Ilha de Páscoa: nova tese desafia a ideia de autodestruição

45
37776
views

Ilha de Páscoa: nova tese desafia a ideia de autodestruição

Durante décadas, a Ilha de Páscoa virou símbolo de uma civilização que teria destruído os próprios recursos naturais. A ideia ganhou força com estudos sobre o desaparecimento das palmeiras, a erosão do solo e a construção dos famosos moais.

No entanto, novas pesquisas passaram a desafiar essa interpretação. Agora, uma nova tese sobre o fim da sociedade Rapa Nui acrescenta outra peça ao enigma e reforça a ideia de que a história da Ilha de Páscoa foi bem mais complexa do que a simples autodestruição.

imagem de moais na Ilha de Páscoa
Ilha de Páscoa totalmente árida. (Imagem: O Globo).

A Ilha de Páscoa é o pedaço de terra mais isolado do planeta. A costa do Chile fica a 3.700 km a leste. As ilhas Pitcairn, na Polinésia, a 2.000 km a oeste.

imagem de mapa com a localização da ilha de Páscoa

No coração da ilha está Rani Raraku, uma cratera vulcânica com 550 metros de diâmetro. Dentro e fora dela repousam 397 estátuas de pedra. Representam, de forma estilizada, o torso de um homem. A maioria tem 4,5 metros de altura, mas a maior passa dos 20 metros e pode pesar até 270 toneladas.

imagem da cratera Rani Raraku
A cratera Rano Kau, onde estão as árvores da Ilha de Páscoa? (Foto:http://povijest.hr/)

O que é mais assustador do que o colapso de uma civilização?

Jared Diamond ajudou a popularizar a Ilha de Páscoa como exemplo clássico de colapso ambiental. Em Colapso, publicado em 2005, ele argumentou que os Rapa Nui consumiram seus recursos naturais até provocar uma grave crise social.

Durante anos, essa interpretação ganhou enorme repercussão. Entretanto, novas evidências arqueológicas passaram a questionar partes importantes dessa narrativa.

Como os polinésios chegaram à Ilha de Páscoa

Antes de discutir o suposto colapso, vale entender quem povoou a Ilha de Páscoa. Os Rapa Nui descendem dos extraordinários navegadores polinésios que, durante séculos, avançaram pelo Pacífico e ocuparam algumas das ilhas mais isoladas do planeta.

Essa expansão começou muito antes, a partir de povos navegadores que atravessaram o Pacífico ocidental e chegaram a Fiji, Samoa e Tonga.

Hoje, as evidências arqueológicas indicam que os primeiros polinésios chegaram à Ilha de Páscoa provavelmente por volta de 1200 d.C. Portanto, bem mais tarde do que sugeriam estimativas antigas, que situavam a colonização por volta de 900 d.C.

colonização das ilhas do Pacífico
A colonização das ilhas do Pacífico segundo o site de Rapa Nui, www.moevarua.com. Nº1, “Existência de assentamentos no litoral em 30.000 a.C. Nº 2, “Limites da colonização Lapita em 800 a. C.” Nº 3, “Viagens polinésias a partir de 1000 a.C”.

Contato com a América do Sul?

A origem polinésia dos Rapa Nui está bem estabelecida. Entretanto, estudos genéticos encontraram ancestralidade indígena sul-americana em populações da Polinésia Oriental, inclusive na Ilha de Páscoa.

Esses dados indicam que houve contato entre polinésios e povos da América do Sul antes da chegada dos europeus. A descoberta também reacendeu a discussão em torno das ideias de Thor Heyerdahl, como mostramos neste post sobre a colonização da Polinésia.

A tradição oral dos Rapa Nui

O site Rapa Nui (www.moevarua.com) o passado mais remoto da Ilha de Páscoa ainda guarda muitas dúvidas. Segundo o site local Rapa Nui, as principais fontes para reconstruir essa história são as pesquisas arqueológicas e a tradição oral preservada pelos próprios habitantes.

Esses relatos ajudam a complementar as evidências científicas e mostram como os Rapa Nui conservaram a memória de sua origem e de seus antepassados ao longo dos séculos.

