Ilha de Páscoa, autodestruição, parábola de nossa época

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Ilha de Páscoa, sua autodestruição: uma parábola de nossa época

“Nenhum outro lugar que eu tenha visitado me causou impressão tão fantasmagórica quanto  Rani Raraku, a pedreira na ilha de Páscoa onde suas famosas estátuas eram esculpidas.”

(Nada melhor que refletir sobre este texto no momento em que repercute no mundo o problema das queimadas na Amazônia. O que pode nos acontecer, caso percamos a floresta, já aconteceu em escala menor, e foi dramático; como se verá no texto abaixo).

imagem de moais na Ilha de Páscoa
Ilha de Páscoa totalmente árida. (Imagem: O Globo).

“Para começo de conversa a ilha é o pedaço de terra mais isolado do mundo. As terras mais próximas são a costa do Chile, 3.700 km a leste. E as ilhas Pitcairn, Polinésia, a dois mil km a oeste.”

imagem de mapa com a localização da ilha de Páscoa

“Rani Raraku é uma cratera vulcânica de 550 metros de diâmetro. Espalhadas no interior e exterior estão 397 estátuas de pedra representando a seu modo estilizado um torso humano masculino. A maioria tem 4,5 metros de comprimento. Embora a maior delas tenha mais de 20 metros de altura. Pesam de 10 a 270 toneladas.”

imagem da cratera Rani Raraku
A cratera Rani Raraku, onde estão as árvores da Ilha de Páscoa? (Foto:http://povijest.hr/)

Assim começa o capítulo ‘Crepúsculo em Páscoa‘, do best seller de Jared Diamond, Colapsocomo as sociedades escolhem o fracasso ou seu sucesso. Jared Diamond é professor de geografia da Universidade da Califórnia. Estudou fisiologia, biologia evolutiva, e biogeografia. Autor de mais de 200 artigos em revistas científicas. Ganhador do Prêmio Pulitzer por outro best seller, ‘Armas, Germes e Aço’.

O que é mais assustador do que o colapso de uma civilização?

É uma das perguntas que Jared responde. ‘Ele tece uma tese global, abrangente, por meio de uma série de fascinantes narrativas histórico-culturais. E traça um panorama catastrófico. Mostra o que acontece quando desperdiçamos nossos recursos. Ignoramos os sinais do meio ambiente. Quando nos reproduzimos rápido demais. Ou cortamos árvores em excesso. Todos fatores na queda de algumas sociedades. Outras encontraram soluções para e subsistiram”. Esta, a apresentação de Colapso. Faltou escrever: ‘Outras encontraram soluções para esses problemas e subsistiram. Será este o nosso caso?’

Ilha de Páscoa e o colapso autoimposto

Antes, Jared explica a colonização destas ilhas. E das outras do Pacífico, por descendentes de povos asiáticos: “Um povo de agricultores-navegadores, originários do arquipélago de Bismarck, noroeste da Nova Guiné. Ele atravessou quase dois mil km de mar aberto  ao leste das ilhas Salomão, para atingir Fiji, Samoa e Tonga. E se tornar os ancestrais dos polinésios. Uma saga náutica  fora de série. Iniciada em 1.200 a.C. A ilha de Páscoa teria sido ocupada por descendentes destes exploradores por volta de 900 d.C.

mapa com localização do arquipélago Bismarck
‘Bismarck archipelago’

‘Ajuda de extraterrestres’?

Em seguida, faz conjecturas de como um povo seria capaz de transportar as monumentais estátuas. E bota abaixo bobagens como a participação de astronautas extraterrestres, do suíço Erich von Daniken, em Eram os Deuses Astronautas? Jared prova que sim. Com muita madeira;  para fazer espécies de trenós, rampas, madeira para ser usada com alavanca. E para suporte de partes das estátuas, e ainda madeira para tipos de trilhos no chão.

imagem de Estátua semi enterrada na ilha de Páscoa
Estátua semienterrada, obra parada no meio. Por que… (Foto:www.heritagedaily.com)

E além destes usos, muitos cabos (para puxar as estátuas). Feitos com certas espécies de árvores (ou, mais madeira…) seria, sim, possível o transporte. Teses de cientistas citadas no livro, e testes de amigos de Jared, provaram a assertiva.

