Eventos extremos em SP, dados mostram forte avanço

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Eventos climáticos extremos em SP, dados mostram forte avanço

De terra da garoa para a das tempestades, pesquisa comprova o aumento do número de eventos extremos em SP 

imagem mostra formação de ciclone
Imagem, Portal Neo Mondo.

Estudo elaborado por pesquisadores de várias instituições brasileiras comprova que cresceu, e muito, o número de eventos climáticos extremos na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), nos últimos 20 anos. Os dados alarmantes foram publicados recentemente (fevereiro de 2020) na revista científica Annals of the New York Academy of Sciences.

A pesquisa faz outro alerta preocupante: são crescentes, na Região Metropolitana de SP, os riscos que acompanham os eventos climáticos extremos. Entre os quais, enxurradas, enchentes e deslizamentos de terra. Esses prejudicam, especialmente, a população mais pobre e vulnerável que vive em áreas de risco, como encostas de morros e várzeas.

infográfico mostra Eventos extremos em SP

As mudanças extremas estão relacionadas “à variabilidade natural do clima”, dizem os autores do estudo. Mas estão também fortemente associadas ao aquecimento global, em decorrência dos gases de efeito estufa lançados na atmosfera. E, ainda, à falta de planejamento no processo de urbanização. Ou seja, é a ação humana influenciando diretamente nas mudanças climáticas.

Reações extremas à alta da temperatura

“A temperatura média da Terra está aumentando, isso é um fato incontestável; e a atmosfera está reagindo a esse aquecimento por meio de extremos”, disse o pesquisador Tércio Ambrizzi, na reportagem de Herton Escobar sobre o estudo para o Jornal da USP. Ambrizzi é professor titular do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da Universidade de São Paulo (USP).

Coautor do estudo, ele afirma que, quando um sistema é tirado do seu equilíbrio natural, gera oscilações para cima e para baixo. “No caso do sistema climático, essas oscilações resultam em extremos de temperatura (tanto de calor quanto de frio) e de precipitação (muita ou pouca chuva). A grande estiagem de 2013-2014, que quase secou todos os reservatórios de água da RMSP, também faz parte desse cenário, segundo o pesquisador.”

Tendência de piora para eventos extremos em SP 

São parte desse cenário as fortes chuvas que caem na região Sudeste atualmente. Fevereiro, por exemplo, foi o mês mais chuvoso dos últimos 77 anos em São Paulo, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). “À medida que a temperatura aumenta, aumenta também o gradiente dos extremos”, disse Ambrizzi. Por isso, ele acredita que a tendência é de piora na situação, se o aquecimento global não for revertido.

“O aquecimento global, causado pelo aumento das emissões de gases do efeito estufa para a atmosfera, está em curso desde meados do século 19, deflagrado pela Revolução Industrial, mas se acelerou principalmente a partir da década de 1980, por conta do aumento no uso de combustíveis fósseis e da derrubada de florestas tropicais. Os últimos cinco anos (2015 a 2019) foram os mais quentes do Planeta já registrados pelo homem.”

Desastres naturais e a ação humana

Os eventos climáticos extremos afetam, principalmente, quem vive nas cidades. Ou seja, mais de 80% da população brasileira. “Um evento de precipitação extrema não é um desastre natural por si só”, dizem os pesquisadores. “Os chamados ‘desastres naturais’, na verdade, resultam de uma combinação de fatores climáticos, meteorológicos, urbanos, econômicos e sociais.”

“Ou seja, são também ‘desastres antrópicos’, resultantes de ações humanas, e não apenas do clima. Os deslizamentos de terra só matam pessoas porque essas pessoas são forçadas a viver em áreas de risco, onde não deveriam. As ruas só enchem de água porque os rios foram canalizados e as cidades, impermeabilizadas, cobertas de asfalto e concreto.”

SP: maior polo de riqueza e de riscos do país

A Região Metropolitana de São Paulo é um polo com números gigantescos. Engloba 39 cidades, incluindo a capital paulista, e tem mais de 21,5 milhões de habitantes. Sua população é mais de duas vezes maior que a de Portugal, com pouco mais de 10 milhões de habitantes. A RMSP tem peso econômico considerável no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. É o maior polo de riqueza nacional, segundo a Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano (Emplasa). Responde por mais de 17% do PIB do país e por mais de 50% do PIB paulista.

Esses números representam dizer que eventos climáticos extremos, e em crescimento, podem ceifar milhares de vidas. E causar grandes perdas econômicas. Principalmente, ao se analisar que São Paulo é o estado com o maior número de habitantes expostos em áreas de risco. São mais de 1,5 milhão de pessoas nessa condição.