Canoa dupla com representação do deus Eotooa.
Quando os primeiros europeus chegaram às ilhas do Pacífico ficaram impressionados com as embarcações típicas. Aqui uma Canoa dupla com representação do deus Eotooa. O autor da aquarela é George Tobin, 1792, que estava a bordo do HMS Providence, capitaneado por William Bligh.

Quando os primeiros habitantes chegaram a Rapa Nui

Durante muito tempo, arqueólogos discutiram se os primeiros polinésios chegaram à Ilha de Páscoa nos primeiros séculos da era cristã ou muito mais tarde.

Hoje, porém, as evidências favorecem uma colonização tardia. Estudos liderados pelos arqueólogos Terry Hunt e Carl Lipo, com novas datações por radiocarbono e uma revisão crítica das amostras antigas, situam a chegada dos primeiros habitantes por volta de 1200 d.C.

Essa mudança na cronologia é importante. Afinal, ela reduz bastante o tempo disponível para que os Rapa Nui tivessem provocado o longo processo de degradação ambiental e colapso descrito pelas interpretações tradicionais.

Chegada dos polinésios a Rapa Nui.
Desenho alusivo à chegada dos polinésios a Rapa Nui. Imagem, www.moevarua.com.

Viagem de risco e isolamento crescente

Chegar a Rapa Nui exigiu extraordinária habilidade náutica. Além disso, os primeiros habitantes não ficaram imediatamente isolados. Evidências arqueológicas e genéticas indicam contatos posteriores com outras populações da Polinésia Oriental.

Com o passar dos séculos, porém, essas conexões diminuíram. Rapa Nui tornou-se cada vez mais isolada, enquanto sua sociedade desenvolvia características próprias, entre elas a construção dos moais e outras manifestações monumentais.

Como transportavam os moais: duas hipóteses

Jared Diamond também usou o transporte dos moais para sustentar sua tese. Segundo ele, mover estátuas tão pesadas exigia trenós, rampas, alavancas e outros equipamentos feitos com madeira, além de cordas de fibras vegetais. Experimentos mostraram que esse tipo de transporte era possível.

Entretanto, outra hipótese ganhou força nos últimos anos. Os arqueólogos Carl Lipo e Terry Hunt defendem que os Rapa Nui transportavam os moais em pé. Com cordas presas aos dois lados, grupos de pessoas balançavam a estátua alternadamente, fazendo-a avançar como se estivesse “caminhando

Transporte de Moais na Ilha de Páscoa
Imagem de Terry Hunt publicada pela Scientific American.

A forma dos moais encontrados ao longo das antigas estradas reforça essa ideia. Muitos apresentam base larga, em formato de D, além de uma inclinação para a frente que facilitaria o movimento lateral. Em um experimento, apenas 18 pessoas conseguiram deslocar uma réplica de 4,35 toneladas por 100 metros em cerca de 40 minutos.

Se essa hipótese estiver correta, os Rapa Nui não precisariam derrubar grandes quantidades de árvores para transportar as estátuas. Assim, uma das peças importantes da tese tradicional da autodestruição perde força.

O primeiro europeu chega à Ilha de Páscoa

O primeiro registro europeu de Rapa Nui veio do navegador holandês Jacob Roggeveen. Sua frota avistou a ilha em 5 de abril de 1722, um Domingo de Páscoa — daí o nome pelo qual ela se tornaria conhecida no Ocidente. Poucos dias depois, Roggeveen desembarcou com seus homens. O encontro terminou de forma trágica: marinheiros holandeses abriram fogo e mataram entre 10 e 12 Rapa Nui.

Roggeveen ficou especialmente impressionado com os moais. Não entendia como uma população sem grandes árvores e cabos grossos conseguira erguer estátuas tão enormes. Entretanto, seu diário registra algo importante para a discussão atual: apesar da falta de árvores de grande porte, encontrou solo fértil, plantações e uma população que não parecia passar fome.

imagem de moais
A notar a aridez…(imagem:www.heritagedaily.com)

Roggeveen também se surpreendeu com as embarcações locais. Em vez das grandes canoas oceânicas associadas aos navegadores polinésios, encontrou apenas pequenas canoas, adequadas sobretudo à navegação costeira.

A floresta desapareceu, mas por quê?

Para Jared Diamond, Rapa Nui oferece um exemplo quase perfeito de desastre ecológico em isolamento. Estudos de pólen e outros vestígios mostram que, antes da ocupação humana, a Ilha de Páscoa tinha extensas áreas cobertas por palmeiras e outras plantas. Com o passar dos séculos, essa vegetação praticamente desapareceu.