Vista de longe…ela ‘passa uma impressão de singular aridez e pobreza’

Mas há um porém. “Os muitos mistérios de Páscoa já eram evidentes para seu descobridor europeu, o explorador holandês Jacob Roggeveen. Ele avistou a ilha no Domingo de Páscoa (5 de abril de 1722), daí seu nome. Ao ver os moais, pensou, eles certamente precisariam de madeira e cordas. Contudo, a Ilha de Páscoa que encontrou era um lugar ermo. Sem nenhuma árvore ou arbusto com mais de 3 m de altura. O explorador escreveu em seu diário de bordo:

Vista de alguma distância achamos que a ilha era arenosa, pois imaginamos ser areia e grama, o feno ou outra vegetação ressecada e queimada, porque sua aparência desolada não era capaz de provocar qualquer impressão além de uma singular aridez e pobreza.

imagem de moais
A notar a aridez…(imagem:www.heritagedaily.com)

A notar: “Roggeveen, e visitantes europeus que o sucederam, surpreenderam-se ao descobrir que os únicos barcos dos insulares eram pequenas canoas mal vedadas. Elas não tinham mais que três metros de comprimento, capazes de levar uma, no máximo duas pessoas (Esta é mais uma prova de que a sociedade já tinha se automutilado na época, MSF).”

Desastre ecológico ocorrendo em completo isolamento

Foi o que bastou. Jared: “Essa é uma história adequada para começarmos o capítulo sobre sociedades do passado. Porque prova ser a coisa mais próxima que temos de um desastre ecológico ocorrendo em completo isolamento.”

“Apesar de pesquisas botânicas no século 20 identificarem apenas 48 espécies de plantas nativas. A maior delas mal pode ser chamada de árvore. O resto é de samambaias mirradas, mato, juncos e arbustos. Nas últimas décadas surgiram métodos de recuperar vestígios de plantas desaparecidas. Sabemos que, durante centenas de milhares de anos antes da chegada do homem e ainda durante os primeiros tempos da colonização, Páscoa não tinha um terreno árido, mas uma floresta subtropical de grande árvores e bosques frondosos.”

“O desmatamento deve ter começado pouco depois da chegada do homem, por volta de 900 d. C.” O Mar Sem Fim chama a sua atenção para as fotos aqui publicadas, e a total aridez.

O que comiam os insulares?

“Subsistiam como agricultores. Produziam batatas-doces, inhame, taro, bananas e cana-de-açúcar. E criavam galinhas, único animal doméstico.  A falta de recifes de coral (o oceano em volta é muito frio para tê-los) ou de uma lagoa, significava que peixes e moluscos contribuíram menos na sua dieta do que na maioria das ilhas da Polinésia. Havia aves marinhas, aves terrestres e golfinhos à disposição dos primeiros colonizadores. Mas logo veremos que diminuíram de número ou desapareceram posteriormente.”

Sobre os golfinhos: “Dos 6.433 ossos de vertebrados identificados nos monturos de Anakena, os mais frequentes, mais de um terço, eram do maior animal disponível, o golfinho comum…Para pescá-los, concluí, “era preciso mais madeira para fabricarem grandes canoas oceânicas, de modo a poderem navegar longe quando arpoavam os golfinhos.” Note o ‘mais madeira’…

E quanto às aves? ” Das 25 ou mais espécies que se reproduziam em Páscoa, a caça excessiva e a predação de ratos  (que vieram nas canoas dos colonizadores) fizeram com que 24 não se reproduzam mais”…

Quantos eram?

“A população de Páscoa em seu auge foi calculada por métodos como a contagem de fundações de casas. Calculando de cinco a 15 pessoas por casa. Ou calculando o número de chefes e seus seguidores a partir das plataformas ou estátuas erguidas. As estimativas variam de seis a 30 mil pessoas.”

Imagem de fundação de casa Rapa Nui na ilha de Páscoa
Fundação de casa Rapa Nui. (Imagem:wikimedia comuns)

E conclui: “Minha opinião é que estimativas mais altas são provavelmente as mais corretas. Em parte porque estimativas foram feitas por arqueólogos com a mais extensa experiência de pesquisa em Páscoa: Claudio Cristino, Patricia Vargas, Edmundo Edwards, Chris Stvenson e Jo Anne Tilburg.”

As evidências

Jared mostra diversas, entre elas ” as de intensificação agrícola. Consiste em fossas revestidas de pedra, com até 1,20 m de profundidade, usadas como fossas de compostagem para as plantações. E como tanques de fermentação de vegetais. Outra são os inúmeros galinheiros de pedra para impedir fuga de galinhas. Não fosse pelo fato de as abundantes hare moa de pedras serem obliteradas por plataformas e estátuas de pedra ainda maiores, os turistas lembrariam de Páscoa como a ilha dos galinheiros de pedra. Estes 1.233 galinheiros  dominam a maior parte da paisagem junto à costa.”

