às ondas, perturba o ambiente e afeta espécies que não combinam com tráfego intenso e barulhento. Num estuário que exige proteção, transformar canais rasos em pista para lazer motorizado é uma estupidez.
Pressão com apoio oficial
Não se trata de excesso isolado de fim de semana. A circulação de jet skis e outras embarcações de recreio decorre de um projeto mais amplo de estímulo ao turismo náutico no Lagamar, patrocinado pelos governos de São Paulo e do Paraná.

Turismo náutico contra o modo de vida tradicional
O Lagamar também é território de populações tradicionais. Em toda a região vivem comunidades caiçaras, quilombolas e algumas indígenas, muitas delas dependem da pesca de subsistência, catação de mariscos e caranguejos, e ao uso de canoas de pau nos deslocamentos diários.

Esse modo de vida, moldado há gerações pelos canais, marés e manguezais, não combina com o incentivo ao turismo náutico motorizado. Ao contrário: jet skis e lanchas trazem barulho, ondas e risco direto para embarcações frágeis, além de invadir um espaço que sempre pertenceu a quem vive dele sem destruí-lo.
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A hora de reagir é agora
O momento de falar sobre os jet skis no Lagamar, ou incentivo ao turismo náutico no local, é agora. Ambientalistas, pesquisadores, universidades e instituições que conhecem a região não têm mais o direito de se esconder no conforto do silêncio enquanto governos estaduais estimulam mais uma agressão contra um dos maiores tesouros ecológicos da costa brasileira.
Por negacionismo, o governador do Paraná simplesmente mutilou a Praia Brava, em Matinhos, com uma engorda que custou R$ 314 milhões aos cofres públicos. Fez isso mesmo com a obra contestada pelo Ministério Público e apesar dos alertas de especialistas da UFSC, que há anos mostram que intervenções desse tipo, ao contrário do discurso oficial, tendem a agravar a erosão costeira.
Por isso, quem sabe o que está em jogo e não se manifesta contribui para o desastre. O estrago provocado pelos jet skis no Lagamar já começou. Se continuarem calados, depois não adiantará publicar nota, dar entrevista nem lamentar a perda. A hora de reagir é agora.
Assista para saber mais










Os governadores citados desdenham de forma absoluta o meio ambiente. O alento é que um está saindo. Já o outro é torcer pra não voltar. Torcer também pra não vir outro monstrinho. Mas o que preocupa é a inércia de especialistas e do Ministério Público. A acomodação em situações tão graves são sinais de uma normalização. Fica a sensação de final dis tempos.