Canoa monocasco Tahitian navegando perto da costa
Canoa taitiana monocasco navegando perto da costa. O autor da aquarela é John Webber (1752-1793).

Diamond atribuiu grande parte desse processo aos próprios Rapa Nui. Segundo sua interpretação, eles derrubaram árvores para abrir áreas agrícolas, obter combustível e, sobretudo, construir equipamentos usados no transporte dos moais. O desmatamento teria contribuído para uma crise ambiental e, depois, social.

Entretanto, essa explicação hoje enfrenta fortes questionamentos. Pesquisas mais recentes indicam que os ratos polinésios, levados pelos primeiros colonizadores, também podem ter desempenhado papel importante. Um estudo de 2025 concluiu que esses animais consumiam grande parte das sementes das palmeiras e dificultavam sua regeneração. Ainda há debate sobre o peso relativo de ratos e humanos no desaparecimento da floresta.

O que comiam os habitantes da Ilha de Páscoa?

Os Rapa Nui dependiam principalmente da agricultura. Cultivavam batata-doce, inhame, taro, banana e cana-de-açúcar, além de criar galinhas.

Entretanto, pesquisas mais recentes mostram que os alimentos marinhos também tiveram importância na dieta. Peixes e outros recursos costeiros complementavam uma agricultura desenvolvida em condições difíceis.

Essa capacidade de adaptação será importante para entender por que a ideia de uma população que simplesmente esgotou seus recursos naturais passou a ser questionada.

Polinésios
Polinésios e suas fantásticas embarcações. Imagem, www.moevarua.com.

Golfinhos, aves e mudanças na fauna

Escavações arqueológicas mostram que os primeiros habitantes de Rapa Nui também consumiam golfinhos e aves marinhas. A presença de numerosos ossos de golfinhos sugere que, em algum momento, os Rapa Nui ainda dispunham de embarcações capazes de navegar além da costa.

Com o passar do tempo, porém, muitos desses recursos diminuíram. Diversas espécies de aves desapareceram da ilha. A caça humana provavelmente contribuiu para esse processo, enquanto os ratos levados pelos colonizadores também predavam ovos, filhotes e sementes.

Quantos eram?

Durante muito tempo, pesquisadores estimaram que a população de Rapa Nui teria alcançado entre 6 mil e 30 mil habitantes. Jared Diamond considerava mais prováveis os números elevados. Uma população tão grande, seguida por forte redução, ajudava a sustentar a tese do colapso.

Entretanto, um estudo publicado em 2024 na Science Advances chegou a uma conclusão diferente. Os pesquisadores mapearam os chamados jardins de pedras, usados pelos Rapa Nui para aumentar a produtividade agrícola, e descobriram que eles ocupavam uma área muito menor do que se imaginava. Com isso, estimaram que a ilha provavelmente sustentava cerca de 3 mil habitantes, e não dezenas de milhares.

Imagem de fundação de casa Rapa Nui na ilha de Páscoa
Fundação de casa Rapa Nui. (Imagem:wikimedia comuns)

No mesmo ano, outro estudo publicado na Nature, desta vez com DNA de 15 antigos habitantes de Rapa Nui, também enfraqueceu a tese do colapso. Os pesquisadores não encontraram sinais genéticos de uma grande queda populacional antes da chegada dos europeus. Ao contrário, os dados indicam uma população pequena que cresceu gradualmente durante séculos.

Assim, cresce a possibilidade de que Rapa Nui jamais tenha abrigado as dezenas de milhares de habitantes imaginadas pelas antigas estimativas — e, portanto, de que o famoso colapso populacional simplesmente não tenha ocorrido.

Evidências de adaptação

Jared Diamond interpretou várias estruturas encontradas em Rapa Nui como sinais de uma sociedade pressionada pela escassez de recursos. Entre elas estavam fossas protegidas por pedras, usadas no cultivo, e os chamados hare moa, galinheiros de pedra espalhados pela ilha.

Canoa dupla cerimonial com indicações de seus componentes.
Canoa dupla cerimonial do Taiti com indicações de seus componentes. A pintura é de ninguém menos que o mestre dos mares, William Bligh (1754-1817). Biblioteca Mitchell – Biblioteca Estadual de Nova Gales do Sul.