Os Moais da Ilha de Páscoa

Jared conta que, em Páscoa, devido ao “clima ventoso, seco e frio, tudo era feito de pedra. De galinheiros a pedrinhas em círculo para plantar alguns míseros pés de taro. E protegê-los do vento, até as plataformas e moais. A maior parte do interior de Páscoa foi convertida em hortas de pedra. Quanto aos moais, que representam ancestrais de membros da elite, Jo Anne Van Tilburg inventariou um total de 887, dos quais quase a metade ainda está na pedreira de Rano Raraku.”

Estudando o exaustivo trabalho de construir, empurrar e levantar centenas de esculturas gigantes, concluíram que “o trabalho aumentou em cerca de 25% as necessidades de comida da população de Páscoa durante 300 anos de pico de construção.”

desenho de moais sendo erguidos
Erguendo os moais com…madeira.

Com isso, voltamos ao início do texto…”E mostra o que acontece quando desperdiçamos nossos recursos, ignoramos os sinais de nosso meio ambiente, quando nos reproduzimos rápido demais ou cortamos árvores em excesso (exatamente o que faz a nossa geração, MSF).”

Começava, sem o saberem, a autodestruição dos Rapa Nui…

Consequências do corte de árvores

“A ilha de Páscoa é o exemplo mais extremo de destruição de florestas no Pacífico. E está entre os mais extremos do mundo: toda a floresta desapareceu…” As consequências para os ilhéus foram a perda de matérias-primas,. E perda de fontes de caça e diminuição de colheitas.  A falta de grandes troncos e de cordas determinou o fim do transporte, erguimento de estátuas e também a construção de canoas oceânicas.”

desenho de canoa oceanica usada na ilha de Páscoa
Canoa oceânica, gravura do Museu do Chile.

“O desmatamento levou à erosão pelo vento, pela chuva, diminuindo as colheitas e fontes de alimento silvestre. O isolamento de Páscoa a torna o mais claro exemplo de uma sociedade que se destruiu pelo abuso de seus recursos (e nós, cara-pálida, o que temos feito senão isso em escalada planetária? MSF).

desenho de Canoa oceânica da ilha de Páscoa
Canoa oceânica, de autoria de John Webber, 1781 tripulante do Capt. Cook. (Ilustração: /www.historicmysteries.com)

“Em 1838 um navio francês aportou na ilha. Seu capitão registrou no diário de bordo: ” Todos os nativos repetiam frequente e excitadamente a palavra miru. E ficaram impacientes ao ver que não entendíamos: essa palavra é o nome que os polinésios ou, os Rapa Nui, dão à madeira com que fazem suas canoas. Era o que mais queriam, e fizeram de tudo para que os compreendêssemos.”

Paralelos assustadores entre a Ilha de Páscoa e o mundo moderno

“O isolamento dos insulares de Páscoa  também explica por que acredito que o seu colapso,  mais do que qualquer outra sociedade pré-industrial, assombra meus leitores e alunos. Os paralelos entre a Ilha de Páscoa e o mundo modernos são assustadoramente óbvios. Quando eles tiveram dificuldades não havia para onde fugir, nem a quem pedir ajuda. Assim como nós, modernos terráqueos, também não temos a quem recorrer caso precisemos de ajuda. Essas são as razões pelas quais  as pessoas veem o colapso da sociedade da ilha de Páscoa como uma metáfora – a pior hipótese – daquilo que pode estar nos esperando para o futuro.”

(Obs do MSF: hoje restam em Páscoa pouco mais que 3 mil descendentes dos pioneiros Rapa Nuis; vivem em condições difíceis, sem a menor sombra do apogeu que aquele povo, que hoje representam, viveu por séculos seguidos até chegarem ao ponto do autoimolamento…)

Contribuição europeia

Os europeus deram contribuição para a destruição final: “introduziram ovinos na década de 1870. Em 1888 o governo do Chile anexou Páscoa, que se tornou uma fazenda de ovelhas administrada por empresa escocesa no Chile. Veja a gravura alusiva à estadia de James Cook na ilha de Páscoa, ainda havia arbustos no mínimo.

Gravura alusiva à estadia de James Cook na ilha de Páscoa
Gravura alusiva à estadia de James Cook na ilha de Páscoa

Os insulares, confinados em aldeias, eram obrigados a trabalhar para a empresa, sendo pagos em bens nos barracões  em vez de dinheiro (foi daí que os ‘barões’ de seringais tiraram a ideia?, MSF). A pastagem das ovelhas, bodes e cavalos causou mais erosão do solo. Eliminou o que restou da vegetação nativa. Também trouxeram novos e desconhecidos vírus que causaram centenas de mortes.” Mas, a esta altura lembramos, os próprios ilhéus já tinham destruído seu futuro.

