Elevação do Rio Grande, e perigos da exploração mineral

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Elevação do Rio Grande, e os perigos da exploração mineral ao ecossistema

A Elevação do Rio Grande, localizada no Atlântico Sul, é cada vez mais desvendada por cientistas. Estudos recentes revelam que ela deve ter sido um arquipélago antes de afundar. Vestígios de praias, dunas, cavernas, canais fluviais e manguezais foram encontrados na cadeia montanhosa. Ela submergiu há cerca de 40 milhões de anos. A Elevação é a maior cadeia submersa da margem continental brasileira. Fica ao largo do Rio Grande do Sul. Tem sido intensamente estudada nos últimos anos. A finalidade é tornar viável a exploração de suas riquezas minerais. Mas os mesmos cientistas que revelam as preciosidades fazem alertas preocupantes. Uma possível exploração econômica representa perigo à região.

mapa da elevação do Rio Grande
Ilustração, https://revistapesquisa.fapesp.br.

Exploração pode causar a extinção de diversos organismos

“Qualquer intervenção pode facilmente levar os organismos à extinção”. Foi o que disse Paulo Sumida, biólogo do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP). “Muitos organismos que estão lá refletem a vida nos oceanos há milhões de anos, quando não havia oxigênio na atmosfera”, diz o oceanógrafo Frederico Brandini, ex-diretor do IO-USP. As declarações foram dadas à Revista Pesquisa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Ela traz as recentes novidades sobre a Elevação do Rio Grande. O estudo também foi publicado pelos cientistas na Frontiers in Marine Science. “É um ecossistema peculiar”, diz Sumida.

Revelações da expedição do navio de pesquisa Alpha Crucis

O material publicado é fruto de uma expedição realizada pelo navio de pesquisa Alpha Crucis, ano passado. Ocasião em que a equipe do IO-USP mapeou os topos da elevação, encontrando os vestígios. “As dragas trouxeram amostras de rochas vulcânicas, corais e esponjas que cresciam nas paredes de uma fenda que corta o centro das três partes da elevação.” Os pesquisadores encontraram na região as “primeiras ocorrências no Atlântico Sul da associação simbiótica entre a esponja Sarostegia oculata e a anêmona Thoracactis topsenti, formando ramificações semelhantes às de corais”. Quem estuda esses novos padrões da biodiversidade  é o biólogo Paulo Corrêa, também do IO-USP. Os estudos podem mostrar espécies ainda desconhecidas. O “ambiente é frágil” e “de renovação muito lenta”.

Elevação do Rio Grande é rica em cobalto, níquel, nióbio, platina e titânio

A Elevação tem cerca de 150.000 km2. É uma área grande. Equivale a três vezes a do estado do Rio de Janeiro. Está distante 1.300 quilômetros de Porto Alegre. A profundidade varia de 700 a 2.000 metros. É uma região rica em cobalto, níquel, molibdênio, nióbio, platina, titânio, telúrio e outros elementos. “Em 2015, a Autoridade Internacional do Fundo Marinho (ISA) concedeu à Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM), empresa vinculada ao Ministério de Minas e Energia, o direito de investigar por 15 anos as possibilidades de exploração econômica das crostas de ferro e manganês das rochas da elevação. Em levantamento preliminar, apresentado em congresso de 2015 na Flórida, a CPRM relatou a identificação de 9.729 km2 com alta reflectância (reflexo da radiação). Isso indica  provável ocorrência de crostas de ferro e manganês.”

Ambientalistas são radicalmente contra a exploração

O Mar Sem Fim já abordou a questão da exploração da Elevação. “Há tempos que cientistas sabem do potencial do fundo marinho para prospecção de minerais. O que faltava era tecnologia a preços compatíveis com a exploração econômica. O futuro chegou. Já existe a tecnologia. A partir de agora cada vez mais países receberão permissão semelhante. Isso pode tornar o subsolo marinho uma imensa mina. As consequências são perigosíssimas”. Mostrou também a preocupação de ambientalistas renomados, como Sylvia Earle. Ela é radicalmente contra.

Brasil deve ampliar ainda mais a área de exploração no Atlântico Sul

Em dezembro de 2018, o governo brasileiro pediu à Organização das Nações Unidas (ONU) para ampliar a plataforma continental a fim de incluir a Elevação. A ONU já ratificou o pedido. “Precisávamos de dados técnicos para consolidar a reivindicação”, disse o geólogo Roberto Ventura Santos, ex-diretor da CPRM e professor da Universidade de Brasília (UnB). Por isso, as novas pesquisas via o navio Alpha Crucis. A Folha de S.Paulo trouxe detalhes do pedido. O país quer ampliar a área em que detém direitos de exploração – ou de conceder licença de exploração – no Atlântico Sul desde 2004. O processo foi acelerado em 2006, com a descoberta do pré-sal.