Hoje, porém, parte dessas evidências recebe outra interpretação. Pesquisas recentes mostram que os Rapa Nui desenvolveram técnicas engenhosas para cultivar alimentos em solos pobres e sujeitos ao vento. Os jardins de pedras ajudavam a conservar umidade, reduzir a erosão e liberar nutrientes para as plantas.

Assim, estruturas antes associadas à escassez também podem revelar uma sociedade capaz de se adaptar às limitações ambientais da Ilha de Páscoa.

Os moais da Ilha de Páscoa

Os moais são a marca mais conhecida de Rapa Nui. A arqueóloga Jo Anne Van Tilburg catalogou 887 estátuas, muitas delas ainda na pedreira de Rano Raraku, onde eram esculpidas.

Essas esculturas representavam ancestrais importantes e exigiam planejamento, mão de obra e organização social para serem produzidas e transportadas. Durante muito tempo, esse enorme esforço foi usado como argumento a favor da ideia de que a construção dos moais pressionou os recursos da ilha.

desenho de moais sendo erguidos
Erguendo os moais com…madeira.

No entanto, pesquisas recentes sugerem outra leitura. Em vez de sinal de uma sociedade que caminhava para o colapso, a produção dos moais também pode revelar uma comunidade altamente organizada, capaz de mobilizar trabalho e recursos por várias gerações.

As consequências do desmatamento

A transformação ambiental de Rapa Nui foi profunda. As antigas florestas de palmeiras desapareceram, e isso certamente reduziu a disponibilidade de madeira e alterou os ecossistemas da ilha.

Jared Diamond associou essa mudança a consequências graves: dificuldades para construir grandes canoas, transportar moais e manter a produção de alimentos. Segundo essa interpretação, o desmatamento teria contribuído diretamente para o isolamento e para o colapso da sociedade Rapa Nui.

desenho de canoa oceanica usada na ilha de Páscoa
Canoa oceânica, gravura do Museu do Chile.

Entretanto, novas pesquisas enfraquecem algumas dessas relações. Como vimos, os moais podem ter sido transportados sem grandes estruturas de madeira. Além disso, técnicas agrícolas sofisticadas mostram que os Rapa Nui continuaram adaptando sua produção de alimentos às condições da ilha.

O preço final — segundo Jared Diamond

Para Jared Diamond, o desmatamento provocou erosão, reduziu a produtividade agrícola e eliminou parte dos recursos disponíveis. Com isso, a sociedade Rapa Nui teria entrado em uma crise cada vez mais profunda.

Essa interpretação transformou a Ilha de Páscoa em um dos exemplos mais famosos de “ecocídio”: uma sociedade que teria destruído as bases naturais de sua própria sobrevivência.

Entretanto, como mostram as pesquisas mais recentes, essa sequência — desmatamento, fome, colapso e queda populacional — já não pode ser tratada como fato estabelecido. É justamente aí que começa a nova interpretação sobre o destino dos Rapa Nui.

desenho de Canoa oceânica da ilha de Páscoa
Canoa oceânica, de autoria de John Webber, 1781 tripulante do Capt. Cook. (Ilustração: /www.historicmysteries.com)

A versão do colapso começa a ruir

Para Jared Diamond, Rapa Nui parecia oferecer uma advertência perfeita ao mundo moderno: uma sociedade isolada que teria consumido seus próprios recursos até entrar em colapso.

Essa interpretação ganhou enorme força. Porém, as novas evidências arqueológicas, genéticas e ambientais começaram a desmontar partes importantes dessa versão. A população talvez nunca tenha sido tão grande quanto se imaginava. Os moais podem ter sido transportados sem grandes quantidades de madeira. E os Rapa Nui desenvolveram técnicas agrícolas capazes de sustentar a vida em um ambiente difícil.

Polinésios, Mestres na construção naval
Um aspecto todos concordam: eles eram mestras na construção naval e na navegação. Imagem, www.moevarua.com.

Assim, a pergunta mudou. Em vez de apenas perguntar por que os Rapa Nui destruíram sua civilização, os pesquisadores passaram a investigar se esse colapso realmente aconteceu da maneira como se acreditava.