Algumas curiosidades: o rongo-rongo, e outras

“O rongo-rongo é um sistema de escrita de Páscoa. Inventado pelos insulares (o que prova a complexidade da sociedade), mencionado a primeira vez por missionários católicos em 1864.” E essa é ainda pior: “Somente em 1966 os insulares se tornaram cidadãos chilenos.” Mais uma: “Novamente como ocorrido em outras ilhas do Pacífico, a prática do ‘black-birding’, sequestro de insulares para trabalho forçado, começou por volta de 1805 e chegou ao auge em 1862-63. Esse foi o ano mais sombrio da história de Páscoa, quando duas dúzias de navios peruanos sequestraram cerca de 1.500 pascoenses e os venderam em leilão para trabalharem em minas de guano.”

A tese de Jared Diamond

Ela jamais foi contestada, ao contrário, é aclamada. E Jared não é o único a pensar deste modo, pondo a pá de cal que faltava ao ‘mito do bom selvagem’. Ele é acompanhado por outro acadêmico que também lançou um best seller, doutor em História pela Universidade de Oxford, especializado em história mundial e professor da Universidade Hebraica de Jerusalem, Yuval Noah Harari.

Pense sobre isso, cara-pálida, e faça sua parte!

Fontes: Jared Diamond, COLAPSO – Como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso, Ed. Record. E, do mesmo autor, Armas, Germes e Aço, os destinos das sociedades humanas, Ed. Record.

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  1. Impressionanre a falta de imaginação “científica” de quem escreve e comenta. O desmatamento na ilha foi feito porque “construiu” as estátuas que nem hoje como toda tecnologia teríamos como fazer. E mesmo mostrando a cratera de um vulcão, que se acontecesse na Amazônia não sobraria nem um toco para contar a história. E vaí vem outros iluminados que imaginam que teve a ajuda de algum ‘deus astronauta’. Claro que se joranlista ou seja lá o que for, deveria fazer uma reportagem também sobre as pedras esféricas de Costa Rica, ou sobre as pirâmides do Egito, e imaginar que foram consequência de desmatamentos idiotas como estamos fazendo na Amazônia.
    Caro João Lara Mesquita, se o texto é seu, vá contar lorotas para boi dormir. arioba

  2. Esta é certamente a obra mais marcante de Jared Diamond. Trazer o tema para este espaço é muito positivo, embora o texto acima seja muito mal escrito (sorry, autor). Particularmente interessantes são os capítulos no livro que falam (1) dos primeiros assentamentos nórdicos na Groenlândia, quando o clima era mais quente e possibilitou a criação de animais naquela ilha por cerca de 300 anos; (2) as radicais diferenças entre o Haiti, um desastre ambiental, e a Rep Dominicana, nação que soube proteger florestas nativas, ambos na mesma ilha de Hispaniola; e, (3) o caso do Japão, país que depende da madeira e da pesca, e que soube explorar recursos com sabedoria. O livro todo é fantástico e atualíssimo, um item fundamental para discussões inteligentes e sem histerias

  3. Visitei a ilha de Páscoa alguns anos atrás. Essas hipóteses são importantes mas não esgotam a discussão sobre essa sociedade que se organiza em condições extremamente adversas.

    Resta aprender como foi possível a vida nesse isolamento, não apenas falar do colapso.

    Em época de teorias apocalípticas, nos esquecemos dos critérios de sucesso dos nossos antepassados.

  4. Pois eu espero que os brasileiros se espelhem nos nativos que povoaram no passado a ilha e com modernas tecnologias e equipamentos de grande potências, desmatem tudo e como sabemos as os substratos da amazônia são inferteis e pobres aumentemos os “lençois maranhenses”. Quanto as chuvas para o sul/sudeste???? Que cobrem dos pais e avós que votaram em palermas.

  5. Todas as sociedades enfrentam o dilema de alimentar a populaçao ou preservar intocado o meio ambiente.Nao se pode comparar culturas em tempo e espaço tao diferentes,mas atualmente deve haver formas mais racionais de tentar compatibilizar o desenvolvimento e consequentemente o bem estar humano com a preservaçao.O que e absurdo e deixar alguem morrer de fome contemplando a beleza original!

    • Não existe mais a “beleza original” e o esgotamento dos recursos naturais e ambientais atingirá a todos. Assim como o Brasil, a civilização da Ilha da Páscoa não desenvolveu um manejo florestal sustentável para sustentar seu “progresso” e o resultado foi seu colapso como sociedade.

  6. É urgente que adotemos a política do filho único no planeta todo. Precisamos manter ou diminuir a populacäo até que encontremos uma solucäo melhor. Vamos divulgar essa idéia enquanto há tempo.

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