Elevação do Rio Grande também pode ter terras-raras

“Em 2007, a ONU concedeu 81% do que o país havia pedido. Então o governo refez a proposta. De 960 mil km², chegou em 2018 a um pedido para aumentar as águas sob sua responsabilidade de 5,7 milhões de km² (chamada Amazônia Azul) em 2,15 milhões de km² (o tamanho da Arábia Saudita). O lote aprovado agora é o menor, na região Sul, com 170 mil km². A seguir vem uma faixa junto à linha do Equador e, depois, a joia da coroa: a área oriental, que inclui a Elevação do Rio Grande, um platô submarino que é visto como uma tentadora província mineral. Só ele tem 920 mil km² ricos em cobalto (jazidas hoje concentradas na conflagrada República Democrática do Congo) e talvez terras-raras (quase uma exclusividade da China). Traduzindo: matéria-prima para baterias e para a indústria de telecomunicação”, diz a Folha.

Região foi parte do supercontinente Gondwana

A formação da Elevação do Rio Grande vem sendo contada por meio de muitas pesquisas. Realizadas por cientistas brasileiros e estrangeiros, elas dizem que a região foi parte do supercontinente Gondwana. “Em consequência de processos tectônicos e do calor do interior da terra que subia para onde hoje está o arquipélago de Tristão da Cunha, quase no meio do Atlântico, Gondwana começou a se quebrar entre 146 milhões e 100 milhões de anos atrás. E formou as atuais América do Sul e África.

Fraturas do assoalho marinho

Com base na análise das fraturas do assoalho oceânico e dos movimentos das placas tectônicas, a geofísica Michelle Graça, da CPRM, em um estudo realizado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro e na Universidade de Liverpool, concluiu que até cerca de 80 milhões de anos atrás a Elevação do Rio Grande deveria estar unida – ou ao menos próxima – à cadeia Walvis, um conjunto de montanhas com 3 mil km de extensão a 600 km da Namíbia. Os movimentos das placas tectônicas e os jatos de magma do interior da Terra separaram as duas elevações e deram a elas suas atuais feições”.

Expedição investigou apenas a parte mais rasa da Elevação

A erupção mais recente deve ter acontecido entre 44 milhões e 40 milhões de anos. É o que mostra artigo do grupo do ex-diretor da CPRM, publicado na revista Terra Nova.  A erupção foi a responsável por afundar a cadeia montanhosa, “provavelmente em consequência do peso de um vulcão e da lava e da movimentação de placas tectônicas que fizeram a crosta afundar”, segundo o geólogo Luigi Jovane, do IO-USP e coordenador da expedição com o Alpha Crucis, em colaboração com britânicos e norte-americanos. ‘Mas ainda vimos muito pouco’. A expedição da USP examinou apenas a parte mais rasa de um dos três blocos rochosos da Elevação do Rio Grande”.

Elevação do Rio Grande é formada por blocos existentes no continente africano

Segundo Graça e Santos, a Elevação é formada por antigos blocos do que hoje é o continente africano.  “A ideia de que essa cadeia de montanhas poderia fazer parte da África emergiu em 2011, quando geólogos da CPRM coletaram ali amostras de granito e gnaisse com até 2,2 bilhões de anos, mais antigas que as rochas do assoalho marinho, que chegam a no máximo 240 milhões de anos. A descoberta mudou o olhar sobre essa região, até então vista como resultado da formação do assoalho oceânico e de erupções vulcânicas.”

Elevação, a parte que faltava do encaixe da América do Sul com a África

A FAPESP prossegue informando que “dois anos depois, por meio de um minissubmarino de pesquisa de águas profundas, pesquisadores brasileiros e japoneses colheram outras amostras de rochas continentais”. A análise do material reforçou a hipótese de que a área poderia ser um pedaço de continente que teria submergido durante a separação da América do Sul e da África. “As duas elevações podem ser os pedaços que faltavam para completar o quebra-cabeça da junção entre a América do Sul e da África. Enquanto o litoral do nordeste brasileiro encaixa-se bem com o oeste da África, o sudeste e o sul não casam com o sul do continente africano”, indicam as pesquisas de Santos.

Ilustração de abertura: Revista FAPESP

Fontes: https://revistapesquisa.fapesp.br/2019/08/07/revelacoes-de-um-arquipelago-submerso/?fbclid=IwAR2KHUkyTOyK5QJ5KL33nfi8vkYaQU4ovKp56mNrDQVcBYGtnMK6gmwhShI; https://revistapesquisa.fapesp.br/2014/10/09/ecos-da-separacao-2/; https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fmars.2019.00252/full#supplementary-material;https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2019/06/brasil-volta-a-mirar-o-atlantico-sul-mas-enfrenta-limitacoes-militares.shtml.

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5 COMENTÁRIOS

  1. Quando a África separou-se da América do Sul, há cerca de 130 milhões de anos, já havia oxigênio na atmosfera há muito tempo (2,4 bilhões de anos). Mas coerência parece não interessar ao Ecologista Caviar.

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