A destruição que veio de fora

Se as novas pesquisas enfraquecem a tese de um colapso provocado pelos próprios Rapa Nui, a história registra outra catástrofe muito mais bem documentada. No século XIX, traficantes de escravos capturaram habitantes da ilha e os levaram para trabalhar fora de Rapa Nui. Os sobreviventes que retornaram trouxeram doenças, entre elas a varíola. A população despencou. No fim do século XIX, restavam pouco mais de cem Rapa Nui.

Em 1888, o Chile anexou a Ilha de Páscoa. Depois, grande parte do território virou uma enorme fazenda de ovelhas, ou seja, mais uma introdução de espécies que, sabe-se hoje, é a maior inimiga da biodiversidade em ilhas. Durante décadas, os Rapa Nui ficaram confinados à região de Hanga Roa, enquanto as pastagens ocupavam boa parte da ilha.

Assim, a maior queda populacional conhecida em Rapa Nui não ocorreu antes da chegada dos europeus. Ela aconteceu depois do contato com o mundo exterior.

Gravura alusiva à estadia de James Cook na ilha de Páscoa
Gravura alusiva à estadia de James Cook na ilha de Páscoa

Exploração, erosão e espécies introduzidas

Depois da anexação pelo Chile, grande parte de Rapa Nui virou área de criação de ovelhas. Os habitantes ficaram confinados em Hanga Roa, enquanto a exploração pecuária ocupava boa parte da ilha.

Ovelhas, bodes e cavalos agravaram a erosão e pressionaram ainda mais a vegetação remanescente. Em ilhas, esse impacto costuma ser especialmente severo, porque espécies nativas evoluíram durante muito tempo sem contato com muitos desses animais introduzidos. Já mostramos por que as ilhas concentram biodiversidade única e também tantas extinções.

As doenças trazidas de fora completaram a tragédia social iniciada pelas incursões escravistas e pelo contato europeu.

O pior golpe veio no século XIX

Entre 1862 e 1863, traficantes peruanos sequestraram cerca de 1.500 Rapa Nui para trabalho forçado, principalmente nas ilhas produtoras de guano. Entre os capturados estavam líderes, sacerdotes e pessoas que preservavam conhecimentos tradicionais.

Poucos conseguiram voltar. E alguns dos sobreviventes trouxeram doenças que se espalharam rapidamente pela ilha. Foi um dos episódios mais devastadores da história de Rapa Nui e contribuiu para a queda brutal da população no século XIX.

Os Rapa Nui também desenvolveram o enigmático rongo-rongo, sistema de sinais gravados em tabuletas de madeira que permanece indecifrado.

A tese de ecocídio é contestada

Nos últimos anos, novas pesquisas passaram a questionar a famosa tese de ecocídio associada à Ilha de Páscoa. Um dos trabalhos importantes surgiu em 2017, no American Journal of Physical Anthropology. A equipe de Catrine Jarman, Terry Hunt e Carl Lipo analisou restos humanos, animais e vegetais encontrados em Rapa Nui. O estudo pode ser consultado aqui.

As análises isotópicas mostraram que aproximadamente metade da proteína consumida pelos antigos Rapa Nui vinha de recursos marinhos. Além disso, os pesquisadores encontraram evidências de técnicas agrícolas capazes de melhorar solos naturalmente pobres. Para os autores, esses dados revelam adaptação e resiliência, e não uma população que simplesmente esgotou seus recursos e entrou em colapso.

Canoas polinésias ao longo das costas do Taiti. Entre 1791 e 1793, Tobin estava a bordo do HMS Providence, capitaneado por William Bligh.
Canoas polinésias ao longo das costas do Taiti. Entre 1791 e 1793, Tobin estava a bordo do HMS Providence, capitaneado por William Bligh.

Agora, uma nova reportagem da Scientific American reúne pesquisas acumuladas nas últimas décadas e mostra como outras peças dessa antiga versão também perderam força. Os Rapa Nui provavelmente nunca chegaram às dezenas de milhares de habitantes imaginadas anteriormente. E novas análises genéticas não encontraram sinais de um grande colapso populacional antes da chegada dos europeus.

Assim, a pergunta mudou. Em vez de tentar explicar como os Rapa Nui destruíram sua própria sociedade, pesquisadores como Carl Lipo e Terry Hunt procuram entender como uma população pequena conseguiu sobreviver durante séculos em uma das ilhas habitadas mais isoladas do planeta.