Ou quase 7% do total da população dos municípios do Estado monitorados nessa questão, segundo o estudo População em Áreas de Risco no Brasil, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Só na capital paulista mais de 670 mil pessoas vivem nessa condição de risco permanente. Santo André e Guarulhos, grandes cidades da RMSP, têm, juntas, quase 200 mil habitantes em áreas de risco.

O estudo sobre eventos climáticos extremos

Denominado “Trends in extreme rainfall and hydrogeometeorological disasters in the Metropolitan Area of São Paulo: a review”, o estudo também revisou dados anteriores. Ele aponta que o volume total de chuvas sobre a RMSP ficou entre 1.500 e 2.000 milímetros por ano, nos últimos 20 anos. O que mostra um crescimento gradativo e substancial nos últimos 80 anos. Nas décadas de 1940 e 1950, por exemplo, girava entre 1.000 e 1.500 milímetros por ano.

infográfico mostra Eventos extremos em SP

“Mais preocupante do que o aumento da precipitação acumulada é como essas chuvas se distribuem no tempo e no espaço ao longo de cada mês.  Se chove um pouco todo dia, tudo bem. Era o que acontecia antigamente, quando São Paulo ainda fazia jus ao apelido de ‘terra da garoa’ — por causa da tradicional chuvinha que caía nos fins de tarde. O problema maior é quando a chuva desaba concentrada, em grandes volumes, na forma de tempestades.” Isto é, chove muito em pouco tempo, o que causa as enchentes e deslizamentos. E, depois, vem um período de longa estiagem.

Eventos extremos em SP: dados mostram tempestades mais intensas…

O estudo mostra que o maior impacto vem da intensidade das chuvas. “O número de eventos de precipitação extrema, com chuva acima de 100 milímetros/dia, já é maior nos últimos 20 anos do que no acumulado das seis décadas anteriores. O evento mais recente desse tipo foi a tempestade de 114 milímetros que paralisou São Paulo em 11 de fevereiro (de 2020), causando deslizamentos e inundações em várias regiões da metrópole. Um desastre anunciado. Isso equivale a metade da quantidade de chuva esperada para todo o mês (cerca de 220 mm, em média), despencando sobre a cidade num único dia.”

Esses dados foram capturados na estação meteorológica do IAG. Em operação desde 1932, a estação fica no Parque de Ciência e Tecnologia (CienTec), na Água Funda, bairro da capital paulista.  Em 20 anos, de 2001 até o início de 2020, a estação registrou 11 ocorrências de tempestades acima de 100 mm na cidade de São Paulo. Ou média de 5,5 tempestades por década.

O mesmo problema acontece no litoral que, a despeito das informações científicas, ainda não conta com um plano de ação por parte do governo.

… e com maior poder maior de destruição

Enquanto nos 60 anteriores, de 1941 a 2000, foram apenas 10. Ou média de 1,66 por década. “No caso das chuvas acima de 80 mm (também consideradas extremas), o aumento é ainda mais chocante: foram 25 eventos nos últimas duas décadas, comparados a 19 nas seis décadas anteriores.” A média por década entre 2001 e início de 2020 é de 12,5 tempestades extremas. Já no período entre 1941 e 2000 é de 3,16 chuvas muito fortes por década.

“É verdade que tempestades, enchentes e deslizamentos sempre existiram e continuarão a existir, como sempre fazem questão de ressaltar os céticos das mudanças climáticas. O que mudou foram a frequência e a intensidade com que esses eventos estão ocorrendo, com um poder cada vez maior de destruição. E isso, garante Ambrizzi, é uma anomalia gerada pelo homem.”

Eventos extremos em SP: ex-terra da garoa está 4 graus Celsius mais quente

“Os efeitos climáticos globais, segundo ele, são exacerbados por fatores urbanos locais, como o efeito ‘ilha de calor’, gerado pelo excesso de concreto e pelo déficit de áreas verdes nas cidades. O aumento da temperatura média da Terra no último século foi de 1 grau Celsius — o que já é muito grave —, mas na cidade de São Paulo esse aumento chega a 4 graus Celsius, por causa dessa ‘ilha de calor’. O concreto absorve calor durante o dia e libera essa energia térmica durante a noite, aumentando tanto a temperatura diurna quanto a noturna. Isso favorece a formação de nuvens mais profundas, que produzem chuvas mais fortes e mais concentradas sobre a cidade.”

Isso explica também porque São Paulo não é mais a “terra da garoa”: “A brisa que trazia a garoa no fim de tarde continua entrando, mas a umidade que vem junto com ela agora evapora antes de cair na cidade”, disse Ambrizzi. “A própria cidade contribui para aumentar sua vulnerabilidade climática.”