Adaptação e resiliência: outra leitura possível

As pesquisas mais recentes mostram que os Rapa Nui não apenas enfrentaram um ambiente difícil. Eles também desenvolveram soluções para viver nele.

Além de explorar recursos marinhos, enriqueceram solos pobres com técnicas agrícolas engenhosas e organizaram a produção de alimentos de forma eficiente. Essas evidências reforçam uma leitura diferente: em vez de uma sociedade que simplesmente destruiu seu ambiente, Rapa Nui pode ter sido uma sociedade marcada pela adaptação e pela resiliência.

Isso enfraquece a ideia de um colapso puramente autoinfligido. E abre espaço para uma pergunta mais importante: se os Rapa Nui não se destruíram como se imaginava, o que realmente aconteceu com eles?

Canoa à vela no oceano. Quatro personagens são representados no barco. Pintura feita durante a terceira viagem de Cook.
Canoa à vela no oceano. Quatro personagens são representados no barco. Pintura feita durante a terceira viagem de Cook.

Afinal, o que aconteceu em Rapa Nui?

Durante décadas, a Ilha de Páscoa serviu como símbolo perfeito de uma sociedade que destruiu seus próprios recursos e pagou o preço pelo excesso. Jared Diamond ajudou a transformar essa interpretação em uma das histórias ambientais mais conhecidas do mundo.

Isso não significa que Rapa Nui não sofreu profundas transformações ambientais. Suas florestas desapareceram e várias espécies sumiram. Entretanto, a ideia de que seus habitantes destruíram a própria civilização já não explica sozinha o que aconteceu.

A tragédia mais bem documentada veio depois. Escravidão, doenças, perda de terras e exploração econômica atingiram duramente os Rapa Nui após o contato com o mundo exterior.

Talvez, portanto, a grande história da Ilha de Páscoa não seja a de um povo que se autodestruiu, mas a de uma sociedade que conseguiu sobreviver durante séculos em um dos lugares mais isolados e difíceis do planeta.

Fontes: Jared Diamond, COLAPSO – Como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso, Ed. Record. E, do mesmo autor, Armas, Germes e Aço, os destinos das sociedades humanas, Ed. Record.

Islândia, visite santuário de baleias e coma carne delas

Comentários

45 COMENTÁRIOS

  1. Estive agora em Rapa Nui, e fiquei impressionado. Fui ciceroneado por dois excelente guias, Fabiam e Poki, que se revezavam nos escarecimentos. O que eles mais falavam, era sobre a guerra de clãs que se tornou quase uma guerra total, entre 1400 e 1500, evento que dizimou a maior parte da população. Guerras que eram travadas principalmente por comida, e que uma das grandes consequencias foi a derrubada de todos os moais. Achei o artigo politizado demais, alem do uso errado de imagens do vulcão, falta muita informação ai. Os nativos dizem que foram escritos vários livros, mas eles reconhecem apenas Steven Roger Fischer, como um historiador honesto, e não fantasioso. Ah, achei o povo muito legal. A toda hora eu era cumprimentado com IORANAs, no que eu respondia com MAURURU

  2. João, sou seu fã e adoro os textos pro aprofundamento e pesquisa que você realiza. Justamente por isso preciso avisar que existe um erro na matéria. A foto aérea apresentada é do Vulcão Rano Kau, o que pode ser visto nesta pesquisa de imagens com esse nome. O Rani Rarako não fica na beira do mar. A foto utilizada na matéria consta entre as imagens do Rani Rarako em um outro site, mas a pesquisa acima mostrará que se trata de um engano. Abraço!

  3. Faltou escrever que os moais colocado em pé a alinhados conforme apresentado na matéria de O Globo se deveu a iniciativa de um universidade japonesa que conseguiram recursos financeiros e equipamentos como guindastes e tratores e foi realizado na década de 1990.

  4. Quando se mostra a verdade, se assustam, mas continuam a caminhar para o triste fim. “Os paralelos entre a Ilha de Páscoa e o mundo modernos são assustadoramente óbvios”.

  5. ILHA DE PÁSCOA – Como estive lá em 1978 não posso deixar de comentar a tese, comentada no local, com relação à auto-destruição dos pasquense: GUERRA! Os descendentes dos “orelhas grandes” se confrontaram com os de “orelhas pequenas”…
    O trágico resultado foi a eliminação de mais de 80% da população da ilha.

  6. Li os últimos três livros de Jared Diamond, Armas Germes e Aço, Colapso e Reviravolta. È um cientista, pesquisador e contador de estórias excelente. Na minha modesta opinião o israelense Yuval Harari tenta imitar ou seguir na mesma linha de Jared Diamond, mas sem o mesmo brilhantismo.

  7. “Nenhum outro lugar que eu tenha visitado me causou impressão tão fantasmagórica quanto Rani Raraku, a pedreira na ilha de Páscoa onde suas famosas estátuas eram esculpidas.”
    Fantasmagórica mesmo!
    Um abraço João e continue firme como sempre. Saúde, amigo!

  8. Materia interessante, sem duvida. Eu li o livro do Diamond, seus trabalhos sempre são bons.
    No entanto, sem polemizar, sem tomar partido, ha outra interpretação para Pascoa.
    Esta no livro de david Deuscth – The beggining of Infinity- que é o oposto dessa tese de auto-destruição.
    Tese polemica , sem duvida, como sao as colocadas por Deustch .

  9. Há ficções científicas de todos os tamanhos até dos “Deuses astronautas”, mas a origem mais racional parece estar descrita no livro “As Mensagens das Pedras Gravadas de Ica” – Javier Cabrera Darquea (Peru), que a ciência de fato ainda não deu a devida atenção. arioba

  10. Esta é certamente a obra mais marcante de Jared Diamond. Trazer o tema para este espaço é muito positivo, embora o texto acima seja muito mal escrito (sorry, autor). Particularmente interessantes são os capítulos no livro que falam (1) dos primeiros assentamentos nórdicos na Groenlândia, quando o clima era mais quente e possibilitou a criação de animais naquela ilha por cerca de 300 anos; (2) as radicais diferenças entre o Haiti, um desastre ambiental, e a Rep Dominicana, nação que soube proteger florestas nativas, ambos na mesma ilha de Hispaniola; e, (3) o caso do Japão, país que depende da madeira e da pesca, e que soube explorar recursos com sabedoria. O livro todo é fantástico e atualíssimo, um item fundamental para discussões inteligentes e sem histerias

  11. Visitei a ilha de Páscoa alguns anos atrás. Essas hipóteses são importantes mas não esgotam a discussão sobre essa sociedade que se organiza em condições extremamente adversas.

    Resta aprender como foi possível a vida nesse isolamento, não apenas falar do colapso.

    Em época de teorias apocalípticas, nos esquecemos dos critérios de sucesso dos nossos antepassados.

  12. Pois eu espero que os brasileiros se espelhem nos nativos que povoaram no passado a ilha e com modernas tecnologias e equipamentos de grande potências, desmatem tudo e como sabemos as os substratos da amazônia são inferteis e pobres aumentemos os “lençois maranhenses”. Quanto as chuvas para o sul/sudeste???? Que cobrem dos pais e avós que votaram em palermas.

  13. Todas as sociedades enfrentam o dilema de alimentar a populaçao ou preservar intocado o meio ambiente.Nao se pode comparar culturas em tempo e espaço tao diferentes,mas atualmente deve haver formas mais racionais de tentar compatibilizar o desenvolvimento e consequentemente o bem estar humano com a preservaçao.O que e absurdo e deixar alguem morrer de fome contemplando a beleza original!

    • Não existe mais a “beleza original” e o esgotamento dos recursos naturais e ambientais atingirá a todos. Assim como o Brasil, a civilização da Ilha da Páscoa não desenvolveu um manejo florestal sustentável para sustentar seu “progresso” e o resultado foi seu colapso como sociedade.

    • Minha cara Tereza, sem opinar sobre seu comentário, não posso deixar passar esta ótima frase: “…Não se pode comparar culturas em tempo e espaço tão diferentes…”. Pois, e assim também é com as ideologias e com a moral. Passou da hora de pararem de trazer acontecimentos do passados para serem julgados sob os padrões atuais de cultura, de ética, de moral ou das ideologias vigentes, é má fé, ou apenas burrice mesmo.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here