Mais pesquisa e planejamento

“O Estado de São Paulo e a Região Metropolitana de São Paulo estão diante de um grande desafio”, escrevem os pesquisadores. “O grande objetivo, efetivamente, é proteger a população”, afirmam. Eles ressaltam ainda “a necessidade de mais pesquisas, mais responsabilidade e melhor planejamento por parte dos gestores públicos frente às mudanças climáticas que já estão em curso — e que só devem piorar nos próximos anos”.

O novo estudo é uma iniciativa do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.  Liderada pelo meteorologista José Marengo, a pesquisa teve apoio ainda do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Inmet e IAG-USP. “É fundamental entender a dinâmica subjacente da variabilidade climática em suas várias escalas espaço-temporais na RMSP. Com isso, a vulnerabilidade climática pode ser avaliada e estratégias de adaptação propostas”, alertam os pesquisadores.

“E para que isso possa ser feito, por fim, é preciso fortalecer as instituições de pesquisa – como Inpe e Cemaden – que são responsáveis por esse trabalho, mas que tiveram seus orçamentos severamente reduzidos nos últimos anos, apesar do aumento na ocorrência de eventos extremos, ressalta Marengo, do Cemaden.”

Imagem de abertura: Portal Neo Mondo

Fontes: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-ambientais/dados-comprovam-aumento-de-eventos-climaticos-extremos-em-sao-paulo/?fbclid=IwAR1nMJnqKbgjVWgA-tCxQah5w48s2aCR2rV9_WdCHw-M1slP1zl1jaw_8bw; https://nyaspubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/nyas.14307; https://emplasa.sp.gov.br/RMSP; https://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,brasil-tem-8-2-milhoes-de-pessoas-em-areas-de-risco-aponta-pesquisa-do-ibge,70002372955; https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/media/com_mediaibge/arquivos/6d4743b1a7387a2f8ede699273970d77.pdf

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4 COMENTÁRIOS

  1. O absurdo é que ninguém dá importância nesse aumento de 1C da temperatura da Terra toda, achando insignificante pois nada entendem a respeito, pois trata-se de MÉDIA global, onde isso significa que se somarmos 99 localidades a temperatura de 20C e uma que subiu a 60C, a média será de 20,4C, ou 0,4C de subida mundial, mas ninguém percebe que numa subiu 10, 20 ou 30C, desconsiderando e isso ocorre justamente em SP, onde nunca na história desde o descobrimento, houve um verao de máxima de 20C e minima de 12C como ocorreu desde o inicio do ano, ou seja, o clima conseguiu extinguir o atual verao, nada de verao e calor, parecendo um outono. Mas a grande tragédia se espera no meio do ano: oras, se a massa de frio vinda da Antartida, venceu o calor e esfriou aqui em SP, imaginemos o que ocorrerá no inverno, será pela 1a vez em quase uma centena de anos que virá neve aqui e extremo frio. Aguardemos. Obs: a mudança climática extrema aqui em SP, nao é culpa nossa mas sim origem mundial, afetando as geleiras, praticamente nenhuma influencia Br, contra extremas poluições da China e demais Asa e industrias de 1o mundo, aqui ocorrências mínimas ate pela recessão e desemprego. Pobre mundo.

  2. Quem vai acabar com as enchentes e deslizamentos de terra nas grandes cidades é a própria natureza, na medida em que todo ano for acontecendo estes desastres, as construções vão sendo “varridas” de pé de morros e beira de rios, até que se veja que não pode construir nesses locais, porque se for esperar planejamento urbano, …

  3. “As mudanças extremas estão (…) fortemente associadas ao aquecimento global, em decorrência dos gases de efeito estufalançados na atmosfera. E, ainda, à falta de planejamento no processo de urbanização. Ou seja, é a ação humana influenciando diretamente nas mudanças climáticas.”
    Só tem uma coisa… a temperatura média global mais alta que tivemos na terra foi há aproximadamente 100 milhões de anos, com uma média de 12 graus Celsius acima da média atual. Os dinossauros do cretáceo eram famosos por seus carros possantes, seus navios enormes e aviões super-rápidos, mas também pela falta de planejamento urbano de suas tocas…

  4. Esta havendo há decadas agressões ao solo e ao Meio ambiente na região Metropolitana de São Paulo.
    Como por exemplo solo impermeável com a aplicação de asfalto ,cimento, concreto e Cia .
    E ninguém mostra uma alternância de MATERIAIS para a PERMEABILIDADE DO SOLO
    Nenhuma campanha de criar mais jardins em espaços privados prédios/casas comercio com isenções IPTU por exemplo
    Ou seja é o HOMEM mantendo o ERRO Acima há décadas
    E a Natureza manda a Conta ,com certeza

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